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Dave Brubeck no Mundo da Lua

Dave Brubeck: o hipster que eu ouvia quando começava O Mundo da Lua.

Antes eu ía escrever só um post bem tristonho, afinal hoje morreu um músico e tanto. Um cara importante pro mundo e pra mim. Aí eu lembrei que ele era importante pra mim de um jeito engraçado,  que não deixa de ter a ver com a coisa mais importante que ele fez em sua trajetória musical. Eu tô falando do Dave Brubeck e do Time Out.

Time Out

Eu lembro da primeira vez em que vi e ouvi esse álbum, e não tinha outra definição que não fosse “obra de arte”. Da capa de Neil Fujita às composições em 5/4 e 9/8 (para ficar só em Take Five e Blue Rondo à la Turk) não tem nada no disco que não transborde harmonia estética. Isso muita gente percebeu, já que esse foi o primeiro álbum de jazz que vendeu mais de 1 milhão de cópias. Mas teve uma coisa muito engraçada que eu senti quando ouvi o Time Out pela primeira vez e não teve nada a ver com a grandiosidade da obra, mas com a pequeninice da minha infância. A segunda faixa do lado A do disco, Strange Meadow Lark, me soava incrivelmente familiar: abertura do seriado da TV Cultura, Mundo da Lua. Aquele mesmo do Lucas Silva e Silva que falava diretamente do mundo da lua, onde tudo pode acontecer.

Não lembra? Esse aqui ó:

E a música do Brubeck Quartet é essa aqui (dá pra perceber bem lá pelos 6:50):

Eu não tenho formação musical, minha audição é bem relativa, mas no instante que eu ouvi essa música pela primeira vez eu lembrei daquele menino que guardava suas memórias num gravador. Não achei nenhum registro sobre o tema da série, nem sobre seu autor, pra checar essa loucurinha minha, mas não importa…

Hoje eu estou triste porque morreu o primeiro grande jazzista que eu ouvi na vida, na abertura de Mundo da Lua.

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Votos de saudade

Os mais empolgados chamam-na de “festa da democracia”.

Os pessimistas de “o dia em que se faz muito barulho, para nada”.

Os entediados, quem sabe, reconheçam tal dia como “o dia de retomar o ritual bienal de voltar a um mesmo colégio, apertar números em uma mesma máquina (às vezes, os mesmos números), ouvir várias vezes o mesmo sonzinho, até surgir um imenso ‘FIM’”.

Há ainda uma outra categoria independente: os saudosos.

Estes enxergam tal dia quase como uma reunião de família à qual não poderão comparecer – por estarem longe de casa. Sim, reuniões de família podem ser muito chatas – a família toda reunida, mobilizada, todo mundo falando ao mesmo tempo, opiniões contrárias, um tentando convencer o outro de seu ponto de vista – e alguns, portanto, podem estar aliviados de estarem fora. Entretanto, mesmo estes, sabem que acontecerá, “lá em casa”, algo importante do qual não poderão participar.

Quem está longe de casa, portanto, sente a saudade bater mais forte nas horas em que há algum acontecimento intrínseco ao lugar – ou ao grupo, família, time de futebol… – do qual temporariamente se está afastado. É que, de longe, se vê formar um conjunto uno – hoje, por exemplo, uma massa de eleitores brasileiros – que se forma independentemente de sua ausência.

Quem descreveu com a perfeição de sempre tal sensação foi Vinícius de Moraes, quem, mesmo tantas vezes longe, nunca saiu de perto – e assim permanece. Em um feriado nacional, Vinicius escreve a seu amigo, um tal de Tom Jobim:

“Porto do Havre, 7 de setembro de 1964

Tomzinho querido,

Estou aqui num quarto de hotel, que dá para uma praça, que dá para toda solidão do mundo.

São 10 horas da noite, e não se vê viv’alma.

Meu navio só sai amanhã à tarde e é impossível alguém estar mais triste do que eu.

E como sempre, nestas horas, escrevo para você cartas que nunca mando.

Deixei Paris para trás com a saudade de um ano de amor, e pela frente, tem o Brasil, que é uma paixão permanente em minha vida de constante exilado.

A coisa ruim é que hoje é 7 de setembro, a data nacional, e eu sei que em nossa embaixada há uma festa, que me cairia muito bem, com o Baden mandando brasa no violão.

Há pouco telefonei para lá para cumprimentar o embaixador, e veio todo mundo ao telefone.

Estão queimando um óleo firme!

Você já passou um 7 de setembro, Tomzinho, sozinho, num porto estrangeiro, numa noite sem qualquer perspectiva? É fogo maestro!

(…)

Vou agora escrever para casa, pedindo dois menus diferentes para minha chegada. Para o almoço, um tutuzinho com torresmo, um lombinho de porco – bem tostadinho – uma couvinha mineira e doce de coco. Para o jantar, uma galinha ao molho pardo, com arroz bem soltinho, e papos de anjo. Mas daqueles como só a mãe da gente sabe fazer! Daqueles, que se a pessoa fosse honrada mesmo, só devia comer metida em banho morno, em trevas totais, pensando, no máximo, na mulher amada. Por aí, você vê como estou me sentindo; nem cá, nem lá!”

Bom voto a todos – este é o voto de uma eleitora saudosa.

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Obrigada (2)

Certo dia, ele me falou: “estava pensando sobre uma frase que me disse ontem, e cheguei à conclusão de que seria um bom epitáfio para muita gente”. A frase era: “um dia, ainda vou ter coragem”. Ele era Daniel Piza.

Conheci Daniel na sarjeta da Rua Augusta. Mais precisamente, em uma conversa de dez minutos depois de sua primeira aula do curso de crítica cultural, na Escola São Paulo, em 2010 – ao qual assisti, encantada; neste dia e em tantos outros.

Depois daquele dia, conheci melhor o Daniel professor, que arrebatava qualquer aluno – e especialmente as alunas – com seu brilho no olhar. Ao falar daquilo de que tanto gostava – cultura – carregava todos seus ouvintes para seu mundo: repleto de livros, histórias e idéias. Era um amante da beleza, estivesse ela em uma tela, em uma jogada de futebol, em uma nota musical – preferencialmente saída de um vinil, já que não gostava do som achatado do mp3 – ou simplesmente em uma palavra – achava linda, por exemplo, a sonoridade de palavras terminadas em “im”, como “alecrim”, “Diadorim”.

Daniel, jornalista, fazia questão de falar, de não passar despercebido. Tinha a missão de acrescentar ao banal seu toque pessoal, seus insights, seus aforismos sem juízo…para tanto, não tinha o menor receio de desagradar; fosse quem fosse.

Daniel, companheiro de cerveja, era um menino. Brincalhão, mas atento (divertia-se com opiniões contrárias: certa vez, discutimos acaloradamente sobre a qualidade de Marcelo Jeneci, quem ele achava “girlie demais”); simples, porém sofisticado (poucos conseguem falar sobre literatura japonesa depois de vários chopps).

Daniel, para mim, foi dentre tantas coisas a razão de existir deste blog. Por isto, este texto – o mais doloroso, que jamais pensei em escrever – não é o primeiro (tampouco o melhor) dedicado a ele aqui; a homenagem já estava feita desde sempre.

Este post, portanto, é só mais uma tentativa egoísta de amainar o vazio oco e surdo da perda. Ou, se preferir, é um simples agradecimento por tudo que fez, em tão pouco tempo, aquele que jamais carregará em seu epitáfio – tão absurdamente precoce – a tal frase com a promessa de coragem; porque esta nunca lhe faltou.

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O que você esperava?

Fazer aniversário causa diferentes reações nas pessoas: algumas se deprimem, outras caem de cabeça nas comemorações e só percebem que tem x+1 anos quando a ressaca passa, mas, seja como for, em momentos como estes, é difícil não se pegar pensando – ao menos por alguns instantes – na passagem do tempo.

Não, não tenho a menor pretensão de falar sobre Proust e sua busca do tempo perdido, mas uma música em especial, chamada “Wetsuit”, que faz parte de um álbum bacanérrimo lançado mês passado, ficou martelando na minha cabeça nos últimos dias. Ela começa assim:

If at somepoint we all succumb, for goodness sake let us be young,

Because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done

With a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories

We all got old at breakneck speed

Slow it down, go easy on me…

A banda em questão é uma das mais hypadas do indie rock atual, considerada o “novo Strokes” por alguns e nome confirmado para o Planeta Terra deste ano: The Vaccines.

Esses quatro londrinos que compõem a formação atual da banda surgiram ainda no ano passado e, como uma avalanche, rapidamente arrastaram multidões e arrebataram fãs e críticos com seu bom e velho rock (há vocais, guitarra, baixo e bateria; nada de barulhinhos esquisitos ou pirotecnias eletrônicas), letras pouco elaboradas, mas tremendamente verdadeiras e, principalmente, uma urgência para se fazer ouvido pelo mundo como há pouco se via – de fato, nesse ponto lembram o Strokes (principalmente na sonoridade – da bateria especialmente – de faixas como “If you Wanna” e “Wolf Pack”).

É como se, com toda sua pulsão juvenil, a única forma de extravasar angústias e mandar um recado ao mundo fosse com o auxílio de amplificadores. Não que os recados carreguem qualquer mensagem revolucionária, mas a forma como são bradados transmitem uma sinceridade difícil de se questionar. The Vaccines pode ser taxado de muitas coisas (pouco inovador, meio tosco, juvenil, quase pop…) mas, definitivamente, não soa fake.

Tamanha a comoção causada pela banda, seu álbum de estréia, lançado quase concomitantemente com Angles, do Strokes, traz já no título uma piadinha interna, uma provocaçãozinha que, de tão petulante fica engraçada: “What Did You Expect from The Vaccines?” – o subtítulo poderia perfeitamente ser: “e aí, vai encarar?”

Pois bem, o que esperava desses caras e o que o disco trouxe? Se alguém (?) esperava algo épico, a decepção deve ter sido grande… porém, se as expectativas eram no sentido de encontrar a mais nova “melhor banda de todos os tempos da última semana”, aí sim; porque “What Did You Expect…” é legal pra caramba.

Por exemplo: uma das faixas mais conhecidas – talvez por ser a mais atrevidinha – se chama “Post Break-up Sex” e fala justamente disso: os conflitos “existenciais” de quem quer esquecer o ex e, para tanto, se ajuda de outra pessoa (“Post break-up sex that helps you forget your ex/ What did you expect from post break up sex?”). Honesto, simples e sem qualquer presunção de profundidade – ainda bem…

E, claro, como não poderia faltar em uma banda surgida atualmente, olha lá o surf rock dos anos sessenta pintando de novo: em “Norgaard”, a faixa de menos de dois minutos que fala sobre a menina que tem apenas 17 anos – e que, provavelmente, ainda não está pronta – tem uma batida nitidamente influenciada por essa onda.

A mesma influência, ainda que presente essencialmente no título, está também na música de que falei acima, “Wetsuit” (a melhor do disco), e também na ótima “Family Friend” (“You wanna get young but you’re just getting older and you had a fun summer but it’s suddenly colder/ If you want a bit of love put your head on my shoulder, It’s cool”), que são desabafos a um só tempo raivosos e melancólicos – daqueles escritos em uma tacada só – que se prestam como uma tentativa de exorcizar aquela sensação perturbadora de que o tempo está passando rápido demais…

The Vaccines é, enfim, uma banda que emana juventude. Nada melhor para acalmar a aquele incômodo que perturba os aniversariantes – só eles?

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Paulistana Crônica

Uma tarde corrida de universitária pretensamente nostálgica. O livro foi encontrado na estante virtual, mas a oportunidade de buscá-lo diretamente num “sebo do centrão” como faziam meus professores-exemplo nas décadas de 70 e 80 não me deixava outra opção a não ser economizar o dinheiro do frete e descer a brigadeiro em busca do lado cult perdido.

A incursão pelas playboys amareladas e bolachões de vinyl unidos mais pelo tempo do que por alguma semelhança de estilo durou pouco.  Os trabalhos e leituras chamavam, e a vontade era de voltar a fuçar as prateleiras (bem) acompanhada. Ele tinha avisado que a estação mais próxima era a da Sé. “Você vai ver a Catedral”. Não teve erro. Ladeando aqueles muros enormes e cinzentíssimos, fui acometida por uma vontade incomum e provavelmente inédita: eu quis entrar.

Nunca fui uma grande católica e nem pretendia rezar um pai nosso. A última lembrança daquele lugar derivava de uma excursão escolar e o último sentimento era de terrível opressão ao olhar aquele pé direito enorme, mas hoje foi diferente. Ali eu estava em São Paulo.

A Catedral da Sé é grandiosa, mas não exatamente suntuosa. Lembrei logo da última – e mais impressionante – “grande igreja” que conheci. A Basílica Notre Dame de Montreal nos tira o ar com seus azuis e dourados, seu teto-pedaço-de-céu, seu órgão reluzente, a profusão de pinturas em suas paredes e seu indescritível altar a fazem parecer um grande teatro, preparado para uma ópera religiosa. A Sé não tem nada a ver com isso. Tudo lá dentro é cinza, há um enorme vazio. Quem olha pra cima vê tijolos e seu altar passa despercebido aos que estão nas últimas fileiras. É tudo São Paulo.

E é São Paulo também o gracioso colorido dos vitrais de quem sabe prestar atenção, o chão de maravilhosos mosaicos para quem olha os próprios pés. São Paulo também é esse monte de gente de joelhos e mão juntas que, no meio de tanto espaço, procura o seu lugar. São Paulo é esse lugar pra todos, mais pra um do que pra outros, esse lugar de procura. Foi naquele silêncio de igreja que eu me vi parte e todo disso. Me vi como a menininha pequena que fingia cair pra ficar mais tempo sentada na escada da igreja, atraída por essa coisa sem nome.

Saí debaixo de garoa… não sei se uma benção ou uma caricatura dessa cidade. E fiquei imaginando o quão bonito, bagunçado, perigos e plural estará  tudo aquilo nos dias 16 e 17 de abril. Vamos ver a cidade?

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Buenos Aires lado B

Quando pensei em escrever um post sobre Buenos Aires para o re.verb, logo pensei: quantos posts já não existem pela blogosfera, recomendando jantares na Cabaña Las Lilas, sorvetes no Freddo, passeios pela Recoleta e San Telmo, shows de tango no Café Tortoni e claro, para as mulheres ávidas por uma pechincha, dicas de compras até no Free Shop….?

Eu venho a Buenos Aires pelo menos 2 vezes por ano desde que me conheço por gente. Metade argentina, metade brasileira (porcentagens atualmente duvidosas, para um lado ou para o outro), tenho uma visão um pouco diferente da capital argentina e achei que seria interessante compartilhá-la.
Para mim, estar em Buenos Aires é, antes de mais nada, visitar a gigantesca família (incluem-se aqui 9 tios – e respectivos companheiros – por parte de pai, cada casal com seu mínimo de 4 filhos, os quais já estão tendo os seus próprios + 3 tios e respectivos por parte de mãe, com “apenas” 9 primos deste lado, família pequena se comparada ao clã de aprox. 40 netos do outro lado). Esta parte, claro, deixarei um pouco em off, para poupá-los dos momentos “Casamento Grego” pelos quais tenho que passar toda vez que venho pra cá.
 
Além disso, esta cidade pra mim tem muito mais do que simplesmente o roteiro clássico de turismo. Sei aonde ir para encontrar brasileiros e sei, muito bem, aonde ir para não encontrá-los de jeito nenhum.
 
Buenos Aires pra mim é ter que andar 30 minutos de trem para chegar à “Capital Federal”, ou seja, o centro: onde estão os bairros de Palermo, San Telmo, Recoleta e afins.

Minha família mora na província da cidade, bairros calmos e pacatos como Olivos, Martinez, San Isidro e Acassuso. Bairros que escondem jóias raras, ruelas de paralelepípedos, casas de tijolo aparente e barulho de crianças brincando em cada quintal. É o barulho da barreira que fecha para o trem passar. São os kioscos lotados de tentações que fazem qualquer adulto querer voltar à infância e comer doce antes do jantar: Mantecol, Vauquita, Tita, Rodesia, Cabsha, Marroc…. Havanna aqui é fichinha.
 
Freddo pra mim é lugar de sorvete bom, mas extremamente overrated. Sorvete bom é sorvete de bairro: Arnaldo, Via Flaminia… Aqui não se pede pelo tamanho da casquinha. Se pede por fração de quilo, e se come inteiro sozinho. Se for a combinação doce de leite + frutilla a la crema, melhor.
 
Ver a profusão de Starbucks pela cidade me dá arrepios. Café em Buenos Aires é algo pra se apreciar sentado numa mesa na calçada, observando as pessoas que passam e falam alto e com as mãos. É algo pra apreciar na companhia de uma boa e gordurosa factura, de preferência as clássicas medialunas de grasa.

Alfajor de maizena

Buenos Aires é uma cidade plana, perfeita pra andar de bicicleta com um cestinho na frente e uma buzina pra fazer charme. Mas, se por acaso for pra pagar um taxi ou remise (serviço de taxi sem taxímetro), que venha com um motorista que reclame bastante da irritante presidenta. Taxista quietinho não serve.

Vespinha fazendo charme na rua

BA pra mim é isso e mais. Muito mais que não caberia jamais em um só post, tanto, mas tanto, que não cabe nem só em palavras.
 
Quem quiser conhecer mais da minha Buenos Aires lado B, estamos en contacto, che.

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Ilha Desconhecida

 

José Saramago é daqueles autores que parecem domesticar as palavras; é como se ele ordenasse e elas dessem piruetas, correndo de um canto a outro, até se organizarem do modo exato para dizerem sintética e plenamente aquilo que ele queria.

Saramago também é capaz de encapsular, em um número mínimo de palavras, idéias e conceitos tão difíceis de se explicar – como os melhores poetas (nem de pontuação ele precisa!). Ele molda os versos – ainda que em prosa – como os palhaços torcem e retorcem aquelas bexigas compridas em festas infantis: quando menos se espera, faz-se um poodle, uma espada; a mensagem aparece.

Faz mais ou menos cinco anos que, diante da minha angústia em relação a qual caminho profissional seguir, uma pessoa querida me disse apenas: “você não precisa decidir agora; mas no meio tempo, leia este livro”. Era O Conto da Ilha Desconhecida.

Neste conto pequeno e precioso, o que temos é um sujeito que, resoluto, bate à porta do rei (mais precisamente, à “porta dos obséquios”) e não arreda o pé dali, por três dias, enquanto não recebe um barco.

“E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou (…) Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, (…), A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já na há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas”.

Mais tarde, ao capitão, quando perguntado se sabia navegar, ele responde “Aprenderei no mar” e, para tanto, pede um barco que “que eu respeite e que possa respeitar-me a mim”.

Além do barco, para ir à procura de uma ilha onde nunca ninguém tenha desembarcado, o rapaz ganha a companhia da mulher da limpeza do palácio do rei, que, ao presenciar a história toda, resolve embarcar na jornada – e olha que ela sai decidida, sai pela “porta das decisões” do palácio.

Sem me prolongar muito na história – que, recomendo veementemente, seja lida, e relida inúmeras vezes – hoje vejo que o que aquela pessoa querida gostaria que eu enxergasse com o livro – para além dos quase lugares comuns de que cada um deve trilhar seu próprio caminho e de que a descrença alheia, no final das contas, pouco importa –: é que essa busca de fato leva tempo.

E não poderia ser diferente, já que a procura pela ilha desconhecida é a procura por si mesmo:

“(…) quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes [?], Se não sais de ti, não chegas a saber quem és (…) Que é necessário sair da ilha pra ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós”.

 

Bora tacar nossos barquinhos no mar?

(O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago, Companhia das Letras)

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Um dia

Um dia ainda vou ter coragem. De falar o que penso, de pensar o que sinto, de enxergar o que insisto em não ver.

Neste dia – que não será só mais um dentre outros quaisquer – não farei de tudo um pouco, mas só o pouco que realmente tinha de fazer.

Serei chamada de louca, inconseqüente, mas, finalmente, a conseqüência dos meus atos fará sentido – quando, de fato, sentirei.

E, sentindo plenamente, viverei, enfim.

Para que meu epitáfio – escrito no passado, e não ao fim de um futuro em potencial – seja: “um dia, tive coragem sim”.

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Uma ode à fofurice

Dois comentários semelhantes sobre o álbum de Marcelo Jeneci, feito pra acabar, me deixaram um tanto intrigada: em resumo, disseram-me que o som era “fofo demais” e “de menininha”.

A princípio, não teria qualquer problema com tais opiniões, afinal, ainda bem que as pessoas gostam de coisas distintas – imagine que chatice seria todo mundo concordando com tudo? – mas o que me deixou encafifada foi o raciocínio lógico por trás dos comentários: “Jeneci é fofo demais/de menininha, LOGO não é bom”.

De novo, acho perfeitamente normal que pessoas não gostem do álbum, mas fiquei pensando por que algumas pessoas julgam que “fofurice” é necessariamente algo ruim.

A primeira coisa que me veio à mente foi justamente o fato de associarem tal característica a infantilidade, a falta de “adultice”. Pode até ser. Mas, assim como acredito piamente que um pouco de cafonice é fundamental, creio também que o fofo, o lúdico e o alegre – que seja até manifestamente infantil – podem ser geniais.

Ao invés de entrar em questionamentos muito (mais) filosóficos, prefiro compartilhar um exemplo – que me veio à cabeça instantaneamente – de uma artista cujo trabalho admiro tremendamente e que também é assim, fofo e de menininha: Nina Pandolfo.

Nina é uma das grafiteiras brasileiras mais renomadas, cujo trabalho, garotinhas à la Hello Kitty, com olhos enormes e boquinhas mínimas, não é nem pretende ser profundo, muito menos sisudo, mas é simplesmente uma lembrança de que brincadeira e criancice podem ser lindamente sofisticados – e fazem bem a qualquer idade.

Bom fim de semana a todos!

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Coincidências e confidências

Este feriado me proporcionou estranhas, mas deliciosas, coincidências.

Primeiro, ainda entorpecida pelo baque de alegria que o álbum de Marcelo Jeneci me causou, acordei, domingo, com a deliciosa surpresa de receber um comentário dele próprio, Jeneci, ao meu post.

A felicidade de saber que minhas palavras chegaram ao autor das palavras que me fizeram escrever o post foi imensa; suficiente para me trazer certo sossego naquele dia.

No dia seguinte, porém, acordei com saracutico, querendo desesperadamente encontrar um livro bom, mas “ensolarado”, para me fazer companhia na praia. Não encontrava de jeito nenhum.

Foi então que, mais uma vez, a tecnologia veio ao encontro dos meus pensamentos e o Santo Kindle me sugeriu um livro que havia ficado na minha lista de “para ler” há tempos: Juliet, Naked, de Nick Hornby.

Confesso que li a resenha na diagonal, mas quando vi as palavras “roqueiro fracassado”, já me dei por satisfeita e pensei cá com meus botões: “adoro Nick Hornby; seus livros (como Fever Pitch, High Fidelity, etc.) são inteligentes, engraçados e compatíveis com o verão…”. Pronto, baixei.

Qual não foi minha surpresa quando me dei conta que a história do livro era a de uma mulher que, ao ouvir um novo CD de um antigo rock star, resolve escrever um post em um blog (do seu então namorado) e, tcharã-rã-rã!, o músico lê o post e escreve de volta para ela!

Tudo bem que a história vai um pouco além disso: Annie, insatisfeita com seu relacionamento com Duncan – um fã incondicional e estudioso do ex-rock star Tucker Crowe – resolve escrever um post para contrariar a veemente opinião daquele de que o recém “vazado” demo de Tucker Crowe, Juliet, Naked, era melhor do que o anterior, Juliet (“clothed”).

Ocorre que, não apenas Duncan se sente pessoalmente atingido pela opinião contrária à dele, como o próprio Tucker lê e concorda com Annie. Sem saber bem por que, manda um email a ela comentando isso.

Esta, em um primeiro momento, desacredita e apenas responde: “é você mesmo?” (também me fiz a mesma pergunta…) mas, superada a desconfiança inicial, envereda em uma divertida troca de mensagens com aquela que era a última pessoa com quem imaginaria conversar, mas que, descobre, é a única que a entende.

 

Adianto que não estou trocando confidências com Jeneci, mas confesso que a perspectiva trazida pela coincidência não me desagradou…

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