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Votos de saudade

em outubro 7, 2012

Os mais empolgados chamam-na de “festa da democracia”.

Os pessimistas de “o dia em que se faz muito barulho, para nada”.

Os entediados, quem sabe, reconheçam tal dia como “o dia de retomar o ritual bienal de voltar a um mesmo colégio, apertar números em uma mesma máquina (às vezes, os mesmos números), ouvir várias vezes o mesmo sonzinho, até surgir um imenso ‘FIM’”.

Há ainda uma outra categoria independente: os saudosos.

Estes enxergam tal dia quase como uma reunião de família à qual não poderão comparecer – por estarem longe de casa. Sim, reuniões de família podem ser muito chatas – a família toda reunida, mobilizada, todo mundo falando ao mesmo tempo, opiniões contrárias, um tentando convencer o outro de seu ponto de vista – e alguns, portanto, podem estar aliviados de estarem fora. Entretanto, mesmo estes, sabem que acontecerá, “lá em casa”, algo importante do qual não poderão participar.

Quem está longe de casa, portanto, sente a saudade bater mais forte nas horas em que há algum acontecimento intrínseco ao lugar – ou ao grupo, família, time de futebol… – do qual temporariamente se está afastado. É que, de longe, se vê formar um conjunto uno – hoje, por exemplo, uma massa de eleitores brasileiros – que se forma independentemente de sua ausência.

Quem descreveu com a perfeição de sempre tal sensação foi Vinícius de Moraes, quem, mesmo tantas vezes longe, nunca saiu de perto – e assim permanece. Em um feriado nacional, Vinicius escreve a seu amigo, um tal de Tom Jobim:

“Porto do Havre, 7 de setembro de 1964

Tomzinho querido,

Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda solidão do mundo.

São 10 horas da noite, e não se vê viv’alma.

Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu.

E como sempre, nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando.

Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente, tem o Brasil, que é uma paixão permanente em minha vida de constante exilado.

A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa, que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão.

Há pouco telefonei para lá para cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao telefone.

Estão queimando um óleo firme!

Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectiva? É fogo maestro!

(…)

Vou agora escrever para casa, pedindo dois menus diferentes para minha chegada. Para o almoço, um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco – bem tostadinho – uma couvinha mineira e doce de coco. Para o jantar, uma galinha ao molho pardo, com arroz bem soltinho, e papos de anjo. Mas daqueles como só a mãe da gente sabe fazer! Daqueles, que se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer metida em banho morno, em trevas totais, pensando, no máximo, na mulher amada. Por aí, você vê como estou me sentindo; nem cá, nem lá!”

Bom voto a todos – este é o voto de uma eleitora saudosa.

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