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Passeios solitários

PARIS – Certas obras artísticas, sejam elas musicais, visuais, etc., têm o poder de fazer o tempo do espectador parar. Provocam sensações tão intensas naqueles que as experimentam, que, por instantes, não se percebe mais nada; só aquele quadro, aquele som. Somos transportados para dentro da obra.

Edward Hopper (1882-1967), um dos nome mais importantes da pintura norte-americana do século XX, tem o dom de fazer isso.

“Nighthawks”

Sua obra é normalmente associada à solidão de personagens frente ao materialismo da sociedade estadunidense do início do século XX. Em grande parte de seus quadros, não há mais do que uma, ou duas pessoas. Cada uma delas (as prostitutas em quartos de hotéis, os casais silenciosos em lanchonetes, os transeuntes em esquinas vazias) é uma metáfora de seu tempo; representa a um só tempo com realismo e simbolismo a falta de perspectiva no horizonte – especialmente da classe média-baixa daquele país.

Mesmo quando retrata apenas paisagens, ou construções, a luz que imprime nas obras porta consigo uma certa tristeza; um ar frio.

“House by the Railroad”

Hopper passou alguns dos primeiros anos de sua vida artística em Paris; ali chegou em 1906. Considerava tal cidade “bela e elegante”, comparada “à desordem brutal” de Nova Iorque. E foi para lá, 45 anos após sua morte, que voltou: mais precisamente, para o Grand Palais, em uma das maiores exposições já feitas em sua homenagem.

“Chop Suey”

A mostra é dividida em duas seções principais: os anos de formação do artista (1900-1924), em que suas obras são contrapostas às de outros artistas contemporâneos, bem como a quadros daqueles que o inspiraram em sua passagem por Paris; e a segunda parte, em que vemos seus trabalhos mais emblemáticos, que formam um todo de estilo único. É possível também apreciar algumas de suas gravuras, as quais, em preto e branco, são verdadeiras jóias, de beleza comovente

“Night Shadows”

“Night on a Train”

e, por fim ainda sua influência na obra de outros artistas (como o cineasta Wim Wenders).

Como todo trabalho genial, seu legado é eterno, atemporal; e seus quadros podem ser revisitados, hoje, em muitas esquinas, seja qual for o lugar.

“Morning Sun”

* este post é (mais uma) singela homenagem àquele que me desvendou a beleza da arte de Hopper.

(Edward HopperGrand Palais, Galeries nationales, Paris, França. Curadoria de Didier Ottinger, diretor assistente do MNAM – Centre Pompidou. De 10 de outubro de 2012 a 28 de janeiro de 2013).

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Google cult

Morro de medo do Google.

Se Deus seria, desde sempre, onipotente, onipresente e onisciente, o Google, nos anos 2000, tem dado mostras de que não pretende ficar muito atrás – pense na loucura que é o “oráculo Google”, aquele para quem tudo se pode perguntar e nada fica sem resposta…

A constante busca por inovações, aplicativos e penduricalhos é, a um só tempo, assustadora e fascinante; foram criados em pouquíssimo tempo Google Earth, Google Desktop, Google Maps e por aí vai.

Mas, ontem, confesso que tirei meu chapéu para o Google como nunca antes na história: foi criado o Google Art Project.

A idéia não é das mais complexas e deriva de outro programa do Google, o Street View: como se não bastasse poder navegar por imagens de satélite de todas as quebradas e bibocas do mundo todo, agora, com o Art Project, será possível visitar virtualmente os maiores museus do mundo, “passear” pelas salas onde se encontram dispostas as obras – e dar belos zooms em qualquer obra de arte dali – e ainda montar sua própria “galeria” a partir das obras favoritas.

A lista das instituições parceiras já é grande – e excelente – incluindo, dentre outros, o Metropolitan Museum of Art, o MoMA (ambos de Nova Iorque), o Museo Reina Sofia (Madri), a National Gallery e o Tate Britain (ambos em Londres), o Palácio de Versailles, a Galeria Ufizzi (Florença) e o Museu Van Gogh (Amsterdã).

Dessa forma, para alem de gadgets e cacarecos, alguns de utilidade questionável, o Google desta vez une forças para garantir maior acessibilidade à cultura em si. Seja servindo como teaser para aqueles que pretendam visitar fisicamente os museus, ou como uma forma de permitir que aqueles que dificilmente poderão visitar tais museus se sintam ali seja aonde estiverem, o Google Art Project é um avanço na direção da valorização e, por que não, democratização das artes visuais.

Tudo bem que do Google nunca se espera pouco, mas até para ele, este não é um pequeno feito.

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