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Dave Brubeck no Mundo da Lua

Dave Brubeck: o hipster que eu ouvia quando começava O Mundo da Lua.

Antes eu ía escrever só um post bem tristonho, afinal hoje morreu um músico e tanto. Um cara importante pro mundo e pra mim. Aí eu lembrei que ele era importante pra mim de um jeito engraçado,  que não deixa de ter a ver com a coisa mais importante que ele fez em sua trajetória musical. Eu tô falando do Dave Brubeck e do Time Out.

Time Out

Eu lembro da primeira vez em que vi e ouvi esse álbum, e não tinha outra definição que não fosse “obra de arte”. Da capa de Neil Fujita às composições em 5/4 e 9/8 (para ficar só em Take Five e Blue Rondo à la Turk) não tem nada no disco que não transborde harmonia estética. Isso muita gente percebeu, já que esse foi o primeiro álbum de jazz que vendeu mais de 1 milhão de cópias. Mas teve uma coisa muito engraçada que eu senti quando ouvi o Time Out pela primeira vez e não teve nada a ver com a grandiosidade da obra, mas com a pequeninice da minha infância. A segunda faixa do lado A do disco, Strange Meadow Lark, me soava incrivelmente familiar: abertura do seriado da TV Cultura, Mundo da Lua. Aquele mesmo do Lucas Silva e Silva que falava diretamente do mundo da lua, onde tudo pode acontecer.

Não lembra? Esse aqui ó:

E a música do Brubeck Quartet é essa aqui (dá pra perceber bem lá pelos 6:50):

Eu não tenho formação musical, minha audição é bem relativa, mas no instante que eu ouvi essa música pela primeira vez eu lembrei daquele menino que guardava suas memórias num gravador. Não achei nenhum registro sobre o tema da série, nem sobre seu autor, pra checar essa loucurinha minha, mas não importa…

Hoje eu estou triste porque morreu o primeiro grande jazzista que eu ouvi na vida, na abertura de Mundo da Lua.

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Itápolis

Já tinha ouvido falar em Itápolis? Pois é, eu já. Durante minha infância toda, passei as férias nessa cidade.

Muita laranja, muito calor e muitos italianos.

Hoje, Itápolis é mais conhecida como a cidade do Oeste Futebol Clube, o time que chegou às quartas de final do campeonato paulista deste ano – pena que contra o Corinthians

Que o futebol é assunto de suma importância para grande parte dos brasileiros, não é novidade. Pensar o futebol como trampolim para o desenvolvimento de uma cidade, contudo, não é algo trivial.

Itápolis é uma cidade situada a aproximadamente 360 quilômetros da capital paulista. Perto de Araraquara e Ribeirão Preto, é um pedacinho da Itália – daí o nome – fincada em solo de terra roxa, em uma das regiões mais férteis do Estado de São Paulo.

Em 2011, Itápolis não foi a cidade sede de um time que chegou às semifinais do campeonato estadual mais importante do País. Mas, sendo a sede de um time que, em pleno dia de São Jorge, jogou uma ótima partida decisiva contra para um dos melhores times do Brasil (basta dizer que o Timão tomou um sufoco em pleno Pacaembu lotado, com direito a duas bolas salvas pela zaga em cima da linha e tudo o mais) e tendo tido seu nome repetido à exaustão em rede nacional, oxalá passe a ser mais respeitada e observada. Os itapolitanos e seu Cristo Redentor esperam de braços abertos.

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Tensão sexual

Confesso que foi por linhas tortas que recentemente me lembrei de um dos meus contos preferidos de Machado de Assis. Estava descaradamente fugindo da folia do carnaval quando o Telecine me proporcionou deliciosos momentos de meninice pura, ao transmitir o fofo e bobíssimo filme “Casa Comigo?” (“Leap Year”, de Anand Tucker) o feriado todo…

Nele, uma americana certinha e eficiente – “Anna, from Boston”, interpretada por Amy Adams – resolve tomar as rédeas de seu relacionamento, viajar para a Irlanda com o objetivo de encontrar seu namorado coxinha, usar a tradição local a seu favor e pedir o moço em casamento – reza a lenda que, em anos bissextos, as mulheres podem se ajoelhar e pedir seus namorados em casamento no dia 29 de fevereiro.

Ocorre que, como em toda boa comédia romântica hollywoodiana, ela acaba encontrando alguém pelo caminho – o lindíssimo e charmoso Declan (Matthew Goode, meu novo amor) – que a faz rever seus conceitos.

O que pobre Machado tem a ver com isso, você deve estar se perguntando…pois bem, apesar de toda a doçura do filme, os momentos em que Anna passa ao lado de Declan são exemplares da boa e velha tensão sexual – daquelas que nos fazem pegar o jornal velho na mesa de cabeceira e nos abanar, saca? – e poucos souberam transcrever com tanta sutileza tal sensação como o velho Bruxo de Cosme Velho em “Missa do Galo”.

Nesse conto, na noite de Natal, Nogueira, um garoto de dezessete anos e Conceição, uma “senhora de trinta anos” passam os minutos que antecedem a Missa do Galo entre conversas, olhares e potencialidades:

“A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

—   Mais baixo! mamãe pode acordar.

A tal tensão sexual – essa danada – nunca aparece em linhas tortas, mas nas entrelinhas, e o calor que provoca dura mais que ressaca de quarta-feira de Cinzas:

“Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima”.

E dá-lhe banho frio!

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Por fora, bela viola…

Duas coisas que vi neste fim de semana me deixaram um pouco preocupada: a declaração do Alexandre Matias, no Caderno 2 de domingo do Estadão (“Sem Medo de Ousar – Radiohead e o artista do século 21”, em impressão digital*), sobre Radiohead, e um comercial sobre um show do U2 a ser exibido em 3D no final de março nos cinemas.

Em relação à primeira, o autor terminou o texto (que exaltava a banda como um dos maiores fenômenos do século 21) com a seguinte frase: “E sabem que, para o artista do século 21, arte e mercado têm de ser vistos como se fossem a mesma coisa”.

Me chamem de purista, antiquada, pentelha, o que for, mas discordo veementemente do que foi dito.

Primeiro, adianto que, pessoalmente, Radiohead não é meu som favorito. Isso não afasta, contudo, meu reconhecimento em relação à banda que, concordo com a matéria, possui uma das mais eficazes estratégias de inserção e divulgação de músicas no mercado.

Importância em termos de marketing, no entanto, não garante música boa. De novo, não estou de forma alguma questionando a qualidade musical de Radiohead, mas acho importante não confundir as bolas; se publicidade e projeção equivalessem a qualidade, Lady Gaga seria uma virtuose.

Radiohead pode, sim, ser uma das bandas mais importantes do século 21 tanto em termos musicais (concordem, ou não), como mercadológicos (praticamente inquestionável), mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Música boa, para mim, é aquela que se escuta e, mesmo sem saber o nome da banda, nem por que apareceu à sua frente, causa uma experiência singular – seja prazerosa, contemplativa, de identificação com o que se ouve, conclamatória, instigante…diz respeito, essencialmente – e exclusivamente – ao conteúdo musical.Isto me leva ao outro evento que arrepiou minha nuca no domingo: a chamada publicitária apoteótica, em meio aos trailers em um cinema, para o show cinematográfico – em 3D! – do U2.

Outra vez, esclareço: sou a favor de qualquer avanço tecnológico que acrescente algo àqueles que executam, ou escutam música; digo também que não tenho nada contra o U2 e sei que shows desta banda, e de tantas outras, são invariavelmente grandiosos e “modernos”: há telões, explosões, efeitos especiais, fogos de artifício…

A atmosfera circense, em si, não é preocupante, no entanto, não pude deixar de questionar até que ponto não estamos nos acostumando a confundir música com seu invólucro; a apreciá-la apenas num contexto multímidia – esquecendo das experiências simples como apertar o play e simplesmente ouvir (sem auxílio de qualquer outro recurso pirotécnico).

Em resumo, acredito que o excesso prejudica a essência; e quando esta se perde, não há marketing ou óculos 3D que a resgate.

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Encontrando a própria voz

 

E se o rei, ainda que não esteja nu, tiver vergonha de si? Como falar a uma nação, conclamando o povo a ser forte diante da guerra declarada, se quem lhes dirige a palavra teme a própria voz?

“Eu não sou um rei”, chora George VI (Colin Firth, excelente) nos braços de sua mulher (Helena Bonham Carter, cujos olhos grandes expressam mais que qualquer palavra); afinal, como alguém gago poderia ser ouvido, respeitado?

Mal sabe ele que, ainda que trôpega, a voz está lá. Que aquilo que pensa – receosamente, mas com tanta lucidez – só precisa de um empurrão para ser expresso ao mundo.

Tal empurrão, longe de vir de técnicas mirabolantes, vem de Lionel Logue (Geoffrey Rush, em uma atuação esplêndida; contida, sem deixar de transbordar um rio de emoção), um sujeito comum, “peculiar”, que coloca a mão sobre seu ombro e lhe assegura que ele pode sim; vem de um amigo.

Assim, O Discurso do Rei (The King’s Speech) não é apenas sobre um homem que, diante de circunstâncias alheias a sua vontade, torna-se rei e, ainda que gago, é obrigado discursar em um dos momentos mais cruciais da história recente do Reino Unido – a deflagração da Segunda Guerra Mundial –; mas, acima de tudo, é a procura de um indivíduo por sua própria voz. É a luta para se transpor a barreira entre tudo que bravamente pensa, e a coragem de falar.

É comovente por ser profundamente humano; e é lindo.

 

(O Discurso do Rei, The King’s Speech, de Tom Hooper.)

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Um dia

Um dia ainda vou ter coragem. De falar o que penso, de pensar o que sinto, de enxergar o que insisto em não ver.

Neste dia – que não será só mais um dentre outros quaisquer – não farei de tudo um pouco, mas só o pouco que realmente tinha de fazer.

Serei chamada de louca, inconseqüente, mas, finalmente, a conseqüência dos meus atos fará sentido – quando, de fato, sentirei.

E, sentindo plenamente, viverei, enfim.

Para que meu epitáfio – escrito no passado, e não ao fim de um futuro em potencial – seja: “um dia, tive coragem sim”.

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c’est l’amour

Dentre as peculiaridades locais brasileiras, há jabuticaba, peixe-boi e dia dos namorados comemorado em 12 de junho. Já que, em grande parte do mundo, a data que os solteiros e amorosamente desiludidos mais temem é comemorada hoje, dia 14 de fevereiro – dia de São Valentim – o re.verb pede licença mais uma vez e abre espaço à mais cafona e essencial manifestação sentimental: o amor.

Ninguém aqui quer recitar poemas, tampouco se arriscar a fazer uma playlist amorosa – tem coisa mais pessoal que isso? – mas prestamos nossa homenagem a todos aqueles que já sentiram o coração apertar por outra pessoa (seja por bem, ou por mal) indicando um blog que, de tão escancaradamente apaixonado – com suas imagens que vão do fofo ao poético e seus textos que podem nos fazer suspirar ou querer cortar os pulsos – basta por hoje: o Le Love Image.

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Ritmo da chuva

Chove na capital. Podia falar várias coisas aqui: tem gente se ferrando no trânsito, tem gente tranformando o num elevador virtual e comentando o tempo sem parar, tem gente perdendo a casa, tem um monte de coisa…. mas a chuva em si é linda e, além do barulho dela, eu só quero boa música pra me acompanhar. Seca ou num banho de chuva, deprimida ou enlouquecidamente animada, eu encontro a minha chuva e minha música

Paranoid Android – Radiohead

“Rain down on me/ From a great height”

Singular – Mombojó

“Quando parar de chover/ Corre de mim”

Raindrops – Regina Spektor

“People searching glance to glance / Moving bout real fast /Like insects and fish when they’re scared”

O Mundo Anda Tão Complicado – Legião Urbana

“Aperta o passo por causa da garoa/ Empresta um par de meia/ A gente chega na sessão das seis”

O Vento – Los Hermanos

“E se chover demais”

Preta – Cordel do Fogo Encantado

“A chuva nunca pára de cantar”

O Ritmo da Chuva – Fernanda Takai e Rodrigo Amarante

“Olho para a chuva que não quer cessar”

Que Maravilha – Jorge Ben (Jor?) e Toquinho

“e a gente no meio da rua, no mundo, no meio da chuva/ A girar”

Os pingo da chuva – Novos Baianos

“Só o que pode acontecer/ é os pingo da chuva MI MOLHÁ”

Vai desabar água -Gero Camilo

“Vai desabar água e é pro nosso bem”

E, de bônus track, um clássico da minha infância

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