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Dave Brubeck no Mundo da Lua

Dave Brubeck: o hipster que eu ouvia quando começava O Mundo da Lua.

Antes eu ía escrever só um post bem tristonho, afinal hoje morreu um músico e tanto. Um cara importante pro mundo e pra mim. Aí eu lembrei que ele era importante pra mim de um jeito engraçado,  que não deixa de ter a ver com a coisa mais importante que ele fez em sua trajetória musical. Eu tô falando do Dave Brubeck e do Time Out.

Time Out

Eu lembro da primeira vez em que vi e ouvi esse álbum, e não tinha outra definição que não fosse “obra de arte”. Da capa de Neil Fujita às composições em 5/4 e 9/8 (para ficar só em Take Five e Blue Rondo à la Turk) não tem nada no disco que não transborde harmonia estética. Isso muita gente percebeu, já que esse foi o primeiro álbum de jazz que vendeu mais de 1 milhão de cópias. Mas teve uma coisa muito engraçada que eu senti quando ouvi o Time Out pela primeira vez e não teve nada a ver com a grandiosidade da obra, mas com a pequeninice da minha infância. A segunda faixa do lado A do disco, Strange Meadow Lark, me soava incrivelmente familiar: abertura do seriado da TV Cultura, Mundo da Lua. Aquele mesmo do Lucas Silva e Silva que falava diretamente do mundo da lua, onde tudo pode acontecer.

Não lembra? Esse aqui ó:

E a música do Brubeck Quartet é essa aqui (dá pra perceber bem lá pelos 6:50):

Eu não tenho formação musical, minha audição é bem relativa, mas no instante que eu ouvi essa música pela primeira vez eu lembrei daquele menino que guardava suas memórias num gravador. Não achei nenhum registro sobre o tema da série, nem sobre seu autor, pra checar essa loucurinha minha, mas não importa…

Hoje eu estou triste porque morreu o primeiro grande jazzista que eu ouvi na vida, na abertura de Mundo da Lua.

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Até a gente cresce

Tenho insistentemente tentado me lembrar de uma música, que não sei qual é – nem de quem – que dizia que quando temos vinte e poucos anos, nos sentimos velhos; até quando temos vinte e alguns anos e rimos daqueles tempos.

Seja qual for a letra, o que importa é que a mensagem é doloridamente verdadeira – e inevitável. Quando recém saídos da faculdade, de uma hora para outra, sentimos o peso do tempo passar. Depois, passado o choque, com vinte e poucos anos e alguns mais, percebemos que a vida adulta não é tão ruim; que tem seus prós: não se sentir culpado em ficar em casa numa noite de sexta-feira, gostar de ler jornal, beber vinho…

Em resumo, pode ser bacana crescer. E é esta a sensação que temos ao ouvir o segundo álbum do The Vaccines, Come of Age, lançado em setembro deste ano.

A banda, velha conhecida do re.verb, surgiu como uma sensação do rock alternativo; mais precisamente, como o novo The Strokes. Exageros à parte – e relevando o cano histórico que a banda deu nos fãs brasileiros, em 2011 – o que importa é que esses ingleses voltaram, mais crescidos, e em ótima forma.

Seu novo álbum é mais maduro, menos ansioso. Se, em 2011 (com o aclamado What did you expect from the Vaccines?), a tônica era a marrentice juvenil aliada à agonia do passar do tempo (a clássica “Wetsuit” dizia: “If at some poit we all succumb, for goodness sake let us be young, because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done; with a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories, we all got old at breakneck speed, slow it down, go easy on me…”), agora, o que se sente é que a perspectiva de envelhecer ainda perturba muito (só a eles?), mas há nela a aceitação do inexorável, como em “No Hope”, a faixa – concorrente a hino da juventude – que abre o disco: “(…) ‘cause when you’re young and bored at 24 and you don’t know who you are no more, there is no hope (…) and it’s hard to come of age, I think it’s a problem (….) and I hope it’s just a phase, well, I’ll grow”.

Porém, assimilado o susto (e ainda que com algumas recaídas pueris, como em “Teenage Icon”), o que se vê é a consciência de que a adolescência deu lugar à consciência de problemas ainda maiores – desculpa, não quero parecer excessivamente pessimista, mas assino embaixo…

Em uma das faixas mais bonitas, “I Always Knew”, se fala de paciência, um dos elementos mais importantes da vida adulta: “(…) I’m hanging on to what I don’t know, so let’s go to bed before you say something real, let’s go to bed before you say how you feel ‘cause it’s you, it’s always you, I always knew”.

Na mesma toada, em “Aftershave Ocean”, com plena maturidade, se assume que a pessoa amada é idolatrada, ainda que se saiba que não deveria ser assim: “but you are pulling the world over, wouldn’t you rather know that I am overindulging you, it’s so easy though”.

Algumas das faixas seguintes, porém, como “Weirdo” (“I know I’m fucking moody and I know I’m quite unkind, I know I’m kinda of distant, but you’re always on my mind”) e “Bad Mood” (“but I get angrier with age, better to be ready if you rattle my cage”) retomam o tom ranzinza e marrento que só os jovens (e os Vaccines) sabem dar…

Porém, a faixa que fecha o disco, mata a questão: eles – e alguns de seus ouvintes – cresceram e cansaram de botar banca além do necessário; eles – e a gente – querem uma pessoa bacana ao lado – quem sabe um amor antigo, como na música –; e um alívio para este mundo adulto que pode ser tão duro: “I knew where you were, it was perfectly obvious, I was uncomfortable playing it cool and I feel like I have always known you; I can’t recurse and I thought you had questioned it, young in the night when we stare at the rest of it, don’t forget, Lord I know: I will hold you close, ‘cause it is a lonely world, but would you want me too, cause it is a lonely world”.

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Sexy

Já dizia Arnaldo Antunes: existe “música para subir serpente; música para girar bambolê; música para querer morrer (…) música pra fazer sexo; música para fazer sucesso (…)”.

Música, para seus apreciadores, é, portanto, o pretexto para se aproveitar determinadas ocasiões – ou, em outras palavras, é aquilo que embala circunstâncias diversas.

Falemos, então, de diversão. De música para esquentar a temperatura ambiente, para empolgar os mais tímidos corações. Nada mais propício, em tais ocasiões, do que a nova sensação do hip-hop indie: TNGHT.

Esta banda, formada por Lunice (de Montreal) e Hudson Mowhawke (de Glasgow), já se apresenta como um dos nomes mais promissores para tais propósitos, e lança seu primeiro EP, TNGHT – EP – de apenas 16 minutos –  com a (má) intenção de se fazer lembrada em momentos de pura curtição; é sacana e sacolejante como um funk carioca, mas vai ainda além.

Ali, basicamente não há letras; em seu lugar, batidas irresistíveis e, por que não, perversas…a malícia permeia todas as faixas – mesmo sem palavras.

Se, na primeira, “Top Floor”, há apenas o esquenta para a balada, nas duas faixas seguintes o termômetro sobe – sem que, para isso, letras à la Tati Quebra-Barraco sejam necessárias. “Goooo” e “Higher Ground” nada falam, mas tocam lá no fundo. São irresistíveis.

 

Bugg’n’”, a próxima, pisa um pouco freio, sem deixar, contanto, de escapar do espírito malicioso; pense em uma música para fazer qualquer um se aproximar de outro alguém… pois é.

Por fim, “Easy Easy” inicia com uma ode: “drink, drink, drink….” e, com a mesma  intenção, se mantém até o final: sintetizadores são o motor da vontade de mexer as cadeiras… de beber mais um drink e não pensar no amanhã.

Às vezes, é só disso que se precisa. Sei que hoje ainda é segunda-feira, mas aproveite – e tome bastante água amanhã.

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Primavera

Primavera”, um dos mais famosos quadros de Sandro Botticelli, é das mais representativas obras do Renascimento italiano – sem dizer, uma das maiores atrações da Galleria degli Uffizi, em Florença.

 

O quadro, de incríveis 203×314 cm, datado do século XV, representa, em meio a árvores de laranja, nove personagens que dançam e celebram a estação que está por vir. Ali, estão Flora e Zéfiro, casal que, de acordo com a mitologia greco-romana, representa a união entre o deus do vento e uma jovem ninfa, Cloris, que, possuída pelo amor e transformada em Flora – abençoada, também, pelo cupido que paira sobre suas cabeças – dá origem à primavera.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas, sem prejuízo das sofisticadas interpretações artísticas, para nós, reles mortais, primavera, basicamente, significa o esquenta para o verão – e ainda que os termômetros, por vezes, contradigam.

Então, sem mais, simplesmente comece a tirar do armário as regatas, vestidinhos e sandalhinhas, e entre no clima. Primavera significa que o calor está chegando.

No meio tempo, cá está uma playlist fresquinha e florida, para ajudar a entrar no clima.

(aqui está o link!)

Bom feriado!

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Chegamos ao fim

Convenhamos, não há nada pior do que tomar um pé.

Menos pior, mas ainda assim terrível, é constatar que uma paixão acabou – e que nada mais há a se fazer. Tantas noites gastas, tantos copos sujos, tanta conversa jogada fora…

Mas, se serve de consolo, uma hora ou outra – uma só vez, ou várias – isso acontece com todos nós.

Depois do fim de um relacionamento, primeiro a gente bebe – já dizia Cartola: “procuro afogar no álcool a sua lembrança, mas noto que é ridícula a minha vingança” – depois nos sentimos a última das criaturas do mundo, mas, então, chega um dia em que damos gargalhadas e pronto.

Nessas horas, depois da fossa, chega o momento de sacudir a poeira e usar a raiva para seguir adiante.

E, para quem precisar de uma ajuda instantânea, a “Coletânea TRAAA! – Uma coletânea tapa na cara!”, da querida Musicoteca está aí para dar uma força.

Mais uma bola dentro da Musicoteca

Ali, assim como naquelas horas, há momentos deprês, raivosos (e vingativos) e outros ironicamente engraçados.

Na coletânea em questão, tais momentos se alternam maravilhosamente bem, traduzidos em palavras e sons por alguns dos artistas preferidos do re.verb, como 5 a Seco (“Gargalhadas”), Karina Buhr (com a deliciosa “Não me ame tanto”: “Não me ame tanto, eu tenho algum problema com amor demais, eu jogo tudo no lixo”), Bárbara Eugênia (“O Tempo”: “mas o tempo é um amigo precioso, que fica sempre observando aquele instante em que alguém tentou se aproximar”), SILVA (“Imergir”: “navios dizem recomeço, do mar ninguém chegou ao fim, eu vou deixar seu nome imergir”), etc.

Ela começa com Marcela Bellas, “Por Favor”, em um momento tristonho, com sentimento confusos, típicos de um momento pós-briga derradeira: “Arrume as malas com o que for seu, por favor, deixe pra trás o que eu fiz por merecer e as garrafas de licor”; fica um pouco mais autoconfiante na seguinte, em “Açúcar ou Adoçante”, de Cícero: “mas se você quiser alguém pra amar, ainda, hoje não vai dar, não vou estar, te indico alguém”.

Mas, então, o clima vai melhorando, fica bem de novo com o sambinha “Roupa do Corpo”, de Filipe Catto: “no caminho da rua, sambei meia hora em cada esquina, entrei num boteco, fiz doze amigos do peito e da pinga, eu bebi e subi em cima da mesa, dizendo ‘seu moço, traz mais uma gelada, que a nêga aqui hoje teve alforria’” e o forrózinho “Animal” (Mula Manca & A Fabulosa Figura).

Como ninguém é de ferro, momentos de recaída – quando bate uma saudade insuportável – também são permitidos: o rockzinho brega “Não Quero Te Agredir” (Validuaté) diz: “Vá, que ter saudades faz um bem danado, e assim que o coração fica apertado, e lembra novamente o que é o amor (…) e quando meu peito compreender que não tem jeito, eu mandarei um moto-táxi te buscar”.

No final das contas, o que realmente importa é que tudo termine, literalmente, com “Gargalhadas” (5 a Seco): “Pra que buscar recaída, reviver o drama, mexer na ferida? Por onde se engana o coração, se encontra saída pra vida”.

Baixe a Coletânea aqui – e bola pra frente!

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Votos de saudade

Os mais empolgados chamam-na de “festa da democracia”.

Os pessimistas de “o dia em que se faz muito barulho, para nada”.

Os entediados, quem sabe, reconheçam tal dia como “o dia de retomar o ritual bienal de voltar a um mesmo colégio, apertar números em uma mesma máquina (às vezes, os mesmos números), ouvir várias vezes o mesmo sonzinho, até surgir um imenso ‘FIM’”.

Há ainda uma outra categoria independente: os saudosos.

Estes enxergam tal dia quase como uma reunião de família à qual não poderão comparecer – por estarem longe de casa. Sim, reuniões de família podem ser muito chatas – a família toda reunida, mobilizada, todo mundo falando ao mesmo tempo, opiniões contrárias, um tentando convencer o outro de seu ponto de vista – e alguns, portanto, podem estar aliviados de estarem fora. Entretanto, mesmo estes, sabem que acontecerá, “lá em casa”, algo importante do qual não poderão participar.

Quem está longe de casa, portanto, sente a saudade bater mais forte nas horas em que há algum acontecimento intrínseco ao lugar – ou ao grupo, família, time de futebol… – do qual temporariamente se está afastado. É que, de longe, se vê formar um conjunto uno – hoje, por exemplo, uma massa de eleitores brasileiros – que se forma independentemente de sua ausência.

Quem descreveu com a perfeição de sempre tal sensação foi Vinícius de Moraes, quem, mesmo tantas vezes longe, nunca saiu de perto – e assim permanece. Em um feriado nacional, Vinicius escreve a seu amigo, um tal de Tom Jobim:

“Porto do Havre, 7 de setembro de 1964

Tomzinho querido,

Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda solidão do mundo.

São 10 horas da noite, e não se vê viv’alma.

Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu.

E como sempre, nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando.

Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente, tem o Brasil, que é uma paixão permanente em minha vida de constante exilado.

A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa, que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão.

Há pouco telefonei para lá para cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao telefone.

Estão queimando um óleo firme!

Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectiva? É fogo maestro!

(…)

Vou agora escrever para casa, pedindo dois menus diferentes para minha chegada. Para o almoço, um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco – bem tostadinho – uma couvinha mineira e doce de coco. Para o jantar, uma galinha ao molho pardo, com arroz bem soltinho, e papos de anjo. Mas daqueles como só a mãe da gente sabe fazer! Daqueles, que se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer metida em banho morno, em trevas totais, pensando, no máximo, na mulher amada. Por aí, você vê como estou me sentindo; nem cá, nem lá!”

Bom voto a todos – este é o voto de uma eleitora saudosa.

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Tulipa flor

Tudo pra ser aquilo tudo que todo mundo espera, todo um perfil, aquele jeito que todo mundo gosta; tudo pra ter tudo; um jeito que agrada a todos”.

Este é o início de “Ok”, uma das faixas do novo álbum de Tulipa Ruiz (Tudo Tanto) e que, em meio a uma batida ensolarada, com quase-ukuleles ao fundo, lança um desafio: vocês, ouvintes, estão preparados para uma nova Tulipa?

Em “É”, a primeira faixa de seu disco, mostra justamente essa tranqüilidade adulta, tão presente em seu novo álbum: “pelo nosso amor em movimento, pode ser e é”. Ali, assim como em todas as outras faixas, não há ansiedade em agradar imediatamente; a continuidade e a constância são o que importa. A relação está consolidada – assim como a admiração de seus fãs – então, sem pressa.

E some também a pressão para continuar sendo – ao lado de Tiê – uma das porta-bandeiras da fofurice musical do cenário brasileiro contemporâneo.

Com o perdão do trocadilho estúpido, Tulipa desabrochou.

Não que o tom simples e fofo tenha se perdido… “Quando Eu Achar”, por exemplo, poderia facilmente constar em Efêmera, o primeiro (e muito bom) disco da moça: “Quando eu achar o que eu quero achar, você vai saber (…) se eu me permitir, sem pestanejar, você vai curtir”.

No entanto, ainda assim, Tulipa está mais rock’n’roll; há um (bem-vindo) tom de rebeldia em seu cantar: “(…) Melhorou o jeito que a gente conversa, que a gente discute coisa e tal; mas posso ter ainda algum motivo pra querer cair no vendaval; eu sou assim, assim” (“Like This”). Mesmo quando diz: “devo lhe dizer que a minha cura é você, meu bem, é você meu bem; é você meu benzinho”, o esclarecimento prévio impõe alguns limites: “Devo lhe dizer que a vida é um curta, que eu filmei você, e foi sem censura” (“Script”).

E, talvez, a manifestação mais óbvia do novo flerte com o rock seja a participação de Lulu Santos, em “Dois Cafés”; ali, o tom de crítica (ainda que não tão mordaz) se mostra, e questiona a vida nas grandes cidades: “Tem que correr, correr, tem que se adaptar (…) daqui pra frente o tempo vai poder dizer se é na cidade que você tem que viver; pra inventar família, inventar um lar”.

Menos óbvia, mas mais significativa ainda, é “Víbora”. Um quase jazz, ácido – e nada fofo –: “até parece máscara, ópera, víbora (…) mas é só você que tem o dom de me enganar, me seduzir, me desdobrar, de me cuspir, só pra me obter”. Uma música sobre machos que não são tão machos assim… para ser tocada depois das 23h – e , dizem rumores, com direito a Criolo murmurando ao fundo.

Tulipa, enfim, deixa de lado seu lado menininha, mantendo intactas, porém, a potência de sua voz e a simplicidade direta de suas letras. Para a satisfação de todos nós.

 

Baixe o novo álbum de Tulipa Ruiz, aqui – ou, nas palavras da moça, “quer me baixar? Me baixa com dignidade”.

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Oi

E, finalmente, estamos de volta. Depois de um – não tão breve – hiato, cá estamos novamente.

Sem ter jamais a pretensão de se fazer profissional, o re.verb até então foi sério na medida em que reproduziu, com o intrínseco compromisso com a verdade, nossas impressões sobre obras culturais que, pensamos, valeriam a pena serem compartilhadas – com amigos; conhecidos e desconhecidos; leitores espalhados por aí.

Falamos muito, sobre muita coisa; e aqueles que nos acompanham há algum tempo, sabem que a imparcialidade nunca foi nosso forte: quando nos apaixonamos por algo, fazemos questão de deixar bem claro. Quando estamos tristes, o texto fala por si.

Também por essa certa “promiscuidade” entre o blog e nossas vidas pessoais, períodos de ausência (i.e. falta de tempo) tendem a ser inevitáveis. Pedimos desculpas… Mas, o que importa, por ora, é que estamos de volta.

re.verb, contudo, volta diferente (e não é só o layout). Para mudar um pouco os ares, e também por questões logísticas, a proposta é um tico diferente: o foco continua sendo nossa missão de reverberar conteúdos culturais que valem a pena, mas, agora, a pegada tende a ser um pouco mais internacional (há agora uma conexão direta Itália-Brasil). Além de dicas literárias, musicais, audiovisuais e todos os outros “ais” a que estão acostumados, queremos unir o útil ao agradável e escrever também sobre dicas e eventos que transcendam a Terra Brasilis.

Esperamos que gostem, e comentários são, sempre, imensamente bem-vindos.

Para esquentar os motores, deixamos pra vocês uma playlist bacaninha com gostinho de pão de queijo; para acalmar a saudade de quem está longe do Brasil, mas também para lembrar aos que permanecem da riqueza da nossa música.

(e este é o link, para quem não conseguir visualizar direto daqui)

Aproveitem. E bem-vindos, de volta.

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Sinto que é como sonhar

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As pessoas precisam entender que quando Amarante, Camelo, Medina, Barba, Bubu, Bubuzinho e companhia sobem em um palco o que acontece não é um show, é outra coisa….

Quem olha pr’aquele palco e vê um show realmente encontra uma série de defeitos: sim, o áudio estava péssimo, os instrumentos se sobrepõem sem definição nenhuma, e somando isso à péssima dicção de ambos vocalistas muitas músicas chegavam perto de um código cifrado. Os músicos não são geniais, o Barba atrasou umas boas viradas e estranho era quando o Camelo não atravessava.

Isso pode parecer inadmissível para os fãs que desembolsaram algo entre 70 e 200 reais e perderam noites de sono atrás desse ingresso. Mas não é. Não é, volto a dizer, porque não era um show, não era isso que as oito mil pessoas que se espremeram no Espaço das Américas enxergavam. Elas estavam felizes, satisfeitas, elas tinham o que elas queriam: Los Hermanos.

Los Hermanos é qualquer coisa entre religião e torcida de futebol. É paixão cega que perdoa semitonada e entrada fora do tempo. É sincronia com os músicos que dispensa “boa noite”, “obrigado, São Paulo” e piadinhas dos grandes showmen. Los Hermanos ao vivo são duas horas cantadas de cabo a rabo, com músicas decoradas (no melhor sentido da palavra, gravadas no coração), cantadas, gritadas, choradas, mais suadas que bem soadas. Los Hermanos é catarase, é escárnio. São histórias de vida, (des)amores, cicatrizes, sorrisos. E claro que é uma injeção cavalar de nostalgia, saudade que volta assim que damos as costas para o palco escuro.

Los Hermanos, meus caros, não é “bom”…é diferente, é intenso.

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Dear Jack

“Às vezes, acho que sou um cara simples, mas acho que a verdade é que sou um cara realmente complicado, tão simples como gostaria de ser”.

A frase é de Jack White, um dos maiores guitarristas e rock stars da atual geração, quem, depois de se lançar, junto com Meg White, na saudosa White Stripes (com direito a um dos melhores álbuns do rock alternativo recente, Elephant), perambulou por outras bandas e projetos (como Raconteurs e o sombrio Dead Wheather) e lançou, finalmente, seu primeiro álbum solo: Blunderbuss.

O nome do álbum remete, primeiramente, a uma espécie de espingarda, utilizada para caça. Talvez advenha justamente de tais searas a naturalidade com que Jack lança mão da brutalidade, ou visceralidade, em suas letras. Pensando melhor, Jack sempre foi assim; jamais se esquivou da intensidade de suas emoções – o que não necessariamente implica obras autobiográficas, mas, antes, letras sinceras às emoções arrebatadoras que afloram e fluem nos melhores artistas (como ele).

Logo na abertura do disco, na ótima “Missing Pieces”, Jack fala do amor como algo que faz seu nariz sangrar; que arranca seus braços e suas pernas. Depois, explica: às vezes, alguém controla tudo sobre você, e quando diz que simplesmente não pode viver sem você, não está mentindo; ele vai tirar pedaços de você, e vai ficar por cima e ir embora, levando consigo uma parte sua. (Dadas as devidas proporções, é praticamente uma versão rock’n’roll da crua – e cruel – “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque.)

Lançando o foco ainda na faceta sombria e fisicamente dolorosa do amor, o primeiro single lançado (e uma das melhores letras do álbum), “Love Interruption”, fala da batalha travada entre a sanidade – física e mental – e a paixão: “I want love to roll me over slowly, stick a knife inside me, and twist it all around. I want love to grab my fingers gently, slam them in the doorway, put my face into the ground (…) I won’t let love disrupt, corrupt or interrupt me”.

Mas, não se engane, o (ótimo) disco, ainda que sempre permeado por uma certa névoa de desilusão, vai muito além. Blunderbuss também nos serve como um túnel do tempo do rock americano; das raízes indeléveis do blues (sempre presentes nos trabalhos do artista, e mais ainda em faixas recheadas de um baixo envolvente, como “Trash Tongue Talker”), passando pelo folk (como em “Hypocritical Kiss”), pelo rock dançante dos anos 50 (como na incrivelmente deliciosa versão cover de “I’m Shakin’”, de Little Willie John).

Há também bastante country, como na faixa que dá título ao álbum: “You took me to a public place to quietly blend into (…) I laid you down and touched you like the two of us both needed”; ou ainda em “Hip (Eponymous) Poor Boy” que poderia bem ter sido escrita para sua antiga companheira de White Stripes, Meg White, de quem herdou o sobrenome famoso: “So I get into the game, but always keep it the same and I’ll be using your name, but they’ll be yelling at me: ‘poor boy, poor boy’, but I’ll be happy for you, ‘cause you got nothing to do and I’ll be singing the blues, walking around and singing”.

Philipp Ebeling, the Guardian

E, claro, há rock moderno e pesado, como o amor adolescente retratado em “Sixteen Saltines”: “She’s got stickers on her locker and the boy’s number’s there with magic marker, I’m hungry and the hunger will linger, I eat sixteen saltine crackers then I lick my fingers”; e ainda, para os nostálgicos, uma abertura que em tudo remete ao clássico “Seven Nation Army”: se fecharmos os olhos, o riff de “Freedom at 21” – música que fala sobre a liberdade (?) de uma garota nos dias atuais – em tudo lembra aquele.

Trata-se, enfim, de um belo disco que, acima de tudo, canta uma ode ao rock; seja em suas influências, ou na potência de suas letras e melodias. É uma baita obra, digna de um dos (únicos) guitar heroes de nossa geração.

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