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Amor tóxico

É impressionante como o conteúdo de uma só palavra pode compreender tantos significados, por vezes tão distantes entre si. Especialmente em se tratando de uma palavra tão corriqueira, mas essencial, como “amor”, o sentido que cada indivíduo atribui a ela – e, conseqüentemente, a própria concepção individual do que seja amor – pode variar absurdamente, transitando por um espectro infinito.

Para alguns, amor é a simples troca, entre indivíduos, daquilo que têm de melhor; é fazer o bem e recebê-lo de volta. Para outros, amor e paixão são sinônimos e, portanto, inexistiria amor desprovido de loucura; em seu conteúdo, o amor carregaria insanidade, torpor e prazer extremos.

Seja qual conceito melhor lhe aprouver, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”, o filme de Beto Brant e Renato Ciasca, baseado no livro homônimo de Marçal Aquino, fala do último. (Sem prejuízo, ressalta-se que também o livro se apóia na faceta mais tóxica do “amor-paixão” , como já falamos aqui.)

O enredo, em resumo, diz respeito à paixão desenfreada do fotógrafo forasteiro Caiuby (Gustavo Machado) por Lavínia (Camila Pitanga) – casada com o pastor da cidade (Pastor Ernani, interpretado por Zécarlos Machado) – no coração do Pará, em um ambiente corrompido e corroído pela extração ilegal dos recursos naturais locais.

A locação, em si, importa na medida em que a decadência (inclusive moral) da cidade é incorporada por seus moradores e, ali, em uma terra de ninguém, os valores que motivam o agir são, antes de tudo, primitivos, instintivos e instantâneos.

Por tal razão, o amor é quase maniqueísta; mostra-se em facetas: a sensorial – da carne, do sexo (como ocorre entre Lavínia e Caiuby, no início) – ou a de adoração, de devoção religiosa (entre Lavínia e o Pastor Ernani e, ao final, entre Caiuby e ela). O amor ali retratado, porém, nunca é completo – e, assim, torna-se um tanto oco, ralo.

O clima quente, úmido, pegajoso e sombrio parece penetrar também na mente das personagens, tornando a razão dormente – à exceção do jornalista fofoqueiro Viktor Laurence (Gero Camilo), ali ninguém age racionalmente. O pensamento é sempre limitado, abafado pelos impulsos.

Neste sentido, há horas em que o filme apresenta um ritmo errático, fragmentado, como se o formato acompanhasse a mente delirante das personagens. Por tal razão, principalmente para quem não está familiarizado com a história, conforme retratada no livro, é fácil se perder ao longo da sessão.

Trata-se, em última análise, de uma obra forte, que retrata intensamente (seja na atuação de seus protagonistas, como na fotografia) excessos humanos. Ali, não há histórias ou relações assépticas, e nenhum homem é santo – ora, não é assim aqui também?

(“Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, de Beto Brant e Renato Ciasca, Brasil, 2011)

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A diva

Você se lembra de seu primeiro amor? A excitação infindável da novidade, a descoberta de sua faceta adulta, todos os prazeres e dores…

Agora, imagine se o objeto desse amor inaugural fosse a pessoa mais famosa – e desejada – do mundo. Imagine se, ao menos por alguns dias, em seus braços estivesse Marilyn Monroe.

Pois bem, é esse o pano de fundo de “Sete Dias com Marilyn” (“My Week With Marilyn”, de Simon Curtis).

Ali, o enredo se desenvolve ao redor de Colin Clark (o gracinha Eddie Redmayne), quem, no alto de seus 23 anos, se vê como o terceiro assistente de diretor de um filme, “O Príncipe Encantado”, estrelado por ninguém menos que Marilyn Monroe (belíssima atuação, indicada ao Oscar, de Michelle Williams) e Lawrence Olivier (Kenneth Branagh) e, de quebra, acaba se tornando amante e confidente da estrela principal.

Colin, com toda sua inocência, não apenas se apaixona pela irresistível platinada curvilinea, como também atua como instrumento para que nós, espectadores, enxerguemos parte da faceta humana da personagem femme fatale.

Mais do que isso, ao lado do garoto – e a partir de seu ponto de vista – somos capazes de enxergar as facetas mais humanas (e frágeis) de Marilyn.

H.L. Mencken já alertara que:

O que os homens tomam como beleza em si próprios normalmente não passa de uma pompa oca, uma revoltante ostentação, o espendor superficial de um saracoteio animal (…) Ele sucumbe a um par de olhos bem pintados, a um torneio gracioso de um corpo, a uma compleição sintética ou a uma bela amostra de pernas, sem dar a minima atenção ao fato de que ali pode haver uma mulher inteira, e que as idiossincrasias desse cérebro são muito mais importantes do que todos os estigmas físicos combinados. (…) O ideal de seu sexo é sempre uma mulher bonita, e a vaidade e a frivolidade que costumam acompanhar a beleza tornam-se os totens do encanto” (MENCKEN, H.L., O Livro dos Insultos, Ed. Companhia das Letras).

E é essa fragilidade da realidade, aliada à potência do desejo, que fazem desse filme tão forte: uma paixão, em si, já é capaz de transpor quaisquer defeitos da pessoa amada; uma paixão por uma diva, porém, ultrapassa os últimos limites da razão (humilhação e subserviência se confundem; idolatria se mistura com ilusão), e faz o pobre amante querer – incondicionalmente – em vão.

(“Sete Dias com Marilyn”, “My Week With Marilyn”, de Simon Curtis, 2011).

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Para pensar

Assistir a um filme é interpretar, cada espectador à sua maneira, o que é retratado na tela.

O ato de interpretar, por sua vez, foi teorizado e estudado por muitos mas, talvez, exercitado em sua melhor forma por estudiosos da psicologia humana.

Por isso, assistir a um filme que retrata justamente os bastidores daqueles que primeiro se dispuseram a destrinchar a psique humana (ao menos como hoje a entendemos) pode ser algo tão capcioso – para não dizer metalinguístico…

Indo além, fazer uma obra de arte – sujeita à interpretação individual de cada um, portanto – sobre os pais da psicanálise é algo em si ambicioso. E assim o fez David Cronenberg, em “Um Método Perigoso (“A Dangerous Method”).

Ali, o que se retrata é face mais humana – e, portanto, complexa – daqueles que entendem pessoas tão bem.

Mais precisamente, é a psicanálise – “the talking cure” – o pano de fundo para um enredo de paixão, desilusão e competição entre alguns dos mais ilustres conhecedores dos meandros do inconsciente humano: Karl Jung (Michael Fassbender), Sigmund Freud (Viggo Mortensen), Sabina Spielrein (Keira Knightley) e Otto Gross (Vincent Cassel).

Sabina é, a um só tempo, a paciente e a cura de Jung; nela, ele aplica, com sucesso, o método da cura pela fala – preconizado por Freud – e, também, vê as limitações de tal teoria – por experiência própria.

Ela, jovem russa judia, que surge como uma doente quase desenganada – “I’m vile, filthy and corrupt”  – experimenta (melhora) e aprende, como poucas, o método aplicado por Jung.

Este, por sua vez, a princípio é apenas um discípulo de Freud. À medida que aplica o método, entretanto, passa a questionar determinados aspectos – especialmente a sexualidade como a origem de todos os males – e, assim que conhece o inconvencional Otto Gross (quem, a um só tempo, é paciente de clínica psiquiátrica e doutor), vê alguns de seus dogmas cairem por terra.

Gross pregava que “our job is to make our patients capable of freedom“, independente do custo de tal liberdade.

Jung foi momentaneamente levado por tal crença, se libertou de antigos paradigmas e foi além: passou a crer no que não pensava ainda – telepatia, poligamia, etc. Se Freud foi a base, Otto foi a liberdade para Jung.

Mas, quando a tal liberdade mostrou horizontes incertos e perigosos (como ter um affair com sua paciente-modelo), foi a Freud que recorreu novamente – este, raramente se portando como amigo, antes como mentor, mas quem jamais deixou de ensinar, e provocar questionamento em seus nobres discípulos.

O interessante é que foi justamente o desvio de Jung que o fez um ser humano mais completo; ou, se preferir, simplesmente mais humano.

A partir de suas próprias fraquezas, foi capaz de enxergar melhor os outros – ou assim prega o filme.

Apesar da dificuldade do tema, e do risco de se lidar com o retrato – nada imaculado – de personagens tão conhecidas, é um bom filme, seja para leigos nas “ciências” da psicanálise, ou curiosos.

No limite, instiga-nos a pensar. Não é essa a essência da psicanálise?

(“Um Método Perigoso”, A Dangerous Method”, de David Cronenberg, 2011)

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Habemus Metus

E quem nunca se sentiu como este papa, interpretado de forma comovente por Michel Piccoli, na surpreendente produção franco-italiana “Habemus Papam?”, de Nanni Moretti.

Cidade do Vaticano. Após a morte do carismático papa João Paulo II, 108 cardeais designados para eleger o novo pontífice rumam para a Capela Sistina, para dar início a um dos mais misteriosos rituais do catolicismo: o conclave, cerimônia realizada a sete chaves e que culmina, obrigatoriamente, na nomeação de um sucessor para o posto máximo de liderança da Igreja.

Após sucessivos jatos de fumaça preta – indicando que a escolha continua incerta – e muitas discussões entre os cardeais, o telespectador presencia uma votação que, apesar de mexer com a vaidade de 108 seres humanos, parece representar um grande fardo aos potenciais candidatos. As preces silenciosas de cada indicado clamam pela escolha de um papa que não seja ele próprio, e pela isenção daquela responsabilidade que, pensam, está acima de suas vocações e abaixo de seus anseios. Os cardeais escolhem, então, o idoso francês Melville para dar início ao novo pontificado que, assim como os demais, não se sentia a altura daquela missão.

Como, afinal, aquele que deveria honrar os valores de humildade e simplicidade, poderia se convencer, por uma eleição, de que seria o melhor qualificado para representar o elo entre Deus e seu povo? Mais ainda, liderar este povo pelo caminho de Deus?

Traçando um paralelo com a nossa vida cotidiana, quem não se sentiu, por vezes, desafiado por uma nova missão e encheu o peito para encará-la, usando uma coragem que nem sequer sonhava deter? Quem nunca, nem por um tempinho, pensou em recuar ou sentiu-se incapaz de suportar algum fardo? Ou, ainda, quem sofreu a angústia de não ter recuado enquanto era tempo de resguardar sua própria paz?

Após a eleição, Melville sente o peso de sua responsabilidade e, ao se aproximar da varanda da Basilica di San Pietro, diante de milhões de fiéis, onde o mais velho dos cardeais leria o texto (habemus papam) anunciando o novo pontífice e marcando o início de um novo papado, nosso protagonista, sentado e acuado como se fosse a última presa do mundo, leva as mãos à cabeça, desmontado diante de sua obrigação. Então, grita. Mas grita de uma forma tão comovente e desesperadora, que, por um momento, esquecemos que estamos diante de um cardeal idoso e sereno, que, como faz crer a personagem, dedicou a maior parte de sua vida à sua vocação e à devoção a Deus.

É neste contexto que os 107 cardeais eleitores, aguardando esperançosos a recuperação do papa e preocupados com a angústia dos fiéis diante da indefinição do papado, designam um psicanalista para decifrar a crise de pânico que assola o Vaticano. No meio tempo, os cardeais se entregam a jogos infantis para correr com as horas; então, percebemos que há naqueles homens sentimentos comuns a todos os demais, como inveja, competitividade, preguiça e noites mal dormidas – carregadas de ansiolíticos.

Não obstante, apesar de brilhante em vários aspectos, principalmente dos pontos de vista dramático e ideológico, são visíveis algumas inconsistências no roteiro e na condução das personagens secundárias. O psicólogo (interpretado curiosamente pelo diretor Nanni Moretti) ao ser colocado de lado na missão de analisar o papa, passa a organizar um torneio de vôlei entre os cardeais. Ocorre que, apesar de proporcionar seqüências bem humoradas e que trazem leveza ao drama do papa perdido, o torneio não tem qualquer relevância para o longa, e deixa evidente a perda de rumo da personagem do psiquiatra, que tinha grande potencial no início.

Por outro lado, o que poderia ser um temor passageiro de um ancião confuso, toma proporções patológicas impensáveis. O papa foge, vagando pelas ruas de Roma e, distante do Vaticano e de seus companheiros de batina, acaba buscando o sentido de sua própria vida em meio à sua confusão mental. É nesta sequência de cenas que o brilhantismo de Piccoli consegue tocar o espectador de forma ainda mais profunda, ao dar vida a uma personagem tão humana e frágil que emociona por sua complexidade.

Tendo em mente um cardeal, que chegou ao estágio máximo de sua vida religiosa, mas está vagando absorto em pensamentos pelas ruas da capital italiana, respondamos a seguinte pergunta: quem de nós, de tempos em tempos, não precisa mudar de rumo? Sair de cena, vagando pelas ruas da sua própria vida, encontrando o seu mundo em outro lugar?

Não vou contar aqui o final do filme, esperando que a sua curiosidade o carregue pelas reflexões que “Habemus Papam pode proporcionar.

É evidente que muito se espera de um papa, como líder religioso e como ser humano. Da mesma forma, mas talvez em menor proporção, muito é esperado de nós também, em nossos trabalhos, em nossos relacionamentos, em nossos estudos. Grande parte deste “muito” conseguimos corresponder diariamente, com dedicação, com esforço e abrindo mão de alguns de nossos desejos.

Mas e aquilo ao que não conseguimos corresponder? Melville pode ser considerado um fraco por resistir à missão que lhe foi confiada, mas não há, de fato, coragem naquele coração que assumiu sua própria fraqueza e seguiu o rumo das suas próprias crenças?

(Habemus Papam, de Nanni Moretti, 2011)

 


 
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Passionball

O gosto pelo esporte pode ter inúmeras causas e explicações. Das mais simples, como a empatia por alguém – ou por um time – às mais elaboradas, como a projeção das angústias individuais no(s) atleta(s) e a conseqüente catarse pessoal pela vitória alheia.

Seja qual for a razão, a admiração pelo esporte é algo tão intenso, e comum, que tem o condão de aproximar pessoas, independente de sua idade, classe social – tem assunto melhor para puxar papo do que o resultado do jogo de ontem? – e é uma fonte inesgotável de piadas.

Dessa forma, tamanha sua penetração no dia-a-dia de tantas pessoas (no Brasil, quase todos os dias são dias de futebol; seja dias de jogos, ou dias de repercussão dos resultados), não é de se espantar que o esporte seja também um excelente negócio; uma indústria que move trilhões ao redor do mundo.

Considerando os pontos acima, contudo, para profissionais do esporte não é fácil deixar de misturar negócios com prazer; dissociar trabalho de emoção. É este o grande dilema de Billy Beane (interpretado com maestria por Brad Pitt, indicado ao Oscar de melhor ator), protagonista de “O Homem que mudou o jogo” (“Moneyball“), de Bennett Miller.

O filme se baseia na história verídica de um ex-jogador da Major League de baseball nos EUA que, tendo visto sua promissora carreira desandar, rapidamente foi para os bastidores e se tornou um dos managers de um dos menores dentre os maiores clubes da primeira divisão daquele esporte, o Oakland A’s.

Após alguns anos de resultados medianos, Barry se vê pressionado a melhorar o rendimento do time. O problemão com que se depara, contudo, é: com um orçamento ínfimo se comparado ao dos grandes times, e em um mercado no qual os jogadores mais renomados são vendidos a preço de ouro, como montar um time de qualidade, competitivo e capaz de efetivamente lutar pelo campeonato?

Sua estratégia? Mudar de estratégia.

Assim, ao invés de entrar na briga por jogadores famosos, resolve apostar na tese de um jovem e desengonçado economista de Yale, Peter Brand (Jonah Hill, também na briga pelo Oscar, como melhor ator coadjuvante), que, com base em uma extensa análise estatística dos jogadores (“sabermetrics”), avalia que tão importante como a correlação entre número de vitórias e runs – o que normalmente é feito – é a relação entre aquelas e as corridas até as bases. (Não se preocupe, ninguém precisa entender muito de baseball para gostar do filme.)

Dessa forma, de acordo com seu argumento, haveria, no mercado, inúmeros jogadores valiosíssimos, mas subestimados (em outras palavras, baratos).

Esta seria a faceta “técnica” do filme – capaz, em si, de entreter apaixonados pelo esporte. Ainda mais interessante, contudo, é a dimensão humana subjacente.

Até então, Berry havia tentado amenizar através da frieza e racionalidade sua frustração pessoal com o fracasso de sua carreira como jogador profissional; depois de se transferir aos bastidores do esporte, jamais se permitiu a novamente sentir emoção pelo jogo – ele diz que quando você começa a se emocionar com o esporte, “that’s when you get hurt”. Neste sentido, para não se envolver, não conversa com jogadores (para ficar mais fácil na hora de os negociar), tampouco assiste a qualquer jogo.

Entretanto, ao se ver obrigado a apostar todas suas fichas em Peter e sua teoria heterodoxa – e, inversamente, conforme este se vê finalmente respeitado por alguém – ambos formam uma dupla (um time) inseparável. Barry, aos poucos, amolece (por exemplo, conforme passa a interagir com os jogadores, se permite sentir novamente o campo e correr ali – e não mais na solidão de uma academia vazia, em plena hora de jogo) e novos sentimentos passam a transbordar da tela.

O filme, ressalta-se, emociona sem ser piegas; assim como o esporte. Este é capaz de trazer inúmeras alegrias e lágrimas de felicidade, mas é também injusto, imediatista e irracional; alguém passa de herói a vilão no espaço de tempo de um intervalo – ou menos.

Aquele, retrata como poucos todas essas facetas e, seja para os fãs de esporte, ou para os fãs de cinema, vale muitos pontos.

(“O Homem que mudou o jogo“, “Moneyball“, de Bennett Miller, 2011)

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O Começo do fim – A Trilogia Milennium

Quando terminei de ler o livro Os homens que não amavam as mulheres, o primeiro da trilogia Millennium, do sueco Stieg Larsson, logo pensei que ali estavam os ingredientes perfeitos para um grande filme. E assim o fez David Fincher: seja na força de seus personagens, seja na inteligência de seu enredo, o filme daquele diretor, como o livro, prende a atenção de seu espectador do início ao fim.

Tendo como pano de fundo o misterioso desaparecimento da jovem Harriet Vanger, em 1966, e a obsessão de seu tio-avô Henrik (Cristopher Plummer) por descobrir o que houve naquele ano com sua sobrinha, a trama se desenvolve com a tentativa do jornalista Mikael Blomkvist (Daniel Craig, que, aqui, em nada lembra o inabalável James Bond) em provar sua inocência em um processo de difamação, que vem causando diversos prejuízos a sua revista, a Milennium.

Com o pretexto de escrever a biografia do magnata aposentado Henrik, Mikael chega à pequena e nevada ilha de Hedestad, ao extremo norte da Suécia, para, na verdade, investigar o desaparecimento de Harriet, ocorrido naquele local quarenta anos antes – causando, assim, um profundo incômodo em toda a família Vanger.

Neste contexto, revirar o baú dos Vanger, para Mikael, acaba se revelando uma tarefa perigosa e, na medida em que os segredos desta família são revelados, Mikael se aproxima mais dos motivos que levaram ao desaparecimento de Harriet.

Com a ajuda da habilidosa hacker Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma jovem que está sob tutela do Estado por conta de seu comportamento violento, Mikael consegue avançar em sua investigação de forma prodigiosa, ao mesmo tempo em que descobre em Lisbeth uma figura frágil e assustada.

Sem dúvida, o destaque do filme é a força da sua protagonista Lisbeth Salander, interpretada com coragem e maestria pela novata Rooney Mara. Em princípio, Lisbeth parece ser uma jovem perturbada e rude, tanto por sua aparência física muito magra, tatuada, cheia de piercings e penteados extravagantes, quanto por sua atitude, sempre cabisbaixa e monossilábica. Aos poucos, passamos a conhecer uma mulher que enfrentou uma série de abusos, mas que aprendeu muito bem como se defender sozinha e articular suas próprias vinganças, apesar de sua aparente fraqueza física.

As atitudes de Lisbeth, ainda que questionáveis do ponto de vista moral, aproximam a protagonista de seu espectador, na medida em que torcemos para que todas as suas investidas na trama dêem certo, inclusive um romance pouco provável com Mikael.

“Os homens que não amavam as mulheres” acerta ainda onde a maioria das adaptações cinematográficas de obras literárias peca: na escassez de detalhes importantes para os enredos e na velocidade com que as tramas se desenvolvem. Apesar de longo, o filme de 158 minutos não perde o ritmo em nenhum momento e não abandona o espectador com suas próprias conclusões, fechando muito bem os pontos abertos durante a trama, mérito do competente roteirista Steven Zaillian.

Após a exibição, ficou a vontade de ver os próximos dois filmes (se é que existirão) baseados nos livros A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar, que fecham a trilogia Milennium e que são igualmente ricos em personagens e conteúdo. A pena é que Stieg Larsson faleceu vítima de um ataque cardíaco, logo após a conclusão do último livro e, assim, as aventuras de Mikael e Salander também estão com os dias contados.

(“Os homens que não amavam as mulheres”, The girl with the dragon tattoo”, de David Fincher, 2011)

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Legados

Até que ponto tradições, em especial aquelas que sobrevivem por gerações, se mantêm por si – como algo superior, que paira sobre os mortais e permanece vivo (ou ao menos latente), a despeito de grandes esforços daqueles responsáveis em o cultivar?

Particularmente em se tratando de legados de família, em que medida semelhanças genéticas e um mesmo sobrenome são suficientes? Ou sua manutenção, mesmo quando se fala da herança de um ente uno – “a família” – depende exclusivamente do esforço constante das gerações futuras?

Questionamentos de tal sorte são o pano de fundo de “Os Descendentes (“The Descendants”, de Alexander Payne).


Ali, tais questões se desenvolvem paralelamente, em dois flancos: o principal diz respeito ao paradoxo de um pai, Matt King (George Clooney, indicado ao Oscar deste ano de melhor ator pelo papel), que tem de reestruturar sua família, reatando laços com suas filhas (e readquirindo o respeito e afeto daquelas), justamente no momento em que o núcleo familiar a que pertencem começa a ruir: a mãe/esposa entra em coma irreversível após um acidente no mar.

Não bastasse a perda iminente, ao se ver obrigado a de fato se relacionar com suas filhas, Alexandra (Shailene Woodley) e Scottie (Amara Miller) – de 17 e 10 anos, respectivamente – Matt descobre novas facetas das meninas (os problemas e a rebeldia de cada uma não se mostram incompatíveis com seu crescente companheirismo e admiração), de sua mulher (toma consciência de que pouco sabia daquela com quem convivia até então) e de si próprio (apesar da tentativa de os conter, vê que em seu peito explodem todos os tipos de sentimento – é memorável a cena em que Matt, após descobrir algo terrível sobre sua mulher, sai correndo, ofegante e atabalhoado, e parece querer fugir de todos os pensamentos que surgem em sua mente).

O segundo flanco de desenvolvimento do filme é a discussão sobre a venda, ou não, de um enorme e valioso terreno que, tendo sido herdado de seus mais remotos ancestrais, pertence agora a um fundo familiar (administrado e representado legalmente por Matt) do qual fazem parte os incontáveis primos e familiares.

Em dado momento, ambas as tramas passam a se misturar e, à medida que Matt redescobre a importância e a complexidade de se pertencer a uma família – e conforme se aproxima cada vez mais da sua – passa a reconhecer o valor de lutar para que ela, e as relações subjacentes, não se desintegrem.

O diretor, Payne, que também foi responsável pela direção de Sideways (2004), opta novamente, como naquele, por esmiuçar e se aprofundar em temas íntimos das relações humanas, sem, contudo, descambar para algo excessivamente melodramático. Para tanto, conta não apenas com atuações que caminham sobre todo o espectro de emoções – da comicidade à tristeza dolorida – mas também enfatiza a beleza do local aonde a trama se passa, o Havaí. (Assim, não seria exagero imaginar que o filme seria sensivelmente mais pesado caso se passasse, digamos, no inverno da Finlândia.)

Dessa forma, trata-se de um drama familiar equilibrado, apesar de a família ali retratada – em todos os seus níveis – não ser das mais serenas. Um bom filme, com boas atuações, e capaz fazer o espectador, ao sair da sala, pensar e repensar muito sobre questões tão familiares.

 

(“Os Descendentes, The Descendants”, de Alexander Payne, 2011)

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Ajuda

Trata-se de um tema duro e dolorido: a segregação e profunda discriminação dos negros no início dos anos 60, no sul dos Estados Unidos; assunto este que, tamanha sua importância – e respectiva relevância em termos de produção cultural a respeito – já se tornou um clássico da história daquele país.

Especialmente no filme de que falamos neste post, “Histórias Cruzadas” (“The Help”, direção de Tate Taylor) – adaptação do best-seller de Kathryn Stockett, e que estréia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira – a abordagem não é sutil, tampouco exagerada; é direta e óbvia. Além disso, a perspectiva adotada é muito familiar a todo espectador: o ambiente doméstico, maternal; a criação.

Mais precisamente, a narrativa é estruturada a partir do ponto de vista de empregadas negras que, mesmo sendo discriminadas e mal tratadas por suas ricas patroas brancas, silenciosa e carinhosamente cuidam das crianças daquelas

O ciclo então se repete e as crianças, depois de crescidas, também requerem a “ajuda” negra na criação de seus próprios filhos; mas passam a igualmente destratar e desprezar aquelas que, apesar de as terem criado, nasceram com uma cor de pele diferente.

Tal círculo vicioso, no entanto, se quebra no momento em que alguém se arrisca a falar.

 

Como se vê, nesta narrativa se optou por retratar a temática do racismo direcionando a claramente o foco nas mulheres – brancas e negras. Conseqüentemente, questões tipicamente femininas, notadamente o instinto maternal (i.e. espécie do gênero amor incondicional), são trazidas à tona. Mais ainda, surge também o avesso delas, qual seja, a decepção e amargura que é a rejeição vinda de sua própria cria.

Por tais razões, é um filme dramático e que se pretende moral e politicamente engajado. No entanto, trata questões essenciais e atemporais de maneira superficial e pouco sofisticada – nota-se principalmente um maniqueísmo exacerbado, e certo excesso na caricaturização de algumas personagens, principalmente da megera Hilly (Bryce Dallas Howard).

Por outro lado, o tema é tocante por si só e o filme conta com belas atuações de atrizes como Viola Davis (ótima, indicada ao Oscar deste ano), Octavia Spencer (também indicada e vencedora do Sag Awards por este papel) e Emma Stone. Assim, emociona.

Em resumo, não é um clássico do cinema; mas um clássico filme americano.

(“Histórias Cruzadas”,“The Help”, direção de Tate Taylor, EUA 2011; baseado na obra “The Help”, de Kathryn Stockett – em português, traduzido para “A Resposta”, Ed. Bertrand Brasil)

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Fora do trilho

Quando as coisas saem do trilho, e o trem ruma para a direção oposta da anunciada, reações igualmente inesperadas ocorrem. Diante do imprevisível, como saber qual a melhor forma de agir?

Esta é uma das questões postas em Confiar (Trust, de David Schwimmer). A história ali contada é a de um ambiente em que tudo estava muito bem, até não estar mais.

Annie (Liana Liberato) é uma adolescente de 16 anos que, assim como tantas, presta mais atenção na tela de seu celular e em seu computador do que no mundo à sua volta; para ela, interagir socialmente é trocar mensagens de texto. Ocorre que, se quando se olha no olho de uma pessoa já não é fácil saber o que de verdade há ali, quando a relação se consolida atrás de um teclado, então, confiar é ainda mais difícil.

E a garota descobre tal desassossego da maneira mais dura.

Encanta-se por Charlie, quem, no princípio, acredita ter também 16 anos. Conforme as conversas se intensificam, ele diz que é um pouco mais velho, que tem 20 anos. Papo vai, papo vem, ele confessa ter 25. Quando finalmente se encontram, ela percebe que não é bem assim; que ele deixou de ter 25 anos há muito tempo.

Ainda assim, ela confia; e crente no amor que o homem lhe promete, segue adiante. E o trem descarrila de vez.

Descarrila não apenas porque o espectador se vê diante de uma história permeada pelo incômodo e perturbador tema da pedofilia, como também porque as reações desencadeadas a partir de então parecem sempre seguir na direção inversa do esperado.

Na medida em que a família descobre o que ocorreu, uma crise explosiva se instala no ambiente familiar outrora tão tranqüilo; seu pai, William (o excelente Clive Owen), vê o chão sumir de sua frente, e sentimentos os mais diversos e insuportáveis o acometem: a filha, que antes só lhe trazia alegrias, agora faz nele aflorarem rompantes de impotência, raiva, culpa e repulsa.

Dessa forma, com as peças desarrumadas sobre o tabuleiro, ninguém consegue lidar com a situação: nem Annie, quem demora a se perceber vítima; nem William, que só pensa em botar as mãos naquele que tocou sua filha, mas se esquece de a amparar. (Em um determinado momento, a terapeuta de Annie – interpretada por Viola Davis – diz àquele: não podemos evitar que coisas ruins aconteçam a nós ou àqueles que amamos; e tudo que podemos fazer é estar sempre por perto para ajudar o outro a se levantar da queda.)

Além de belas atuações, o filme também se destaca por sair do lugar comum, na medida em que corajosamente tangencia questões delicadas: até que ponto um ato consentido é violento; ou em que medida uma adolescente é capaz de consentir (neste sentido, há uma ótima cena em que o colega de trabalho de William, ao descobrir o ocorrido, diz algo como: “nossa, que susto, quando você falou que ela havia sido violentada, eu pensei que tivesse sido um estupro de verdade”).

Ainda assim, apesar de incômodo, o filme é longe de ser chocante ou moralmente revolucionário; pelo contrário, é sensível e foge de toda forma de maniqueísmo. É, enfim, um dos melhores filmes em circuito neste ano.

(Confiar, Trust, de David Schwimmer)

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De mentirinha

Mamãe já disse que mentira tem perna curta. Mentira contada por filho, então, não tem jeito: é só uma questão de tempo até que ela descubra.

Mas e se a mentira for só “uma mentirinha”, daquelas bem intencionadas? Por exemplo: se você visse sua mãe triste, acabada, em frangalhos por conta do fim do casamento com seu pai e resolvesse lançar mão de algo “de veracidade duvidosa” para deixá-la mais feliz?

Este é justamente o enredo de “Uma Doce Mentira” (“De vrais mensonges”, de Pierre Salvadori), comédia romântica (mais comédia do que romântica) em que Audrey Tautou (a.k.a Amelie Poulin) é Emilie, uma filha pragmática e um tanto insensível que, ao não se sentir nem um pouco tocada por uma linda carta de amor anônima que recebe, resolve endereçá-la a sua mãe, Maddi (a ótima Nathalie Baye), a fim de tentar fazer esta sorrir novamente.

O espectador, no entanto, sabe desde o início que o admirador secreto é Jean (Sami Bouajila), quem, apesar de ultraqualificado para o emprego (é poliglota, cultíssimo, etc.), trabalha no salão de cabeleireiro de Emilie como responsável pela manutenção e eletricidade do local.

Tamanho é o efeito da carta sobre Maddi, que a filha não se vê capaz de fazer outra coisa a não ser perpetuar a mentira – e, assim, vai se enrolando cada vez mais em uma teia de mal entendidos e confusões.

Com o estopim para um incontrolável encadeamento de eventos aceso do início ao final do filme, nós, espectadores, nos vemos diante de uma bola de neve composta por situações as mais cômicas – que, não raras vezes, nos deixam ruborizados e com vergonha alheia. Ficamos também aflitos, tensos com a próxima trapalhada por vir.

Trata-se assim, de um filme que entretém, leve e divertido, sem deixar de ser esperto e incomum. Apesar do imbróglio todo – ou justamente por conta dele – é interessante ver a evolução de Emilie, que quanto mais se enrola, mais vê seu coração amolecer; o coração que, outrora, parecia tocado apenas pela dor da mãe – ainda que se possa questionar se ela estava efetivamente compadecida, ou simplesmente envergonhada das atitudes malucas daquela – passa a também sentir por conta própria. A partir de então, sente dor e prazer de verdade.

(“Uma Doce Mentira”, “De vrais mensonges”, de Pierre Salvadori)

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