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I’m no good

Diferente dos dias anteriores, não choveu em São Paulo. O Anhembi estava lotado e até estrelas apareceram no céu para compor a atmosfera de celebração à soul music.

Mas, apesar do clima favorável, quando a atração principal é Amy Winehouse, se a cerveja da arena acaba mais de duas horas antes de o show começar, surge um mau presságio.

Dito e feito.

Todos ali sabiam que, ao longo de sua estadia no Brasil, as performances não estavam sendo primorosas. Falou-se mais dos momentos de punk rock star (tombos, confusões entre microfones e garrafas d’água, gestos suspeitos entre mãos e nariz, etc) do que do desempenho musical em si – já que este não havia causado nenhum grande impacto até então.

Mas os paulistanos acreditavam que tudo seria diferente: ou a grande cantora desencantaria e mostraria, de fato, o talento que fez o mundo a conhecer; ou a tragédia seria ainda maior (a propósito, fiquei chocada com o tamanho da “torcida” para que Amy ficasse o mais louca possível, desse vexame e se afundasse ainda mais, sob olhares de todos, no buraco em que se meteu; triste ver o prazer sádico e sanguessuga de certas pessoas).

Entretanto, nenhuma novidade e, assim como nos outros lugares, o show foi chocho, desanimado e Amy parecia apenas uma sombra dela mesma.

Mal se ouviam as palavras saídas de sua boca – a interpretação de “Rehab” foi deprimente, quase inaudível – e os poucos bons momentos se resumiram ao final, com “Valerie” e “You know that I’m no good“.

Talvez se tivesse sido realizado em um barzinho escuro e undergound, com o público sentado e tomando uísque, possivelmente se teria dito que o show foi bom. A banda é realmente talentosa e o repertório – soul, jazz e r&b, incluindo diversos covers da velha guarda desses gêneros – tem qualidade inquestionável, mas é quase intimista e definitivamente não direcionado a uma multidão de jovens que só queria ver a “Amy loucassa” e o circo pegar fogo…

Portanto, sem ter havido uma performance arrasadora, nem um vexame homérico, a sensação que fica é que todos sairam frustrados.

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Mistura completa

Amanhã chega a São Paulo o Summer Soul Festival; ou, se preferirem, amanhã chega a São Paulo Amy Winehouse.

Como muito se fala desta que é a maior rock star dos últimos tempos – i.e. uma artista talentosíssima, sem noção, com forte atração por substâncias psicotrópicas as mais diversas, e com grandes chances de não permanecer entre nós por muito tempo – prefiro enfatizar aqui a outra grande estrela da noite: Janelle Monáe.

Menos conhecida, mas talvez igualmente talentosa, Janelle é daquelas artistas pop multimídia – grupo do qual a maior expoente talvez seja Lady Gaga – que busca aliar sua música a outras formas de expressão pop (seja por meio da roupa – topetão e smoking –  de videoclips cinematográficos, declarações polêmicas e nonsense, performances, etc.).

Janelle é também inclassificável. Seu primeiro álbum, The ArchAndroid é impossível de ser rotulado. O caminho mais fácil seria fugir de especificações musicais e o classificar como “álbum conceitual”, uma vez que tudo ali é elaborado com o propósito de contar a história de um andróide que cai na Terra e experimenta os mais diversos sentimentos humanos.

 

Dizer que The ArchAndroid é só isso, no entanto, não é suficiente para descrever a miscelânea sonora que está ali presente. Há pop, R&B, funk, elementos eletrônicos (tem até participação do igualmente performático Of Montreal) e tribais, baladas dor-de-cotovelo e etc.

O mais incrível é que, apesar de toda essa mistureba, o álbum é coeso e muito bom. As melhores faixas são “Locked inside” – a mais conhecida, um pop-funk-R&B dançante com vocais poderosos – “Oh, Maker” – triste e sofrida, mas linda – e a genial “Tightrope”, um funk acelerado com participação do produtor do álbum, Big Boi (Outkast) – que é impossível de se ouvir parado.

É por essas e outras que, amanhã, obviamente quero ver o circo pegar fogo com Amy, mas sei que, em se tratando de Janelle Monáe, dificilmente haverá surpresas negativas – e será um showzaço.

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