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A diva

Você se lembra de seu primeiro amor? A excitação infindável da novidade, a descoberta de sua faceta adulta, todos os prazeres e dores…

Agora, imagine se o objeto desse amor inaugural fosse a pessoa mais famosa – e desejada – do mundo. Imagine se, ao menos por alguns dias, em seus braços estivesse Marilyn Monroe.

Pois bem, é esse o pano de fundo de “Sete Dias com Marilyn” (“My Week With Marilyn”, de Simon Curtis).

Ali, o enredo se desenvolve ao redor de Colin Clark (o gracinha Eddie Redmayne), quem, no alto de seus 23 anos, se vê como o terceiro assistente de diretor de um filme, “O Príncipe Encantado”, estrelado por ninguém menos que Marilyn Monroe (belíssima atuação, indicada ao Oscar, de Michelle Williams) e Lawrence Olivier (Kenneth Branagh) e, de quebra, acaba se tornando amante e confidente da estrela principal.

Colin, com toda sua inocência, não apenas se apaixona pela irresistível platinada curvilinea, como também atua como instrumento para que nós, espectadores, enxerguemos parte da faceta humana da personagem femme fatale.

Mais do que isso, ao lado do garoto – e a partir de seu ponto de vista – somos capazes de enxergar as facetas mais humanas (e frágeis) de Marilyn.

H.L. Mencken já alertara que:

O que os homens tomam como beleza em si próprios normalmente não passa de uma pompa oca, uma revoltante ostentação, o espendor superficial de um saracoteio animal (…) Ele sucumbe a um par de olhos bem pintados, a um torneio gracioso de um corpo, a uma compleição sintética ou a uma bela amostra de pernas, sem dar a minima atenção ao fato de que ali pode haver uma mulher inteira, e que as idiossincrasias desse cérebro são muito mais importantes do que todos os estigmas físicos combinados. (…) O ideal de seu sexo é sempre uma mulher bonita, e a vaidade e a frivolidade que costumam acompanhar a beleza tornam-se os totens do encanto” (MENCKEN, H.L., O Livro dos Insultos, Ed. Companhia das Letras).

E é essa fragilidade da realidade, aliada à potência do desejo, que fazem desse filme tão forte: uma paixão, em si, já é capaz de transpor quaisquer defeitos da pessoa amada; uma paixão por uma diva, porém, ultrapassa os últimos limites da razão (humilhação e subserviência se confundem; idolatria se mistura com ilusão), e faz o pobre amante querer – incondicionalmente – em vão.

(“Sete Dias com Marilyn”, “My Week With Marilyn”, de Simon Curtis, 2011).

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Para pensar

Assistir a um filme é interpretar, cada espectador à sua maneira, o que é retratado na tela.

O ato de interpretar, por sua vez, foi teorizado e estudado por muitos mas, talvez, exercitado em sua melhor forma por estudiosos da psicologia humana.

Por isso, assistir a um filme que retrata justamente os bastidores daqueles que primeiro se dispuseram a destrinchar a psique humana (ao menos como hoje a entendemos) pode ser algo tão capcioso – para não dizer metalinguístico…

Indo além, fazer uma obra de arte – sujeita à interpretação individual de cada um, portanto – sobre os pais da psicanálise é algo em si ambicioso. E assim o fez David Cronenberg, em “Um Método Perigoso (“A Dangerous Method”).

Ali, o que se retrata é face mais humana – e, portanto, complexa – daqueles que entendem pessoas tão bem.

Mais precisamente, é a psicanálise – “the talking cure” – o pano de fundo para um enredo de paixão, desilusão e competição entre alguns dos mais ilustres conhecedores dos meandros do inconsciente humano: Karl Jung (Michael Fassbender), Sigmund Freud (Viggo Mortensen), Sabina Spielrein (Keira Knightley) e Otto Gross (Vincent Cassel).

Sabina é, a um só tempo, a paciente e a cura de Jung; nela, ele aplica, com sucesso, o método da cura pela fala – preconizado por Freud – e, também, vê as limitações de tal teoria – por experiência própria.

Ela, jovem russa judia, que surge como uma doente quase desenganada – “I’m vile, filthy and corrupt”  – experimenta (melhora) e aprende, como poucas, o método aplicado por Jung.

Este, por sua vez, a princípio é apenas um discípulo de Freud. À medida que aplica o método, entretanto, passa a questionar determinados aspectos – especialmente a sexualidade como a origem de todos os males – e, assim que conhece o inconvencional Otto Gross (quem, a um só tempo, é paciente de clínica psiquiátrica e doutor), vê alguns de seus dogmas cairem por terra.

Gross pregava que “our job is to make our patients capable of freedom“, independente do custo de tal liberdade.

Jung foi momentaneamente levado por tal crença, se libertou de antigos paradigmas e foi além: passou a crer no que não pensava ainda – telepatia, poligamia, etc. Se Freud foi a base, Otto foi a liberdade para Jung.

Mas, quando a tal liberdade mostrou horizontes incertos e perigosos (como ter um affair com sua paciente-modelo), foi a Freud que recorreu novamente – este, raramente se portando como amigo, antes como mentor, mas quem jamais deixou de ensinar, e provocar questionamento em seus nobres discípulos.

O interessante é que foi justamente o desvio de Jung que o fez um ser humano mais completo; ou, se preferir, simplesmente mais humano.

A partir de suas próprias fraquezas, foi capaz de enxergar melhor os outros – ou assim prega o filme.

Apesar da dificuldade do tema, e do risco de se lidar com o retrato – nada imaculado – de personagens tão conhecidas, é um bom filme, seja para leigos nas “ciências” da psicanálise, ou curiosos.

No limite, instiga-nos a pensar. Não é essa a essência da psicanálise?

(“Um Método Perigoso”, A Dangerous Method”, de David Cronenberg, 2011)

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De mentirinha

Mamãe já disse que mentira tem perna curta. Mentira contada por filho, então, não tem jeito: é só uma questão de tempo até que ela descubra.

Mas e se a mentira for só “uma mentirinha”, daquelas bem intencionadas? Por exemplo: se você visse sua mãe triste, acabada, em frangalhos por conta do fim do casamento com seu pai e resolvesse lançar mão de algo “de veracidade duvidosa” para deixá-la mais feliz?

Este é justamente o enredo de “Uma Doce Mentira” (“De vrais mensonges”, de Pierre Salvadori), comédia romântica (mais comédia do que romântica) em que Audrey Tautou (a.k.a Amelie Poulin) é Emilie, uma filha pragmática e um tanto insensível que, ao não se sentir nem um pouco tocada por uma linda carta de amor anônima que recebe, resolve endereçá-la a sua mãe, Maddi (a ótima Nathalie Baye), a fim de tentar fazer esta sorrir novamente.

O espectador, no entanto, sabe desde o início que o admirador secreto é Jean (Sami Bouajila), quem, apesar de ultraqualificado para o emprego (é poliglota, cultíssimo, etc.), trabalha no salão de cabeleireiro de Emilie como responsável pela manutenção e eletricidade do local.

Tamanho é o efeito da carta sobre Maddi, que a filha não se vê capaz de fazer outra coisa a não ser perpetuar a mentira – e, assim, vai se enrolando cada vez mais em uma teia de mal entendidos e confusões.

Com o estopim para um incontrolável encadeamento de eventos aceso do início ao final do filme, nós, espectadores, nos vemos diante de uma bola de neve composta por situações as mais cômicas – que, não raras vezes, nos deixam ruborizados e com vergonha alheia. Ficamos também aflitos, tensos com a próxima trapalhada por vir.

Trata-se assim, de um filme que entretém, leve e divertido, sem deixar de ser esperto e incomum. Apesar do imbróglio todo – ou justamente por conta dele – é interessante ver a evolução de Emilie, que quanto mais se enrola, mais vê seu coração amolecer; o coração que, outrora, parecia tocado apenas pela dor da mãe – ainda que se possa questionar se ela estava efetivamente compadecida, ou simplesmente envergonhada das atitudes malucas daquela – passa a também sentir por conta própria. A partir de então, sente dor e prazer de verdade.

(“Uma Doce Mentira”, “De vrais mensonges”, de Pierre Salvadori)

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Circunstâncias

Circunstâncias, por definição, são situações externas, impostas de fora. Circunstâncias podem unir e separar pessoas; ajudar ou atrapalhar; mas, sejam quais forem, elas mudam.

E justamente quando novos e melhores ares chegam, é possível fazer com o que a essência de cada um – outrora abafada por determinada situação – aflore.

É essa a tônica de “Potiche: Esposa Troféu” (“Potiche“, de François Ozon). Ali, a eternamente bela Catherine Deneuve é Suzanne Pujol, uma beldade que se casou com o mau-humor encarnado, Robert (Fabrice Luchini), e se deixou transformar em uma “potiche”, uma mera peça de decoração (ou, como se preferiu traduzir, uma “esposa troféu”), feita para ficar em casa – sempre com a aparência impecável – cuidando da família, sem emitir quaisquer opiniões.

Suzanne herdou do pai uma fábrica de guarda-chuvas, mas, seguindo a lógica, o bastão foi automaticamente passado para seu marido. Este, um patrão autoritário e gestor intransigente, conduz o negócio aos trancos e barrancos até que, com o deflagrar de uma greve, circunstancialmente é obrigado a se afastar.

Diante da falta de interesse e compostura dos filhos, quem assume o posto é Madame Pujol.

Surpreendentemente (?), esta não apenas acalma os ânimos dos trabalhadores, como oferece novas perspectivas à empresa. Mais importante, Suzanne reconhece e deixa surgir uma faceta, a de mulher com liderança e inteligência, a que até então não havia podido dar vazão.

Nesse sentido, deixa também reaparecer suas paixões, incluindo um amor do passado, o comunista Babou (Gerard Depardieu) e, pela primeira vez em muito tempo, permite-se a tomar as rédeas de seus sentimentos – e de sua vida.

Tal enredo, contudo, não é de forma alguma retratado de maneira melodramática, ou excessivamente crítica; muito pelo contrário. É uma comédia de costumes light – que por vezes chega a ser demasiadamente caricata – e que, principalmente pelas atuações de Deneuve e Depardieu, entretém.

(“Potiche: Esposa Troféu“,Potiche”, de François Ozon, 2010)

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Fantástico

No primeiro ano da faculdade de direito, em meio a dezenas de jovens ávidos por se passarem por sérios e adultos, lembro-me de um sábio professor dizer: “todo mundo precisa de um pouco de ficção na vida”.

Hoje, não apenas enxergo o real valor dessa frase, como acrescento: todo mundo precisa também de um pouco de fantasia.

Fantasia é aquele quê de mágica, de inexplicável e irracional, que, felizmente, tinge alguns (dos melhores) momentos que alguém pode ter. É aquela coincidência feliz e estranha; uma linda surpresa, impossível de se imaginar; é o que justifica os momentos em que tudo parece bom demais para ser verdade – quando tudo parece um sonho.

E foi justamente esta a sensação captada por Woody Allen em seu novo – e ótimo – filme, “Meia-Noite em Paris” (“Midnight in Paris”).

Ali, Gil (Owen Wilson), um adorável e atordoado escritor – que lembra muito as personagens vividas pelo próprio Allen, em outras obras – se vê inquieto e confuso às vésperas de seu casamento com a linda e insuportável Ignez (Rachel McAdams), em uma das mais fascinantes cidades do mundo, Paris.

Se, para Ignez e sua família, aquela é uma cidade boa para se fazer compras e passar alguns poucos dias de férias, para Gil é o local ideal para se viver; onde se guardam, incrustados em suas vielas e pontes, o auge da riqueza artística e boa parte da efervescência cultural do último século.

E é justamente nesta cidade, onde a diferença de valores entre ambos se torna ainda mais evidente, que, num passe de mágica, à meia-noite, Gil é transportado para o período que mais gostaria de ter vivido – as noites parisienses dos anos 20 – para se defrontar com seus ídolos (o casal Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Miró, Bruñel, etc.) e perceber que, se vivesse na época que considera a mais genial, poderia pertencer àquele círculo – o que, conseqüentemente, o faz enxergar seu valor e sua essência, também no “presente”.

Ainda, o filme retrata a insatisfação (nostalgia?), tão notável nos dias de hoje, de que os momentos contemporâneos são sempre piores do que os anteriores. A boa e velha saudade do que não se viveu é pintada por Allen como algo natural às mentes inquietas – e comum a todas as épocas.

Mais do que isso, o filme propõe que esse sentimento seja encarado de frente (ainda que em devaneios surreais) e assimilado plenamente para que, a partir da compreensão do que de fato se admira na vida de outrora, seja possível lidar com os tempos atuais.

É, enfim, uma das melhores obras de Woody Allen dos últimos tempos; diversão inteligente, que entretém e satisfaz. Vale muito a pena.

(“Meia-Noite em Paris” ,”Midnight in Paris”, de Woody Allen, 2011).

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Blue Valentine

Sabe quando você ouve uma música que, de tão perfeita, te tira do prumo? Quando, à primeira escutada, você tem certeza de que aquela é a música da sua vida; que faz todo o sentido, que foi feita só para você?

Você a escuta por dias a fio, coloca no repeat sem parar e não se cansa; rabisca o refrão no bloquinho de anotações ao lado do telefone; acorda e dorme com ela na cabeça.

Pois bem, o tempo passa e eis que, de repente, um certo dia, sem ter porquê, a mesma música já não emociona. Você a ouve e nada sente; mal percebe que é ela que está tocando.

Com histórias de amor, pode acontecer o mesmo.

E é justamente este o enredo de Blue Valentine (de Derek Cianfrance, pessimamente traduzido para Namorados para sempre). Ali, duas histórias de amor, compostas pelos mesmos personagens, Cindy (Michelle Williams, ótima como sempre) e Dean (Ryan Gosling, também excelente) correm em paralelo; uma contando o começo, e a outra o fim de um relacionamento.

Novamente, como acontece em Barney´s Version (já contamos aqui), o amor retratado é cru, desnudo de qualquer véu de sofisticação ou artificialidade. Da insaciedade e urgência do começo, ao triste e agonizante processo que culmina no fim, tudo é escancarado – até a câmera filma sem pudores, abusando de closes que captam em cada expressão aquilo que há de mais íntimo; do prazer, à dor.

Ali, a mesma música que embala o começo – a excelente “You and Me”, de Penny and the Quarters – também é a trilha do fim. Os personagens também são os mesmos, mas aquilo (o amor?) que parecia invencível e inabalável, de repente se esvai – sem qualquer motivo especial.

Como tantas outras, essa é a história de um amor que nasce lindo, promissor, mas que, com a mesma espontaneidade, encrua; morre sem mais nem menos.

Não é o filme mais propício para encantar casais nesta véspera de Dia dos Namorados, mas é um belíssimo – e triste – alerta para qualquer um que se aventure em amores por aí.

Vale a pena.

(Blue Valentine, de Derek Cianfrance, 2010)

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Coração doce

Doces franceses, normalmente, não são dos mais açucarados; têm doçura na medida certa. No caso do filme “Como Arrasar um Coração” (“L’arnacoeur”), de Pascal Chaumeil, contudo, o confeiteiro parece ter perdido a mão: é doce de doer os dentes.

O enredo em nada se difere das baciadas de comédias românticas – hollywoodianas – que se vêem por aí: Alex Lippi (Romain Duris) é um malandro que, junto com sua irmã e cunhado, prestam um serviço um tanto questionável: desfazer relacionamentos. Mais especificamente, parentes e amigos de mulheres supostamente envolvidas com “maus elementos”, contratam Alex para que ele – com seu charme francês aliado, a todos os clichês amorosos – “abra os olhos” da moça. Veja bem, em tese, seu papel não é fazer com que e se apaixonem por ele – o limite permitido é apenas um beijo – mas mostrá-las, em um breve momento de paixonite e encantamento, que seus relacionamentos são insuficientes; que mereceriam homens melhores.

A trupe, contudo, trabalha de acordo com alguns “princípios”, sendo o principal a recusa de interferir em relacionamentos felizes – existiriam três tipos de mulheres: as felizes, as infelizes assumidas e as infelizes que desconhecem sua condição. Apenas o último grupo seria o alvo.

Tal regra fundamental, no entanto, é botada em xeque quando Alex, endividado, decide aceitar a tarefa de romper o aparentemente perfeito e apaixonado relacionamento de Juliette Van Der Beck (a Coco Rouge Chanel – e mulher de Johnny Depp – Vanessa Paradis).

Não é nada surpreendente dizer que, diante de tamanha dificuldade, Alex acaba se interessando pela moça e, a partir de então, as nuances de ironia que permeiam o filme no início, descambam para a pura água com açúcar.

O mote, por exemplo, daria ensejo a se explorar questões mais profundas e interessantes de relacionamentos insatisfatórios: o porquê da preferência ao conformismo em contraponto à perspectiva de se ver sozinho; o que, de fato, preenche os relacionamentos; e até, em última análise, o questionamento da medida em que é possível se classificar estaticamente determinada relação como “feliz” ou “infeliz”, “satisfatória” ou “insatisfatória”.

Nada disso, contudo, surge ali. Para quem busca uma comédia romântica divertidinha – e, só para variar, em francês – é uma boa pedida; o filme adoça bem a boca, mas não mata a fome.

(“Como Arrasar um Coração”, “L’arnacoeur”, de Pascal Chaumeil)

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A graça de se ser comum

Quantas histórias de amor perfeitas você, de fato, já viu? Daquelas em que um mocinho (sempre lindíssimo) encontra uma mocinha (também uma beldade, claro) e, apesar de alguns pequenos percalços, acaba a conquistando para o resto de suas vidas?

Hollywood – e novelas – nos fazem crer que encontros como esses acontecem a cada esquina. Mas, no dia a dia, quando se fala em pessoas normais, que têm rotinas, chefes chatos, contas a pagar e quilinhos a mais, isso existe? Nunca vi.

A Minha Versão do Amor (Barney’s Version) não te faz suspirar, muito menos se sentir como se a perfeição de um mundo cor de rosa fosse feita para qualquer um, menos você.

É a história de um grande amor – porque, sim, eles acontecem – na vida de alguém banal, medíocre; um ser humano cheio de vícios, defeitos e idiossincrasias.

Barney Panofsky (Paul Giamatti) é um sujeito feioso, nada brilhante, que, longe de ter uma carreira expoente ou uma família convencional (basta dizer que seu pai é Dustin Hoffman – impagável), enche a cara pelo prazer de ficar bêbado e fuma charuto pelo prazer de fumar. Barney faz besteira, tem amigos bagunceiros e vai empurrando a vida com a barriga.

Ele até se aventura algumas vezes naquilo que acredita ser amor – i.e. casamento – mas, em um jogo de tentativa e erro, enquanto vê o tempo passar, sente que lhe falta algo; algo que ainda não encontrou.

Encontra, enfim, quando menos espera: em um de seus casamento – e não é a noiva…

Irreal? Não sei. Histórias mirabolantes existem aos montes por aí: na vida de pessoas normais, mulheres estonteantes podem, sim, se apaixonar por sujeitos desengonçados – por que não? –; há, também, espaço para loucuras românticas e histórias improváveis; mas, ainda bem, tudo isso é permeado por horas mundanas, dias em que nada de especial acontece, arrependimentos e criancices.

É justamente aí que está a graça – na vida e no filme. Porque gente real não é de plástico; amores reais não são assépticos.

Cada um tem sua versão do amor. Estas são, a um só tempo, feias e lindas; sujas e sublimes; deliciosamente medíocres e humanas.

(A Minha Versão do AmorBarney’s Version, de Richard J. Lewis)

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Original v. Cópia

 

Por uma tarde, um homem e uma mulher vagam por uma cidadela da Toscana e, conforme as horas se vão, eles que, a princípio, aparentavam não se conhecer, depois de um comentário de uma senhora em um café (“ele parece um bom marido”) passam a agir como um casal; um casal em decadência. Jamais fica claro, contudo, se tudo aquilo é uma farsa, ou, de fato, a realidade.

“Ele” é James Miller (William Shimell), um escritor que vai à Itália lançar seu livro (cujo título é “Cópia Fiel”); “ela” é Elle (Juliette Binoche, linda e ótima), quem aparece no lançamento, fica poucos instantes e deixa um bilhete – ao que tudo indica, com seu telefone – a ser entregue ao autor.

Oportunamente, o argumento principal daquele livro é o de que, especialmente em se tratando de obras de arte – mas não só – o original não teria lá muitas vantagens em relação à sua cópia. Em última análise, ser cópia ou original não seria determinante para se entender um objeto – seu conteúdo – ou suas implicações.

Essa discussão, puramente teórica, seria interessante por si só, mas dificilmente sustentaria um filme – ao menos de ficção. Assim, o que ocorre em Cópia Fiel (de Abbas Kiarostami) é a própria verificação, através do enredo, da tese de James; mais especificamente, o que se argumenta é que, independentemente de um casamento ser real ou fictício – em outras palavras, de ser “original” ou mera reprodução de outros – existiriam questões transcendentes, intrínsecas ao próprio conceito de casamento; comuns, portanto, aos originais e suas cópias.

Mais ainda, em alguns momentos se sugere que, para James, o valor atribuído a certo objeto (seja cópia, ou original) seria, em grande parte, determinado por circunstâncias externas, como o contexto em que se insere (evocando Duchamp: um cipreste em uma estrada é apenas um cipreste; a mesma árvore em uma galeria pode ser considerada arte), ou a reação do público (à la Andy Warhol: o consumo alimenta o movimento pop – e a arte).

Traçando um paralelo para a relação de James e Ella, estes parecem ser um casal apenas naquele local; é como se, retirados de contexto, não pudessem existir em conjunto – ou fora daquele espaço jamais pudessem se fazer passar por um casal. Isso porque a Itália teria sido, a um só tempo, o ponto de partida, de ruptura, e de resgate de seu relacionamento.

Por outro lado, é como se o “espectador” provocasse a relação; seja a mulher do café, os amantes nas praças, os noivos que querem tirar uma foto com eles, todos parecem instigar reações em James e Ella, instando-os a agir como um casal – ou a superarem a crise aparente.

E, assim, o que num primeiro momento parece ser um desconfortável, mas promissor, primeiro encontro, rapidamente evolui e, num crescendo de intimidade e acusações mútuas, decai para o fim. (É curioso que James, quem a princípio só fala em inglês, passa a responder em francês.)

Considerando os seguintes aspectos: o despertar de uma relação entre desconhecidos, um período curto e com prazo de validade, e uma cidade estrangeira, seria possível comparar Cópia Fiel, por exemplo, a Encontros e Desencontros (Sofia Coppola), ou Antes do Amanhecer e Antes do Por do Sol (Richard Linklater). Diferente destes, porém, para Kiarostami o essencial a ser tratado não é a construção de uma relação, mas seu declínio.

Também não se engane: Cópia Fiel não tem nada de fofo; é um filme duro, lento, cheio de simbolismos e sutilezas.

É, em resumo, a história de uma tarde em que dois indivíduos passam do primeiro estágio de um relacionamento (a apresentação) ao último (a crise incontornável). Tudo isso – pasme – sem que faça a menor diferença se aqueles ali são mesmo um casal.

Pois é, concorde ou não, a teoria de James Miller se comprova.

(Cópia Fiel, “Copie Conforme”, de Abbas Kiarostami)

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Farsa

O constante jogo entre ator e personagem, e a linha às vezes imperceptível entre ficção e realidade são os pilares quem sustentam VIPs (de Toniko Melo).

Marcelo, o protagonista, perde a si mesmo ao acreditar tão piamente que é, de fato, todas as pessoas por quem se faz passar. Para interpretá-lo, não haveria melhor alternativa que Wagner Moura, quem sempre se doa de tal maneira às suas atuações, que deixa de ser o ator, se transformando no próprio personagem – e, no caso, em todas as personas que este cria.

O enredo do filme é a história, “baseada em fatos reais”, de um garoto um tanto perturbado que, desde cedo, tem maior facilidade em imitar – ou encarnar – outros do que em agir por conta própria.

A fim de concretizar seu sonho mais antigo, tornar-se piloto de avião, Marcelo passa a se converter nas personagens – reais ou fictícias – que mais se adequam ao momento: de Carrera – piloto de um traficante de drogas paraguaio – a Henrique Constantino – o filho do dono da Gol.

Nesse ponto, VIPs tem sido freqüentemente comparado a “Prenda-me Se For Capaz” – em que um falsário também engana a todos e se faz passar, dentre outros, por piloto de avião (ainda que sua maior preocupação não seja voar, mas falsificar cheques) – no entanto, o que diferencia ambos é que, ao contrário de Frank Abagnale Jr, Marcelo, ao fingir ser tais pessoas, passa a ter a certeza de que é cada uma delas. (Momentos que sintetizam tudo isso: Carrera sobe ao palco e, por uma música, “se torna” Renato Russo; Henrique Constantino continua a fingir que conversa ao telefone mesmo quando já não há ninguém no quarto.)

Assim, Marcelo (ou Wagner?) periclita a todo tempo entre realidade e fantasia – qual meu nome? Meu pai existe? Minhas memórias de fato ocorreram? – e, ao enganar todos – inclusive Amaury Jr. – acaba por cair em sua própria farsa, sendo traído por si mesmo quando não tem mais dúvidas de que é aquele que finge ser.

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