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Lord Anthony

O que dizer de um show que termina com um solo de gaita? Eu sinceramente não sei. Quando “Me and The Major” terminou, fiquei ali parado, duvidando por mais uns dez minutos, esperando infantilmente um retorno da banda ao palco. Obviamente isso não aconteceu e quando caiu a ficha de que eles não voltariam mesmo, sentei, terminei minha cerveja e pensei: “Caralho, eu realmente assisti a um show do Belle and Sebastian”. Falando sério, por muito tempo achei que isso nunca fosse acontecer. A última passagem dos caras por aqui tinha sido em 2001 e depois disso várias vezes eles tiverem perto de voltar, mas por diversas razões isso acabou não acontecendo.

Depois de uma mega turnê em 2006, os escoceses deram um tempo (devia existir um tratado internacional estipulando que bandas como o Belle and Sebastian não podem ficar mais de dois anos paradas) e eu cheguei a achar que aquilo ali era o fim. Mas, graças a Deus, 2010 chegou para provar que eu estava errado e eles não só lançaram o oitavo álbum, “Write About Love”, como resolveram voltar para cá e fazer duas apresentações, uma em SP e outra no Rio – BH bem que tentou, mas não foi dessa vez.

Antes que você leia por aí que a apresentação de São Paulo foi fria ou que o som da banda envelheceu, me sinto na obrigação de dizer uma coisa ou outra. Já vou adiantando, entretanto, que, no fundo, tudo o que escreverei a partir daqui se resume ao seguinte: “o show foi foda demais”. E digo isso principalmente por dois motivos.

Primeiro, os caras dão uma puta aula de como se fazer um show. E não venha me dizer que isso é óbvio e que não poderia ser diferente por se tratar do Belle and Sebastian. Está cheio de banda do mesmo naipe por aí, mas que faz um showzinho bem meia boca. Mas, enfim, isso é outro papo. Voltemos à aula escocesa de como se fazer um show.

Primeiro passo: conheça bem seus colegas de banda (e de palco). Uns quinze anos já se passaram desde que o Sr. Stuart Murdoch resolveu montar o Belle and Sebastian como seu TCC (merda, por que não pensei nisso quando fiz meu TCC?) no curso de music business na facul e isso, meus amigos, não é pouca coisa. Como diria minha mãe, quinze anos é uma vida (ela falaria isso ainda que a banda tivesse um ano – ou dois ou três – de existência). E devo dizer… O tempo fez muito bem para eles. Os caras jogam por música (com o perdão do trocadilho). Cada um sabe exatamente o que fazer no palco, qual sua função, sua deixa.

Segundo passo: tenha um lead singer com danças bacanas. Sim, é preciso ter um vocalista do quilate do Sr. Murdoch. O cara é um show dentro do show. Ele devia patentear aquela dancinha em que ele dá uma corridinha sem sair do lugar balançando os braços encolhidos no ar. Fora que o cara destrói na guitarra, no piano e no que mais aparecer pela frente.

Terceiro passo: jogue bolinhas de futebol americano autografadas para a galera. É bonito demais assistir a uma banda que realmente curte estar em cima de um palco fazendo um show. É difícil perceber isso, mas quando você saca que os caras estão felizes lá em cima, bate um bem estar impressionante. Eu percebi isso quando vi que uma das violinistas, mesmo claramente frustrada com o som do seu instrumento, não estava ligando muito para os problemas sonoros e cantava feliz da vida (sem qualquer microfone e sem a menor pretensão de ser ouvida) uma das músicas, acompanhando verso a verso como se fosse a vocalista da banda. Ali rolou aquele arrepio e já senti que tinha ganhado a noite. Mas para melhorar ainda mais, pouco tempo depois o parceiro Stuart lançou bolinhas de futebol americano autografadas para a galera e ainda desceu para dar uma volta no meio do pessoal (chegando até a grade da pista comum!).

Quarto passo: “Lord Anthony”. Escutar ao vivo músicas como “Jonathan David” (ainda mais na versão acústica) e “Lord Anthony”, me fez lembrar por que eu gosto tanto de bandas como o Belle and Sebastian e mais ainda: por que eu comecei a gostar de Belle and Sebastian em primeiro lugar. Lembro perfeitamente quando lá pelos idos de 2000 (eles tinham acabado de lançar “Jonathan David”), meu pai virou para mim e perguntou: “Meu filho, que tipo de música você gosta?” e eu, meio sem jeito e sem saber o que responder, falei quase engasgando: “… Rock alternativo…” (seja lá o que isso for devo ter pensado). Obviamente meu pai não ia deixar barato e já emendou maldosamente: “Como assim?” e eu (já mais vermelho do que o normal) mandei: “Ah… Tipo Belle and Sebastian…”. Hoje, acho que entendo por que falei isso naquele momento… O que eu queria dizer era que, por mais que rock já fosse bem legal, aquilo que o Belle and Sebastian estava fazendo era mais legal… Não tinha refrão, nem pretensão, contava histórias de crianças que tinham vergonha por ser mais inteligentes que seus professores. E eu achava (e ainda acho) isso genial.

Em segundo lugar, além de ter a fórmula do show perfeito, o Belle and Sebastian é uma daquelas bandas que conseguem controlar incrivelmente o termômetro de empolgação do seu público. É um negócio meio psicodélico que eu não sei ao certo como explicar. Não sei sequer se “empolgação” é a palavra correta, talvez seja “sensações” ou “sentimentos” mesmo (correndo o risco de ser brega, mas vamos lá…). É engraçado como uma banda (as vezes durante uma mesma música) consegue fazer você se sentir a pessoa mais feliz do mundo e alguns versos depois te joga contra uma cama de pregos sem dó. O Belle and Sebastian (e digo isso com todo carinho do mundo) é assim…

Em um minuto você sente que perdeu todos os vôos de volta para casa e no outro você sente que está sentado numa praia cravando as mãos na areia quente.

Até agora não sei ao certo qual das duas sensações prevaleceu ao fim do show, mas tenho certeza de que valeu a pena.

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Belle e os empolgados

Quarta passada São Paulo recebeu novamente, depois da participação no Free Jazz Festival de 2001, a banda Belle & Sebastian. Para quem não conhece, a banda – cultuadíssima no início dos anos 2000 – apresenta um som “fofo”, que intercala baladas melódicas e tecladinhos dançantes, transitando bem pelo pop, rock e folk.



Entretanto, ainda que o show de São Paulo mereça outro post (certo, Mundim?) este aqui é para homenagear, mais uma vez, aqueles que, junto com grandes shows, festivais e estrelas de todos os portes – para todos os gostos – entrarão no rol dos melhores momentos musicais de 2010: os Cariocas Empolgados.

Isso porque o show do B&S de hoje no Circo Voador, no Rio, assim como o do Miike Snow em setembro, foi resultado do esforço conjunto de fãs de música independente (os amigos Bruno, Felipe, Lucas, Pedro e Tiago) que, indignados com o fato de bandas boas passarem por cidades vizinhas, mas não pararem no Rio (de acordo com alguns, por uma suposta “falta de interesse” do público carioca), resolveram tomar as rédeas da situação e trazer eles mesmos os shows queridos.

Como disse Lucio Ribeiro – quem, assim como tantos outros se empolgou com a empolgação dos cariocas – os cinco Empolgados reinventaram o lema “do it yourself” típico do punk – e, ao invés de se munirem de guitarras, bateria e microfone para formar uma banda, resolveram fazer as contas de quanto custaria trazer as bandas favoritas e, com dinheiro de seu próprio bolso e outros 60 Cariocas Empolgados, racharam a conta. Deu certo.

  

O mais bonito dessa história, que foi correndo boca a boca pelos fãs do indie até chegar nas grandes mídias (como a capa do caderno de música do Estadão, o Multishow, a revista Veja, etc.),  é saber que, cada vez mais, quando se fala em música independente, está-se falando não apenas da independência dos artistas em relação às grandes gravadoras – o que tem permitido o florescimento de sons os mais diversos, sem ingerência de caciques do mainstream – mas também da aproximação entre artista e público. E nada mais gratificante, para ambos os lados, do que perceber que essa ligação direta é possível.

Por isso, não é exagero dizer que nesta noite, no Rio, assim como ocorreu em setembro, mais um belo sonho musical se realizará.

Alguém avise o Obama que, a partir de agora, “Yes, we can” tem sotaque carioca.

 

 

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