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Sob o domínio do mal

Enquanto olhava o mar cinza durante o feriado, lembrei do último filme da 34a Mostra Internacional de Cinema ao qual assisti.

Quando alguém presencia um afogamento e tenta resgatar a outra pessoa da água, a regra de ouro é: não mergulhar sem algum objeto no qual a vítima possa se apoiar – pode ser prancha, bóia, etc. – já que um dos maiores riscos é o de, no afã do momento, a vítima se agarrar ao “salvador” com tanto desespero que este acabe se afogando junto.

É essa a tensão que presenciamos ao longo de “Domínio” (“Domain”), de Patric Chiha. Ali, quem se afoga é Nadia, uma mulher madura e atraente que, apesar de aparentar ser moderna e independente é, no fundo, profundamente sozinha e infeliz.

Ela, formada em matemática – já que, como diz, tal matéria parece conseguir organizar todo o caos que é o mundo – há tempos não consegue lidar com os números, tampouco com qualquer outro aspecto de sua vida. Seu porto seguro passa então a ser seu lindo sobrinho Pierre. É com ele que passeia diariamente por parques parisienes, é em sua companhia que sai à noite e é ele – no alto de seus 17 anos – que a põe na cama quando, de tão embriagada, mal consegue se equilibrar.

Contudo, como um salva-vidas sem bóia, o garoto passa a afundar também. Sente-se responsável pela tia, por quem nutre um amor profundo, mas não consegue organizar o caos em que ela se embrenha cada vez mais. Ingênuo como ainda é, e sob o domínio daquela, não cogita simplesmente se afastar e deixar que ela decida cuidar sozinha de seus problemas, muito menos percebe que Nadia é uma espécie de parasita, que parece querer sugar sua beleza e juventude na tentativa de resgatar o que ela há muito perdeu.

E, assim, ao longo de mais de duas horas, assistimos a essa tensão entre amor e covardia; entre cuidar do outro e preservar a si mesmo; entre saber a hora de deixar o outro submergir e a de nadar de volta para a praia sozinho.

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Inexorável

Normalmente, o famoso “chato do cinema” é aquele que, sem qualquer cerimônia, faz questão de contar a todos o final do filme ao qual acabou de assistir – principalmente quando se tratam de filmes em que, ao final, há o desfecho de uma questão que se desenrolou ao longo de toda a obra (quem matou fulano, quem é o pai de sicrano, se o casal viverá feliz para sempre, etc.). Entretanto, há também filmes em que as reviravoltas não se concentram apenas do meio para final, mas se encadeiam, uma atrás da outra, desde o começo. Em relação a estes, falar qualquer coisa pode estragar a surpresa

É por essas e outras que escrever sobre Never Let Me Go, de Mark Romanek, (cuja tradução do titulo para o português varia, de acordo com a sala de projeção – !!! – entre “não me deixe jamais” e “não me abandone jamais”) é pisar em ovos. Isso porque grande parte do apelo do filme – cujo roteiro é uma adaptação do aclamado livro homônimo de Kazuo Ishiguro – está justamente no suceder de descobertas e reviravoltas com as quais a platéia se depara desde o início.

Entretanto, sob o risco de soar um pouco enigmática – antes isso do que chata – é possível dizer, sem spoliers, algumas coisas. Primeiro, em relação à forma: não deixa de ser uma experiência peculiar assistir a esse filme depois de uma semana de filmes “cults”, pois, embora seja muito bom e relativamente complexo, não tem a sutileza como seu atributo principal – assim como boa parte dos filmes hollywoodianos. A música, o drama, as atuações, tudo contribui para um certo exagero e grandiloqüência – meticulosamente arranjados para fazer o público chorar e, por que não, para ganhar Oscars.

Na história há três personagens centrais: Kathy (Carey Mulligan, mais uma vez encantadora), Ruth (Keira Knightley) e Tommy (Andrew Garfield). Os três foram criados juntos em uma espécie de internato, no interior do Reino Unido. Juntos também cresceram, descobriram o amor e o desamor. Lado a lado ainda souberam a razão pela qual vieram ao mundo – um objetivo muito específico, cruel e, como se percebe ao longo do filme, inescapável.

Ao acompanhar a jornada dos três, somos instigados a pensar sobre a forma mais satisfatória de se lidar com o destino à nossa frente; uma vez que nos sabemos mortais e que a vida se esvai a cada segundo, como fazer valer o pouco que nos resta? Até que ponto devemos, ou não, nos conformar com um caminho pré determinado? Mais ainda, caso se opte por não questionar – ou se aquela for a única via possível – como identificar em meio a uma rota traçada por outrem aquilo que, mesmo efêmero, dá sentido ao resto das nossa vidas?

São perguntas que ficam. E, diante delas, assim como aqueles três, também somos crianças tentando achar respostas. Falta, para tanto, entender o que diabos significa uma palavra tão difícil: inexorável.

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La vie en rose?

Àqueles dispostos a ver algum filme da Mostra, sem saber exatamente qual; aos que olham para os nomes dos diretores e, à exceção de uns três ou quatro figurões, não ligam o nome à pessoa, aviso de antemão: Rosas a Crédito (Roses à Crédit), de Amos Gitai, é um bom filme, mas não é fácil.

Para quem tem certa familiaridade com as obras desse diretor, o comentário acima deve soar um tanto óbvio – já que aquelas, em especial Kadosh, Kippur, Kedma e Free Zone (com Natalie Portman) – sempre foram conhecidas por refletir o posicionamento de esquerda do diretor e o engajamento em questões políticas, em especial o conflito Palestina-Israel. Ainda, também se notam em sua obra heranças da nouvelle vague, como a preocupação em imprimir um estilo livre, mas autoral, que, com a câmera, cria planos e cenas que, em si, são repletos de expressão e quebram padrões da estética cinematográfica “usual”.

Entretanto, em relação a Rosas a Crédito, mesmo os mais “antenados” podem ter ouvido coisas do tipo: “esse filme é diferente dos outros, não é politizado” ou, pior, “Rosas a Crédito é sobre uma história de amor”…

Sim, o filme é sobre uma história de amor entre dois jovens franceses, Marjoline (Léa Seydoux) e Daniel (Grégoire Leprince-Ringuet), que se casam no período Pós 2º Guerra Mundial. Entretanto, tal relacionamento é apenas o objeto sobre o qual incide uma dura crítica ao capitalismo e à formação – e consolidação – de uma sociedade superficial que sobrestima o consumo como forma de satisfação de necessidades mais profundas.

Marjoline é uma garota lindíssima que, oportunamente, trabalha em um salão de beleza. Refletindo a influência do american way of life na Europa daquela época, a jovem tem basicamente duas preocupações na vida: manter-se impecável (de salto alto e batom, mesmo para arrumar a casa) e mobiliar o novo lar – um apartamento “moderno”, mas minúsculo, com vista para outro prédio – com o que de mais novo estiver disponível no mercado (ela repudia o antigo, o tradicional).

E, assim, sem conseguir atinar que a condição financeira do casal não permite tamanha esbórnia consumista, ela vai se afundando em dívidas – e tal processo se dá de forma quase ingênua; é como se ela não acreditasse na existência de uma restrição orçamentária.

No início do filme, Marjoline observa fascinada, durante um bom tempo, uma bonequinha solitária que gira sem parar dentro de uma caixinha de música. Ela acha triste ver uma figura tão linda ali, presa e sozinha, a rodopiar… ao final, percebemos que ela, assim como a sociedade desde aquela época (a cena final retrata os dias de hoje), é a bailarina: linda por fora, mas oca – e que, mesmo tonta, gira, gira, gira sem saber porquê.

(Rosas a Crédito (Roses à Crédit), de Amos Gitai)

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Manual da Mostra

Nos últimos dias, algumas pessoas têm me perguntado sobre “dicas” para a reta final da 34ª Mostra Internacional de Cinema. Ao invés de dar dicas concretas (para tanto, recomendo o blog do Luiz Zanin, do Estadão), devolvo a seguinte pergunta: qual “espécie” de filme a pessoa quer assistir. Isso porque há basicamente três (Os Famosos, Os Hypados e Os Desconhecidos) e, para cada um, há uma respectiva “abordagem” possível:

Os Famosos: contam com diretores consagrados (como Somewhere, de Sofia Coppola; Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, de Woody Allen, Film Socialism, de Godard; ou até mesmo Suprema Felicidade, de Arnaldo Jabor); ou elenco hollywoodiano (como Não me Abandone Jamais, baseado no romance de Kazuo Ishiguro, com Carey Mulligan e Keira Knightley; ou Machete, de Robert Rodriguez, com Jessica Alba, Lindsay Lohan e Michelle Rodriguez)

      Abordagem: a dica (não só minha) é simples: não assista agora! Tenha um pouquinho de paciência e deixe para assistir quando entrarem em circuito normal. Isso porque (i) eles irão entrar no circuito normal e (ii) à exceção de Somewhere e Não me Abandone Jamais – que devem estrear só no início do ano que vem – a maioria tem estréia prevista para este ano – alguns já em novembro, ou início de dezembro, como Film Socialism, Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, Nowhere Boy (sobre a vida do jovem John Lennon) e Atracão Perigosa (com atuação e direção de Ben Affleck).

Os Hypados: ganharam elogios da crítica – ou prêmios internacionais – mas não são tão populares, ou acessíveis, como os primeiros (exemplos: Carlos, O Estranho caso de Angélica, Tournée, VIPs, Cópia Fiel, Mistérios de Lisboa, Poesia, Rosas a Crédito, etc.)

      Abordagem: como a dica acima é um tanto manjada, esta segunda “espécie” passa a ser a mais procurada pelo público. Assim, as filas para assistir a esses filmes costumam ser grandes. A dica, portanto, é comprar os ingressos antecipadamente (de preferência no cinema, pois tenho ouvido diversas reclamações sobre o site…), ou se programar para chegar cedo nos locais das sessões. [Experiência própria: como não comprei nenhum ingresso antecipado (faça o que digo, não faça o que faço) estive tentando desde sábado assistir a Rosas a Crédito. Após três tentativas frustradas, consegui lugar em uma seção em plena segunda-feira à noite – e a sala estava absolutamente lotada]. E, na pior das hipóteses, caso não seja possível assistir a eles ao longo da Mostra, saiba que a maioria deve estrear – logo – em circuito.

Os Desconhecidos: aqueles que – sejamos honestos – ninguém nunca ouviu falar e que muito provavelmente não entrarão no circuito normal.

      Abordagem: essa espécie proporciona um dos grandes prazeres das Mostras, que é entrar em uma sala de projeção sem saber o que está por vir e, melhor, descobrir pérolas inimagináveis (é nessa categoria que se encontra o meu favorito da Mostra até agora: Academia de Platão). Assim, a dica é: não pense nem pesquise muito, simplesmente vá.

Escolha seu combo e bom filme!

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Falando grego

Filmes despretensiosos que, no âmbito de sua proposta, cumprem sua função e, melhor ainda, não se levam muito a sério costumam ser meus favoritos. Em meio a centenas de filmes “cabeça” da 34a. Mostra de Cinema, assistir ao grego Academia de Platão, de Philippos Tsitos, não deixa de trazer um certo alívio (#ficaadica de um dos filmes menos badalados e mais bacanas da Mostra). Isso porque filme bom não necessariamente – ou melhor, raramente – precisa ser hermético ou excessivamente difícil.

Academia de Platão traz a história de um cinqüentão, Stavros, que mora com sua mãe – uma senhorinha já não mais no auge de sua sanidade mental – e passa os dias sentado em frente à sua vendinha com três amigos. Os quatro, apesar de muito simpáticos e engraçados, são, no fundo, moleques que, há quarenta anos, praticamente não trabalham (apesar de serem donos de estabelecimentos na rua, não têm clientes), passam as tardes bebendo cerveja, ouvindo rock e jogando bola na rua.

Todos, porém, parecem genuinamente satisfeitos com sua situação, porque se consideram, acima de tudo, gregos; e isso em um bairro especialmente ocupado por imigrantes (chineses e albaneses) é o que importa.  Nesse sentido, a xenofobia e o preconceito em relação àqueles é central no filme, mas é tratada com certo humor: dentre os passatempos preferidos dos marmanjos está assistir ao cachorro Patriota latir para albaneses – e, reza a lenda, apenas para albaneses – e contar quantos são os chineses trabalhando em uma obra vizinha.

O aparente equilíbrio é quebrado quando a mãe de Stavros reconhece em um albanês seu suposto filho perdido. Mais, em função do reaparecimento daquele, Stavros vê sua mãe – quem pensava já não ser capaz de falar ou sair de casa – ganhar vida novamente. Para piorar, descobre que ela fala albanês e que, de acordo com uma história que nunca lhe havia sido contada, ele, assim como ela, não seria grego.

Dali para frente, diante da perspectiva de se saber aquilo que sempre desprezou, Stavros fica completamente atordoado, seus amigos ficam confusos – afinal, se ele fosse mesmo albanês, eles poderiam continuar a amizade? – e uma verdadeira crise de identidade se instala. O que mais o angustia, no entanto, é a dúvida, é não saber ao certo de onde veio. Isso porque, para ele que sempre se considerou, acima de tudo, um grego, pior do que se saber albanês é não saber quem se é.

(ACADEMIA DE PLATÃO (AKADIMIA PLATONOS), de Philippos Tsitos)

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Sentindo poesia

Poesia (Poetry) foi o primeiro filme da 34a Mostra  Internacional de Cinema ao qual assisti. Escrito e dirigido pelo sul-coreano Lee Chang-dong, foi eleito melhor roteiro no Festival de Cannes deste ano e conta com uma belíssima atuação da veterana Yoon Hee-jong – ao redor de quem a trama gira.

Essa senhora, Mijo, a um só tempo descobre que sofre do Mal de Alzheimer e que seu neto – de quem toma conta – foi um dos responsáveis pela morte de uma garota de 16 anos.

Antes de tudo isso ocorrer, contudo, a avó decide assistir a aulas de “como escrever poesia” – ela que, quando menina, ouviu alguém lhe dizer que, no futuro, seria poeta, pois “gostava de flores e falava coisas estranhas” – e, diante das novas circunstâncias, paralelamente às tentativas de livrar o neto de qualquer repercussão da participação no crime, se vê diante de outra batalha: contra o papel em branco; sente-se incapaz de escrever um poema.

Nesse sentido, o que percebemos ao longo do filme é que a dificuldade para encontrar inspiração e deixar as palavras fluírem é, na verdade, o esforço para se permitir sentir. Mijo é uma senhora excessivamente contida, que, no fundo, não consegue entender o que sente; não sabe lidar com as emoções que, de repente, a tomam de assalto. Certa vez, o professor diz que no coração de cada um há poesia e, assim, qualquer pessoa seria capaz de escrever. Em um coração que reprime os sentimentos, contudo, não parece sobrar espaço para os versos.

Da mesma forma que a poesia é uma metáfora para o sentir, o Alzheimer parece ser uma desculpa forjada pelo próprio corpo para poder, definitivamente, não expressar o que se sente. É como se a doença fosse uma reação de defesa diante de uma vida cujos sentimentos parecem constantemente abafados – seria mais conveniente, portanto, que se esquecesse de tudo (o filme mostra semelhanças claras com o livro You Lost me There, sobre o qual já falei aqui).

Por outro lado, a vontade de escrever é desesperadora: aquela senhora busca incessantemente a cura para o bloqueio. Vive um conflito constante entre a tendência a reprimir o que sente – e a esquecer– e a urgência de dar vazão aos sentimentos – e, assim, ter sobre o que escrever (“o esforço para lembrar é a vontade de esquecer”, como canta Rodrigo Amarante…).

O espectador é, assim, convocado a mergulhar nessa angústia, a qual se torna ainda mais profunda, já que não há qualquer “distração”– sequer há trilha sonora. Dessa forma, praticamente em silêncio, vemos que as emoções, mesmo quando não ditas, acontecem e trazem conseqüências; e, quando colocadas para fora, aliviam – e podem fazer poesia.

 (Poesia, direção e roteiro de Lee Chang-dong.)

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