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Passionball

O gosto pelo esporte pode ter inúmeras causas e explicações. Das mais simples, como a empatia por alguém – ou por um time – às mais elaboradas, como a projeção das angústias individuais no(s) atleta(s) e a conseqüente catarse pessoal pela vitória alheia.

Seja qual for a razão, a admiração pelo esporte é algo tão intenso, e comum, que tem o condão de aproximar pessoas, independente de sua idade, classe social – tem assunto melhor para puxar papo do que o resultado do jogo de ontem? – e é uma fonte inesgotável de piadas.

Dessa forma, tamanha sua penetração no dia-a-dia de tantas pessoas (no Brasil, quase todos os dias são dias de futebol; seja dias de jogos, ou dias de repercussão dos resultados), não é de se espantar que o esporte seja também um excelente negócio; uma indústria que move trilhões ao redor do mundo.

Considerando os pontos acima, contudo, para profissionais do esporte não é fácil deixar de misturar negócios com prazer; dissociar trabalho de emoção. É este o grande dilema de Billy Beane (interpretado com maestria por Brad Pitt, indicado ao Oscar de melhor ator), protagonista de “O Homem que mudou o jogo” (“Moneyball“), de Bennett Miller.

O filme se baseia na história verídica de um ex-jogador da Major League de baseball nos EUA que, tendo visto sua promissora carreira desandar, rapidamente foi para os bastidores e se tornou um dos managers de um dos menores dentre os maiores clubes da primeira divisão daquele esporte, o Oakland A’s.

Após alguns anos de resultados medianos, Barry se vê pressionado a melhorar o rendimento do time. O problemão com que se depara, contudo, é: com um orçamento ínfimo se comparado ao dos grandes times, e em um mercado no qual os jogadores mais renomados são vendidos a preço de ouro, como montar um time de qualidade, competitivo e capaz de efetivamente lutar pelo campeonato?

Sua estratégia? Mudar de estratégia.

Assim, ao invés de entrar na briga por jogadores famosos, resolve apostar na tese de um jovem e desengonçado economista de Yale, Peter Brand (Jonah Hill, também na briga pelo Oscar, como melhor ator coadjuvante), que, com base em uma extensa análise estatística dos jogadores (“sabermetrics”), avalia que tão importante como a correlação entre número de vitórias e runs – o que normalmente é feito – é a relação entre aquelas e as corridas até as bases. (Não se preocupe, ninguém precisa entender muito de baseball para gostar do filme.)

Dessa forma, de acordo com seu argumento, haveria, no mercado, inúmeros jogadores valiosíssimos, mas subestimados (em outras palavras, baratos).

Esta seria a faceta “técnica” do filme – capaz, em si, de entreter apaixonados pelo esporte. Ainda mais interessante, contudo, é a dimensão humana subjacente.

Até então, Berry havia tentado amenizar através da frieza e racionalidade sua frustração pessoal com o fracasso de sua carreira como jogador profissional; depois de se transferir aos bastidores do esporte, jamais se permitiu a novamente sentir emoção pelo jogo – ele diz que quando você começa a se emocionar com o esporte, “that’s when you get hurt”. Neste sentido, para não se envolver, não conversa com jogadores (para ficar mais fácil na hora de os negociar), tampouco assiste a qualquer jogo.

Entretanto, ao se ver obrigado a apostar todas suas fichas em Peter e sua teoria heterodoxa – e, inversamente, conforme este se vê finalmente respeitado por alguém – ambos formam uma dupla (um time) inseparável. Barry, aos poucos, amolece (por exemplo, conforme passa a interagir com os jogadores, se permite sentir novamente o campo e correr ali – e não mais na solidão de uma academia vazia, em plena hora de jogo) e novos sentimentos passam a transbordar da tela.

O filme, ressalta-se, emociona sem ser piegas; assim como o esporte. Este é capaz de trazer inúmeras alegrias e lágrimas de felicidade, mas é também injusto, imediatista e irracional; alguém passa de herói a vilão no espaço de tempo de um intervalo – ou menos.

Aquele, retrata como poucos todas essas facetas e, seja para os fãs de esporte, ou para os fãs de cinema, vale muitos pontos.

(“O Homem que mudou o jogo“, “Moneyball“, de Bennett Miller, 2011)

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Itápolis

Já tinha ouvido falar em Itápolis? Pois é, eu já. Durante minha infância toda, passei as férias nessa cidade.

Muita laranja, muito calor e muitos italianos.

Hoje, Itápolis é mais conhecida como a cidade do Oeste Futebol Clube, o time que chegou às quartas de final do campeonato paulista deste ano – pena que contra o Corinthians

Que o futebol é assunto de suma importância para grande parte dos brasileiros, não é novidade. Pensar o futebol como trampolim para o desenvolvimento de uma cidade, contudo, não é algo trivial.

Itápolis é uma cidade situada a aproximadamente 360 quilômetros da capital paulista. Perto de Araraquara e Ribeirão Preto, é um pedacinho da Itália – daí o nome – fincada em solo de terra roxa, em uma das regiões mais férteis do Estado de São Paulo.

Em 2011, Itápolis não foi a cidade sede de um time que chegou às semifinais do campeonato estadual mais importante do País. Mas, sendo a sede de um time que, em pleno dia de São Jorge, jogou uma ótima partida decisiva contra para um dos melhores times do Brasil (basta dizer que o Timão tomou um sufoco em pleno Pacaembu lotado, com direito a duas bolas salvas pela zaga em cima da linha e tudo o mais) e tendo tido seu nome repetido à exaustão em rede nacional, oxalá passe a ser mais respeitada e observada. Os itapolitanos e seu Cristo Redentor esperam de braços abertos.

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O último R

Minha geração viu muitos bons jogadores brasileiros, mas poucos craques. Estes são os indivíduos não apenas diferenciados por sua técnica, mas que, por alguma razão, encantam não só uma vez ou outra, mas reiteradamente. São os que causam admiração a despeito da camisa que vestem; que jogam a favor do futebol.

Curiosamente, três dos maiores craques das últimas duas décadas têm algo em comum; seus  nomes começam com “R” – Romário, Ronaldo e Rogério Ceni.

Hoje foi o dia da consagração do último.

Não é fácil para uma corinthiana doente falar do maior ídolo de seu grande rival – afinal, nos últimos anos, o Palmeiras perdeu o posto de maior inimigo alvinegro para o São Paulo – ainda mais após uma derrota justa como a de hoje.

No entanto, antes de corinthiana, sou amante do bom futebol e, admito, adoraria ver outros jogadores como Rogério por aí.

Não digo isso só porque ele é um dos melhores goleiros do futebol brasileiro dos últimos tempos; por ter o maior número de gols feitos por alguém que joga nessa posição no mundo; tampouco por ser, há anos, o capitão de um dos maiores clubes do Brasil. Digo que ele é craque porque, apesar de 100 gols, ele continua encantando.

Por sua competência, sua postura – dentro de fora do campo – seu respeito pelos adversários e pela torcida e, principalmente, por seu amor ao SPFC – qual outro jogador veste a camisa de um mesmo time por tanto tempo?

Os 100 gols importam – e muito – mas antes de serem um marco em si, parecem ser uma evidência do diferencial de quem os fez.

Rogério não é só um (o maior) goleiro artilheiro, é um goleiro cuja importância para seu time é tão grande, que ele até a traduz em gols.

Confesso que, por muito tempo, tive raiva do Rogério. Não tanto pelos gols que defendeu (ou que fez), mas pelo fato de jogar em outro time que não o meu. Hoje, superei a inveja e bato palmas para esse atleta.

Por isso, apesar do gosto amargo da derrota, encho a boca para dizer: parabéns, Rogério.

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O Homem e o Mar

 

Por que gosto tanto de surfar?

É que, no surf, sou apenas eu; humildemente entregue ao mar. Insignificante diante da natureza e do mundo – e ao mesmo tempo parte de ambos.

Poucas vezes vi melhor tradução para essa sensação do que as fotos de Hengki Koentjoro. Estão ali algumas das mais expressivas e emocionantes que já vi. É algo sublime, mágico, inexplicável.

É o homem na imensidão do mundo. É o que de mais próximo do surf posso ter neste momento, diante deste computador.

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Lágrimas a um fenômeno

 

 

Não sabendo que era impossível, foi lá e fez. Desafiando leis da física, da sensatez, da razão e do espaço, foi desmentindo um a um aqueles que dele duvidaram. E não foram poucos; ou melhor, foram todos. Que atire a primeira pedra quem achou que, ao menos uma vez dentre as tantas quedas, ele não se levantaria.

Mas sempre se levantou. E foi adiante, aos trancos e barrancos, contusão após contusão, recuperação após recuperação.

Não vi Pelé jogar. Também não vi Rivelino, Garrincha, ou Zico… vi, sim, Romário e Bebeto; continuo vendo Rivaldo e vejo também Neymar, mas fenômeno, só vi um.

Assisti-lhe ganhar Copas (até quando tentou se disfarçar de Cascão, com aquele cabelinho horroroso de 2002), troféus, prêmios e glórias; arrebatar torcidas e dar nome ao número 9.

Chorei por ele, com ele e na sua ausência.

Hoje, chorei porque vi o único craque da minha geração sucumbir à sua condição de humano – algo que algumas vezes duvidei.

Independentemente de seu coração – enorme e de manteiga – pertencer a este ou aquele time, e ainda que tenha dado mais alegrias a corinthianos como eu do que a torcedores de outros times, tenho certeza absoluta e inquestionável que Ronaldo sempre jogou a favor do futebol. Se jogou nesse esporte como um grande amante se arremessa em uma brutal paixão. Saiu dilacerado da batalha, mas também vitorioso. E saiu amado.

Obrigada, Ronaldo.

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Preto no branco

“Nossa, você não tem cara de corinthiana!” é o que sempre escuto quando falo qual é meu time. Vejo os narizes torcerem ainda mais quando reitero que não só torço, mas que sou corinthiana mesmo, daquelas que vai ao estádio, que chora quando o time perde e que aparece rouca depois das grandes vitórias.

Àqueles que se surpreendem quando ouvem isso, repito o que ouvi de outro grande torcedor deste time: que não existe “cara de corinthiano”, justamente porque se trata de um time que abraça todas as caras; não há uma só camada social, uma só cor, uma só ascendência. Há sim um traço comum: o amor incondicional pelo time (a cada rodada, a reafirmação dos votos de casamento: de amar o time na alegria e na tristeza).

Sou corinthiana porque sou apaixonada – ou sou apaixonada porque sou corinthiana, como queiram. Eu e mais 30 milhões que entoam em seus cantos os mesmos versos de amor: “aqui tem um bando de louco, louco por ti”; “eu nunca vou te abandonar porque te amo”; “minha vida, minha história, meu amor”.

Aos que odeiam este time, pergunto: o que seria do futebol brasileiro sem o Corinthians? E quando falo isso, penso nos torcedores dos demais times: quem iriam encher nas segundas e quintas-feiras?

Ninguém é indiferente ao Corinthians; o Timão incomoda. Há apenas duas torcidas: a do Corinthians e a contra o Corinthians.

Por isso, hoje, a esta última digo o seguinte: neste ano se comemorou o centenário do time e nenhum grande título foi ganho (não teve Libertadores, não teve Paulista, não teve Brasileiro), mas a real conquista, que poucos outros times têm, é a de que, ao longo dos últimos cem anos, o dia seguinte da derrota também é dia de se vestir a camisa do Timão, porque, sempre – e para além de muitos outros cem anos – na alegria e na tristeza, continuará existindo um bando de loucos.

E, Corinthians, Você já sabe, mas me permita deixar claro para os outros: ninguém vai te abandonar, porque, a cada dia mais, a gente te ama.

 

obs. este post é absolutamente egoísta e reflete tão somente minha loucura. Infelizmente, nenhum outro membro do re.verb a compartilha.

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