re.verb

cultura, crítica e tudo o mais

Amor tóxico

É impressionante como o conteúdo de uma só palavra pode compreender tantos significados, por vezes tão distantes entre si. Especialmente em se tratando de uma palavra tão corriqueira, mas essencial, como “amor”, o sentido que cada indivíduo atribui a ela – e, conseqüentemente, a própria concepção individual do que seja amor – pode variar absurdamente, transitando por um espectro infinito.

Para alguns, amor é a simples troca, entre indivíduos, daquilo que têm de melhor; é fazer o bem e recebê-lo de volta. Para outros, amor e paixão são sinônimos e, portanto, inexistiria amor desprovido de loucura; em seu conteúdo, o amor carregaria insanidade, torpor e prazer extremos.

Seja qual conceito melhor lhe aprouver, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”, o filme de Beto Brant e Renato Ciasca, baseado no livro homônimo de Marçal Aquino, fala do último. (Sem prejuízo, ressalta-se que também o livro se apóia na faceta mais tóxica do “amor-paixão” , como já falamos aqui.)

O enredo, em resumo, diz respeito à paixão desenfreada do fotógrafo forasteiro Caiuby (Gustavo Machado) por Lavínia (Camila Pitanga) – casada com o pastor da cidade (Pastor Ernani, interpretado por Zécarlos Machado) – no coração do Pará, em um ambiente corrompido e corroído pela extração ilegal dos recursos naturais locais.

A locação, em si, importa na medida em que a decadência (inclusive moral) da cidade é incorporada por seus moradores e, ali, em uma terra de ninguém, os valores que motivam o agir são, antes de tudo, primitivos, instintivos e instantâneos.

Por tal razão, o amor é quase maniqueísta; mostra-se em facetas: a sensorial – da carne, do sexo (como ocorre entre Lavínia e Caiuby, no início) – ou a de adoração, de devoção religiosa (entre Lavínia e o Pastor Ernani e, ao final, entre Caiuby e ela). O amor ali retratado, porém, nunca é completo – e, assim, torna-se um tanto oco, ralo.

O clima quente, úmido, pegajoso e sombrio parece penetrar também na mente das personagens, tornando a razão dormente – à exceção do jornalista fofoqueiro Viktor Laurence (Gero Camilo), ali ninguém age racionalmente. O pensamento é sempre limitado, abafado pelos impulsos.

Neste sentido, há horas em que o filme apresenta um ritmo errático, fragmentado, como se o formato acompanhasse a mente delirante das personagens. Por tal razão, principalmente para quem não está familiarizado com a história, conforme retratada no livro, é fácil se perder ao longo da sessão.

Trata-se, em última análise, de uma obra forte, que retrata intensamente (seja na atuação de seus protagonistas, como na fotografia) excessos humanos. Ali, não há histórias ou relações assépticas, e nenhum homem é santo – ora, não é assim aqui também?

(“Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, de Beto Brant e Renato Ciasca, Brasil, 2011)

Deixe um comentário »

Dear Jack

“Às vezes, acho que sou um cara simples, mas acho que a verdade é que sou um cara realmente complicado, tão simples como gostaria de ser”.

A frase é de Jack White, um dos maiores guitarristas e rock stars da atual geração, quem, depois de se lançar, junto com Meg White, na saudosa White Stripes (com direito a um dos melhores álbuns do rock alternativo recente, Elephant), perambulou por outras bandas e projetos (como Raconteurs e o sombrio Dead Wheather) e lançou, finalmente, seu primeiro álbum solo: Blunderbuss.

O nome do álbum remete, primeiramente, a uma espécie de espingarda, utilizada para caça. Talvez advenha justamente de tais searas a naturalidade com que Jack lança mão da brutalidade, ou visceralidade, em suas letras. Pensando melhor, Jack sempre foi assim; jamais se esquivou da intensidade de suas emoções – o que não necessariamente implica obras autobiográficas, mas, antes, letras sinceras às emoções arrebatadoras que afloram e fluem nos melhores artistas (como ele).

Logo na abertura do disco, na ótima “Missing Pieces”, Jack fala do amor como algo que faz seu nariz sangrar; que arranca seus braços e suas pernas. Depois, explica: às vezes, alguém controla tudo sobre você, e quando diz que simplesmente não pode viver sem você, não está mentindo; ele vai tirar pedaços de você, e vai ficar por cima e ir embora, levando consigo uma parte sua. (Dadas as devidas proporções, é praticamente uma versão rock’n’roll da crua – e cruel – “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque.)

Lançando o foco ainda na faceta sombria e fisicamente dolorosa do amor, o primeiro single lançado (e uma das melhores letras do álbum), “Love Interruption”, fala da batalha travada entre a sanidade – física e mental – e a paixão: “I want love to roll me over slowly, stick a knife inside me, and twist it all around. I want love to grab my fingers gently, slam them in the doorway, put my face into the ground (…) I won’t let love disrupt, corrupt or interrupt me”.

Mas, não se engane, o (ótimo) disco, ainda que sempre permeado por uma certa névoa de desilusão, vai muito além. Blunderbuss também nos serve como um túnel do tempo do rock americano; das raízes indeléveis do blues (sempre presentes nos trabalhos do artista, e mais ainda em faixas recheadas de um baixo envolvente, como “Trash Tongue Talker”), passando pelo folk (como em “Hypocritical Kiss”), pelo rock dançante dos anos 50 (como na incrivelmente deliciosa versão cover de “I’m Shakin’”, de Little Willie John).

Há também bastante country, como na faixa que dá título ao álbum: “You took me to a public place to quietly blend into (…) I laid you down and touched you like the two of us both needed”; ou ainda em “Hip (Eponymous) Poor Boy” que poderia bem ter sido escrita para sua antiga companheira de White Stripes, Meg White, de quem herdou o sobrenome famoso: “So I get into the game, but always keep it the same and I’ll be using your name, but they’ll be yelling at me: ‘poor boy, poor boy’, but I’ll be happy for you, ‘cause you got nothing to do and I’ll be singing the blues, walking around and singing”.

Philipp Ebeling, the Guardian

E, claro, há rock moderno e pesado, como o amor adolescente retratado em “Sixteen Saltines”: “She’s got stickers on her locker and the boy’s number’s there with magic marker, I’m hungry and the hunger will linger, I eat sixteen saltine crackers then I lick my fingers”; e ainda, para os nostálgicos, uma abertura que em tudo remete ao clássico “Seven Nation Army”: se fecharmos os olhos, o riff de “Freedom at 21” – música que fala sobre a liberdade (?) de uma garota nos dias atuais – em tudo lembra aquele.

Trata-se, enfim, de um belo disco que, acima de tudo, canta uma ode ao rock; seja em suas influências, ou na potência de suas letras e melodias. É uma baita obra, digna de um dos (únicos) guitar heroes de nossa geração.

Deixe um comentário »

A diva

Você se lembra de seu primeiro amor? A excitação infindável da novidade, a descoberta de sua faceta adulta, todos os prazeres e dores…

Agora, imagine se o objeto desse amor inaugural fosse a pessoa mais famosa – e desejada – do mundo. Imagine se, ao menos por alguns dias, em seus braços estivesse Marilyn Monroe.

Pois bem, é esse o pano de fundo de “Sete Dias com Marilyn” (“My Week With Marilyn”, de Simon Curtis).

Ali, o enredo se desenvolve ao redor de Colin Clark (o gracinha Eddie Redmayne), quem, no alto de seus 23 anos, se vê como o terceiro assistente de diretor de um filme, “O Príncipe Encantado”, estrelado por ninguém menos que Marilyn Monroe (belíssima atuação, indicada ao Oscar, de Michelle Williams) e Lawrence Olivier (Kenneth Branagh) e, de quebra, acaba se tornando amante e confidente da estrela principal.

Colin, com toda sua inocência, não apenas se apaixona pela irresistível platinada curvilinea, como também atua como instrumento para que nós, espectadores, enxerguemos parte da faceta humana da personagem femme fatale.

Mais do que isso, ao lado do garoto – e a partir de seu ponto de vista – somos capazes de enxergar as facetas mais humanas (e frágeis) de Marilyn.

H.L. Mencken já alertara que:

O que os homens tomam como beleza em si próprios normalmente não passa de uma pompa oca, uma revoltante ostentação, o espendor superficial de um saracoteio animal (…) Ele sucumbe a um par de olhos bem pintados, a um torneio gracioso de um corpo, a uma compleição sintética ou a uma bela amostra de pernas, sem dar a minima atenção ao fato de que ali pode haver uma mulher inteira, e que as idiossincrasias desse cérebro são muito mais importantes do que todos os estigmas físicos combinados. (…) O ideal de seu sexo é sempre uma mulher bonita, e a vaidade e a frivolidade que costumam acompanhar a beleza tornam-se os totens do encanto” (MENCKEN, H.L., O Livro dos Insultos, Ed. Companhia das Letras).

E é essa fragilidade da realidade, aliada à potência do desejo, que fazem desse filme tão forte: uma paixão, em si, já é capaz de transpor quaisquer defeitos da pessoa amada; uma paixão por uma diva, porém, ultrapassa os últimos limites da razão (humilhação e subserviência se confundem; idolatria se mistura com ilusão), e faz o pobre amante querer – incondicionalmente – em vão.

(“Sete Dias com Marilyn”, “My Week With Marilyn”, de Simon Curtis, 2011).

2 comentários »

O passar do tempo – como música

É uma narrativa frenética. Um sucessão de acontecimentos, aparentemente desconexos; mais parece um colar de contas, no qual cada pedrinha é solitariamente bonita por si só. Mas, não, é mais.

Aos poucos, as narrativas (e personagens) vão se encaixando – cada novo capítulo apresenta uma relação, ainda que tangencial, com o anterior.

É, portanto, um conjunto precioso de capítulos que se encadeiam como miçangas coloridas em um cordão; é um retrato da contemporaneidade que tem como fios condutores o passar do tempo e a música – precisa mais?

Falo do grande livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan (Editora Intrínseca) – vencedor do Pulitzer de 2011.

Ali, o que se tem é uma concatenação desenfreada de histórias de personagens que, mesmo tendo alguma relação entre si – por vezes tão irrelevantes como aquelas que, dizem, temos todos nós usuários do facebook – remetem a algo maior, na medida em que se dispõem sobre um pano de fundo comum: o inexorável passar do tempo.

É como se a música, com sua intrínseca sucessão de notas e intervalos, representasse a vida: em ambas, o passar do tempo é a um só tempo inevitável e essencial para a evolução da história – ou do som.

Ao longo dos 13 capítulos, sempre permeia uma certa nostalgia, deliciosamente aliada aos bons tempos em que rock’n’roll e displicência pareciam indispensáveis à vida de qualquer um.

Mais do que isso, A Visita Cruel do Tempo é ousado a ponto de nos oferecer cada capítulo como uma obra nova: seja na forma – que, por vezes, adquire uma lírica poética, com digressões e descrições demoradas; e em outras é puramente gráfica, esquemática, como no emblemático “capítulo power point” que é o 12, “Grandes pausas do rock and roll” – ou na perspectiva a partir da qual se constrói o argumento central: as narrativas passam da primeira pessoa (do singular e do plural), para a terceira, tão naturalmente como uma garota troca de roupa.

Em meio a todas essas pedrinhas coloridas concatenadas entre si, há cruéis reflexões sobre as sensações e consequências (perdas, inclusive) do passar do tempo, como em “Adeus, meu amor”, Capítulo 11:

Mas cada decepção que Ted sentia com relação à mulher, cada ínfima murchada, era acompanhada por um espasmo de culpa. Muitos anos antes, ele pegara a paixão que sentia por Susan e dobrara ao meio, para não ter mais aquela sensação impotente de quem se afogava sempre que a via deitada ao seu lado na cama (…) Depois a havia dobrado ao meio de novo para que, quando sentisse desejo por Susan, este não viesse mais acompanhado por um medo aflito de jamais conseguir se saciar. Depois ao meio outra vez, para que o fato de sentir desejo não viesse acompanhado de uma necessidade imediata de ação. E ficou tão pequeno que Ted podia guardá-lo dentro da escrivaninha ou de um bolso e esquecê-lo, e isso lhe dava uma sensação de segurança e realização, de ter desmantelado um aparato perigoso que poderia ter destruído a ambos.

Incansavelmente mais cruel é “De A a B” Capítulo 7, sintetiza a angústia de toda uma geração – a nossa:

Eles eram jovens, tinham sorte, tinham força – por que se preocupar? Se não gostassem do resultado, podiam voltar e recomeçar tudo de novo. E agora Bosco estava doente, mal conseguia andar, e planejava de maneira febril a própria morte. (…)

– Se você tivesse me perguntado hoje de manhã, eu teria dito que estávamos acabados – disse ele. – Todos nós, o país inteiro… porra, o mundo inteiro. Mas agora estou sentindo o contrário.

Stephanie sabia. Praticamente podia ouvir a esperança corer pelas veias do irmão.

Então, qual é a resposta? – indagou.

É claro que está tudo terminado – disse Jules. – Mas ainda não.”

(A Visita Cruel do Tempo, “A Visit From the Goon Squad”, de Jennifer Egan, Editora Intrínseca, 2011)

Deixe um comentário »

Para pensar

Assistir a um filme é interpretar, cada espectador à sua maneira, o que é retratado na tela.

O ato de interpretar, por sua vez, foi teorizado e estudado por muitos mas, talvez, exercitado em sua melhor forma por estudiosos da psicologia humana.

Por isso, assistir a um filme que retrata justamente os bastidores daqueles que primeiro se dispuseram a destrinchar a psique humana (ao menos como hoje a entendemos) pode ser algo tão capcioso – para não dizer metalinguístico…

Indo além, fazer uma obra de arte – sujeita à interpretação individual de cada um, portanto – sobre os pais da psicanálise é algo em si ambicioso. E assim o fez David Cronenberg, em “Um Método Perigoso (“A Dangerous Method”).

Ali, o que se retrata é face mais humana – e, portanto, complexa – daqueles que entendem pessoas tão bem.

Mais precisamente, é a psicanálise – “the talking cure” – o pano de fundo para um enredo de paixão, desilusão e competição entre alguns dos mais ilustres conhecedores dos meandros do inconsciente humano: Karl Jung (Michael Fassbender), Sigmund Freud (Viggo Mortensen), Sabina Spielrein (Keira Knightley) e Otto Gross (Vincent Cassel).

Sabina é, a um só tempo, a paciente e a cura de Jung; nela, ele aplica, com sucesso, o método da cura pela fala – preconizado por Freud – e, também, vê as limitações de tal teoria – por experiência própria.

Ela, jovem russa judia, que surge como uma doente quase desenganada – “I’m vile, filthy and corrupt”  – experimenta (melhora) e aprende, como poucas, o método aplicado por Jung.

Este, por sua vez, a princípio é apenas um discípulo de Freud. À medida que aplica o método, entretanto, passa a questionar determinados aspectos – especialmente a sexualidade como a origem de todos os males – e, assim que conhece o inconvencional Otto Gross (quem, a um só tempo, é paciente de clínica psiquiátrica e doutor), vê alguns de seus dogmas cairem por terra.

Gross pregava que “our job is to make our patients capable of freedom“, independente do custo de tal liberdade.

Jung foi momentaneamente levado por tal crença, se libertou de antigos paradigmas e foi além: passou a crer no que não pensava ainda – telepatia, poligamia, etc. Se Freud foi a base, Otto foi a liberdade para Jung.

Mas, quando a tal liberdade mostrou horizontes incertos e perigosos (como ter um affair com sua paciente-modelo), foi a Freud que recorreu novamente – este, raramente se portando como amigo, antes como mentor, mas quem jamais deixou de ensinar, e provocar questionamento em seus nobres discípulos.

O interessante é que foi justamente o desvio de Jung que o fez um ser humano mais completo; ou, se preferir, simplesmente mais humano.

A partir de suas próprias fraquezas, foi capaz de enxergar melhor os outros – ou assim prega o filme.

Apesar da dificuldade do tema, e do risco de se lidar com o retrato – nada imaculado – de personagens tão conhecidas, é um bom filme, seja para leigos nas “ciências” da psicanálise, ou curiosos.

No limite, instiga-nos a pensar. Não é essa a essência da psicanálise?

(“Um Método Perigoso”, A Dangerous Method”, de David Cronenberg, 2011)

Deixe um comentário »

Isso é amor?

É um daqueles amores de carne e de alma – ou, se preferir, uma paixão em que a carne fala tão alto, que até a alma crê que é amor.

Quem nunca teve, oxalá um dia terá. Nos que já experimentaram, ficarão, para sempre, cicatrizes – tatuagens.

Não é tema novo, tantos gênios já o tentaram decifrar… em prosa, em verso, ou em som… e já foi retratado – maltratado – mas nunca decifrado até o fim. – Ainda bem, se não não teria tanta graça o reviver, tantas e tantas vezes.

Esses dois livros de que falo hoje, versam justamente sobre o assunto – sem, contudo, chegar a uma conclusão final.

Ambos, entretanto, concluem o mesmo: há amores que avasssalam, destroem a vida, e que fazem o amante viver – a vida toda – em órbita, ao redor do outro. Mas, a despeito de todo o sofrer, inquestionavelmente vale a pena; e, assim, a força que fazem perenes as sensações não é óbvia; é insensata, é inexplicável – infinita e irracional.

Por isso, desta vez, falo sobre obras que não são novas, mas que não deixam de ser atemporais: Travessuras da meninas má (do nobel Mario Vargas Llosa) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (de Marçal Aquino, que terá sua versão cinematográfica lançada no próximo dia 20 de abril).

Em ambas, há a paixão incondicional – carnal e sobrenatural – dos dois protagonistas: de Ricardo pela “menina má”, no primeiro; e do fotógrafo Caiuby pela linda Lavinia, no último.

Seja em Miraflores, Paris, Londres, Tóquio ou Madri – como no romance de Llosa – ou no coração do Pará, como em Aquino, o que fica é a devoção, tantas vezes unilateral, de um homem por uma mulher.  É uma adoração quase religiosa pelo ser desejado – a qual, garanto, é mais comum do que se imagina; seja o amante macho, ou fêmea.

E o que fazer quando um turbilhão assim arrebata qualquer senso de razão? Sucumbir nunca parece a escolha mais sensata, mas, na maioria das vezes é o desfecho inevitável. E, ao se deixar de resistir, como levar adiante a vida que resta – em outras palvras, como suportar a vida sem a pessoa amada? A morte nunca pareceria tão próxima.

Peço desculpas pela falta de objetividade ao falar de ambos os livros, porém, quando alguma obra nos faz de fato sentir, nas personagens, a dor – já sentida em nós leitores – nos resta apenas recomendar a leitura – e torcer para que, pelo menos em alguém, a dor real doa menos ao final da última página da ficcção. Ou, para aqueles insensíveis, fica o alerta.

Travessuras da meninas má (Mario Vargas Llosa, Editora Alfaguara) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Marçal Aquino, Editora Cia. Das Letras)

1 Comentário »

Habemus Metus

E quem nunca se sentiu como este papa, interpretado de forma comovente por Michel Piccoli, na surpreendente produção franco-italiana “Habemus Papam?”, de Nanni Moretti.

Cidade do Vaticano. Após a morte do carismático papa João Paulo II, 108 cardeais designados para eleger o novo pontífice rumam para a Capela Sistina, para dar início a um dos mais misteriosos rituais do catolicismo: o conclave, cerimônia realizada a sete chaves e que culmina, obrigatoriamente, na nomeação de um sucessor para o posto máximo de liderança da Igreja.

Após sucessivos jatos de fumaça preta – indicando que a escolha continua incerta – e muitas discussões entre os cardeais, o telespectador presencia uma votação que, apesar de mexer com a vaidade de 108 seres humanos, parece representar um grande fardo aos potenciais candidatos. As preces silenciosas de cada indicado clamam pela escolha de um papa que não seja ele próprio, e pela isenção daquela responsabilidade que, pensam, está acima de suas vocações e abaixo de seus anseios. Os cardeais escolhem, então, o idoso francês Melville para dar início ao novo pontificado que, assim como os demais, não se sentia a altura daquela missão.

Como, afinal, aquele que deveria honrar os valores de humildade e simplicidade, poderia se convencer, por uma eleição, de que seria o melhor qualificado para representar o elo entre Deus e seu povo? Mais ainda, liderar este povo pelo caminho de Deus?

Traçando um paralelo com a nossa vida cotidiana, quem não se sentiu, por vezes, desafiado por uma nova missão e encheu o peito para encará-la, usando uma coragem que nem sequer sonhava deter? Quem nunca, nem por um tempinho, pensou em recuar ou sentiu-se incapaz de suportar algum fardo? Ou, ainda, quem sofreu a angústia de não ter recuado enquanto era tempo de resguardar sua própria paz?

Após a eleição, Melville sente o peso de sua responsabilidade e, ao se aproximar da varanda da Basilica di San Pietro, diante de milhões de fiéis, onde o mais velho dos cardeais leria o texto (habemus papam) anunciando o novo pontífice e marcando o início de um novo papado, nosso protagonista, sentado e acuado como se fosse a última presa do mundo, leva as mãos à cabeça, desmontado diante de sua obrigação. Então, grita. Mas grita de uma forma tão comovente e desesperadora, que, por um momento, esquecemos que estamos diante de um cardeal idoso e sereno, que, como faz crer a personagem, dedicou a maior parte de sua vida à sua vocação e à devoção a Deus.

É neste contexto que os 107 cardeais eleitores, aguardando esperançosos a recuperação do papa e preocupados com a angústia dos fiéis diante da indefinição do papado, designam um psicanalista para decifrar a crise de pânico que assola o Vaticano. No meio tempo, os cardeais se entregam a jogos infantis para correr com as horas; então, percebemos que há naqueles homens sentimentos comuns a todos os demais, como inveja, competitividade, preguiça e noites mal dormidas – carregadas de ansiolíticos.

Não obstante, apesar de brilhante em vários aspectos, principalmente dos pontos de vista dramático e ideológico, são visíveis algumas inconsistências no roteiro e na condução das personagens secundárias. O psicólogo (interpretado curiosamente pelo diretor Nanni Moretti) ao ser colocado de lado na missão de analisar o papa, passa a organizar um torneio de vôlei entre os cardeais. Ocorre que, apesar de proporcionar seqüências bem humoradas e que trazem leveza ao drama do papa perdido, o torneio não tem qualquer relevância para o longa, e deixa evidente a perda de rumo da personagem do psiquiatra, que tinha grande potencial no início.

Por outro lado, o que poderia ser um temor passageiro de um ancião confuso, toma proporções patológicas impensáveis. O papa foge, vagando pelas ruas de Roma e, distante do Vaticano e de seus companheiros de batina, acaba buscando o sentido de sua própria vida em meio à sua confusão mental. É nesta sequência de cenas que o brilhantismo de Piccoli consegue tocar o espectador de forma ainda mais profunda, ao dar vida a uma personagem tão humana e frágil que emociona por sua complexidade.

Tendo em mente um cardeal, que chegou ao estágio máximo de sua vida religiosa, mas está vagando absorto em pensamentos pelas ruas da capital italiana, respondamos a seguinte pergunta: quem de nós, de tempos em tempos, não precisa mudar de rumo? Sair de cena, vagando pelas ruas da sua própria vida, encontrando o seu mundo em outro lugar?

Não vou contar aqui o final do filme, esperando que a sua curiosidade o carregue pelas reflexões que “Habemus Papam pode proporcionar.

É evidente que muito se espera de um papa, como líder religioso e como ser humano. Da mesma forma, mas talvez em menor proporção, muito é esperado de nós também, em nossos trabalhos, em nossos relacionamentos, em nossos estudos. Grande parte deste “muito” conseguimos corresponder diariamente, com dedicação, com esforço e abrindo mão de alguns de nossos desejos.

Mas e aquilo ao que não conseguimos corresponder? Melville pode ser considerado um fraco por resistir à missão que lhe foi confiada, mas não há, de fato, coragem naquele coração que assumiu sua própria fraqueza e seguiu o rumo das suas próprias crenças?

(Habemus Papam, de Nanni Moretti, 2011)

 


 
3 comentários »

Canto de sereia

Em meio a luzes que mais pareciam reflexos d’água, ela surgiu linda: vestido de paetês, corpo e voz de sereia. Nos pés, um par de havaianas azul e branco. Combinação inusitada, mas que funciona – talvez só nela.

Assim, repleta de misturas impensadas, é também a música de Céu: a um só tempo, sofisticada e despojada; chique e pé na areia.

Seja no modo de se vestir, ou na interpretação de suas músicas, ela pendula de um lado para o outro, sem jamais cometer excessos; é precisamente comedida.

Por tais razões, assistir a um show da cantora nunca foi, tampouco será, um convite à folia; é um exercício quase introspectivo de adoração. Porque música executada com qualidade fascina; porque lindas letras cantadas ao vivo tocam ainda mais; e porque Céu é tão bela e delicada que encanta.

Não foi diferente o show de ontem, ocasião do lançamento do excelente álbum Caravana Sereia Bloom (de que já falamos – muito bem – aqui), no Sesc Vila Mariana. Como sempre, foi um show sem grandes pirotecnias, mas tecnicamente perfeito; bom, mas contido. Poucas digressões entre as faixas, pouco improviso, mas com uma banda excelente (um baterista, um guitarrista, um baixista e um DJ), som límpido e potente, e uma cantora que compensa sua timidez com a qualidade de sua música – e de sua voz.

Além de executarem quase todas as faixas do novo disco, trouxeram também sucessos antigos, como “Cangote”, “Malemolência”, “Lenda” e “Rainha” (as duas últimas, no bis), bem como uma deliciosa versão de “Me importas tú”, do Trio Los Panchos.

Ainda mais emocionante – e minimalista – foi a faixa “Palhaço”, executada em voz e violão por filha e pai (Céu e Edgard Poças).

Por outro lado, a ótima “Streets Bloom”, de Lucas Santtana, contou com uma performance robusta – quase rock’n’roll – de Céu, e com uma bela projeção de takes “estradeiros” ao fundo.

Das mais animadas, ainda mais ao vivo, “You Won’t Regret It” só faz reforçar a veia reggae da moça – sempre presente em seus trabalhos, desde sua gostosa versão de “Concrete Jungle”.

Por fim, para terminar, minha favorita do álbum: “Chegar em Mim”, de Jorge Du Peixe – faixa esta que, conforme confessou Céu, já vinha namorando desde os tempos de Vagarosa.

Foto de Ariel Martini

E foi assim que, para um público que lotou a casa e se protegeu do toró que caía do céu, a cantora de mesmo nome – a mais interessante da nova geração brasileira – lançou um dos melhores discos do ano, até então.

Deixe um comentário »

Bom pra cachorro

Estranhamente, às vezes nos esquecemos do óbvio: de como um fim de semana com amigos relaxa, do quanto comidas gostosas alimentam a alma, de que beijar muito na boca faz bem. Cada vez mais, esquecemo-nos também do quanto a boa música pressupõe letras e músicas feitas com carinho.

Acostumamo-nos a deixar pra lá a reverência à qualidade, a ode à canção, em prol de ritmos dançantes, refrões pegajosos e letras banais – particularmente, tenho muita preguiça das discussões que argumentam a favor do fim da canção; a canção não acabou, ela só é cada vez mais rara… mas isso não vem ao caso.

De fato, muitos artistas subestimam o ouvinte, pregando que o popular é incompatível com complexidade de sons e letras; que temas contemporâneos se casam apenas com superficialidade. (Uma pena.)

Por essas e outras razões, ouvir 5 a Seco (finalmente em CD, ao vivo, no Auditório do Ibirapuera) não apenas é um alívio, como uma esperança. Garotos de vinte e poucos anos, em plena era digital, escolhem simplesmente resgatar a beleza; não andam pelo caminho mais fácil, mas por aquele em que acreditam: música boa independe de idade, mas pressupõe requinte no som e qualidade.

Poucos conseguem amarrar com tamanha precisão temas jovens, como um amor nascido da balada, com sonoridade sofisticada – “tá tudo bem, finjo que nem sei o seu nome, e nem quero saber, mas se pensei a semana inteira em te rever deve ser um acaso qualquer (…) tô querendo te conhecer, te vi na balada lá nos cafundó, tô querendo mais de você”, como em “Tatame” –; ou ainda música boa com expressões mundanas: “yes, we can! Suave na nave, sem vacilo nem vintém”, como em “Ou Não”. (Nesta última, inclusive, vemos um exemplo de seu diálogo com raízes da música brasileira “das antigas”, com a participação de Lenine nos vocais).

Aliás, se são credenciais de sucesso que farão você escutar esses meninos, ressalta-se que há também outras participações de peso, como Chico César (em “No Dia em que Você Chegou”) e Maria Gadú (“Em Paz”).

Posso até ser suspeita, já que acompanho e admiro esses garotos desde sempre – desde de os tempos do maravilhoso hit do meu querido Tó Brandileone, “Pra Você dar o Nome”:

Deixa pra lá, que de nada adianta esse papo de agora não dá, que eu te quero é agora e não posso nem vou te esperar, que esse lance de um tempo nunca funcionou pra nos dois.

Sempre que der, mande um sinal de vida de onde estiver desta vez, qualquer coisa que faça eu pensar que você está bem, ou deitada nos braços e um outro qualquer, que é melhor…

Do que sofrer de saudade de mim como tô de você, pode crer, que essa dor eu não quero pra ninguém no mundo, imagina só pra você

Quero é te ver dando volta no mundo indo atrás de você, sabe o quê, rezando pra um dia você se encontrar e perceber que o que falta em você sou eu

mas meu compromisso com o reverberar dos bons conteúdos não me permitiria aclamar algo que não achasse digno de aplausos. E, não se engane, 5 a Seco merece mais do que uma salva de palmas; é, na minha opinião, o que de melhor há na música brasileira atual; simples assim.

A quem duvide, desafio a escutar e baixar (de grátis) o álbum, aqui. Garanto que vale a pena – e, para aqueles que já os conhecem, re-transmito a notícia de que, finalmente, é chegada a hora de carregar os meninos em nossos respectivos iPods.

Afinal, musica boa é aquela que, de tão boa, te faz dar “Gargalhadas”, ou, melhor ainda, ficar “Feliz Pra Cachorro”:

desde que te vi, que o chão não tem fundo, que o céu não tem forro, cantarolo e morro de rir (…)

Pensa num cara que anda contente pra burro, mas pensa um burro contente que nem um sagüi, desde que te vi (…)

Todo contente que nem são os gols de chaleira, a zaga inteira batida e o goleiro no chão, desde que te vi, não tem enjoeira, nem segunda-feira, ou canseira no meu coração.

Tão raro de se ver, param pra dizer para eu ser feliz pra lá, peraí, o que é que há, quero ver quem vai me impedir de sorrir do Pari até o Pará”.

5 a Seco faz isso; te satisfaz com boa música e te faz sorrir. Precisa mais?

Deixe um comentário »

Amor multimídia

Não é novidade que revoluções tecnológicas têm impactado mercados, qualidade e formatos de obras culturais. O exemplo mais batido é o da música: a partir do surgimento do mp3 (e derivações posteriores), o som se tornou mais “achatado” – diz-se que a amplitude das ondas sonoras em de tal formato é muito inferior àquela alcançada no vinil – mas ao mesmo tempo muito mais acessível ao público, e mais fácil de ser divulgado por artistas.

Por outro lado, em outros segmentos culturais, especialmente na literatura, avanços tecnológicos, apesar de significativos, ainda não foram capazes de transformar materialmente o conteúdo das obras – é cada vez mais comum nos depararmos com pessoas lendo seus Kindles, iPads e afins, mas as obras continuam sendo aquelas que seriam lidas em papel.

Por tal razão, é uma boa surpresa descobrir uma obra como Chopsticks, de Jessica Anthony e Rodrigo Corral (Ed. Penguin/Razorbill).

Chopsticks é quase inclassificável: é uma narrativa (um mistério surgido da história de amor entre dois jovens: o argentino Francisco e a pianista prodígio Glory) cujo formato permeia registros os mais diversos, de históricos de chats a fotos antigas; de desenhos e poesia, a vídeos do YouTube e playlists digitais.

Ainda que também tenha sido publicada em papel, ao ser transformada em aplicativo ganhou vida: o bacana reside justamente na possibilidade de mergulharmos na história através de meios – e mídias – diferentes daquelas a que estamos normalmente habituados.

Vivenciamos o amor e as agruras dos dois interativamente; não só pela narrativa escrita que as detalha, mas em cada clique; a cada vídeo que compartilham, a cada musica que oferecem um ao outro, a cada foto em que figuram.

É, assim, uma experiência multimídia melhor comparável ao bisbilhotar da vida alheia do que à leitura de um romance.

É moderno é divertido e, ainda que não traga qualquer grande roteiro ou atuação, é inovador o bastante para nos mostrar inúmeras possibilidades porvir.

É a tecnologia a serviço do conteúdo.

(Chopsticks , de Jessica Anthony e Rodrigo Corral, desenvolvido por The Penguin Group USA, disponível para download no iTunes.)

1 Comentário »