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Suspense vazio

“Preciso muito te contar uma coisa… não é algo trivial, é uma bomba… mas te conto depois”.

Frases como estas são, a um só tempo, um convite irrecusável à curiosidade e uma das coisas mais irritantes que uma pessoa pode fazer com outra.

Justamente por isso, Amor Sem Fim, de Iwan McEwan (Companhia das Letras, 2011), tem no persistente suspense seu melhor atributo e também seu grande defeito. Isso porque toda a narrativa se sustenta na expectativa do que está por vir e, conforme os acontecimentos se tornam conhecidos, a única forma de manter o leitor atento é lançar um novo mistério; uma nova isca.

A história até teria potencial para ser interessante em si mesma – tanto é que virou filme (Enduring Love, de Roger Michell)–: um casal se reencontra depois de um período de separação e, precisamente na ocasião da celebração da volta – um piquenique no parque – presencia um acidente de balão em que uma tragédia se deflagra. Junto com ela, novos personagens são inseridos na trama e outros indivíduos se imiscuem num amor que parecia inabalável.

Mais precisamente, o amor do cientista/jornalista Joe Rose e da crítica literária apaixonada por Keats, Clarissa, é invadido por Jed Perry, um fanático religioso que, assim como Joe, auxilia o resgate do balão desvairado. Não se trata, porém, de um triângulo amoroso comum; ali, Perry encarna a obsessão doentia e persegue até as últimas conseqüências aquele que acredita ser seu amor divino.

O livro é, de fato, instigante; misturando trechos de relatos científicos com digressões íntimas, carrega o leitor ao interior da perturbada mente de Joe – que, de repente, se vê às voltas com um admirador improvável e com a desesperada tentativa de manter são o relacionamento com sua linda mulher.

Porém, o que poderia ser um interessante thriller psicológico – na medida em que adentrasse, de fato, nos questionamentos e dúvidas profundas do narrador (estou louco? Estou apaixonado – e por quem? Como os respingos do acidente estão sendo interpretados por minha mente?) – não vai muito além de rasas perturbações que povoam o cérebro excessivamente racional de Joe.

Ian McEwan é um dos mais aclamados escritores britânicos da atualidade (é o autor de Persuasion, Saturday, dentre outros), mas, nas idas e vindas deste livro – e a despeito de todo o suspense criado – oferece algo um tanto vazio. É como se fizesse força para que o leitor lesse as páginas na diagonal, apenas para descobrir o desvendar de um novo mistério; desperdiçando, assim, a chance de trazer mais uma memorável obra.

Trata-se, sim, de um bom livro – daqueles difíceis de se largar – mas deixa, ao final, um sabor de: “era só isso que você tinha para me contar?”

(Amor Sem Fim, Iwan McEwan, Ed. Companhia das Letras, 2011)

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Samba, a gente não perde o prazer de cantar

Sobre “a nova poesia”, H.L. Menken (velho conhecido do re.verb) diz o seguinte:

“O problema da maioria dos novos poetas é que eles são muito cerebrais – ou seja, atacam os problemas da arte com métodos da ciência (…) O poeta dos velhos tempos não ligava para teorias. Quando lhe vinha aquela vontade de escrever, simplesmente entrava numa banheira com espuma, amarrava uma toalha na cabeça e tentava reduzir seus sentimentos ao papel. (…) mesmo o seu pior fracasso ainda tinha algo natural e desculpável – era o fracasso de um homem com febre de expressar-se” (H.L. Mencken, “A Nova Poesia”, em O Livro dos Insultos, Cia. das Letras).

Assim sendo, o samba claramente pertence à velha guarda; não padece desse mal moderno.

Sim, as rimas e os temas são fáceis: amor sempre rima com dor, sorriso com paraíso e por aí vai… mas qual o problema? É incrível como diz tanta coisa um mesmo “laiá laiá”. E é justamente dessa informalidade, simples como uma cerveja gelada, que soa um canto dos mais expressivos, que fala a todo mundo.

Confesso que quase choro toda vez que ouço versos como: “…mas iremos achar o tom, um acorde com lindo som e fazer com que fique bom outra vez o nosso cantar…”, ou ainda: “…chego a ter calafrio no corpo e a tristeza invade o meu rosto, quando eu lembro teu cheiro, teu gosto, e a farra que a gente fazia…”.

No samba, mesmo a mais profunda dor faz dançar; traz um lamento quase alegre. E, para falar da dor – e de amor – não há rodeios: é tudo escancarado, deslavado, visceral; sincero como uma conversa de bar.

Sexta passada, uma suposta roqueira e suas amigas caíram no samba. Dos melhores, diga-se de passagem, Arlindo Cruz e Diogo Nogueira.

Quanto ao último, basta repetir, novamente, H.L. Mencken: “o que os homens vêem bêbados em outras mulheres, vêem sóbrios em Greta Garbo”. Pois bem, o que as mulheres vêem em Diogo é… bom, deixa pra lá.

Arlindo é o samba encarnado: a malandragem, a carioquice, a fala mansa e a boa vida – sem falar em alguns dos melhores sambas de raiz feitos nos últimos tempos.

O resultado? A alma lavada como que por um banho de sal grosso. E dias seguintes de muitos assobios baixinhos ritmando “laiá laiás”.

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Nas profundezas do bosque de Oz

“Escrevo artigos não porque me pedem, mas porque me sinto tomado de ira. (…) Escrevo a partir de um senso de injustiça e da minha revolta com isso. Mas só posso escrever um artigo desses quando estou cem por cento de acordo comigo,  o que não é minha condição normal – em geral concordo parcialmente comigo mesmo e sou capaz de me identificar com três ou cinco diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto. Nesse caso escrevo uma história, na qual diversos personagens podem expressar visões distintas sobre um mesmo tema”.

Quem disse isso foi Amós Oz, em entrevista feita em 1994 e publicada no ótimo As Entrevistas da Paris Review (sobre o qual já falamos aqui).

Entender sua obra De repente, nas profundezas do bosque (uma “narrativa em prosa” – como prefere nomear o gênero “ficção” – publicada pela Companhia das Letras) fica mais fácil a partir da declaração acima.

Nesse livro precioso, tem-se a fábula de um vilarejo que, embrenhado na escuridão e no silêncio, não abriga animal algum. Os mais velhos, tomados pelo receio de falar sobre o assunto, raramente comentam sobre a noite em que todos os bichos sumiram. Os mais jovens, criados em um mundo habitado exclusivamente por humanos, são ensinados a acreditar que cães, gatos, pássaros e moscas são lendas.

Mais, há rumores de que os animais foram, há muito tempo, levados pelo “demônio da montanha”, Nehi. Por essa razão, “Nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma de verdade, diziam os pais aos filhos, que nunca e de maneira alguma se atrevessem a sair de casa depois do escurecer”. Adentrar ao bosque, então, nem se fale. Proibido. Perigoso.

Não se toca no assunto e, os poucos que se atrevem a questionar a inexistência dos animais, são considerados loucos, são alvos de gozação. Pode ainda ser pior: o pequeno Nimi, por exemplo, o menino de nariz escorrendo, sempre alvo de chacota, que sonhava com bichos e um dia sumiu no bosque, voltou avariado; voltou contaminado com a “doença do relincho” – não falava mais, só ria e relinchava. Tornou-se uma aberração, ninguém se atrevia a chegar perto dele – poderia contaminar quem se aproximasse.

Por essa razão, o perigo que o bosque e a escuridão traziam, o medo pairava pelo vilarejo: “E apesar disso todos se lembravam muito bem, em silêncio, do que era melhor não lembrar. E havia certa necessidade de negar tudo, negar até o próprio silêncio, e zombar de quem, apesar de tudo, lembrava: que se calasse. Que não falasse”.

Mas, Mia e Mati, duas crianças curiosas, lembravam de algo que viram num certo dia – um peixe? Como assim, um peixe? – e, contrariando a ordem local, resolveram não esquecer. Decidiram, então, descobrir o mistério daquele lugar e do sumiço dos bichos.

É dessa forma lúdica, repleta de lírica e fantasia, que Amós Oz – um dos mais renomados escritores israelenses contemporâneos – tangencia, nesse adorável livro, questões humanas fundamentais, como a discriminação e a tolerância; a relação entre homem e natureza; a angústia de se ter que pertencer a um grupo; o questionamento de regras e a relação com o dogmatismo, ou obscurantismo.

Assim, justamente por lidar com todos esses temas de maneira hábil e não impositiva – não há sermão, nem bonzinhos e mocinhos – a declaração que iniciou este texto faz sentido: diversos pontos de vista sobre um mesmo assunto são postos em xeque. A moral da história quem tira é o leitor.

 

(De repente, nas profundezas do bosque, de Amós Oz, Editora Companhia das Letras)

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Sem empolação

É de dar dó quem se leva muito a sério. Mais ainda, quem confunde empolação com credibilidade e profundidade. Isso porque, quem se preocupa em levar tudo a ferro e fogo não apenas se diverte menos, como gasta tanta atenção em manter a postura que deixa passar sutilezas e ironias mais profundas do que aquilo que se extrai dos meros formalismos.

Quem disse que da graça não podem surgir questões essenciais? Por que o humor seria algo menor?

Se sustentar um argumento tem a função última de convencer o leitor – nada mais é que um processo de sedução – por que não ser leve, agradável? (Você chamaria alguém para sair sem se preocupar minimamente em ser simpático; sendo um chato?)

Se, por um lado, alguns tendem a achar que o grau de dificuldade de compreensão de um argumento é diretamente proporcional à sua relevância; outros são hábeis o bastante para serem sucintos, inteligentes, simpáticos e acessíveis, mesmo quando transmitem os mais complexos conceitos e idéias.

Exemplos do primeiro grupo há vários: acadêmicos com seu eterno tom doutrinário, políticos, burocratas… advogados, então, nem se fale! Representantes do outro grupo são mais raros… vamos a um? H.L. Mencken.

Este foi um dos maiores jornalistas dos Estados Unidos. Foi também crítico, filólogo (sua obra mais conhecida é The American Language, um estudo sobre a diferença entre a língua inglesa e a “americana”), ensaísta e, acima de tudo, provocador.

Seu tom informal, mas sofisticado; emocional, sem deixar um raciocínio pela metade, imprimia em seus textos uma vitalidade difícil de se comparar. Concorde ou não com suas opiniões – muitas vezes radicais e quase sempre politicamente incorretas (“A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – em “O Crédulo” –; fidelidade é apenas a falta de coragem para trair – em “A Mulher Libertina” –) – é difícil não se sentir incitado por seu texto; impossível se entediar.

Alguns de seus melhores ensaios e críticas – extraídos de A Mencken chrestomathy e A gang of Pecksniffs – estão compilados no Livro dos Insultos (Cia das Letras, tradução, seleção e posfácio de Ruy Castro – que, como poucos, consegue reproduzir a riqueza do texto original).

Ali, Mencken fala sobre quase tudo: o homem, as mulheres, religião (ou a falta de), moral, cultura (Joseph Conrad, Edgard Allan Poe, Mark Twain, Beethoven, Strauss são alguns de seus objetos de reflexão)…

Algumas das mais valiosas pérolas falam sobre a própria escrita, sobre o processo de criação literária. “Sobre estilo” é genial:

“A essência do grande estilo é que ele não pode ser reduzido a regras – é uma coisa que vive e respira, com algo de demoníaco – que se ajusta a quem o usa como a pele ao resto do corpo (…) No dia seguinte ao encontro com uma nova garota, o estilo brilha e dá pulinhos. Se seu autor comeu demais, ele tende a relaxar (…).”

Preciosa também é “O Escritor Trabalhando”, em que afirma que aquele escreve “emitindo gritos de desafio”, com “anseio de fazer barulho”.

O Livro dos Insultos é, em suma, o antídoto perfeito para a crença de que a falta de conteúdo se cura com empolação. Não. A falta de conteúdo se cura com inteligência e cultura. E estas, ditas com graças, curam qualquer coisa.

 

(Livro dos Insultos, H.L. Mencken, Cia das Letras)

* Update zás-trás: Achei uma coincidência divertidíssima o fato de amanhã começar o Lollapalooza e, hoje, junto com este post, ter sido publicada uma matéria no Estadão em que se diz o seguinte sobre a expressão que dá nome ao festival: “O polemista, intelectual e jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880-1956) escreveu que a expressão teria sido usada pela primeira vez nas lutas de boxe, na sua época, para descrever o nocaute – mas não existem provas disso.” (“Lolla nos Andes”, de Jotabê Medeiros)

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A arte da escrita

“Algumas pessoas dizem que não conseguem entender o que o senhor escreve, nem mesmo depois de o ler duas ou três vezes. O que o senhor poderia lhes sugerir?”

“Que leiam quatro vezes”. (William Faulkner, em 1956)

 

“Quais são as suas idiossincrasias?”

“Suponho que minhas superstições podem ser consideradas idiossincrasias. Tenho que somar todos os números: há pessoas para as quais nunca telefono porque o somatório de seus números dá um total funesto. Ou eu não aceitaria um quarto de hotel pela mesma razão. Não tolero a presença de rosas amarelas – o que é triste, porque é minha flor preferida. Não posso admitir três pontas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajo num avião com duas freiras. Não começo nada às sextas-feiras. São infinitas as coisas que não posso fazer ou jamais faria. Mas obedecer a esses conceitos primitivos me dá um curioso conforto.” (Truman Capote, em 1957).

 

A relação de grandes autores com suas obras, as mais distintas posturas diante de um entrevistador – o ressabio de Hemingway, o divertido papo de Capote, a simpatia de Doris Lessing, o mau humor delicioso de Faulkner, o desabafo repleto de um pessimismo assustador de Céline – o comum desdém pela crítica, uma curiosa adoração a James Joyce e um convite a que o leitor conheça um pouco mais das mãos e mentes por trás de grandes obras literárias.

Essa é parte da tônica de As Entrevistas da Paris Review, ótimo livro publicado recentemente pela Companhia das Letras que, a despeito de ter chegado há tão pouco tempo nas prateleiras, já tem repercutido e conquistado admiradores (dois bons textos sobre o assunto: um de Antonio Gonçalves Filho e outro do nosso parceiro Gabriel Garcia).

 

Esta é uma dentre as 3 mil (!) capas produzidas pela Companhia das Letras

Em pouco mais de 400 páginas (deste que é o volume um) estão reproduzidas algumas das melhores entrevistas publicadas pela revista literária americana Paris Review entre 1956 e 2006; entrevistas tais que, em si, carregam parte da riqueza literária de seus entrevistados.

Na contramão do que atualmente se constata, as entrevistas em questão extraem conteúdo de fato interessante de seus “objetos de estudo”; não apenas devido ao profundo conhecimento de seus entrevistadores, como também pela preocupação em se deixar a prosa fluir – como o bate-bola de Borges com seu entrevistador – até caírem em belas digressões, as mais diversas.

Nesse sentido, não se trata apenas de interessantes comentários sobre a forma como cada um dos 14 autores enxerga e analisa o processo de criação literária – as inspirações, influências, a estruturação das obras (daí o título de cada uma das peças ser “a arte da ficção”, “a arte da poesia” no caso de W.H.Auden, ou “a arte do roteiro” para Billy Wider) – mas também curiosidades divertidas – o relato da experiência de Doris Lessing com a mescalina, a posição física em que alguns escrevem (Capote deitado em sua cama; Hemingway de pé) – e confissões surpreendentes – a desilusão com que Céline enxerga a vida é de cortar o coração.

É, enfim, um livro interessante e gostoso de se ler – aos poucos, ou numa tacada só. Seja para aqueles que se interessam em fazer boas entrevistas, ou aos que simplesmente se deliciam em conhecer – por meio de perguntas e respostas inteligentes – autores que tanto admiram.

 

(As Entrevistas da Paris Review – Vol.1, vários autores, Companhia das Letras, 2011)

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Ilha Desconhecida

 

José Saramago é daqueles autores que parecem domesticar as palavras; é como se ele ordenasse e elas dessem piruetas, correndo de um canto a outro, até se organizarem do modo exato para dizerem sintética e plenamente aquilo que ele queria.

Saramago também é capaz de encapsular, em um número mínimo de palavras, idéias e conceitos tão difíceis de se explicar – como os melhores poetas (nem de pontuação ele precisa!). Ele molda os versos – ainda que em prosa – como os palhaços torcem e retorcem aquelas bexigas compridas em festas infantis: quando menos se espera, faz-se um poodle, uma espada; a mensagem aparece.

Faz mais ou menos cinco anos que, diante da minha angústia em relação a qual caminho profissional seguir, uma pessoa querida me disse apenas: “você não precisa decidir agora; mas no meio tempo, leia este livro”. Era O Conto da Ilha Desconhecida.

Neste conto pequeno e precioso, o que temos é um sujeito que, resoluto, bate à porta do rei (mais precisamente, à “porta dos obséquios”) e não arreda o pé dali, por três dias, enquanto não recebe um barco.

“E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou (…) Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, (…), A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já na há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas”.

Mais tarde, ao capitão, quando perguntado se sabia navegar, ele responde “Aprenderei no mar” e, para tanto, pede um barco que “que eu respeite e que possa respeitar-me a mim”.

Além do barco, para ir à procura de uma ilha onde nunca ninguém tenha desembarcado, o rapaz ganha a companhia da mulher da limpeza do palácio do rei, que, ao presenciar a história toda, resolve embarcar na jornada – e olha que ela sai decidida, sai pela “porta das decisões” do palácio.

Sem me prolongar muito na história – que, recomendo veementemente, seja lida, e relida inúmeras vezes – hoje vejo que o que aquela pessoa querida gostaria que eu enxergasse com o livro – para além dos quase lugares comuns de que cada um deve trilhar seu próprio caminho e de que a descrença alheia, no final das contas, pouco importa –: é que essa busca de fato leva tempo.

E não poderia ser diferente, já que a procura pela ilha desconhecida é a procura por si mesmo:

“(…) quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes [?], Se não sais de ti, não chegas a saber quem és (…) Que é necessário sair da ilha pra ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós”.

 

Bora tacar nossos barquinhos no mar?

(O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago, Companhia das Letras)

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