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Dear Jack

em maio 1, 2012

“Às vezes, acho que sou um cara simples, mas acho que a verdade é que sou um cara realmente complicado, tão simples como gostaria de ser”.

A frase é de Jack White, um dos maiores guitarristas e rock stars da atual geração, quem, depois de se lançar, junto com Meg White, na saudosa White Stripes (com direito a um dos melhores álbuns do rock alternativo recente, Elephant), perambulou por outras bandas e projetos (como Raconteurs e o sombrio Dead Wheather) e lançou, finalmente, seu primeiro álbum solo: Blunderbuss.

O nome do álbum remete, primeiramente, a uma espécie de espingarda, utilizada para caça. Talvez advenha justamente de tais searas a naturalidade com que Jack lança mão da brutalidade, ou visceralidade, em suas letras. Pensando melhor, Jack sempre foi assim; jamais se esquivou da intensidade de suas emoções – o que não necessariamente implica obras autobiográficas, mas, antes, letras sinceras às emoções arrebatadoras que afloram e fluem nos melhores artistas (como ele).

Logo na abertura do disco, na ótima “Missing Pieces”, Jack fala do amor como algo que faz seu nariz sangrar; que arranca seus braços e suas pernas. Depois, explica: às vezes, alguém controla tudo sobre você, e quando diz que simplesmente não pode viver sem você, não está mentindo; ele vai tirar pedaços de você, e vai ficar por cima e ir embora, levando consigo uma parte sua. (Dadas as devidas proporções, é praticamente uma versão rock’n’roll da crua – e cruel – “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque.)

Lançando o foco ainda na faceta sombria e fisicamente dolorosa do amor, o primeiro single lançado (e uma das melhores letras do álbum), “Love Interruption”, fala da batalha travada entre a sanidade – física e mental – e a paixão: “I want love to roll me over slowly, stick a knife inside me, and twist it all around. I want love to grab my fingers gently, slam them in the doorway, put my face into the ground (…) I won’t let love disrupt, corrupt or interrupt me”.

Mas, não se engane, o (ótimo) disco, ainda que sempre permeado por uma certa névoa de desilusão, vai muito além. Blunderbuss também nos serve como um túnel do tempo do rock americano; das raízes indeléveis do blues (sempre presentes nos trabalhos do artista, e mais ainda em faixas recheadas de um baixo envolvente, como “Trash Tongue Talker”), passando pelo folk (como em “Hypocritical Kiss”), pelo rock dançante dos anos 50 (como na incrivelmente deliciosa versão cover de “I’m Shakin’”, de Little Willie John).

Há também bastante country, como na faixa que dá título ao álbum: “You took me to a public place to quietly blend into (…) I laid you down and touched you like the two of us both needed”; ou ainda em “Hip (Eponymous) Poor Boy” que poderia bem ter sido escrita para sua antiga companheira de White Stripes, Meg White, de quem herdou o sobrenome famoso: “So I get into the game, but always keep it the same and I’ll be using your name, but they’ll be yelling at me: ‘poor boy, poor boy’, but I’ll be happy for you, ‘cause you got nothing to do and I’ll be singing the blues, walking around and singing”.

Philipp Ebeling, the Guardian

E, claro, há rock moderno e pesado, como o amor adolescente retratado em “Sixteen Saltines”: “She’s got stickers on her locker and the boy’s number’s there with magic marker, I’m hungry and the hunger will linger, I eat sixteen saltine crackers then I lick my fingers”; e ainda, para os nostálgicos, uma abertura que em tudo remete ao clássico “Seven Nation Army”: se fecharmos os olhos, o riff de “Freedom at 21” – música que fala sobre a liberdade (?) de uma garota nos dias atuais – em tudo lembra aquele.

Trata-se, enfim, de um belo disco que, acima de tudo, canta uma ode ao rock; seja em suas influências, ou na potência de suas letras e melodias. É uma baita obra, digna de um dos (únicos) guitar heroes de nossa geração.

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