re.verb

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Até a gente cresce

Tenho insistentemente tentado me lembrar de uma música, que não sei qual é – nem de quem – que dizia que quando temos vinte e poucos anos, nos sentimos velhos; até quando temos vinte e alguns anos e rimos daqueles tempos.

Seja qual for a letra, o que importa é que a mensagem é doloridamente verdadeira – e inevitável. Quando recém saídos da faculdade, de uma hora para outra, sentimos o peso do tempo passar. Depois, passado o choque, com vinte e poucos anos e alguns mais, percebemos que a vida adulta não é tão ruim; que tem seus prós: não se sentir culpado em ficar em casa numa noite de sexta-feira, gostar de ler jornal, beber vinho…

Em resumo, pode ser bacana crescer. E é esta a sensação que temos ao ouvir o segundo álbum do The Vaccines, Come of Age, lançado em setembro deste ano.

A banda, velha conhecida do re.verb, surgiu como uma sensação do rock alternativo; mais precisamente, como o novo The Strokes. Exageros à parte – e relevando o cano histórico que a banda deu nos fãs brasileiros, em 2011 – o que importa é que esses ingleses voltaram, mais crescidos, e em ótima forma.

Seu novo álbum é mais maduro, menos ansioso. Se, em 2011 (com o aclamado What did you expect from the Vaccines?), a tônica era a marrentice juvenil aliada à agonia do passar do tempo (a clássica “Wetsuit” dizia: “If at some poit we all succumb, for goodness sake let us be young, because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done; with a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories, we all got old at breakneck speed, slow it down, go easy on me…”), agora, o que se sente é que a perspectiva de envelhecer ainda perturba muito (só a eles?), mas há nela a aceitação do inexorável, como em “No Hope”, a faixa – concorrente a hino da juventude – que abre o disco: “(…) ‘cause when you’re young and bored at 24 and you don’t know who you are no more, there is no hope (…) and it’s hard to come of age, I think it’s a problem (….) and I hope it’s just a phase, well, I’ll grow”.

Porém, assimilado o susto (e ainda que com algumas recaídas pueris, como em “Teenage Icon”), o que se vê é a consciência de que a adolescência deu lugar à consciência de problemas ainda maiores – desculpa, não quero parecer excessivamente pessimista, mas assino embaixo…

Em uma das faixas mais bonitas, “I Always Knew”, se fala de paciência, um dos elementos mais importantes da vida adulta: “(…) I’m hanging on to what I don’t know, so let’s go to bed before you say something real, let’s go to bed before you say how you feel ‘cause it’s you, it’s always you, I always knew”.

Na mesma toada, em “Aftershave Ocean”, com plena maturidade, se assume que a pessoa amada é idolatrada, ainda que se saiba que não deveria ser assim: “but you are pulling the world over, wouldn’t you rather know that I am overindulging you, it’s so easy though”.

Algumas das faixas seguintes, porém, como “Weirdo” (“I know I’m fucking moody and I know I’m quite unkind, I know I’m kinda of distant, but you’re always on my mind”) e “Bad Mood” (“but I get angrier with age, better to be ready if you rattle my cage”) retomam o tom ranzinza e marrento que só os jovens (e os Vaccines) sabem dar…

Porém, a faixa que fecha o disco, mata a questão: eles – e alguns de seus ouvintes – cresceram e cansaram de botar banca além do necessário; eles – e a gente – querem uma pessoa bacana ao lado – quem sabe um amor antigo, como na música –; e um alívio para este mundo adulto que pode ser tão duro: “I knew where you were, it was perfectly obvious, I was uncomfortable playing it cool and I feel like I have always known you; I can’t recurse and I thought you had questioned it, young in the night when we stare at the rest of it, don’t forget, Lord I know: I will hold you close, ‘cause it is a lonely world, but would you want me too, cause it is a lonely world”.

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Sexy

Já dizia Arnaldo Antunes: existe “música para subir serpente; música para girar bambolê; música para querer morrer (…) música pra fazer sexo; música para fazer sucesso (…)”.

Música, para seus apreciadores, é, portanto, o pretexto para se aproveitar determinadas ocasiões – ou, em outras palavras, é aquilo que embala circunstâncias diversas.

Falemos, então, de diversão. De música para esquentar a temperatura ambiente, para empolgar os mais tímidos corações. Nada mais propício, em tais ocasiões, do que a nova sensação do hip-hop indie: TNGHT.

Esta banda, formada por Lunice (de Montreal) e Hudson Mowhawke (de Glasgow), já se apresenta como um dos nomes mais promissores para tais propósitos, e lança seu primeiro EP, TNGHT – EP – de apenas 16 minutos –  com a (má) intenção de se fazer lembrada em momentos de pura curtição; é sacana e sacolejante como um funk carioca, mas vai ainda além.

Ali, basicamente não há letras; em seu lugar, batidas irresistíveis e, por que não, perversas…a malícia permeia todas as faixas – mesmo sem palavras.

Se, na primeira, “Top Floor”, há apenas o esquenta para a balada, nas duas faixas seguintes o termômetro sobe – sem que, para isso, letras à la Tati Quebra-Barraco sejam necessárias. “Goooo” e “Higher Ground” nada falam, mas tocam lá no fundo. São irresistíveis.

 

Bugg’n’”, a próxima, pisa um pouco freio, sem deixar, contanto, de escapar do espírito malicioso; pense em uma música para fazer qualquer um se aproximar de outro alguém… pois é.

Por fim, “Easy Easy” inicia com uma ode: “drink, drink, drink….” e, com a mesma  intenção, se mantém até o final: sintetizadores são o motor da vontade de mexer as cadeiras… de beber mais um drink e não pensar no amanhã.

Às vezes, é só disso que se precisa. Sei que hoje ainda é segunda-feira, mas aproveite – e tome bastante água amanhã.

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Passeios solitários

PARIS – Certas obras artísticas, sejam elas musicais, visuais, etc., têm o poder de fazer o tempo do espectador parar. Provocam sensações tão intensas naqueles que as experimentam, que, por instantes, não se percebe mais nada; só aquele quadro, aquele som. Somos transportados para dentro da obra.

Edward Hopper (1882-1967), um dos nome mais importantes da pintura norte-americana do século XX, tem o dom de fazer isso.

“Nighthawks”

Sua obra é normalmente associada à solidão de personagens frente ao materialismo da sociedade estadunidense do início do século XX. Em grande parte de seus quadros, não há mais do que uma, ou duas pessoas. Cada uma delas (as prostitutas em quartos de hotéis, os casais silenciosos em lanchonetes, os transeuntes em esquinas vazias) é uma metáfora de seu tempo; representa a um só tempo com realismo e simbolismo a falta de perspectiva no horizonte – especialmente da classe média-baixa daquele país.

Mesmo quando retrata apenas paisagens, ou construções, a luz que imprime nas obras porta consigo uma certa tristeza; um ar frio.

“House by the Railroad”

Hopper passou alguns dos primeiros anos de sua vida artística em Paris; ali chegou em 1906. Considerava tal cidade “bela e elegante”, comparada “à desordem brutal” de Nova Iorque. E foi para lá, 45 anos após sua morte, que voltou: mais precisamente, para o Grand Palais, em uma das maiores exposições já feitas em sua homenagem.

“Chop Suey”

A mostra é dividida em duas seções principais: os anos de formação do artista (1900-1924), em que suas obras são contrapostas às de outros artistas contemporâneos, bem como a quadros daqueles que o inspiraram em sua passagem por Paris; e a segunda parte, em que vemos seus trabalhos mais emblemáticos, que formam um todo de estilo único. É possível também apreciar algumas de suas gravuras, as quais, em preto e branco, são verdadeiras jóias, de beleza comovente

“Night Shadows”

“Night on a Train”

e, por fim ainda sua influência na obra de outros artistas (como o cineasta Wim Wenders).

Como todo trabalho genial, seu legado é eterno, atemporal; e seus quadros podem ser revisitados, hoje, em muitas esquinas, seja qual for o lugar.

“Morning Sun”

* este post é (mais uma) singela homenagem àquele que me desvendou a beleza da arte de Hopper.

(Edward HopperGrand Palais, Galeries nationales, Paris, França. Curadoria de Didier Ottinger, diretor assistente do MNAM – Centre Pompidou. De 10 de outubro de 2012 a 28 de janeiro de 2013).

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Chegamos ao fim

Convenhamos, não há nada pior do que tomar um pé.

Menos pior, mas ainda assim terrível, é constatar que uma paixão acabou – e que nada mais há a se fazer. Tantas noites gastas, tantos copos sujos, tanta conversa jogada fora…

Mas, se serve de consolo, uma hora ou outra – uma só vez, ou várias – isso acontece com todos nós.

Depois do fim de um relacionamento, primeiro a gente bebe – já dizia Cartola: “procuro afogar no álcool a sua lembrança, mas noto que é ridícula a minha vingança” – depois nos sentimos a última das criaturas do mundo, mas, então, chega um dia em que damos gargalhadas e pronto.

Nessas horas, depois da fossa, chega o momento de sacudir a poeira e usar a raiva para seguir adiante.

E, para quem precisar de uma ajuda instantânea, a “Coletânea TRAAA! – Uma coletânea tapa na cara!”, da querida Musicoteca está aí para dar uma força.

Mais uma bola dentro da Musicoteca

Ali, assim como naquelas horas, há momentos deprês, raivosos (e vingativos) e outros ironicamente engraçados.

Na coletânea em questão, tais momentos se alternam maravilhosamente bem, traduzidos em palavras e sons por alguns dos artistas preferidos do re.verb, como 5 a Seco (“Gargalhadas”), Karina Buhr (com a deliciosa “Não me ame tanto”: “Não me ame tanto, eu tenho algum problema com amor demais, eu jogo tudo no lixo”), Bárbara Eugênia (“O Tempo”: “mas o tempo é um amigo precioso, que fica sempre observando aquele instante em que alguém tentou se aproximar”), SILVA (“Imergir”: “navios dizem recomeço, do mar ninguém chegou ao fim, eu vou deixar seu nome imergir”), etc.

Ela começa com Marcela Bellas, “Por Favor”, em um momento tristonho, com sentimento confusos, típicos de um momento pós-briga derradeira: “Arrume as malas com o que for seu, por favor, deixe pra trás o que eu fiz por merecer e as garrafas de licor”; fica um pouco mais autoconfiante na seguinte, em “Açúcar ou Adoçante”, de Cícero: “mas se você quiser alguém pra amar, ainda, hoje não vai dar, não vou estar, te indico alguém”.

Mas, então, o clima vai melhorando, fica bem de novo com o sambinha “Roupa do Corpo”, de Filipe Catto: “no caminho da rua, sambei meia hora em cada esquina, entrei num boteco, fiz doze amigos do peito e da pinga, eu bebi e subi em cima da mesa, dizendo ‘seu moço, traz mais uma gelada, que a nêga aqui hoje teve alforria’” e o forrózinho “Animal” (Mula Manca & A Fabulosa Figura).

Como ninguém é de ferro, momentos de recaída – quando bate uma saudade insuportável – também são permitidos: o rockzinho brega “Não Quero Te Agredir” (Validuaté) diz: “Vá, que ter saudades faz um bem danado, e assim que o coração fica apertado, e lembra novamente o que é o amor (…) e quando meu peito compreender que não tem jeito, eu mandarei um moto-táxi te buscar”.

No final das contas, o que realmente importa é que tudo termine, literalmente, com “Gargalhadas” (5 a Seco): “Pra que buscar recaída, reviver o drama, mexer na ferida? Por onde se engana o coração, se encontra saída pra vida”.

Baixe a Coletânea aqui – e bola pra frente!

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Dear Jack

“Às vezes, acho que sou um cara simples, mas acho que a verdade é que sou um cara realmente complicado, tão simples como gostaria de ser”.

A frase é de Jack White, um dos maiores guitarristas e rock stars da atual geração, quem, depois de se lançar, junto com Meg White, na saudosa White Stripes (com direito a um dos melhores álbuns do rock alternativo recente, Elephant), perambulou por outras bandas e projetos (como Raconteurs e o sombrio Dead Wheather) e lançou, finalmente, seu primeiro álbum solo: Blunderbuss.

O nome do álbum remete, primeiramente, a uma espécie de espingarda, utilizada para caça. Talvez advenha justamente de tais searas a naturalidade com que Jack lança mão da brutalidade, ou visceralidade, em suas letras. Pensando melhor, Jack sempre foi assim; jamais se esquivou da intensidade de suas emoções – o que não necessariamente implica obras autobiográficas, mas, antes, letras sinceras às emoções arrebatadoras que afloram e fluem nos melhores artistas (como ele).

Logo na abertura do disco, na ótima “Missing Pieces”, Jack fala do amor como algo que faz seu nariz sangrar; que arranca seus braços e suas pernas. Depois, explica: às vezes, alguém controla tudo sobre você, e quando diz que simplesmente não pode viver sem você, não está mentindo; ele vai tirar pedaços de você, e vai ficar por cima e ir embora, levando consigo uma parte sua. (Dadas as devidas proporções, é praticamente uma versão rock’n’roll da crua – e cruel – “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque.)

Lançando o foco ainda na faceta sombria e fisicamente dolorosa do amor, o primeiro single lançado (e uma das melhores letras do álbum), “Love Interruption”, fala da batalha travada entre a sanidade – física e mental – e a paixão: “I want love to roll me over slowly, stick a knife inside me, and twist it all around. I want love to grab my fingers gently, slam them in the doorway, put my face into the ground (…) I won’t let love disrupt, corrupt or interrupt me”.

Mas, não se engane, o (ótimo) disco, ainda que sempre permeado por uma certa névoa de desilusão, vai muito além. Blunderbuss também nos serve como um túnel do tempo do rock americano; das raízes indeléveis do blues (sempre presentes nos trabalhos do artista, e mais ainda em faixas recheadas de um baixo envolvente, como “Trash Tongue Talker”), passando pelo folk (como em “Hypocritical Kiss”), pelo rock dançante dos anos 50 (como na incrivelmente deliciosa versão cover de “I’m Shakin’”, de Little Willie John).

Há também bastante country, como na faixa que dá título ao álbum: “You took me to a public place to quietly blend into (…) I laid you down and touched you like the two of us both needed”; ou ainda em “Hip (Eponymous) Poor Boy” que poderia bem ter sido escrita para sua antiga companheira de White Stripes, Meg White, de quem herdou o sobrenome famoso: “So I get into the game, but always keep it the same and I’ll be using your name, but they’ll be yelling at me: ‘poor boy, poor boy’, but I’ll be happy for you, ‘cause you got nothing to do and I’ll be singing the blues, walking around and singing”.

Philipp Ebeling, the Guardian

E, claro, há rock moderno e pesado, como o amor adolescente retratado em “Sixteen Saltines”: “She’s got stickers on her locker and the boy’s number’s there with magic marker, I’m hungry and the hunger will linger, I eat sixteen saltine crackers then I lick my fingers”; e ainda, para os nostálgicos, uma abertura que em tudo remete ao clássico “Seven Nation Army”: se fecharmos os olhos, o riff de “Freedom at 21” – música que fala sobre a liberdade (?) de uma garota nos dias atuais – em tudo lembra aquele.

Trata-se, enfim, de um belo disco que, acima de tudo, canta uma ode ao rock; seja em suas influências, ou na potência de suas letras e melodias. É uma baita obra, digna de um dos (únicos) guitar heroes de nossa geração.

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O passar do tempo – como música

É uma narrativa frenética. Um sucessão de acontecimentos, aparentemente desconexos; mais parece um colar de contas, no qual cada pedrinha é solitariamente bonita por si só. Mas, não, é mais.

Aos poucos, as narrativas (e personagens) vão se encaixando – cada novo capítulo apresenta uma relação, ainda que tangencial, com o anterior.

É, portanto, um conjunto precioso de capítulos que se encadeiam como miçangas coloridas em um cordão; é um retrato da contemporaneidade que tem como fios condutores o passar do tempo e a música – precisa mais?

Falo do grande livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan (Editora Intrínseca) – vencedor do Pulitzer de 2011.

Ali, o que se tem é uma concatenação desenfreada de histórias de personagens que, mesmo tendo alguma relação entre si – por vezes tão irrelevantes como aquelas que, dizem, temos todos nós usuários do facebook – remetem a algo maior, na medida em que se dispõem sobre um pano de fundo comum: o inexorável passar do tempo.

É como se a música, com sua intrínseca sucessão de notas e intervalos, representasse a vida: em ambas, o passar do tempo é a um só tempo inevitável e essencial para a evolução da história – ou do som.

Ao longo dos 13 capítulos, sempre permeia uma certa nostalgia, deliciosamente aliada aos bons tempos em que rock’n’roll e displicência pareciam indispensáveis à vida de qualquer um.

Mais do que isso, A Visita Cruel do Tempo é ousado a ponto de nos oferecer cada capítulo como uma obra nova: seja na forma – que, por vezes, adquire uma lírica poética, com digressões e descrições demoradas; e em outras é puramente gráfica, esquemática, como no emblemático “capítulo power point” que é o 12, “Grandes pausas do rock and roll” – ou na perspectiva a partir da qual se constrói o argumento central: as narrativas passam da primeira pessoa (do singular e do plural), para a terceira, tão naturalmente como uma garota troca de roupa.

Em meio a todas essas pedrinhas coloridas concatenadas entre si, há cruéis reflexões sobre as sensações e consequências (perdas, inclusive) do passar do tempo, como em “Adeus, meu amor”, Capítulo 11:

Mas cada decepção que Ted sentia com relação à mulher, cada ínfima murchada, era acompanhada por um espasmo de culpa. Muitos anos antes, ele pegara a paixão que sentia por Susan e dobrara ao meio, para não ter mais aquela sensação impotente de quem se afogava sempre que a via deitada ao seu lado na cama (…) Depois a havia dobrado ao meio de novo para que, quando sentisse desejo por Susan, este não viesse mais acompanhado por um medo aflito de jamais conseguir se saciar. Depois ao meio outra vez, para que o fato de sentir desejo não viesse acompanhado de uma necessidade imediata de ação. E ficou tão pequeno que Ted podia guardá-lo dentro da escrivaninha ou de um bolso e esquecê-lo, e isso lhe dava uma sensação de segurança e realização, de ter desmantelado um aparato perigoso que poderia ter destruído a ambos.

Incansavelmente mais cruel é “De A a B” Capítulo 7, sintetiza a angústia de toda uma geração – a nossa:

Eles eram jovens, tinham sorte, tinham força – por que se preocupar? Se não gostassem do resultado, podiam voltar e recomeçar tudo de novo. E agora Bosco estava doente, mal conseguia andar, e planejava de maneira febril a própria morte. (…)

– Se você tivesse me perguntado hoje de manhã, eu teria dito que estávamos acabados – disse ele. – Todos nós, o país inteiro… porra, o mundo inteiro. Mas agora estou sentindo o contrário.

Stephanie sabia. Praticamente podia ouvir a esperança corer pelas veias do irmão.

Então, qual é a resposta? – indagou.

É claro que está tudo terminado – disse Jules. – Mas ainda não.”

(A Visita Cruel do Tempo, “A Visit From the Goon Squad”, de Jennifer Egan, Editora Intrínseca, 2011)

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Isso é amor?

É um daqueles amores de carne e de alma – ou, se preferir, uma paixão em que a carne fala tão alto, que até a alma crê que é amor.

Quem nunca teve, oxalá um dia terá. Nos que já experimentaram, ficarão, para sempre, cicatrizes – tatuagens.

Não é tema novo, tantos gênios já o tentaram decifrar… em prosa, em verso, ou em som… e já foi retratado – maltratado – mas nunca decifrado até o fim. – Ainda bem, se não não teria tanta graça o reviver, tantas e tantas vezes.

Esses dois livros de que falo hoje, versam justamente sobre o assunto – sem, contudo, chegar a uma conclusão final.

Ambos, entretanto, concluem o mesmo: há amores que avasssalam, destroem a vida, e que fazem o amante viver – a vida toda – em órbita, ao redor do outro. Mas, a despeito de todo o sofrer, inquestionavelmente vale a pena; e, assim, a força que fazem perenes as sensações não é óbvia; é insensata, é inexplicável – infinita e irracional.

Por isso, desta vez, falo sobre obras que não são novas, mas que não deixam de ser atemporais: Travessuras da meninas má (do nobel Mario Vargas Llosa) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (de Marçal Aquino, que terá sua versão cinematográfica lançada no próximo dia 20 de abril).

Em ambas, há a paixão incondicional – carnal e sobrenatural – dos dois protagonistas: de Ricardo pela “menina má”, no primeiro; e do fotógrafo Caiuby pela linda Lavinia, no último.

Seja em Miraflores, Paris, Londres, Tóquio ou Madri – como no romance de Llosa – ou no coração do Pará, como em Aquino, o que fica é a devoção, tantas vezes unilateral, de um homem por uma mulher.  É uma adoração quase religiosa pelo ser desejado – a qual, garanto, é mais comum do que se imagina; seja o amante macho, ou fêmea.

E o que fazer quando um turbilhão assim arrebata qualquer senso de razão? Sucumbir nunca parece a escolha mais sensata, mas, na maioria das vezes é o desfecho inevitável. E, ao se deixar de resistir, como levar adiante a vida que resta – em outras palvras, como suportar a vida sem a pessoa amada? A morte nunca pareceria tão próxima.

Peço desculpas pela falta de objetividade ao falar de ambos os livros, porém, quando alguma obra nos faz de fato sentir, nas personagens, a dor – já sentida em nós leitores – nos resta apenas recomendar a leitura – e torcer para que, pelo menos em alguém, a dor real doa menos ao final da última página da ficcção. Ou, para aqueles insensíveis, fica o alerta.

Travessuras da meninas má (Mario Vargas Llosa, Editora Alfaguara) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Marçal Aquino, Editora Cia. Das Letras)

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Habemus Metus

E quem nunca se sentiu como este papa, interpretado de forma comovente por Michel Piccoli, na surpreendente produção franco-italiana “Habemus Papam?”, de Nanni Moretti.

Cidade do Vaticano. Após a morte do carismático papa João Paulo II, 108 cardeais designados para eleger o novo pontífice rumam para a Capela Sistina, para dar início a um dos mais misteriosos rituais do catolicismo: o conclave, cerimônia realizada a sete chaves e que culmina, obrigatoriamente, na nomeação de um sucessor para o posto máximo de liderança da Igreja.

Após sucessivos jatos de fumaça preta – indicando que a escolha continua incerta – e muitas discussões entre os cardeais, o telespectador presencia uma votação que, apesar de mexer com a vaidade de 108 seres humanos, parece representar um grande fardo aos potenciais candidatos. As preces silenciosas de cada indicado clamam pela escolha de um papa que não seja ele próprio, e pela isenção daquela responsabilidade que, pensam, está acima de suas vocações e abaixo de seus anseios. Os cardeais escolhem, então, o idoso francês Melville para dar início ao novo pontificado que, assim como os demais, não se sentia a altura daquela missão.

Como, afinal, aquele que deveria honrar os valores de humildade e simplicidade, poderia se convencer, por uma eleição, de que seria o melhor qualificado para representar o elo entre Deus e seu povo? Mais ainda, liderar este povo pelo caminho de Deus?

Traçando um paralelo com a nossa vida cotidiana, quem não se sentiu, por vezes, desafiado por uma nova missão e encheu o peito para encará-la, usando uma coragem que nem sequer sonhava deter? Quem nunca, nem por um tempinho, pensou em recuar ou sentiu-se incapaz de suportar algum fardo? Ou, ainda, quem sofreu a angústia de não ter recuado enquanto era tempo de resguardar sua própria paz?

Após a eleição, Melville sente o peso de sua responsabilidade e, ao se aproximar da varanda da Basilica di San Pietro, diante de milhões de fiéis, onde o mais velho dos cardeais leria o texto (habemus papam) anunciando o novo pontífice e marcando o início de um novo papado, nosso protagonista, sentado e acuado como se fosse a última presa do mundo, leva as mãos à cabeça, desmontado diante de sua obrigação. Então, grita. Mas grita de uma forma tão comovente e desesperadora, que, por um momento, esquecemos que estamos diante de um cardeal idoso e sereno, que, como faz crer a personagem, dedicou a maior parte de sua vida à sua vocação e à devoção a Deus.

É neste contexto que os 107 cardeais eleitores, aguardando esperançosos a recuperação do papa e preocupados com a angústia dos fiéis diante da indefinição do papado, designam um psicanalista para decifrar a crise de pânico que assola o Vaticano. No meio tempo, os cardeais se entregam a jogos infantis para correr com as horas; então, percebemos que há naqueles homens sentimentos comuns a todos os demais, como inveja, competitividade, preguiça e noites mal dormidas – carregadas de ansiolíticos.

Não obstante, apesar de brilhante em vários aspectos, principalmente dos pontos de vista dramático e ideológico, são visíveis algumas inconsistências no roteiro e na condução das personagens secundárias. O psicólogo (interpretado curiosamente pelo diretor Nanni Moretti) ao ser colocado de lado na missão de analisar o papa, passa a organizar um torneio de vôlei entre os cardeais. Ocorre que, apesar de proporcionar seqüências bem humoradas e que trazem leveza ao drama do papa perdido, o torneio não tem qualquer relevância para o longa, e deixa evidente a perda de rumo da personagem do psiquiatra, que tinha grande potencial no início.

Por outro lado, o que poderia ser um temor passageiro de um ancião confuso, toma proporções patológicas impensáveis. O papa foge, vagando pelas ruas de Roma e, distante do Vaticano e de seus companheiros de batina, acaba buscando o sentido de sua própria vida em meio à sua confusão mental. É nesta sequência de cenas que o brilhantismo de Piccoli consegue tocar o espectador de forma ainda mais profunda, ao dar vida a uma personagem tão humana e frágil que emociona por sua complexidade.

Tendo em mente um cardeal, que chegou ao estágio máximo de sua vida religiosa, mas está vagando absorto em pensamentos pelas ruas da capital italiana, respondamos a seguinte pergunta: quem de nós, de tempos em tempos, não precisa mudar de rumo? Sair de cena, vagando pelas ruas da sua própria vida, encontrando o seu mundo em outro lugar?

Não vou contar aqui o final do filme, esperando que a sua curiosidade o carregue pelas reflexões que “Habemus Papam pode proporcionar.

É evidente que muito se espera de um papa, como líder religioso e como ser humano. Da mesma forma, mas talvez em menor proporção, muito é esperado de nós também, em nossos trabalhos, em nossos relacionamentos, em nossos estudos. Grande parte deste “muito” conseguimos corresponder diariamente, com dedicação, com esforço e abrindo mão de alguns de nossos desejos.

Mas e aquilo ao que não conseguimos corresponder? Melville pode ser considerado um fraco por resistir à missão que lhe foi confiada, mas não há, de fato, coragem naquele coração que assumiu sua própria fraqueza e seguiu o rumo das suas próprias crenças?

(Habemus Papam, de Nanni Moretti, 2011)

 


 
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Bom pra cachorro

Estranhamente, às vezes nos esquecemos do óbvio: de como um fim de semana com amigos relaxa, do quanto comidas gostosas alimentam a alma, de que beijar muito na boca faz bem. Cada vez mais, esquecemo-nos também do quanto a boa música pressupõe letras e músicas feitas com carinho.

Acostumamo-nos a deixar pra lá a reverência à qualidade, a ode à canção, em prol de ritmos dançantes, refrões pegajosos e letras banais – particularmente, tenho muita preguiça das discussões que argumentam a favor do fim da canção; a canção não acabou, ela só é cada vez mais rara… mas isso não vem ao caso.

De fato, muitos artistas subestimam o ouvinte, pregando que o popular é incompatível com complexidade de sons e letras; que temas contemporâneos se casam apenas com superficialidade. (Uma pena.)

Por essas e outras razões, ouvir 5 a Seco (finalmente em CD, ao vivo, no Auditório do Ibirapuera) não apenas é um alívio, como uma esperança. Garotos de vinte e poucos anos, em plena era digital, escolhem simplesmente resgatar a beleza; não andam pelo caminho mais fácil, mas por aquele em que acreditam: música boa independe de idade, mas pressupõe requinte no som e qualidade.

Poucos conseguem amarrar com tamanha precisão temas jovens, como um amor nascido da balada, com sonoridade sofisticada – “tá tudo bem, finjo que nem sei o seu nome, e nem quero saber, mas se pensei a semana inteira em te rever deve ser um acaso qualquer (…) tô querendo te conhecer, te vi na balada lá nos cafundó, tô querendo mais de você”, como em “Tatame” –; ou ainda música boa com expressões mundanas: “yes, we can! Suave na nave, sem vacilo nem vintém”, como em “Ou Não”. (Nesta última, inclusive, vemos um exemplo de seu diálogo com raízes da música brasileira “das antigas”, com a participação de Lenine nos vocais).

Aliás, se são credenciais de sucesso que farão você escutar esses meninos, ressalta-se que há também outras participações de peso, como Chico César (em “No Dia em que Você Chegou”) e Maria Gadú (“Em Paz”).

Posso até ser suspeita, já que acompanho e admiro esses garotos desde sempre – desde de os tempos do maravilhoso hit do meu querido Tó Brandileone, “Pra Você dar o Nome”:

Deixa pra lá, que de nada adianta esse papo de agora não dá, que eu te quero é agora e não posso nem vou te esperar, que esse lance de um tempo nunca funcionou pra nos dois.

Sempre que der, mande um sinal de vida de onde estiver desta vez, qualquer coisa que faça eu pensar que você está bem, ou deitada nos braços e um outro qualquer, que é melhor…

Do que sofrer de saudade de mim como tô de você, pode crer, que essa dor eu não quero pra ninguém no mundo, imagina só pra você

Quero é te ver dando volta no mundo indo atrás de você, sabe o quê, rezando pra um dia você se encontrar e perceber que o que falta em você sou eu

mas meu compromisso com o reverberar dos bons conteúdos não me permitiria aclamar algo que não achasse digno de aplausos. E, não se engane, 5 a Seco merece mais do que uma salva de palmas; é, na minha opinião, o que de melhor há na música brasileira atual; simples assim.

A quem duvide, desafio a escutar e baixar (de grátis) o álbum, aqui. Garanto que vale a pena – e, para aqueles que já os conhecem, re-transmito a notícia de que, finalmente, é chegada a hora de carregar os meninos em nossos respectivos iPods.

Afinal, musica boa é aquela que, de tão boa, te faz dar “Gargalhadas”, ou, melhor ainda, ficar “Feliz Pra Cachorro”:

desde que te vi, que o chão não tem fundo, que o céu não tem forro, cantarolo e morro de rir (…)

Pensa num cara que anda contente pra burro, mas pensa um burro contente que nem um sagüi, desde que te vi (…)

Todo contente que nem são os gols de chaleira, a zaga inteira batida e o goleiro no chão, desde que te vi, não tem enjoeira, nem segunda-feira, ou canseira no meu coração.

Tão raro de se ver, param pra dizer para eu ser feliz pra lá, peraí, o que é que há, quero ver quem vai me impedir de sorrir do Pari até o Pará”.

5 a Seco faz isso; te satisfaz com boa música e te faz sorrir. Precisa mais?

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Guerra e Paz

O Memorial da América Latina, em São Paulo, é a morada temporária dos painéis Guerra e Paz, de Cândido Portinari, até 21 de abril, quando partirão para outros estados brasileiros até retornarem aos Estados Unidos, em agosto de 2013.

A exposição é uma oportunidade única para conhecer e admirar o melhor trabalho já feito pelo pintor paulista de acordo com….ele mesmo! Portinari levou quatro anos para concluir os painéis (de 1952 a 1956), que foram encomendados pelo governo brasileiro e presenteados a sede da ONU, em Nova York.

Monumentais (14 x 10m) e dotados de uma complexidade genial, os painéis retratam dois extremos da desgraça e da esperança humana: a destruição causada pela guerra e a bem-aventurança da retomada da paz.

A exposição traz, ainda, diversos estudos e quadros do pintor que serviram de base para a composição dos painéis – nem o próprio Portinari chegou a vê-los em conjunto. Apesar de a mostra sugerir que o visitante inicie seu tour admirando os gigantes Guerra e Paz, descobrir inicialmente seus pequenos trechos ajuda a captar as minúcias do pintor, a emoção de cada cena desenhada na obra final e, ainda, a entender a dor e a esperança que compõem o contexto das obras.

Contemplar o painel Guerra nos remete a um cenário de morte iminente, de desespero diante da impotência que nos rege face à barbárie humana. Paz, por sua vez, traz diversos elos que sugerem fraternidade e leveza e por que não dizer que nos traz a própria paz ao admirá-lo.

“Diante destes choros, destes cavalos marinhos, que falam ao mar profundo de minh’alma, me sinto em estado de absoluta inibição crítica. Tudo que posso fazer é admirar.” (Manuel Bandeira)

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