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Enfim, Strokes – Parte II

(continuando…)

Invertendo a ordem normal das coisas, inicio com a conclusão: Angles é um baita disco.

A explicação mais preguiçosa seria a de que, considerando que o álbum é feito por uma das melhores bandas dos últimos tempos, necessariamente seria acima da média. Não é tão simples assim… – e este argumento é dos mais ocos.

De fato, bandas ruins dificilmente serão capazes de fazer grandes discos, mas ótimas bandas podem, sim, produzir desastres.

Muitos são os exemplos da síndrome do álbum seguinte – para citar apenas três, o que dizer da brusca transformação do Kings of Leon, ou do controverso quarto álbum do Los Hermanos (Quatro), ou da guinada do MGMT no seu mais recente Congratulations (aliás, só eu acho que a capa de Angles lembra muito a de Congratulations?!)

Surgem então alguns questionamentos: até que ponto uma banda de sucesso deve sempre replicar a velha fórmula que deu certo? A “cara” de uma banda admite que se façam experimentações e inovações, ou estabelece um padrão restritivo e limitado? Ainda, em que medida os fãs aceitam mudanças de estilo?

Algumas, como os Beatles – para chutar alto – se preocupavam menos em manter uma continuidade do que em buscar uma evolução constante de seu som, sempre indo além e aliando novos elementos musicais.

Há, por outro lado, bandas que se repetem e ponto: a minha favorita de todos os tempos, AC/DC, por exemplo, é mestra nisso. (Lembro-me de um trecho de uma matéria da Rolling Stone: “You ever heard of  AC/DC?” an older fan was overheard asking a college-aged kid last night on the way into Massachusetts’ Gillette Stadium, site of the group’s Black Ice North American tour opener. “Isn’t that the band that sings only about sex and rock?” was the response. The answer, quite unequivocally — and gloriously — was yes”).

The Strokes equilibra essas duas tendências: se, de um lado, o que mais se ouviu quando do lançamento do segundo disco da banda (Room on Fire) foi que era bom justamente por ser parecido com o primeiro – e que o terceiro (First Impressions of Earth) seria ruim porque diferente – Angles é ótimo porque mistura o velho e o novo Strokes.

Foi dito por aí que Angles seria uma mistura dos projetos solos de cada um de seus integrantes – o flerte com o new wave oitentista de Casablancas, o “tropicalismo californiano” de Moretti, etc. De fato, a lentinha “Call Me Back” soaria bem na voz de Rodrigo Amarante e Binki Shapiro; “You’re so right” e, principalmente, “Games” (que tem uma pegada bem anos 80) são a cara de Casablancas – e só dele.

Mas pegue, por exemplo, o já hit “Under Cover of Darkness” e até a mais sombria “Metabolism”. Alguém discorda que poderiam perfeitamente integrar algum dos dois primeiros álbuns da banda?

Como se não bastasse, há também faixas que não são “trabalhos solo” de seus integrantes, tampouco o bom e velho Strokes, mas algo um tanto híbrido; as duas melhores do disco, “Two Kinds of Hapinness” e “Taken for a Fool”, são exemplos. A última começa meio esquisita, meio eletropop (tendendo a Gorilaaz, saca?), até que vem o refrão… aquela velha batida… os vocais distantes e meio esganiçados, a bateria desesperada de Fab… e o alívio: é, Strokes está de volta.

Outra: “Machu Picchu” – a boa faixa que abre o disco – ainda que faça jus ao nome e conte com elementos meio andinos na abertura, vai se transformando em algo que, inequivocamente, tem a cara deles.

Por essas razões, Angles consegue a um só tempo misturar um pouco de tudo – e de todos seus integrantes – e ainda assim preservar a alma Strokes. Para alguns, isso tem soado um tanto “retalhado”; para outros, é Strokes a partir de novos ângulos. Seja como for, termino como comecei: Angles é um baita disco.

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Enfim, Strokes – Parte I

(AVISO: acabei me empolgando com o post e ele ficou gigante. Por isso, hoje tem a primeira parte, depois publico o resto!)

 

Escutei a primeira música nova do Strokes sem saber que era a primeira música nova do Strokes.

Embora ciente de que uma das faixas do “já histórico mesmo antes de nascer” Angles havia sido disponibilizada (oficialmente…) pela banda, era tamanho o oba-oba a respeito que fiquei com preguiça de correr para escutar.

Foi, portanto, sem querer – em uma balada com Lucio Ribeiro de DJ (só podia ser) – que “Under Cover of Darkness” caiu em meus ouvidos. Ah, e como caiu bem…

No primeiro momento, fiquei um pouco confusa: “ué, isso definitivamente é Strokes… mas que raio de música é essa que não conheço?!”. Culpei o álcool pela falta de memória.

Foi apenas alguns dias depois, quando o CD inteiro “foi vazado”, que ouvi pela primeira vez aquilo que, mesmo sóbria, não poderia ter reconhecido. Melhor dizendo, reconheci novamente aquilo que já tinha ouvido e reconhecido como The Strokes – mesmo não muito sóbria.

Eu havia dito aqui no blog que preferia esperar o conteúdo assentar, antes de dizer algo a seu respeito. Pois bem, já se passaram alguns dias e, escutando incessantemente este álbum, acho que já posso compartilhar minhas primeiras impressões – the first impressions of Angles.

Antes, porém, uma última (juro!) digressão: quem não é muito familiarizado com o mundo do rock alternativo (ou indie) pode se perguntar: “o que esse Strokes tem que os outros não têm?”

Para mim, Strokes é diferente dos demais porque: 1) foi a segunda banda de rock (de verdade) pela qual realmente me apaixonei – a primeira foi AC/DC – e 2) foi a banda de rock mais influente que minha geração (por “minha geração” entenda-se aquela que ainda era pequena demais para entender Kurt Cobain) viu surgir – antes que me questionem novamente: Radiohead pode ser genial, mas é menos “banda de rock” que Strokes.

Por que digo isso: fazendo coro ao que se diz por aí, sou partidária da opinião de que Julian Casablancas, Nick Valensi, Albert Hammond Jr., Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti (a.k.a. o baterista brasileiro amigo de Rodrigo Amarante e namorado de Binki Shapiro) “salvaram o rock”.

O primeiro álbum da banda, Is this it, lançado em 2001 – bem definido pela Rolling Stone como “tight, lean, smart and almost subliminally catchy” – ao misturar rock do final dos anos 70 (i.e. ares hippie-punk-descolados), com jaquetas de couro, vocais sujos e uma sonoridade de garagem – não quis reinventar a roda, mas, o contrário, lançou mão de uma formação roqueira “clássica” – guitarras, baixo, bateria e voz – anunciou o fim da hegemonia dos sintetizadores e tecladinhos e foi um dos responsáveis pela “volta do rock” – amém!.

O Pitchfork, menos deslumbrado que a maioria dos representantes da mídia, foi ainda mais preciso em sua definição:

“The Strokes are not deities. Nor are they “brilliant,” “awe-inspiring,” or “genius.” They’re a rock band, plain and simple. And if you go into this record expecting nothing more than that, you’ll probably be pretty pleased. See, while I can’t agree with the Strokes’ messianic treatment, I’d be lying if I said I thought Is This It was anything other than a great rock record.”

E, mesmo após o lançamento de outros álbuns – principalmente Room on Fire (2002), mas também First Impressions of Earth (2005) e os momentos mais “old school” de Angles – Strokes continua sendo simplesmente isso aí: uma ótima banda de rock.

Falando nisso, e indo ao que interessa, vamos falar de Angles?

 

(continua…)

 

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