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Chegamos ao fim

Convenhamos, não há nada pior do que tomar um pé.

Menos pior, mas ainda assim terrível, é constatar que uma paixão acabou – e que nada mais há a se fazer. Tantas noites gastas, tantos copos sujos, tanta conversa jogada fora…

Mas, se serve de consolo, uma hora ou outra – uma só vez, ou várias – isso acontece com todos nós.

Depois do fim de um relacionamento, primeiro a gente bebe – já dizia Cartola: “procuro afogar no álcool a sua lembrança, mas noto que é ridícula a minha vingança” – depois nos sentimos a última das criaturas do mundo, mas, então, chega um dia em que damos gargalhadas e pronto.

Nessas horas, depois da fossa, chega o momento de sacudir a poeira e usar a raiva para seguir adiante.

E, para quem precisar de uma ajuda instantânea, a “Coletânea TRAAA! – Uma coletânea tapa na cara!”, da querida Musicoteca está aí para dar uma força.

Mais uma bola dentro da Musicoteca

Ali, assim como naquelas horas, há momentos deprês, raivosos (e vingativos) e outros ironicamente engraçados.

Na coletânea em questão, tais momentos se alternam maravilhosamente bem, traduzidos em palavras e sons por alguns dos artistas preferidos do re.verb, como 5 a Seco (“Gargalhadas”), Karina Buhr (com a deliciosa “Não me ame tanto”: “Não me ame tanto, eu tenho algum problema com amor demais, eu jogo tudo no lixo”), Bárbara Eugênia (“O Tempo”: “mas o tempo é um amigo precioso, que fica sempre observando aquele instante em que alguém tentou se aproximar”), SILVA (“Imergir”: “navios dizem recomeço, do mar ninguém chegou ao fim, eu vou deixar seu nome imergir”), etc.

Ela começa com Marcela Bellas, “Por Favor”, em um momento tristonho, com sentimento confusos, típicos de um momento pós-briga derradeira: “Arrume as malas com o que for seu, por favor, deixe pra trás o que eu fiz por merecer e as garrafas de licor”; fica um pouco mais autoconfiante na seguinte, em “Açúcar ou Adoçante”, de Cícero: “mas se você quiser alguém pra amar, ainda, hoje não vai dar, não vou estar, te indico alguém”.

Mas, então, o clima vai melhorando, fica bem de novo com o sambinha “Roupa do Corpo”, de Filipe Catto: “no caminho da rua, sambei meia hora em cada esquina, entrei num boteco, fiz doze amigos do peito e da pinga, eu bebi e subi em cima da mesa, dizendo ‘seu moço, traz mais uma gelada, que a nêga aqui hoje teve alforria’” e o forrózinho “Animal” (Mula Manca & A Fabulosa Figura).

Como ninguém é de ferro, momentos de recaída – quando bate uma saudade insuportável – também são permitidos: o rockzinho brega “Não Quero Te Agredir” (Validuaté) diz: “Vá, que ter saudades faz um bem danado, e assim que o coração fica apertado, e lembra novamente o que é o amor (…) e quando meu peito compreender que não tem jeito, eu mandarei um moto-táxi te buscar”.

No final das contas, o que realmente importa é que tudo termine, literalmente, com “Gargalhadas” (5 a Seco): “Pra que buscar recaída, reviver o drama, mexer na ferida? Por onde se engana o coração, se encontra saída pra vida”.

Baixe a Coletânea aqui – e bola pra frente!

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Dividindo iPods

Mostrar seu iPod a alguém quase equivale a abrir o coração. Isso porque ali, normalmente, as idiossincrasias ficam mais claras – AC/DC lado a lado com Fundo de Quintal, no meu caso – e trilhas sonoras de toda uma vida se escancaram.

Por isso, playlists podem ser ainda mais íntimas. Afinal, lá estão seleções feitas especialmente para algum momento, pretexto, ou alguém.

Por outro lado, são as playlists (alheias) os melhores atalhos para se descobrir novas paixões musicais. Assim, uma boa seleção musical, por mais íntima que seja, deve ser compartilhada – pelo bem geral.

Hoje, a playlist a ser dividida aqui não foi feita pelos reverbs, mas por outro blog, o Musicoteca – recomendadissímo, por sinal – e toca um tema difícil, mas comum a todos: “a fossinha”.

Mas, veja bem, não se trata de uma lista de músicas para cortar os pulsos, pelo contrário; é mais provável que se saia dançando com os fones de ouvido do que aos prantos querendo se enforcar neles.

A lista (que pode ser baixada na íntegra, de grátis, aqui) é eclética, mas só tem brasileiros contemporâneos. Alguns são a pura nata do cenário independente atual – como Marcelo Jeneci, Karina Buhr, Nina Becker, Bárbara Eugênia, etc. – e outros (ainda) menos conhecidos.

Os ritmos são os mais variados, de sambinhas a blues, de rock a reggae e pseudo-chanson française.

Algumas são pérolas impagáveis, como “Sem (Des)esperar” de Leo Cavalcanti com Tulipa Ruiz, ou Letuce cantando o clássico brega “Poderosa”. Há ainda cover de Los Hermanos (“O Velho e o Moço”, ao piano, por Sara Bentes), Karina Buhr soltando toda sua energia em “Mira Ira”, BárbaraEugênia com uma de suas melhores faixas (“A Chave”), a música que mais gosto de Marcelo Jeneci (“Dar-te-ei”)

É uma seleção digna de aplausos; e de se reverberar por aí.

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Na bad

Ouvi de uma amiga que o inverno é a pior estação para os solteiros. Ainda que, oficialmente, aquele não tenha chegado, o frio já… e, com ele, a velha sensação de um certo desamparo inevitavelmente arrebata os corações mais sensíveis espalhados por aí.

É por essa razão que hoje é dia de falar de um álbum que não é exatamente novo – foi lançado no final de 2010 – mas que cai bem como um chocolate quente neste tempo.

Comparada à grande parte das outras cantoras da “nova MPB” – como bem falou José Flávio Júnior: “Achar uma boa cantora no Brasil é moleza. Se você sacudir uma árvore, é bem possível que derrube umas três” – Bárbara Eugênia não apenas é talentosa, mas também menos afeita à leveza e ao colorido; é mais melancólica, sombria – o que é um alívio em meio à mesmice.

Não por acaso, seu disco de estréia chama-se “Journal de BAD“. E é isso aí: a pobrezinha está com o coração despedaçado (só ela?) e canta sobre suas agruras para expiar a dor – logo na abertura, em “A Chave”, há o relato de um fim de relação que, facilmente, poderia ter sido retirado de um diário.

As treze faixas, em sua maioria, abraçam diversas espécies do rock’n’roll – em português e inglês –; sendo tudo, no entanto, bastante delicado, com ares nostálgicos, principalmente do cenário europeu dos meados dos anos 60.

Por vezes com raiva (“Drop the bombs” – em que soa como uma Alison Mosshart psicodélica); outras com pura melancolia (como o lindo e tristíssimo blues-rock “Embrace my heart and stay” – “I beg you baby, baby, baby, please come to me/ Don’t leave me this way, embrace my heart and stay“); com ironia (“É, rapaz!”: “Eu sou aquela que te olhou com bem mais do que olhos de agradinhos, de primeira vez”); ou ainda com a inocência fofa do rock dos anos 50 (como em “Por aí”, na qual a garota espera, “fumando mil cigarros, bebendo Coca-Cola”, o garoto que nunca chega).

A exceção, que pode até ser considerada um sinal de esperança – por ser a faixa que fecha o álbum –, é a bem humorada marchinha “Sinta o gole quente do café que fiz pra ti tomar” (sim, “ti”, com “i”).

O disco conta ainda com participações de peso, como Tom Zé – que participa da belíssima “Dor e Dor” –, a guitarra inconfundível de Fernando Catatau em “Tempo”, e ainda Otto, Karina Buhr e Tatá Aeroplano.

É, enfim, um álbum muito bom, que conta com um tom quase confidencial e que, felizmente, destoa daqueles de outras menininhas por aí.

É também um disco indicadíssimo – ou absolutamente proibido – àqueles que, no momento, têm as vidas ocupadas por desilusões amorosas, dores de cotovelo, pés na bunda e afins.

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