re.verb

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Até a gente cresce

Tenho insistentemente tentado me lembrar de uma música, que não sei qual é – nem de quem – que dizia que quando temos vinte e poucos anos, nos sentimos velhos; até quando temos vinte e alguns anos e rimos daqueles tempos.

Seja qual for a letra, o que importa é que a mensagem é doloridamente verdadeira – e inevitável. Quando recém saídos da faculdade, de uma hora para outra, sentimos o peso do tempo passar. Depois, passado o choque, com vinte e poucos anos e alguns mais, percebemos que a vida adulta não é tão ruim; que tem seus prós: não se sentir culpado em ficar em casa numa noite de sexta-feira, gostar de ler jornal, beber vinho…

Em resumo, pode ser bacana crescer. E é esta a sensação que temos ao ouvir o segundo álbum do The Vaccines, Come of Age, lançado em setembro deste ano.

A banda, velha conhecida do re.verb, surgiu como uma sensação do rock alternativo; mais precisamente, como o novo The Strokes. Exageros à parte – e relevando o cano histórico que a banda deu nos fãs brasileiros, em 2011 – o que importa é que esses ingleses voltaram, mais crescidos, e em ótima forma.

Seu novo álbum é mais maduro, menos ansioso. Se, em 2011 (com o aclamado What did you expect from the Vaccines?), a tônica era a marrentice juvenil aliada à agonia do passar do tempo (a clássica “Wetsuit” dizia: “If at some poit we all succumb, for goodness sake let us be young, because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done; with a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories, we all got old at breakneck speed, slow it down, go easy on me…”), agora, o que se sente é que a perspectiva de envelhecer ainda perturba muito (só a eles?), mas há nela a aceitação do inexorável, como em “No Hope”, a faixa – concorrente a hino da juventude – que abre o disco: “(…) ‘cause when you’re young and bored at 24 and you don’t know who you are no more, there is no hope (…) and it’s hard to come of age, I think it’s a problem (….) and I hope it’s just a phase, well, I’ll grow”.

Porém, assimilado o susto (e ainda que com algumas recaídas pueris, como em “Teenage Icon”), o que se vê é a consciência de que a adolescência deu lugar à consciência de problemas ainda maiores – desculpa, não quero parecer excessivamente pessimista, mas assino embaixo…

Em uma das faixas mais bonitas, “I Always Knew”, se fala de paciência, um dos elementos mais importantes da vida adulta: “(…) I’m hanging on to what I don’t know, so let’s go to bed before you say something real, let’s go to bed before you say how you feel ‘cause it’s you, it’s always you, I always knew”.

Na mesma toada, em “Aftershave Ocean”, com plena maturidade, se assume que a pessoa amada é idolatrada, ainda que se saiba que não deveria ser assim: “but you are pulling the world over, wouldn’t you rather know that I am overindulging you, it’s so easy though”.

Algumas das faixas seguintes, porém, como “Weirdo” (“I know I’m fucking moody and I know I’m quite unkind, I know I’m kinda of distant, but you’re always on my mind”) e “Bad Mood” (“but I get angrier with age, better to be ready if you rattle my cage”) retomam o tom ranzinza e marrento que só os jovens (e os Vaccines) sabem dar…

Porém, a faixa que fecha o disco, mata a questão: eles – e alguns de seus ouvintes – cresceram e cansaram de botar banca além do necessário; eles – e a gente – querem uma pessoa bacana ao lado – quem sabe um amor antigo, como na música –; e um alívio para este mundo adulto que pode ser tão duro: “I knew where you were, it was perfectly obvious, I was uncomfortable playing it cool and I feel like I have always known you; I can’t recurse and I thought you had questioned it, young in the night when we stare at the rest of it, don’t forget, Lord I know: I will hold you close, ‘cause it is a lonely world, but would you want me too, cause it is a lonely world”.

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Dear Jack

“Às vezes, acho que sou um cara simples, mas acho que a verdade é que sou um cara realmente complicado, tão simples como gostaria de ser”.

A frase é de Jack White, um dos maiores guitarristas e rock stars da atual geração, quem, depois de se lançar, junto com Meg White, na saudosa White Stripes (com direito a um dos melhores álbuns do rock alternativo recente, Elephant), perambulou por outras bandas e projetos (como Raconteurs e o sombrio Dead Wheather) e lançou, finalmente, seu primeiro álbum solo: Blunderbuss.

O nome do álbum remete, primeiramente, a uma espécie de espingarda, utilizada para caça. Talvez advenha justamente de tais searas a naturalidade com que Jack lança mão da brutalidade, ou visceralidade, em suas letras. Pensando melhor, Jack sempre foi assim; jamais se esquivou da intensidade de suas emoções – o que não necessariamente implica obras autobiográficas, mas, antes, letras sinceras às emoções arrebatadoras que afloram e fluem nos melhores artistas (como ele).

Logo na abertura do disco, na ótima “Missing Pieces”, Jack fala do amor como algo que faz seu nariz sangrar; que arranca seus braços e suas pernas. Depois, explica: às vezes, alguém controla tudo sobre você, e quando diz que simplesmente não pode viver sem você, não está mentindo; ele vai tirar pedaços de você, e vai ficar por cima e ir embora, levando consigo uma parte sua. (Dadas as devidas proporções, é praticamente uma versão rock’n’roll da crua – e cruel – “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque.)

Lançando o foco ainda na faceta sombria e fisicamente dolorosa do amor, o primeiro single lançado (e uma das melhores letras do álbum), “Love Interruption”, fala da batalha travada entre a sanidade – física e mental – e a paixão: “I want love to roll me over slowly, stick a knife inside me, and twist it all around. I want love to grab my fingers gently, slam them in the doorway, put my face into the ground (…) I won’t let love disrupt, corrupt or interrupt me”.

Mas, não se engane, o (ótimo) disco, ainda que sempre permeado por uma certa névoa de desilusão, vai muito além. Blunderbuss também nos serve como um túnel do tempo do rock americano; das raízes indeléveis do blues (sempre presentes nos trabalhos do artista, e mais ainda em faixas recheadas de um baixo envolvente, como “Trash Tongue Talker”), passando pelo folk (como em “Hypocritical Kiss”), pelo rock dançante dos anos 50 (como na incrivelmente deliciosa versão cover de “I’m Shakin’”, de Little Willie John).

Há também bastante country, como na faixa que dá título ao álbum: “You took me to a public place to quietly blend into (…) I laid you down and touched you like the two of us both needed”; ou ainda em “Hip (Eponymous) Poor Boy” que poderia bem ter sido escrita para sua antiga companheira de White Stripes, Meg White, de quem herdou o sobrenome famoso: “So I get into the game, but always keep it the same and I’ll be using your name, but they’ll be yelling at me: ‘poor boy, poor boy’, but I’ll be happy for you, ‘cause you got nothing to do and I’ll be singing the blues, walking around and singing”.

Philipp Ebeling, the Guardian

E, claro, há rock moderno e pesado, como o amor adolescente retratado em “Sixteen Saltines”: “She’s got stickers on her locker and the boy’s number’s there with magic marker, I’m hungry and the hunger will linger, I eat sixteen saltine crackers then I lick my fingers”; e ainda, para os nostálgicos, uma abertura que em tudo remete ao clássico “Seven Nation Army”: se fecharmos os olhos, o riff de “Freedom at 21” – música que fala sobre a liberdade (?) de uma garota nos dias atuais – em tudo lembra aquele.

Trata-se, enfim, de um belo disco que, acima de tudo, canta uma ode ao rock; seja em suas influências, ou na potência de suas letras e melodias. É uma baita obra, digna de um dos (únicos) guitar heroes de nossa geração.

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Para pensar

Assistir a um filme é interpretar, cada espectador à sua maneira, o que é retratado na tela.

O ato de interpretar, por sua vez, foi teorizado e estudado por muitos mas, talvez, exercitado em sua melhor forma por estudiosos da psicologia humana.

Por isso, assistir a um filme que retrata justamente os bastidores daqueles que primeiro se dispuseram a destrinchar a psique humana (ao menos como hoje a entendemos) pode ser algo tão capcioso – para não dizer metalinguístico…

Indo além, fazer uma obra de arte – sujeita à interpretação individual de cada um, portanto – sobre os pais da psicanálise é algo em si ambicioso. E assim o fez David Cronenberg, em “Um Método Perigoso (“A Dangerous Method”).

Ali, o que se retrata é face mais humana – e, portanto, complexa – daqueles que entendem pessoas tão bem.

Mais precisamente, é a psicanálise – “the talking cure” – o pano de fundo para um enredo de paixão, desilusão e competição entre alguns dos mais ilustres conhecedores dos meandros do inconsciente humano: Karl Jung (Michael Fassbender), Sigmund Freud (Viggo Mortensen), Sabina Spielrein (Keira Knightley) e Otto Gross (Vincent Cassel).

Sabina é, a um só tempo, a paciente e a cura de Jung; nela, ele aplica, com sucesso, o método da cura pela fala – preconizado por Freud – e, também, vê as limitações de tal teoria – por experiência própria.

Ela, jovem russa judia, que surge como uma doente quase desenganada – “I’m vile, filthy and corrupt”  – experimenta (melhora) e aprende, como poucas, o método aplicado por Jung.

Este, por sua vez, a princípio é apenas um discípulo de Freud. À medida que aplica o método, entretanto, passa a questionar determinados aspectos – especialmente a sexualidade como a origem de todos os males – e, assim que conhece o inconvencional Otto Gross (quem, a um só tempo, é paciente de clínica psiquiátrica e doutor), vê alguns de seus dogmas cairem por terra.

Gross pregava que “our job is to make our patients capable of freedom“, independente do custo de tal liberdade.

Jung foi momentaneamente levado por tal crença, se libertou de antigos paradigmas e foi além: passou a crer no que não pensava ainda – telepatia, poligamia, etc. Se Freud foi a base, Otto foi a liberdade para Jung.

Mas, quando a tal liberdade mostrou horizontes incertos e perigosos (como ter um affair com sua paciente-modelo), foi a Freud que recorreu novamente – este, raramente se portando como amigo, antes como mentor, mas quem jamais deixou de ensinar, e provocar questionamento em seus nobres discípulos.

O interessante é que foi justamente o desvio de Jung que o fez um ser humano mais completo; ou, se preferir, simplesmente mais humano.

A partir de suas próprias fraquezas, foi capaz de enxergar melhor os outros – ou assim prega o filme.

Apesar da dificuldade do tema, e do risco de se lidar com o retrato – nada imaculado – de personagens tão conhecidas, é um bom filme, seja para leigos nas “ciências” da psicanálise, ou curiosos.

No limite, instiga-nos a pensar. Não é essa a essência da psicanálise?

(“Um Método Perigoso”, A Dangerous Method”, de David Cronenberg, 2011)

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Habemus Metus

E quem nunca se sentiu como este papa, interpretado de forma comovente por Michel Piccoli, na surpreendente produção franco-italiana “Habemus Papam?”, de Nanni Moretti.

Cidade do Vaticano. Após a morte do carismático papa João Paulo II, 108 cardeais designados para eleger o novo pontífice rumam para a Capela Sistina, para dar início a um dos mais misteriosos rituais do catolicismo: o conclave, cerimônia realizada a sete chaves e que culmina, obrigatoriamente, na nomeação de um sucessor para o posto máximo de liderança da Igreja.

Após sucessivos jatos de fumaça preta – indicando que a escolha continua incerta – e muitas discussões entre os cardeais, o telespectador presencia uma votação que, apesar de mexer com a vaidade de 108 seres humanos, parece representar um grande fardo aos potenciais candidatos. As preces silenciosas de cada indicado clamam pela escolha de um papa que não seja ele próprio, e pela isenção daquela responsabilidade que, pensam, está acima de suas vocações e abaixo de seus anseios. Os cardeais escolhem, então, o idoso francês Melville para dar início ao novo pontificado que, assim como os demais, não se sentia a altura daquela missão.

Como, afinal, aquele que deveria honrar os valores de humildade e simplicidade, poderia se convencer, por uma eleição, de que seria o melhor qualificado para representar o elo entre Deus e seu povo? Mais ainda, liderar este povo pelo caminho de Deus?

Traçando um paralelo com a nossa vida cotidiana, quem não se sentiu, por vezes, desafiado por uma nova missão e encheu o peito para encará-la, usando uma coragem que nem sequer sonhava deter? Quem nunca, nem por um tempinho, pensou em recuar ou sentiu-se incapaz de suportar algum fardo? Ou, ainda, quem sofreu a angústia de não ter recuado enquanto era tempo de resguardar sua própria paz?

Após a eleição, Melville sente o peso de sua responsabilidade e, ao se aproximar da varanda da Basilica di San Pietro, diante de milhões de fiéis, onde o mais velho dos cardeais leria o texto (habemus papam) anunciando o novo pontífice e marcando o início de um novo papado, nosso protagonista, sentado e acuado como se fosse a última presa do mundo, leva as mãos à cabeça, desmontado diante de sua obrigação. Então, grita. Mas grita de uma forma tão comovente e desesperadora, que, por um momento, esquecemos que estamos diante de um cardeal idoso e sereno, que, como faz crer a personagem, dedicou a maior parte de sua vida à sua vocação e à devoção a Deus.

É neste contexto que os 107 cardeais eleitores, aguardando esperançosos a recuperação do papa e preocupados com a angústia dos fiéis diante da indefinição do papado, designam um psicanalista para decifrar a crise de pânico que assola o Vaticano. No meio tempo, os cardeais se entregam a jogos infantis para correr com as horas; então, percebemos que há naqueles homens sentimentos comuns a todos os demais, como inveja, competitividade, preguiça e noites mal dormidas – carregadas de ansiolíticos.

Não obstante, apesar de brilhante em vários aspectos, principalmente dos pontos de vista dramático e ideológico, são visíveis algumas inconsistências no roteiro e na condução das personagens secundárias. O psicólogo (interpretado curiosamente pelo diretor Nanni Moretti) ao ser colocado de lado na missão de analisar o papa, passa a organizar um torneio de vôlei entre os cardeais. Ocorre que, apesar de proporcionar seqüências bem humoradas e que trazem leveza ao drama do papa perdido, o torneio não tem qualquer relevância para o longa, e deixa evidente a perda de rumo da personagem do psiquiatra, que tinha grande potencial no início.

Por outro lado, o que poderia ser um temor passageiro de um ancião confuso, toma proporções patológicas impensáveis. O papa foge, vagando pelas ruas de Roma e, distante do Vaticano e de seus companheiros de batina, acaba buscando o sentido de sua própria vida em meio à sua confusão mental. É nesta sequência de cenas que o brilhantismo de Piccoli consegue tocar o espectador de forma ainda mais profunda, ao dar vida a uma personagem tão humana e frágil que emociona por sua complexidade.

Tendo em mente um cardeal, que chegou ao estágio máximo de sua vida religiosa, mas está vagando absorto em pensamentos pelas ruas da capital italiana, respondamos a seguinte pergunta: quem de nós, de tempos em tempos, não precisa mudar de rumo? Sair de cena, vagando pelas ruas da sua própria vida, encontrando o seu mundo em outro lugar?

Não vou contar aqui o final do filme, esperando que a sua curiosidade o carregue pelas reflexões que “Habemus Papam pode proporcionar.

É evidente que muito se espera de um papa, como líder religioso e como ser humano. Da mesma forma, mas talvez em menor proporção, muito é esperado de nós também, em nossos trabalhos, em nossos relacionamentos, em nossos estudos. Grande parte deste “muito” conseguimos corresponder diariamente, com dedicação, com esforço e abrindo mão de alguns de nossos desejos.

Mas e aquilo ao que não conseguimos corresponder? Melville pode ser considerado um fraco por resistir à missão que lhe foi confiada, mas não há, de fato, coragem naquele coração que assumiu sua própria fraqueza e seguiu o rumo das suas próprias crenças?

(Habemus Papam, de Nanni Moretti, 2011)

 


 
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Passionball

O gosto pelo esporte pode ter inúmeras causas e explicações. Das mais simples, como a empatia por alguém – ou por um time – às mais elaboradas, como a projeção das angústias individuais no(s) atleta(s) e a conseqüente catarse pessoal pela vitória alheia.

Seja qual for a razão, a admiração pelo esporte é algo tão intenso, e comum, que tem o condão de aproximar pessoas, independente de sua idade, classe social – tem assunto melhor para puxar papo do que o resultado do jogo de ontem? – e é uma fonte inesgotável de piadas.

Dessa forma, tamanha sua penetração no dia-a-dia de tantas pessoas (no Brasil, quase todos os dias são dias de futebol; seja dias de jogos, ou dias de repercussão dos resultados), não é de se espantar que o esporte seja também um excelente negócio; uma indústria que move trilhões ao redor do mundo.

Considerando os pontos acima, contudo, para profissionais do esporte não é fácil deixar de misturar negócios com prazer; dissociar trabalho de emoção. É este o grande dilema de Billy Beane (interpretado com maestria por Brad Pitt, indicado ao Oscar de melhor ator), protagonista de “O Homem que mudou o jogo” (“Moneyball“), de Bennett Miller.

O filme se baseia na história verídica de um ex-jogador da Major League de baseball nos EUA que, tendo visto sua promissora carreira desandar, rapidamente foi para os bastidores e se tornou um dos managers de um dos menores dentre os maiores clubes da primeira divisão daquele esporte, o Oakland A’s.

Após alguns anos de resultados medianos, Barry se vê pressionado a melhorar o rendimento do time. O problemão com que se depara, contudo, é: com um orçamento ínfimo se comparado ao dos grandes times, e em um mercado no qual os jogadores mais renomados são vendidos a preço de ouro, como montar um time de qualidade, competitivo e capaz de efetivamente lutar pelo campeonato?

Sua estratégia? Mudar de estratégia.

Assim, ao invés de entrar na briga por jogadores famosos, resolve apostar na tese de um jovem e desengonçado economista de Yale, Peter Brand (Jonah Hill, também na briga pelo Oscar, como melhor ator coadjuvante), que, com base em uma extensa análise estatística dos jogadores (“sabermetrics”), avalia que tão importante como a correlação entre número de vitórias e runs – o que normalmente é feito – é a relação entre aquelas e as corridas até as bases. (Não se preocupe, ninguém precisa entender muito de baseball para gostar do filme.)

Dessa forma, de acordo com seu argumento, haveria, no mercado, inúmeros jogadores valiosíssimos, mas subestimados (em outras palavras, baratos).

Esta seria a faceta “técnica” do filme – capaz, em si, de entreter apaixonados pelo esporte. Ainda mais interessante, contudo, é a dimensão humana subjacente.

Até então, Berry havia tentado amenizar através da frieza e racionalidade sua frustração pessoal com o fracasso de sua carreira como jogador profissional; depois de se transferir aos bastidores do esporte, jamais se permitiu a novamente sentir emoção pelo jogo – ele diz que quando você começa a se emocionar com o esporte, “that’s when you get hurt”. Neste sentido, para não se envolver, não conversa com jogadores (para ficar mais fácil na hora de os negociar), tampouco assiste a qualquer jogo.

Entretanto, ao se ver obrigado a apostar todas suas fichas em Peter e sua teoria heterodoxa – e, inversamente, conforme este se vê finalmente respeitado por alguém – ambos formam uma dupla (um time) inseparável. Barry, aos poucos, amolece (por exemplo, conforme passa a interagir com os jogadores, se permite sentir novamente o campo e correr ali – e não mais na solidão de uma academia vazia, em plena hora de jogo) e novos sentimentos passam a transbordar da tela.

O filme, ressalta-se, emociona sem ser piegas; assim como o esporte. Este é capaz de trazer inúmeras alegrias e lágrimas de felicidade, mas é também injusto, imediatista e irracional; alguém passa de herói a vilão no espaço de tempo de um intervalo – ou menos.

Aquele, retrata como poucos todas essas facetas e, seja para os fãs de esporte, ou para os fãs de cinema, vale muitos pontos.

(“O Homem que mudou o jogo“, “Moneyball“, de Bennett Miller, 2011)

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Pedaço de Céu

De nada adianta esconder que ela é, para mim, a mais interessante das cantoras brasileiras recentes. Não tem a potência de Karina Buhr, tampouco a fofurice de Tulipa Ruiz e Tiê, mas mostra, como poucas, a reverência ao som agradável – e isso não é pouco. Ela é Céu.

E Céu não é música para o esquenta da balada; não é o melhor som para empolgar uma aula de bike… é música em si só; música para se ouvir.

Há poucos dias, lançou seu  mais recente álbum, Caravana Sereia Bloom (sim, este é o nome; nonsense e delicado assim).

Falando em maluquices (no melhor dos sentidos), a faixa que abre o disco, “Falta de Ar”, é basicamente a seqüência de “Espaçonave”, o fecho de seu último álbum, Vagarosa. Se, na última, Céu propunha “voltar pra nave-mãe, pra despressurizar”, agora critica delicadamente o crescimento desenfreado do mundo e desabafa “esse papo que gira aí, que o mundo tem que crescer, cresci até tocar a lua e em marte eu vou descer/ Mesmo que eu tenha criado um traje especial, que me permita viagens em modo espacial…ainda não vou, foguete é osso (…)”.

Falando, então, de amor – algo que ela faz tão bem – “Amor de Antigos” exemplifica como Céu é capaz de criar música brasileira para o mundo: o som é inclassificável – flerta com rock antigo e ritmos latinos, sem deixar de lado elementos do jazz e barulhinhos eletrônicos – lançando mão, ao mesmo tempo, de letras que refletem sua habilidade em transformar seu apreço pela língua falada em música: “nhonhô bebeu um gole de cada poro meu, e feito vinho de caju amarrei-lhe a boca” (não é lindo?).

Nesta toada, lembro-me de Céu falando, em vários dos shows a que assisti, sobre seu fascínio pelo coloquial, pelas expressões locais (como na gostosa “Bubuia” de seu último álbum). Céu é popular por ser acessível, não por ser simplória.

“Retrovisor”, a primeira música divulgada, remete mais explicitamente ao clima que permeou a elaboração do álbum: a estrada – daí a presença de influências ainda mais diversas, além dos já familiares jazz, reggae e MPB. Naquela faixa, os vocais, um tanto distantes, quase opacos, remetem à imagem de uma Céu no carro, com os vidros abertos, cabelos ao vento, cantando “pois não pense que isso vai ficar assim, meu batom vermelho vai me enfeitar, não preciso do espelho do retrovisor pra não borrar”.

Dentro dessa miscelânea boa, há também um grande clássico “Palhaço”, de Nelson Cavaquinho, e faixas pequeninas – “vinhetas”, como ela chama esses “flashes musicais” – como “Sereia”, que tem menos de um minuto e é tão bonita…um canto da sereia no mar, oscilante, com barulho de ondas indo e vindo, de lá para cá. Nas palavras da moça, tais pedacinhos “seriam como um rascunho. Queria mostrar como as músicas vão se formando, aproximar as pessoas do processo criativo”.

Céu tem o raro dom de acertar na dose: ser delicada sem ser menininha; de ser sofisticada, porém simples. Veja o exemplo de seu mergulho no rock – ritmo mais presente do que nunca – de “Baile da Ilusão”: ali, tangencia a cafonice, mas ainda assim é finíssima: “me colori para lembrar o que vivi, me colori para contar o que chorei (…)meu coração em preto e branco hoje quer se rebelar”.

A última faixa, “Chegar em Mim” é uma bênção para os ouvidos. (Sem exagero, é a melhor música que ouvi até agora em 2012.) A forma como a voz doce que canta a letra – doce, direta – se embrenha em meio às guitarras, ritmando cada palavra, é um bálsamo: “acendendo no meu peito, a fagulha dando um jeito, que o coração sempre pediu. Eu me enfeito nesse ensejo e atiço o teu desejo, perfume chega pra dizer (…) se eu fosse você, já tinha chegado em mim”.

É, enfim, um álbum daqueles de aquecer o coração, tamanha sua graça. Falar o quê mais? Talvez isso baste: ah, Céu, obrigada.

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Legados

Até que ponto tradições, em especial aquelas que sobrevivem por gerações, se mantêm por si – como algo superior, que paira sobre os mortais e permanece vivo (ou ao menos latente), a despeito de grandes esforços daqueles responsáveis em o cultivar?

Particularmente em se tratando de legados de família, em que medida semelhanças genéticas e um mesmo sobrenome são suficientes? Ou sua manutenção, mesmo quando se fala da herança de um ente uno – “a família” – depende exclusivamente do esforço constante das gerações futuras?

Questionamentos de tal sorte são o pano de fundo de “Os Descendentes (“The Descendants”, de Alexander Payne).


Ali, tais questões se desenvolvem paralelamente, em dois flancos: o principal diz respeito ao paradoxo de um pai, Matt King (George Clooney, indicado ao Oscar deste ano de melhor ator pelo papel), que tem de reestruturar sua família, reatando laços com suas filhas (e readquirindo o respeito e afeto daquelas), justamente no momento em que o núcleo familiar a que pertencem começa a ruir: a mãe/esposa entra em coma irreversível após um acidente no mar.

Não bastasse a perda iminente, ao se ver obrigado a de fato se relacionar com suas filhas, Alexandra (Shailene Woodley) e Scottie (Amara Miller) – de 17 e 10 anos, respectivamente – Matt descobre novas facetas das meninas (os problemas e a rebeldia de cada uma não se mostram incompatíveis com seu crescente companheirismo e admiração), de sua mulher (toma consciência de que pouco sabia daquela com quem convivia até então) e de si próprio (apesar da tentativa de os conter, vê que em seu peito explodem todos os tipos de sentimento – é memorável a cena em que Matt, após descobrir algo terrível sobre sua mulher, sai correndo, ofegante e atabalhoado, e parece querer fugir de todos os pensamentos que surgem em sua mente).

O segundo flanco de desenvolvimento do filme é a discussão sobre a venda, ou não, de um enorme e valioso terreno que, tendo sido herdado de seus mais remotos ancestrais, pertence agora a um fundo familiar (administrado e representado legalmente por Matt) do qual fazem parte os incontáveis primos e familiares.

Em dado momento, ambas as tramas passam a se misturar e, à medida que Matt redescobre a importância e a complexidade de se pertencer a uma família – e conforme se aproxima cada vez mais da sua – passa a reconhecer o valor de lutar para que ela, e as relações subjacentes, não se desintegrem.

O diretor, Payne, que também foi responsável pela direção de Sideways (2004), opta novamente, como naquele, por esmiuçar e se aprofundar em temas íntimos das relações humanas, sem, contudo, descambar para algo excessivamente melodramático. Para tanto, conta não apenas com atuações que caminham sobre todo o espectro de emoções – da comicidade à tristeza dolorida – mas também enfatiza a beleza do local aonde a trama se passa, o Havaí. (Assim, não seria exagero imaginar que o filme seria sensivelmente mais pesado caso se passasse, digamos, no inverno da Finlândia.)

Dessa forma, trata-se de um drama familiar equilibrado, apesar de a família ali retratada – em todos os seus níveis – não ser das mais serenas. Um bom filme, com boas atuações, e capaz fazer o espectador, ao sair da sala, pensar e repensar muito sobre questões tão familiares.

 

(“Os Descendentes, The Descendants”, de Alexander Payne, 2011)

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Alívio

Certas coisas trazem alívio imediato: o primeiro gole de cerveja gelada no calor, tirar os sapatos depois de um dia de trabalho, receber uma ligação de quem tanto se espera…

Musicalmente, dos maiores alívios que alguns – como esta que escreve – podem experimentar é ouvir, em uma nova banda, o bom e velho rock’n’roll. É o que ocorre ao se escutar os primeiros acordes de The Soft White Sixties.

 

Formada em São Francisco, em 2008, a banda resgata com maestria as tradições do blues – por vezes esquecidas no rock moderno – e alia letras simples (porém espertas) à intensidade de som – especialmente na bateria de Joey Bustos e nas guitarras de Aaron Eisenberg e Josh Cook.

Para ser mais precisa, a primeira sensação ao se ouvir uma das faixas mais poderosas do EP que leva o nome da banda (a ótima “Queen of the Press Club”) é de susto: a voz de Octavio Genera, as guitarras e as letras (“a cigarette caresses a rose petal lips, got a hand on a phone, a hand on a hip”) lembram assustadoramente o AC/DC de Bon Scott.

Carregar qualquer semelhança com aquela que considero a melhor banda de rock de todos os tempos já seria credencial suficiente para qualquer banda se fazer ouvida; neste caso, no entanto, os meninos vão além e conseguem sustentar as 5 músicas de seu EP com fôlego de craques.

A primeira, “When This All Started”, é um exemplo memorável de como o hard rock de verdade lida com essa coisa estranha chamada amor – que, uma hora ou outra, arrebata qualquer um; seja palmeirense ou corinthiano, sambista ou roqueiro – : “I gotta get over you, like you’re over me (…) and how did you make it look so easy the way you just move right along (…) I Just want your love, come back to me”. Declaração apaixonadamente escancarada, mas disfarçada pelo barulho das guitarras – quem já sofreu desse mal e aprecia rock’n’roll sabe que não poderia ser melhor.

I Am” se permite ser mais moderna, e, com seus vocais abafados e a batera menos agressiva – ainda que marcante – não é exagero dizer que soa como The Strokes em seu melhor (“oh oh no no, I don’t wanna be that way…cause I am…I am...”).

Better Way” é blues-rock em plena forma; sexy, cadenciado e com letras melancólicas – rasgadas por solos de guitarras que falam por si só – : “dont know what it is, but everything in my life is losing its taste (…) I’m restless because I’m careless, but most of all is still you that i still miss (…) but that’s gotta be a better way”.

Para fechar, “Live in the Evening” é um rock acelerado, com teclados perfeitamente harmonizados com as guitarras, que fala sobre aquele que vive na noite, e que espera encontrar certa pessoa sob o luar. Bom pra cacete – desculpe, mas o rock me faz perder o que me resta de papas na língua – e só faz aguçar ainda mais a expectativa sobre o primeiro álbum completo a ser lançado.

Em resumo: considerando se tratar apenas de um EP, é uma prévia incrivelmente promissora do que essa banda pode mostrar; as cinco músicas mostram mais qualidade – e rock’n’roll – do que a maioria dos discos pretensamente roqueiros por aí. Só por isso, já valem (muito) a atenção.

Recomendadíssimo. Escute aqui.

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Silva

No caderno C2+Música, do Estadão do último sábado, dia 04 de fevereiro, ao se discutir sobre o pretenso fim da canção – exclusivamente a partir do ponto de vista das obras de Chico Buarque e Caetano Veloso, ressalte-se –, Romulo Fróes, a fim de falar da geração contemporânea de músicos, afirma que “Os músicos dessa geração discutem sobre pedais, amplificadores, microfonação, válvulas, softwares de gravação, instrumentos antigos, etc., tanto quanto propriamente de música”.

Pois bem, considerando tal argumento, e sem fazer qualquer julgamento de valor sobre ele, é possível dizer que a tecnologia, hoje em dia, faz parte da música. Mais ainda, que é válido afirmar que elementos eletrônicos são introduzidos na música contemporânea tão naturalmente como outrora se inseria um riff de guitarra.

E é justamente desse sincretismo de sons e tecnologias, sejam antigos ou modernos, que surgem algumas boas surpresas do cenário musical atual, como esta de quem falamos neste post.

Quem? Um sujeito que carrega no nome as raízes brasileiras: Silva.

 

Lançado no final de 2011, o EP SILVA EP, de Lúcio da Silva Souza, se diferencia justamente pela capacidade de mesclar elementos tradicionais da canção – i.e. boas letras e melodias, sem falar em violinos e piano clássico – a pirotecnias típicas dos anos 2000 (mais precisamente, toda sorte de barulhinhos capazes de serem criados diante de um computador).

Apenas cinco faixas bastam para que se perceba que esse Silva não é um qualquer – afinal, alguém que pretende ser reconhecido pelo sobrenome mais comum do país deve ter algo diferenciado a mostrar. Pois bem, ele tem.

O início, “12 de Maio” é arrebatador: uma voz meio suave, permeada por um som eletrônico-carnavalesco canta: “mesmo quando ela não está se arrastando pelo som da batucada, fica pronta pra quem se arriscar, vai dançando ate o fim da madrugada…e a hora passa sempre devagar”. (Soa como um Holger adulto; Los Hermanos moderno.)

A segunda, “Imergir”, com um som sutilmente sintetizado, fala sobre o fim daquele – ou de outro – relacionamento; lançando mão de, literalmente, afogar as mágoas para seguir adiante: “navios dizem recomeço, do mar ninguém chegou ao fim, eu vou deixar seu nome imergir”.

“Visita” (minha preferida), é mais delicada (com violino arremedando folk) e letra simplesmente linda. Relata os preparativos para um encontro – seguido de outros:

“vou lhe fazer uma visita, mas não fica assim aflita, que eu não sou de reparar; não precisa de banquete, nem preocupa com enfeite, não me vai empetecar.

Os velhos discos de bolero, to levando pois eu quero ensinar como dançar, e dizer-lhe ao pé do ouvido, com um tom meio atrevido, dois pra lá e dois pra cá”

“Cansei” começa com um piano clássico, que se moderniza, se eletroniza, e desabafa: “cansei dessa rotina, já não ouço o mesmo som, cansei desse negócio de tentar ser bom. Cansei dos meus retratos, da falsa sensação de ter você por perto no seu coração” – e é linda.

Para terminar, a abafada “Acidental”, passa o risco e fecha a conta de um excelente disco; é mais pop e menos melódica, mas deixa a vontade de se querer ouvir mais desse tal de Silva.

Assim, que venha o álbum oficial de estréia, e tantos outros a seguir. A música brasileira contemporânea só tem a ganhar com artistas que não escolhem o moderno em detrimento da beleza tradicional da canção, mas que misturam o ontem e o hoje com excelência.

Ouça aqui.

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Fora do trilho

Quando as coisas saem do trilho, e o trem ruma para a direção oposta da anunciada, reações igualmente inesperadas ocorrem. Diante do imprevisível, como saber qual a melhor forma de agir?

Esta é uma das questões postas em Confiar (Trust, de David Schwimmer). A história ali contada é a de um ambiente em que tudo estava muito bem, até não estar mais.

Annie (Liana Liberato) é uma adolescente de 16 anos que, assim como tantas, presta mais atenção na tela de seu celular e em seu computador do que no mundo à sua volta; para ela, interagir socialmente é trocar mensagens de texto. Ocorre que, se quando se olha no olho de uma pessoa já não é fácil saber o que de verdade há ali, quando a relação se consolida atrás de um teclado, então, confiar é ainda mais difícil.

E a garota descobre tal desassossego da maneira mais dura.

Encanta-se por Charlie, quem, no princípio, acredita ter também 16 anos. Conforme as conversas se intensificam, ele diz que é um pouco mais velho, que tem 20 anos. Papo vai, papo vem, ele confessa ter 25. Quando finalmente se encontram, ela percebe que não é bem assim; que ele deixou de ter 25 anos há muito tempo.

Ainda assim, ela confia; e crente no amor que o homem lhe promete, segue adiante. E o trem descarrila de vez.

Descarrila não apenas porque o espectador se vê diante de uma história permeada pelo incômodo e perturbador tema da pedofilia, como também porque as reações desencadeadas a partir de então parecem sempre seguir na direção inversa do esperado.

Na medida em que a família descobre o que ocorreu, uma crise explosiva se instala no ambiente familiar outrora tão tranqüilo; seu pai, William (o excelente Clive Owen), vê o chão sumir de sua frente, e sentimentos os mais diversos e insuportáveis o acometem: a filha, que antes só lhe trazia alegrias, agora faz nele aflorarem rompantes de impotência, raiva, culpa e repulsa.

Dessa forma, com as peças desarrumadas sobre o tabuleiro, ninguém consegue lidar com a situação: nem Annie, quem demora a se perceber vítima; nem William, que só pensa em botar as mãos naquele que tocou sua filha, mas se esquece de a amparar. (Em um determinado momento, a terapeuta de Annie – interpretada por Viola Davis – diz àquele: não podemos evitar que coisas ruins aconteçam a nós ou àqueles que amamos; e tudo que podemos fazer é estar sempre por perto para ajudar o outro a se levantar da queda.)

Além de belas atuações, o filme também se destaca por sair do lugar comum, na medida em que corajosamente tangencia questões delicadas: até que ponto um ato consentido é violento; ou em que medida uma adolescente é capaz de consentir (neste sentido, há uma ótima cena em que o colega de trabalho de William, ao descobrir o ocorrido, diz algo como: “nossa, que susto, quando você falou que ela havia sido violentada, eu pensei que tivesse sido um estupro de verdade”).

Ainda assim, apesar de incômodo, o filme é longe de ser chocante ou moralmente revolucionário; pelo contrário, é sensível e foge de toda forma de maniqueísmo. É, enfim, um dos melhores filmes em circuito neste ano.

(Confiar, Trust, de David Schwimmer)

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