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O passar do tempo – como música

É uma narrativa frenética. Um sucessão de acontecimentos, aparentemente desconexos; mais parece um colar de contas, no qual cada pedrinha é solitariamente bonita por si só. Mas, não, é mais.

Aos poucos, as narrativas (e personagens) vão se encaixando – cada novo capítulo apresenta uma relação, ainda que tangencial, com o anterior.

É, portanto, um conjunto precioso de capítulos que se encadeiam como miçangas coloridas em um cordão; é um retrato da contemporaneidade que tem como fios condutores o passar do tempo e a música – precisa mais?

Falo do grande livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan (Editora Intrínseca) – vencedor do Pulitzer de 2011.

Ali, o que se tem é uma concatenação desenfreada de histórias de personagens que, mesmo tendo alguma relação entre si – por vezes tão irrelevantes como aquelas que, dizem, temos todos nós usuários do facebook – remetem a algo maior, na medida em que se dispõem sobre um pano de fundo comum: o inexorável passar do tempo.

É como se a música, com sua intrínseca sucessão de notas e intervalos, representasse a vida: em ambas, o passar do tempo é a um só tempo inevitável e essencial para a evolução da história – ou do som.

Ao longo dos 13 capítulos, sempre permeia uma certa nostalgia, deliciosamente aliada aos bons tempos em que rock’n’roll e displicência pareciam indispensáveis à vida de qualquer um.

Mais do que isso, A Visita Cruel do Tempo é ousado a ponto de nos oferecer cada capítulo como uma obra nova: seja na forma – que, por vezes, adquire uma lírica poética, com digressões e descrições demoradas; e em outras é puramente gráfica, esquemática, como no emblemático “capítulo power point” que é o 12, “Grandes pausas do rock and roll” – ou na perspectiva a partir da qual se constrói o argumento central: as narrativas passam da primeira pessoa (do singular e do plural), para a terceira, tão naturalmente como uma garota troca de roupa.

Em meio a todas essas pedrinhas coloridas concatenadas entre si, há cruéis reflexões sobre as sensações e consequências (perdas, inclusive) do passar do tempo, como em “Adeus, meu amor”, Capítulo 11:

Mas cada decepção que Ted sentia com relação à mulher, cada ínfima murchada, era acompanhada por um espasmo de culpa. Muitos anos antes, ele pegara a paixão que sentia por Susan e dobrara ao meio, para não ter mais aquela sensação impotente de quem se afogava sempre que a via deitada ao seu lado na cama (…) Depois a havia dobrado ao meio de novo para que, quando sentisse desejo por Susan, este não viesse mais acompanhado por um medo aflito de jamais conseguir se saciar. Depois ao meio outra vez, para que o fato de sentir desejo não viesse acompanhado de uma necessidade imediata de ação. E ficou tão pequeno que Ted podia guardá-lo dentro da escrivaninha ou de um bolso e esquecê-lo, e isso lhe dava uma sensação de segurança e realização, de ter desmantelado um aparato perigoso que poderia ter destruído a ambos.

Incansavelmente mais cruel é “De A a B” Capítulo 7, sintetiza a angústia de toda uma geração – a nossa:

Eles eram jovens, tinham sorte, tinham força – por que se preocupar? Se não gostassem do resultado, podiam voltar e recomeçar tudo de novo. E agora Bosco estava doente, mal conseguia andar, e planejava de maneira febril a própria morte. (…)

– Se você tivesse me perguntado hoje de manhã, eu teria dito que estávamos acabados – disse ele. – Todos nós, o país inteiro… porra, o mundo inteiro. Mas agora estou sentindo o contrário.

Stephanie sabia. Praticamente podia ouvir a esperança corer pelas veias do irmão.

Então, qual é a resposta? – indagou.

É claro que está tudo terminado – disse Jules. – Mas ainda não.”

(A Visita Cruel do Tempo, “A Visit From the Goon Squad”, de Jennifer Egan, Editora Intrínseca, 2011)

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Isso é amor?

É um daqueles amores de carne e de alma – ou, se preferir, uma paixão em que a carne fala tão alto, que até a alma crê que é amor.

Quem nunca teve, oxalá um dia terá. Nos que já experimentaram, ficarão, para sempre, cicatrizes – tatuagens.

Não é tema novo, tantos gênios já o tentaram decifrar… em prosa, em verso, ou em som… e já foi retratado – maltratado – mas nunca decifrado até o fim. – Ainda bem, se não não teria tanta graça o reviver, tantas e tantas vezes.

Esses dois livros de que falo hoje, versam justamente sobre o assunto – sem, contudo, chegar a uma conclusão final.

Ambos, entretanto, concluem o mesmo: há amores que avasssalam, destroem a vida, e que fazem o amante viver – a vida toda – em órbita, ao redor do outro. Mas, a despeito de todo o sofrer, inquestionavelmente vale a pena; e, assim, a força que fazem perenes as sensações não é óbvia; é insensata, é inexplicável – infinita e irracional.

Por isso, desta vez, falo sobre obras que não são novas, mas que não deixam de ser atemporais: Travessuras da meninas má (do nobel Mario Vargas Llosa) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (de Marçal Aquino, que terá sua versão cinematográfica lançada no próximo dia 20 de abril).

Em ambas, há a paixão incondicional – carnal e sobrenatural – dos dois protagonistas: de Ricardo pela “menina má”, no primeiro; e do fotógrafo Caiuby pela linda Lavinia, no último.

Seja em Miraflores, Paris, Londres, Tóquio ou Madri – como no romance de Llosa – ou no coração do Pará, como em Aquino, o que fica é a devoção, tantas vezes unilateral, de um homem por uma mulher.  É uma adoração quase religiosa pelo ser desejado – a qual, garanto, é mais comum do que se imagina; seja o amante macho, ou fêmea.

E o que fazer quando um turbilhão assim arrebata qualquer senso de razão? Sucumbir nunca parece a escolha mais sensata, mas, na maioria das vezes é o desfecho inevitável. E, ao se deixar de resistir, como levar adiante a vida que resta – em outras palvras, como suportar a vida sem a pessoa amada? A morte nunca pareceria tão próxima.

Peço desculpas pela falta de objetividade ao falar de ambos os livros, porém, quando alguma obra nos faz de fato sentir, nas personagens, a dor – já sentida em nós leitores – nos resta apenas recomendar a leitura – e torcer para que, pelo menos em alguém, a dor real doa menos ao final da última página da ficcção. Ou, para aqueles insensíveis, fica o alerta.

Travessuras da meninas má (Mario Vargas Llosa, Editora Alfaguara) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Marçal Aquino, Editora Cia. Das Letras)

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Amor multimídia

Não é novidade que revoluções tecnológicas têm impactado mercados, qualidade e formatos de obras culturais. O exemplo mais batido é o da música: a partir do surgimento do mp3 (e derivações posteriores), o som se tornou mais “achatado” – diz-se que a amplitude das ondas sonoras em de tal formato é muito inferior àquela alcançada no vinil – mas ao mesmo tempo muito mais acessível ao público, e mais fácil de ser divulgado por artistas.

Por outro lado, em outros segmentos culturais, especialmente na literatura, avanços tecnológicos, apesar de significativos, ainda não foram capazes de transformar materialmente o conteúdo das obras – é cada vez mais comum nos depararmos com pessoas lendo seus Kindles, iPads e afins, mas as obras continuam sendo aquelas que seriam lidas em papel.

Por tal razão, é uma boa surpresa descobrir uma obra como Chopsticks, de Jessica Anthony e Rodrigo Corral (Ed. Penguin/Razorbill).

Chopsticks é quase inclassificável: é uma narrativa (um mistério surgido da história de amor entre dois jovens: o argentino Francisco e a pianista prodígio Glory) cujo formato permeia registros os mais diversos, de históricos de chats a fotos antigas; de desenhos e poesia, a vídeos do YouTube e playlists digitais.

Ainda que também tenha sido publicada em papel, ao ser transformada em aplicativo ganhou vida: o bacana reside justamente na possibilidade de mergulharmos na história através de meios – e mídias – diferentes daquelas a que estamos normalmente habituados.

Vivenciamos o amor e as agruras dos dois interativamente; não só pela narrativa escrita que as detalha, mas em cada clique; a cada vídeo que compartilham, a cada musica que oferecem um ao outro, a cada foto em que figuram.

É, assim, uma experiência multimídia melhor comparável ao bisbilhotar da vida alheia do que à leitura de um romance.

É moderno é divertido e, ainda que não traga qualquer grande roteiro ou atuação, é inovador o bastante para nos mostrar inúmeras possibilidades porvir.

É a tecnologia a serviço do conteúdo.

(Chopsticks , de Jessica Anthony e Rodrigo Corral, desenvolvido por The Penguin Group USA, disponível para download no iTunes.)

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Máquina do tempo

Dos maiores prazeres que há é pegar um livro daqueles que não se quer largar. Um livro que te mantém atento durante horas, que faz você mergulhar na história; como num bom jogo de videogame, você se sente parte daquilo, vivendo todas as passagens. Diante de um livro desses, você, leitor, se transforma no protagonista.

Nada mais natural, portanto, que em uma história que começa quando as personagens têm seus vinte e poucos anos – mais precisamente de noite na cama, no final da faculdade – e se desenrola ano após ano até que ambos tenham quarenta anos, você, leitor, sinta estar crescendo junto, envelhecendo a cada página.

Assim é Um Dia (One Day), de Davis Nicholls – publicado originalmente pela Vintage Contemporaries e, no Brasil, pela Editora Intrínseca.

O enredo não é dos mais inovadores: Renato Russo já o cantou em “Eduardo e Mônica” e o filme “Harry e Sally – Feitos Um para o Outro” o eternizou como um clássico da comédia romântica. Ainda assim, difícil não se encantar com a história de Emma e Dexter (“Em and Dex, Dex and Em”) dois opostos que, mesmo querendo crer que são apenas bons amigos, não conseguem viver um sem o outro.

Ela, no início uma garota de 22 anos, cult, revoltadinha e politizada, depois de várias tentativas e erros se torna uma mulher independente e escritora bem sucedida; ele, um moleque bonitão e playboyzinho que demora a crescer e insiste, por mais tempo do que deveria, em manter seu status de pseudo-celebridade na vida louca (“wanted to live life in such a way that if a photograph were taken at random, it would be a cool photograph”).

A fim de dar conta de vinte anos da vida dos dois, a história se desenrola por meio do relato de só um dia, sempre 15 de julho – a data em que ficaram juntos pela primeira vez – todos os anos entre 1988 e 2007.

Apesar de parecer – e ser – um romance fluido e leve que, a despeito de passagens mais sombrias, entretém e diverte (a propósito, um filme baseado neste livro, com direito a Anne Hathaway e tudo o mais já está sendo aguardado), o diferencial da obra está justamente no efeito que causa no leitor – arrisco-me a dizer, principalmente o leitor mais jovem.

Isso porque, se no começo os protagonistas refletem o momento em que aquele que lê vive (as festas, as paixonites que parecem consumir toda a – inesgotável – energia, a preocupação não tão séria assim em se saber o que fazer da vida…), na medida em que crescem, escancaram o mundo “adulto” de maneira quase perturbadora: as ambições diminuem, alguns desejos – antes tão intensos – passam, o gosto pelo rock é naturalmente substituído pelo jazz e a música clássica e assim vai. Neste sentido, até o ritmo do livro desacelera; percebe-se que, a cada novo 15 de julho, menos coisas acontecem.

Assim, o jovem leitor, que no início se identifica e se empolga com a vida de Emma e Dexter, parece ser rapidamente transportado para seu próprio futuro (como em uma máquina do tempo), sendo, portanto, convidado a se ver daqui a alguns anos. E a imagem não necessariamente é das mais animadoras.

Seja como for, o livro é uma delícia de se ler e a viagem ao futuro que ele proporciona pode, quem sabe, levar o leitor a questionamentos dos mais importantes.

(Um Dia (One Day), de Davis Nicholls, Vintage Contemporaries e, no Brasil, Editora Intrínseca)

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Rock your day

Rock ‘n’ roll ain’t noise pollution

Rock ‘n’ roll ain’t gonna die

Rock ‘n’ roll ain’t noise pollution

Rock ‘n’ roll it will survive”

(“Rock ‘n’ Roll Ain’t Noise Pollution”, AC/DC)

por Reece Ward

Hoje, dia 13 de julho, é o Dia Mundial do Rock.

E rock ‘n’ roll, para quem o tem nas veias, é muito mais do que uma espécie do gênero musical; é uma paixão incontornável, um amor eterno.

Rock é a música que toca com a energia da juventude; é o som da raiva, da rebeldia, mas também de algumas das mais belas canções de amor (poucas são as músicas mais românticas do que “Wish you were here”, de Pink Floyd, por exemplo).

Rock é democrático (fala a qualquer um disposto a ouvir), mas não unânime: assim como as preferências futebolísticas dividem torcedores entre times, roqueiros podem ter maior simpatia por esta, ou aquela batida – mais, ou menos pesada –; por uma ou outra banda.

por Simon Bowker

Comum a todos esses ouvintes, contudo, é a certeza de que quem ama o rock ‘n’ roll, sente arrepiarem todos os fios de cabelo com um belo riff; suspira ao ver uma guitarra; e homenageia uma boa música não apenas batendo palmas, mas sacudindo a cabeça.

Para este blog, que buscou no rock até a inspiração para seu nome, hoje é um dia especial, e, assim, ficam aqui nossos votos para que a trilha sonora de sua vida seja linda – que os deuses do rock digam amém.

por Reece Ward

Faixa-bônus”: lembre de alguns dos melhores posts roqueiros já publicados pelo re.verb.

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Hadley e Ernest

Você também já deve ter imaginado como seria viver em outros tempos; em um período especial.

Quem sabe no Rio de Janeiro do final dos anos 50; no gramado mágico e enlameado da fazenda mais famosa de Bethel, entre 15 e 18 de agosto de 1969; na Seattle dos anos 80, e por aí vai.

Woody Allen, em seu último filme, escolheu a Paris dos anos 20. Não sei o que teria escolhido Ernest Hemingway, mas era justamente ali que estava; naquela hora, naquele lugar.

Parece ter sido esta também a escolha de Paula McLain, autora do belíssimo livro The Paris Wife: a Novel, que, misturando ficção e realidade, decidiu encarnar Hadley Richardson (a narrativa é em primeira pessoa), a primeira esposa de Hemingway, e contar uma das mais belas histórias deste (e de qualquer um): o primeiro amor.

A idéia de conceber a obra veio da leitura da excelente e emocionante “autobiografia” que aquele fez de seus tempos em Paris: A Moveable Feast. Nesta, a perspectiva daqueles dias é de Hemingway, quem, mesmo ao lado de Gertrud Stein, Scott Fitzgerald, Ezra Pound e tantos outros, tem em Hadley seu porto seguro.

Ali também, Ernest – ou Tatie, para Hadley – quando se vê prestes a deixar Hadley – que também é Tatie, para Ernest – diz: “I wished I had died before I ever loved anyone but her”.

É justamente um amor carregado de tamanha intensidade, que tendo crescido e sofrido junto com seus protagonistas, cai no mundo e perde sua inocência, o que retrata Paula McLain neste livro.

Hadley estava passando férias quando o conheceu – a amiga Kate, que, por suas razões, desaprovava o romance, alertou desde o princípio: “He likes women. All women”. Sem conseguir conter o que sentia, contudo, com ele se casou – em setembro de 1921. Mudaram-se para Paris pouco depois.

Na nova cidade, desfrutaram, juntos, das dores e delícias que tamanha efervescência criativa e social oferecia – em dado momento, quando as coisas já parecem desandar, Hadley pergunta a um amigo: “‘What’s wrong with all of us, Bill? Can you tell me that?’ (…) ‘We drink too much for starters. And we want to much, don’t we?”.

Por essas razões, como a protagonista diz, tudo estava bem, até que não estava mais. O casal parecia indestrutível, até que se desfaz. Simples assim; complicado assim – como em “Blue Valentine”, de que já falamos aqui.

A narrativa criada pela autora nos faz sentir junto com Hadley; nos faz amar Hemingway – a despeito da personagem machona e destemperada que conhecemos – e temer o fim que se sabe próximo – do romance e do livro. (Confesso que, diferentemente da maioria das outras obras, nesta, não queria chegar ao final; mesmo sabendo qual seria, me vi achando milhões de desculpas para largar o livro e postergar a virada da última página.)

É, enfim, uma lindíssima perspectiva de uma das épocas mais comentadas do século XX – e de um dos maiores autores desse período – na qual a ficção nos incentiva a conhecer ainda mais o que realmente se passou.

Vale muitíssimo. Pena que acabou – aquele período e este livro.

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Suspense vazio

“Preciso muito te contar uma coisa… não é algo trivial, é uma bomba… mas te conto depois”.

Frases como estas são, a um só tempo, um convite irrecusável à curiosidade e uma das coisas mais irritantes que uma pessoa pode fazer com outra.

Justamente por isso, Amor Sem Fim, de Iwan McEwan (Companhia das Letras, 2011), tem no persistente suspense seu melhor atributo e também seu grande defeito. Isso porque toda a narrativa se sustenta na expectativa do que está por vir e, conforme os acontecimentos se tornam conhecidos, a única forma de manter o leitor atento é lançar um novo mistério; uma nova isca.

A história até teria potencial para ser interessante em si mesma – tanto é que virou filme (Enduring Love, de Roger Michell)–: um casal se reencontra depois de um período de separação e, precisamente na ocasião da celebração da volta – um piquenique no parque – presencia um acidente de balão em que uma tragédia se deflagra. Junto com ela, novos personagens são inseridos na trama e outros indivíduos se imiscuem num amor que parecia inabalável.

Mais precisamente, o amor do cientista/jornalista Joe Rose e da crítica literária apaixonada por Keats, Clarissa, é invadido por Jed Perry, um fanático religioso que, assim como Joe, auxilia o resgate do balão desvairado. Não se trata, porém, de um triângulo amoroso comum; ali, Perry encarna a obsessão doentia e persegue até as últimas conseqüências aquele que acredita ser seu amor divino.

O livro é, de fato, instigante; misturando trechos de relatos científicos com digressões íntimas, carrega o leitor ao interior da perturbada mente de Joe – que, de repente, se vê às voltas com um admirador improvável e com a desesperada tentativa de manter são o relacionamento com sua linda mulher.

Porém, o que poderia ser um interessante thriller psicológico – na medida em que adentrasse, de fato, nos questionamentos e dúvidas profundas do narrador (estou louco? Estou apaixonado – e por quem? Como os respingos do acidente estão sendo interpretados por minha mente?) – não vai muito além de rasas perturbações que povoam o cérebro excessivamente racional de Joe.

Ian McEwan é um dos mais aclamados escritores britânicos da atualidade (é o autor de Persuasion, Saturday, dentre outros), mas, nas idas e vindas deste livro – e a despeito de todo o suspense criado – oferece algo um tanto vazio. É como se fizesse força para que o leitor lesse as páginas na diagonal, apenas para descobrir o desvendar de um novo mistério; desperdiçando, assim, a chance de trazer mais uma memorável obra.

Trata-se, sim, de um bom livro – daqueles difíceis de se largar – mas deixa, ao final, um sabor de: “era só isso que você tinha para me contar?”

(Amor Sem Fim, Iwan McEwan, Ed. Companhia das Letras, 2011)

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Nas profundezas do bosque de Oz

“Escrevo artigos não porque me pedem, mas porque me sinto tomado de ira. (…) Escrevo a partir de um senso de injustiça e da minha revolta com isso. Mas só posso escrever um artigo desses quando estou cem por cento de acordo comigo,  o que não é minha condição normal – em geral concordo parcialmente comigo mesmo e sou capaz de me identificar com três ou cinco diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto. Nesse caso escrevo uma história, na qual diversos personagens podem expressar visões distintas sobre um mesmo tema”.

Quem disse isso foi Amós Oz, em entrevista feita em 1994 e publicada no ótimo As Entrevistas da Paris Review (sobre o qual já falamos aqui).

Entender sua obra De repente, nas profundezas do bosque (uma “narrativa em prosa” – como prefere nomear o gênero “ficção” – publicada pela Companhia das Letras) fica mais fácil a partir da declaração acima.

Nesse livro precioso, tem-se a fábula de um vilarejo que, embrenhado na escuridão e no silêncio, não abriga animal algum. Os mais velhos, tomados pelo receio de falar sobre o assunto, raramente comentam sobre a noite em que todos os bichos sumiram. Os mais jovens, criados em um mundo habitado exclusivamente por humanos, são ensinados a acreditar que cães, gatos, pássaros e moscas são lendas.

Mais, há rumores de que os animais foram, há muito tempo, levados pelo “demônio da montanha”, Nehi. Por essa razão, “Nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma de verdade, diziam os pais aos filhos, que nunca e de maneira alguma se atrevessem a sair de casa depois do escurecer”. Adentrar ao bosque, então, nem se fale. Proibido. Perigoso.

Não se toca no assunto e, os poucos que se atrevem a questionar a inexistência dos animais, são considerados loucos, são alvos de gozação. Pode ainda ser pior: o pequeno Nimi, por exemplo, o menino de nariz escorrendo, sempre alvo de chacota, que sonhava com bichos e um dia sumiu no bosque, voltou avariado; voltou contaminado com a “doença do relincho” – não falava mais, só ria e relinchava. Tornou-se uma aberração, ninguém se atrevia a chegar perto dele – poderia contaminar quem se aproximasse.

Por essa razão, o perigo que o bosque e a escuridão traziam, o medo pairava pelo vilarejo: “E apesar disso todos se lembravam muito bem, em silêncio, do que era melhor não lembrar. E havia certa necessidade de negar tudo, negar até o próprio silêncio, e zombar de quem, apesar de tudo, lembrava: que se calasse. Que não falasse”.

Mas, Mia e Mati, duas crianças curiosas, lembravam de algo que viram num certo dia – um peixe? Como assim, um peixe? – e, contrariando a ordem local, resolveram não esquecer. Decidiram, então, descobrir o mistério daquele lugar e do sumiço dos bichos.

É dessa forma lúdica, repleta de lírica e fantasia, que Amós Oz – um dos mais renomados escritores israelenses contemporâneos – tangencia, nesse adorável livro, questões humanas fundamentais, como a discriminação e a tolerância; a relação entre homem e natureza; a angústia de se ter que pertencer a um grupo; o questionamento de regras e a relação com o dogmatismo, ou obscurantismo.

Assim, justamente por lidar com todos esses temas de maneira hábil e não impositiva – não há sermão, nem bonzinhos e mocinhos – a declaração que iniciou este texto faz sentido: diversos pontos de vista sobre um mesmo assunto são postos em xeque. A moral da história quem tira é o leitor.

 

(De repente, nas profundezas do bosque, de Amós Oz, Editora Companhia das Letras)

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Sem empolação

É de dar dó quem se leva muito a sério. Mais ainda, quem confunde empolação com credibilidade e profundidade. Isso porque, quem se preocupa em levar tudo a ferro e fogo não apenas se diverte menos, como gasta tanta atenção em manter a postura que deixa passar sutilezas e ironias mais profundas do que aquilo que se extrai dos meros formalismos.

Quem disse que da graça não podem surgir questões essenciais? Por que o humor seria algo menor?

Se sustentar um argumento tem a função última de convencer o leitor – nada mais é que um processo de sedução – por que não ser leve, agradável? (Você chamaria alguém para sair sem se preocupar minimamente em ser simpático; sendo um chato?)

Se, por um lado, alguns tendem a achar que o grau de dificuldade de compreensão de um argumento é diretamente proporcional à sua relevância; outros são hábeis o bastante para serem sucintos, inteligentes, simpáticos e acessíveis, mesmo quando transmitem os mais complexos conceitos e idéias.

Exemplos do primeiro grupo há vários: acadêmicos com seu eterno tom doutrinário, políticos, burocratas… advogados, então, nem se fale! Representantes do outro grupo são mais raros… vamos a um? H.L. Mencken.

Este foi um dos maiores jornalistas dos Estados Unidos. Foi também crítico, filólogo (sua obra mais conhecida é The American Language, um estudo sobre a diferença entre a língua inglesa e a “americana”), ensaísta e, acima de tudo, provocador.

Seu tom informal, mas sofisticado; emocional, sem deixar um raciocínio pela metade, imprimia em seus textos uma vitalidade difícil de se comparar. Concorde ou não com suas opiniões – muitas vezes radicais e quase sempre politicamente incorretas (“A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – em “O Crédulo” –; fidelidade é apenas a falta de coragem para trair – em “A Mulher Libertina” –) – é difícil não se sentir incitado por seu texto; impossível se entediar.

Alguns de seus melhores ensaios e críticas – extraídos de A Mencken chrestomathy e A gang of Pecksniffs – estão compilados no Livro dos Insultos (Cia das Letras, tradução, seleção e posfácio de Ruy Castro – que, como poucos, consegue reproduzir a riqueza do texto original).

Ali, Mencken fala sobre quase tudo: o homem, as mulheres, religião (ou a falta de), moral, cultura (Joseph Conrad, Edgard Allan Poe, Mark Twain, Beethoven, Strauss são alguns de seus objetos de reflexão)…

Algumas das mais valiosas pérolas falam sobre a própria escrita, sobre o processo de criação literária. “Sobre estilo” é genial:

“A essência do grande estilo é que ele não pode ser reduzido a regras – é uma coisa que vive e respira, com algo de demoníaco – que se ajusta a quem o usa como a pele ao resto do corpo (…) No dia seguinte ao encontro com uma nova garota, o estilo brilha e dá pulinhos. Se seu autor comeu demais, ele tende a relaxar (…).”

Preciosa também é “O Escritor Trabalhando”, em que afirma que aquele escreve “emitindo gritos de desafio”, com “anseio de fazer barulho”.

O Livro dos Insultos é, em suma, o antídoto perfeito para a crença de que a falta de conteúdo se cura com empolação. Não. A falta de conteúdo se cura com inteligência e cultura. E estas, ditas com graças, curam qualquer coisa.

 

(Livro dos Insultos, H.L. Mencken, Cia das Letras)

* Update zás-trás: Achei uma coincidência divertidíssima o fato de amanhã começar o Lollapalooza e, hoje, junto com este post, ter sido publicada uma matéria no Estadão em que se diz o seguinte sobre a expressão que dá nome ao festival: “O polemista, intelectual e jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880-1956) escreveu que a expressão teria sido usada pela primeira vez nas lutas de boxe, na sua época, para descrever o nocaute – mas não existem provas disso.” (“Lolla nos Andes”, de Jotabê Medeiros)

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A arte da escrita

“Algumas pessoas dizem que não conseguem entender o que o senhor escreve, nem mesmo depois de o ler duas ou três vezes. O que o senhor poderia lhes sugerir?”

“Que leiam quatro vezes”. (William Faulkner, em 1956)

 

“Quais são as suas idiossincrasias?”

“Suponho que minhas superstições podem ser consideradas idiossincrasias. Tenho que somar todos os números: há pessoas para as quais nunca telefono porque o somatório de seus números dá um total funesto. Ou eu não aceitaria um quarto de hotel pela mesma razão. Não tolero a presença de rosas amarelas – o que é triste, porque é minha flor preferida. Não posso admitir três pontas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajo num avião com duas freiras. Não começo nada às sextas-feiras. São infinitas as coisas que não posso fazer ou jamais faria. Mas obedecer a esses conceitos primitivos me dá um curioso conforto.” (Truman Capote, em 1957).

 

A relação de grandes autores com suas obras, as mais distintas posturas diante de um entrevistador – o ressabio de Hemingway, o divertido papo de Capote, a simpatia de Doris Lessing, o mau humor delicioso de Faulkner, o desabafo repleto de um pessimismo assustador de Céline – o comum desdém pela crítica, uma curiosa adoração a James Joyce e um convite a que o leitor conheça um pouco mais das mãos e mentes por trás de grandes obras literárias.

Essa é parte da tônica de As Entrevistas da Paris Review, ótimo livro publicado recentemente pela Companhia das Letras que, a despeito de ter chegado há tão pouco tempo nas prateleiras, já tem repercutido e conquistado admiradores (dois bons textos sobre o assunto: um de Antonio Gonçalves Filho e outro do nosso parceiro Gabriel Garcia).

 

Esta é uma dentre as 3 mil (!) capas produzidas pela Companhia das Letras

Em pouco mais de 400 páginas (deste que é o volume um) estão reproduzidas algumas das melhores entrevistas publicadas pela revista literária americana Paris Review entre 1956 e 2006; entrevistas tais que, em si, carregam parte da riqueza literária de seus entrevistados.

Na contramão do que atualmente se constata, as entrevistas em questão extraem conteúdo de fato interessante de seus “objetos de estudo”; não apenas devido ao profundo conhecimento de seus entrevistadores, como também pela preocupação em se deixar a prosa fluir – como o bate-bola de Borges com seu entrevistador – até caírem em belas digressões, as mais diversas.

Nesse sentido, não se trata apenas de interessantes comentários sobre a forma como cada um dos 14 autores enxerga e analisa o processo de criação literária – as inspirações, influências, a estruturação das obras (daí o título de cada uma das peças ser “a arte da ficção”, “a arte da poesia” no caso de W.H.Auden, ou “a arte do roteiro” para Billy Wider) – mas também curiosidades divertidas – o relato da experiência de Doris Lessing com a mescalina, a posição física em que alguns escrevem (Capote deitado em sua cama; Hemingway de pé) – e confissões surpreendentes – a desilusão com que Céline enxerga a vida é de cortar o coração.

É, enfim, um livro interessante e gostoso de se ler – aos poucos, ou numa tacada só. Seja para aqueles que se interessam em fazer boas entrevistas, ou aos que simplesmente se deliciam em conhecer – por meio de perguntas e respostas inteligentes – autores que tanto admiram.

 

(As Entrevistas da Paris Review – Vol.1, vários autores, Companhia das Letras, 2011)

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