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Tulipa flor

Tudo pra ser aquilo tudo que todo mundo espera, todo um perfil, aquele jeito que todo mundo gosta; tudo pra ter tudo; um jeito que agrada a todos”.

Este é o início de “Ok”, uma das faixas do novo álbum de Tulipa Ruiz (Tudo Tanto) e que, em meio a uma batida ensolarada, com quase-ukuleles ao fundo, lança um desafio: vocês, ouvintes, estão preparados para uma nova Tulipa?

Em “É”, a primeira faixa de seu disco, mostra justamente essa tranqüilidade adulta, tão presente em seu novo álbum: “pelo nosso amor em movimento, pode ser e é”. Ali, assim como em todas as outras faixas, não há ansiedade em agradar imediatamente; a continuidade e a constância são o que importa. A relação está consolidada – assim como a admiração de seus fãs – então, sem pressa.

E some também a pressão para continuar sendo – ao lado de Tiê – uma das porta-bandeiras da fofurice musical do cenário brasileiro contemporâneo.

Com o perdão do trocadilho estúpido, Tulipa desabrochou.

Não que o tom simples e fofo tenha se perdido… “Quando Eu Achar”, por exemplo, poderia facilmente constar em Efêmera, o primeiro (e muito bom) disco da moça: “Quando eu achar o que eu quero achar, você vai saber (…) se eu me permitir, sem pestanejar, você vai curtir”.

No entanto, ainda assim, Tulipa está mais rock’n’roll; há um (bem-vindo) tom de rebeldia em seu cantar: “(…) Melhorou o jeito que a gente conversa, que a gente discute coisa e tal; mas posso ter ainda algum motivo pra querer cair no vendaval; eu sou assim, assim” (“Like This”). Mesmo quando diz: “devo lhe dizer que a minha cura é você, meu bem, é você meu bem; é você meu benzinho”, o esclarecimento prévio impõe alguns limites: “Devo lhe dizer que a vida é um curta, que eu filmei você, e foi sem censura” (“Script”).

E, talvez, a manifestação mais óbvia do novo flerte com o rock seja a participação de Lulu Santos, em “Dois Cafés”; ali, o tom de crítica (ainda que não tão mordaz) se mostra, e questiona a vida nas grandes cidades: “Tem que correr, correr, tem que se adaptar (…) daqui pra frente o tempo vai poder dizer se é na cidade que você tem que viver; pra inventar família, inventar um lar”.

Menos óbvia, mas mais significativa ainda, é “Víbora”. Um quase jazz, ácido – e nada fofo –: “até parece máscara, ópera, víbora (…) mas é só você que tem o dom de me enganar, me seduzir, me desdobrar, de me cuspir, só pra me obter”. Uma música sobre machos que não são tão machos assim… para ser tocada depois das 23h – e , dizem rumores, com direito a Criolo murmurando ao fundo.

Tulipa, enfim, deixa de lado seu lado menininha, mantendo intactas, porém, a potência de sua voz e a simplicidade direta de suas letras. Para a satisfação de todos nós.

 

Baixe o novo álbum de Tulipa Ruiz, aqui – ou, nas palavras da moça, “quer me baixar? Me baixa com dignidade”.

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Guerra e Paz

O Memorial da América Latina, em São Paulo, é a morada temporária dos painéis Guerra e Paz, de Cândido Portinari, até 21 de abril, quando partirão para outros estados brasileiros até retornarem aos Estados Unidos, em agosto de 2013.

A exposição é uma oportunidade única para conhecer e admirar o melhor trabalho já feito pelo pintor paulista de acordo com….ele mesmo! Portinari levou quatro anos para concluir os painéis (de 1952 a 1956), que foram encomendados pelo governo brasileiro e presenteados a sede da ONU, em Nova York.

Monumentais (14 x 10m) e dotados de uma complexidade genial, os painéis retratam dois extremos da desgraça e da esperança humana: a destruição causada pela guerra e a bem-aventurança da retomada da paz.

A exposição traz, ainda, diversos estudos e quadros do pintor que serviram de base para a composição dos painéis – nem o próprio Portinari chegou a vê-los em conjunto. Apesar de a mostra sugerir que o visitante inicie seu tour admirando os gigantes Guerra e Paz, descobrir inicialmente seus pequenos trechos ajuda a captar as minúcias do pintor, a emoção de cada cena desenhada na obra final e, ainda, a entender a dor e a esperança que compõem o contexto das obras.

Contemplar o painel Guerra nos remete a um cenário de morte iminente, de desespero diante da impotência que nos rege face à barbárie humana. Paz, por sua vez, traz diversos elos que sugerem fraternidade e leveza e por que não dizer que nos traz a própria paz ao admirá-lo.

“Diante destes choros, destes cavalos marinhos, que falam ao mar profundo de minh’alma, me sinto em estado de absoluta inibição crítica. Tudo que posso fazer é admirar.” (Manuel Bandeira)

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Nas profundezas do bosque de Oz

“Escrevo artigos não porque me pedem, mas porque me sinto tomado de ira. (…) Escrevo a partir de um senso de injustiça e da minha revolta com isso. Mas só posso escrever um artigo desses quando estou cem por cento de acordo comigo,  o que não é minha condição normal – em geral concordo parcialmente comigo mesmo e sou capaz de me identificar com três ou cinco diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto. Nesse caso escrevo uma história, na qual diversos personagens podem expressar visões distintas sobre um mesmo tema”.

Quem disse isso foi Amós Oz, em entrevista feita em 1994 e publicada no ótimo As Entrevistas da Paris Review (sobre o qual já falamos aqui).

Entender sua obra De repente, nas profundezas do bosque (uma “narrativa em prosa” – como prefere nomear o gênero “ficção” – publicada pela Companhia das Letras) fica mais fácil a partir da declaração acima.

Nesse livro precioso, tem-se a fábula de um vilarejo que, embrenhado na escuridão e no silêncio, não abriga animal algum. Os mais velhos, tomados pelo receio de falar sobre o assunto, raramente comentam sobre a noite em que todos os bichos sumiram. Os mais jovens, criados em um mundo habitado exclusivamente por humanos, são ensinados a acreditar que cães, gatos, pássaros e moscas são lendas.

Mais, há rumores de que os animais foram, há muito tempo, levados pelo “demônio da montanha”, Nehi. Por essa razão, “Nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma de verdade, diziam os pais aos filhos, que nunca e de maneira alguma se atrevessem a sair de casa depois do escurecer”. Adentrar ao bosque, então, nem se fale. Proibido. Perigoso.

Não se toca no assunto e, os poucos que se atrevem a questionar a inexistência dos animais, são considerados loucos, são alvos de gozação. Pode ainda ser pior: o pequeno Nimi, por exemplo, o menino de nariz escorrendo, sempre alvo de chacota, que sonhava com bichos e um dia sumiu no bosque, voltou avariado; voltou contaminado com a “doença do relincho” – não falava mais, só ria e relinchava. Tornou-se uma aberração, ninguém se atrevia a chegar perto dele – poderia contaminar quem se aproximasse.

Por essa razão, o perigo que o bosque e a escuridão traziam, o medo pairava pelo vilarejo: “E apesar disso todos se lembravam muito bem, em silêncio, do que era melhor não lembrar. E havia certa necessidade de negar tudo, negar até o próprio silêncio, e zombar de quem, apesar de tudo, lembrava: que se calasse. Que não falasse”.

Mas, Mia e Mati, duas crianças curiosas, lembravam de algo que viram num certo dia – um peixe? Como assim, um peixe? – e, contrariando a ordem local, resolveram não esquecer. Decidiram, então, descobrir o mistério daquele lugar e do sumiço dos bichos.

É dessa forma lúdica, repleta de lírica e fantasia, que Amós Oz – um dos mais renomados escritores israelenses contemporâneos – tangencia, nesse adorável livro, questões humanas fundamentais, como a discriminação e a tolerância; a relação entre homem e natureza; a angústia de se ter que pertencer a um grupo; o questionamento de regras e a relação com o dogmatismo, ou obscurantismo.

Assim, justamente por lidar com todos esses temas de maneira hábil e não impositiva – não há sermão, nem bonzinhos e mocinhos – a declaração que iniciou este texto faz sentido: diversos pontos de vista sobre um mesmo assunto são postos em xeque. A moral da história quem tira é o leitor.

 

(De repente, nas profundezas do bosque, de Amós Oz, Editora Companhia das Letras)

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Enfim, Strokes – Parte II

(continuando…)

Invertendo a ordem normal das coisas, inicio com a conclusão: Angles é um baita disco.

A explicação mais preguiçosa seria a de que, considerando que o álbum é feito por uma das melhores bandas dos últimos tempos, necessariamente seria acima da média. Não é tão simples assim… – e este argumento é dos mais ocos.

De fato, bandas ruins dificilmente serão capazes de fazer grandes discos, mas ótimas bandas podem, sim, produzir desastres.

Muitos são os exemplos da síndrome do álbum seguinte – para citar apenas três, o que dizer da brusca transformação do Kings of Leon, ou do controverso quarto álbum do Los Hermanos (Quatro), ou da guinada do MGMT no seu mais recente Congratulations (aliás, só eu acho que a capa de Angles lembra muito a de Congratulations?!)

Surgem então alguns questionamentos: até que ponto uma banda de sucesso deve sempre replicar a velha fórmula que deu certo? A “cara” de uma banda admite que se façam experimentações e inovações, ou estabelece um padrão restritivo e limitado? Ainda, em que medida os fãs aceitam mudanças de estilo?

Algumas, como os Beatles – para chutar alto – se preocupavam menos em manter uma continuidade do que em buscar uma evolução constante de seu som, sempre indo além e aliando novos elementos musicais.

Há, por outro lado, bandas que se repetem e ponto: a minha favorita de todos os tempos, AC/DC, por exemplo, é mestra nisso. (Lembro-me de um trecho de uma matéria da Rolling Stone: “You ever heard of  AC/DC?” an older fan was overheard asking a college-aged kid last night on the way into Massachusetts’ Gillette Stadium, site of the group’s Black Ice North American tour opener. “Isn’t that the band that sings only about sex and rock?” was the response. The answer, quite unequivocally — and gloriously — was yes”).

The Strokes equilibra essas duas tendências: se, de um lado, o que mais se ouviu quando do lançamento do segundo disco da banda (Room on Fire) foi que era bom justamente por ser parecido com o primeiro – e que o terceiro (First Impressions of Earth) seria ruim porque diferente – Angles é ótimo porque mistura o velho e o novo Strokes.

Foi dito por aí que Angles seria uma mistura dos projetos solos de cada um de seus integrantes – o flerte com o new wave oitentista de Casablancas, o “tropicalismo californiano” de Moretti, etc. De fato, a lentinha “Call Me Back” soaria bem na voz de Rodrigo Amarante e Binki Shapiro; “You’re so right” e, principalmente, “Games” (que tem uma pegada bem anos 80) são a cara de Casablancas – e só dele.

Mas pegue, por exemplo, o já hit “Under Cover of Darkness” e até a mais sombria “Metabolism”. Alguém discorda que poderiam perfeitamente integrar algum dos dois primeiros álbuns da banda?

Como se não bastasse, há também faixas que não são “trabalhos solo” de seus integrantes, tampouco o bom e velho Strokes, mas algo um tanto híbrido; as duas melhores do disco, “Two Kinds of Hapinness” e “Taken for a Fool”, são exemplos. A última começa meio esquisita, meio eletropop (tendendo a Gorilaaz, saca?), até que vem o refrão… aquela velha batida… os vocais distantes e meio esganiçados, a bateria desesperada de Fab… e o alívio: é, Strokes está de volta.

Outra: “Machu Picchu” – a boa faixa que abre o disco – ainda que faça jus ao nome e conte com elementos meio andinos na abertura, vai se transformando em algo que, inequivocamente, tem a cara deles.

Por essas razões, Angles consegue a um só tempo misturar um pouco de tudo – e de todos seus integrantes – e ainda assim preservar a alma Strokes. Para alguns, isso tem soado um tanto “retalhado”; para outros, é Strokes a partir de novos ângulos. Seja como for, termino como comecei: Angles é um baita disco.

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Enfim, Strokes – Parte I

(AVISO: acabei me empolgando com o post e ele ficou gigante. Por isso, hoje tem a primeira parte, depois publico o resto!)

 

Escutei a primeira música nova do Strokes sem saber que era a primeira música nova do Strokes.

Embora ciente de que uma das faixas do “já histórico mesmo antes de nascer” Angles havia sido disponibilizada (oficialmente…) pela banda, era tamanho o oba-oba a respeito que fiquei com preguiça de correr para escutar.

Foi, portanto, sem querer – em uma balada com Lucio Ribeiro de DJ (só podia ser) – que “Under Cover of Darkness” caiu em meus ouvidos. Ah, e como caiu bem…

No primeiro momento, fiquei um pouco confusa: “ué, isso definitivamente é Strokes… mas que raio de música é essa que não conheço?!”. Culpei o álcool pela falta de memória.

Foi apenas alguns dias depois, quando o CD inteiro “foi vazado”, que ouvi pela primeira vez aquilo que, mesmo sóbria, não poderia ter reconhecido. Melhor dizendo, reconheci novamente aquilo que já tinha ouvido e reconhecido como The Strokes – mesmo não muito sóbria.

Eu havia dito aqui no blog que preferia esperar o conteúdo assentar, antes de dizer algo a seu respeito. Pois bem, já se passaram alguns dias e, escutando incessantemente este álbum, acho que já posso compartilhar minhas primeiras impressões – the first impressions of Angles.

Antes, porém, uma última (juro!) digressão: quem não é muito familiarizado com o mundo do rock alternativo (ou indie) pode se perguntar: “o que esse Strokes tem que os outros não têm?”

Para mim, Strokes é diferente dos demais porque: 1) foi a segunda banda de rock (de verdade) pela qual realmente me apaixonei – a primeira foi AC/DC – e 2) foi a banda de rock mais influente que minha geração (por “minha geração” entenda-se aquela que ainda era pequena demais para entender Kurt Cobain) viu surgir – antes que me questionem novamente: Radiohead pode ser genial, mas é menos “banda de rock” que Strokes.

Por que digo isso: fazendo coro ao que se diz por aí, sou partidária da opinião de que Julian Casablancas, Nick Valensi, Albert Hammond Jr., Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti (a.k.a. o baterista brasileiro amigo de Rodrigo Amarante e namorado de Binki Shapiro) “salvaram o rock”.

O primeiro álbum da banda, Is this it, lançado em 2001 – bem definido pela Rolling Stone como “tight, lean, smart and almost subliminally catchy” – ao misturar rock do final dos anos 70 (i.e. ares hippie-punk-descolados), com jaquetas de couro, vocais sujos e uma sonoridade de garagem – não quis reinventar a roda, mas, o contrário, lançou mão de uma formação roqueira “clássica” – guitarras, baixo, bateria e voz – anunciou o fim da hegemonia dos sintetizadores e tecladinhos e foi um dos responsáveis pela “volta do rock” – amém!.

O Pitchfork, menos deslumbrado que a maioria dos representantes da mídia, foi ainda mais preciso em sua definição:

“The Strokes are not deities. Nor are they “brilliant,” “awe-inspiring,” or “genius.” They’re a rock band, plain and simple. And if you go into this record expecting nothing more than that, you’ll probably be pretty pleased. See, while I can’t agree with the Strokes’ messianic treatment, I’d be lying if I said I thought Is This It was anything other than a great rock record.”

E, mesmo após o lançamento de outros álbuns – principalmente Room on Fire (2002), mas também First Impressions of Earth (2005) e os momentos mais “old school” de Angles – Strokes continua sendo simplesmente isso aí: uma ótima banda de rock.

Falando nisso, e indo ao que interessa, vamos falar de Angles?

 

(continua…)

 

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O novo de Lykke Li

Chutando de lado a bola da vez, o re.verb não vai falar do novo álbum do Strokes – ainda.

Primeiro, porque não tem muita graça falar sobre o que todo mundo está falando (até o Estadão de ontem dedicou a capa e uma página inteira ao assunto)…

Segundo, porque é preferível deixar o “furo” para quem se preocupa mais em contar antes – mas não necessariamente melhor – e só falar quando realmente se tiver algo a dizer; depois de digerir, de fato, o conteúdo.

Digo isso porque obras culturais como um todo, mas comumente as músicas, demoram um tempo até fazerem, ou não, sentido. O impacto inicial pode, muitas vezes, se alterar depois que se pensa e ouve outras vezes.

Tudo isso para dizer que, infelizmente, não é o que ocorre com o novo álbum de Lykke Li, Wounded Rhymes. Não gostei desde a primeira escutada – e permaneço não gostando.

A música de Lykke perdeu o frescor; a deliciosa esquisitice deu lugar a um pop lugar comum.

Barulhinhos estranhos – que ainda existem, como em “Follow Rivers” – já não soam mais como em Youth Novels (o ótimo álbum anterior) e Lyyke perdeu aquilo que tinha de melhor: a cada faixa proporcionava a sensação de se estar ouvindo algo novo, diferente.

Desta vez, não é nem algo novo, tampouco mais do mesmo – o que neste caso seria muito bom – mas é uma outra pegada, mais previsível e menos interessante.

Nesse sentido, li em algumas resenhas que o álbum estaria “introspectivo”. Discordo. Instrospecção pressupõe sentimentos e pensamentos profundos. Lykke soa, sim, mais melancólica, mais reclamona, mas o que dá o tom é um descontentamento superficial – não é uma desilusão a la Suburbs, do Arcade Fire, para citar um exemplo.

Desde a primeira escutada, uma pergunta persistia: “essa loira bonitinha que está cantando é Lykee Li, ou Duffy?”

Não me leve a mal, acho o álbum de estréia da última até bem bacana, mas não é inovador. O primeiro de Lykke era.

Um exemplo: “Dance, Dance, Dance” (minha preferida) traz uma mistura rara e excelente de ritmos – batidas sacolejantes e inusitadas – junto com uma letra que é a um só tempo mais simpática e “profunda” do que qualquer uma de Wounded Rhymes (“having troubles telling how I feel but I can dance, dance, dance. Could not possibly tell you how I mean but I can dance, dance, dance“).

 

Desta vez, porém, as letras estão mais para desabafos adolescentes (como em “Love Out of Lust“: “I’d rather die, than die alone“) do que resmungos relevantes; a música de Lykke retrocedeu em maturidade.

As batidas também estão lentas, chatas, rasas, dificilmente encantam ou instigam.

Muito tem se falado sobre uma faixa em especial, “Get Some” – não surpresa a faixa menos molenga e mais “saidinha” -, mas mesmo quando nela se ouve “Don’t pull your pants before I go down“, falta convencimento na safadeza…

Wounded Rhymes é, enfim e infelizmente, apenas um outro álbum, dentre tantos que surgem por aí. Não se destaca e não encanta. Ainda bem que o frescor de Youth Novels é tamanho que permanece surpreendendo toda vez. Este album sim, e não aquele, é o novo de Lykke Li.

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Um olho na rua, outro no mouse

 

Há algum tempo, no início de fevereiro, o Google deu uma sinalização importante no sentido da valorização e, por que não, democratização das artes visuais ao possibilitar o acesso – ainda que não físico – a alguns dos maiores museus do mundo, com o Google Art Project (demos a notícia em primeira mão aqui!).

Um pouco depois, foi a vez de três brasileiros da agência Loducca (Raphael Franzini, Gustavo de Lacerda e direção geral de criação de Guga Ketzer), com o apoio da Red Bull e o respaldo instrumental do Google terem a brilhante idéia de complementar o tour artístico virtual para além dos museus, possibilitando o acesso  a obras de street art espalhadas pelo mundo todo – e a divulgação desses trabalhos muitas vezes escondidos em becos coloridos (como o meu lugar favorito da Vila Madalena, o mágico e mutante Beco do Batman).

Criou-se então, o filhote descolado do Google Street View – primo-irmão do Google Art Project – o Street Art View.

Não é exatamente uma idéia revolucionária (já existia, por exemplo, o Street Art Locator), mas desta vez, a colaboração dos locais, especialmente brasileiros, tem sido realmente grande e o projeto já conta com uma reunião expressiva – com o perdão do trocadilho – de obras dos mais diversos artistas do mundo (de Banksy a Nina Pandolfo e OsGemeos).

O mais bacana é que, diferente de outros sites semelhantes, o Street Art View oferece uma navegação da que nos permite enxergar o contexto urbano em que as obras estão inseridas e, nesse sentido, sua interferência na paisagem das cidades.

Ainda, vale ressaltar que a inclusão de obras é totalmente colaborativa e, assim, qualquer um pode “taguear” um local e, como diz o projeto, “ajudar a construir a maior coleção de arte do mundo”.

 

Olha ai o Beco do Batman

Mesmo quando a resolução não é das melhores, a tecnologia oferece, outra vez, uma mãozinha e fotos geotagueadas do Flickr, por exemplo, são dispostas automaticamente, oferecendo uma visão alternativa das obras.

Falando em street art, Resolvi compartilhar isso hoje para aproveitar o ensejo de outra exposição – esta “mais ou menos dentro” de um museu – que também tem contribuído para valorizar e respeitar tais manifestações no Brasil, sobretudo o grafite: o MuBE (Museu Brasileiro da Escultura) promove a segunda mostra “Murais Coletivos”, até 20 de março.

Ali, vinte artistas apresentam seus trabalhos em murais espalhados pela sala do museu.

 

Ficam portanto duas dicas para seu fim de semana e meus sinceros aplausos para manifestações culturais dessa natureza. Que essa moda se espalhe ainda mais!

Murais Coletivos”, no MuBE – Museu Brasileiro da Escultura (Sala Pinacoteca), Rua Alemanha, 221, Jardim Europa. Grátis, de terça a domingo, das 10h às 19h. Até 20 de março.

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O Homem e o Mar

 

Por que gosto tanto de surfar?

É que, no surf, sou apenas eu; humildemente entregue ao mar. Insignificante diante da natureza e do mundo – e ao mesmo tempo parte de ambos.

Poucas vezes vi melhor tradução para essa sensação do que as fotos de Hengki Koentjoro. Estão ali algumas das mais expressivas e emocionantes que já vi. É algo sublime, mágico, inexplicável.

É o homem na imensidão do mundo. É o que de mais próximo do surf posso ter neste momento, diante deste computador.

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Cisne branco

Em Cisne Negro, a vida de Nina (Natalie Portman, favoritíssima ao Oscar), mesmo antes de nascer, sempre se resumiu ao balé. Quando sua mãe, uma ex-bailarina, engravidou, ao optar por continuar a gravidez em detrimento da carreira, condicionou a vida da menina à obrigação de obter, a qualquer custo, o sucesso que não teve.

Nina, por sua vez, obedeceu, mas, com isso, parece carregar sobre os ombros o peso do mundo. Ela é tecnicamente perfeita, disciplinada e graciosa, qual bailarina de uma caixinha de música. Mas, assim como esta, não tem vida.

Desde sempre, sob as asas da mãe, foi instruída a se dedicar exclusivamente ao balé, para que, assim, se tornasse impecável. E assim o fez.

No entanto, quando lhe é oferecido o papel de sua vida, como rainha dos cisnes na montagem de sua companhia, e lhe é exigido que, para além da perfeição virginal do cisne branco, haja também a sensualidade e malícia do cisne negro, percebe que apenas as experiências não vividas poderiam fazer com que encarnasse o papel.

O desespero de ver que a técnica – e tudo pelo que lutou a vida toda – não seria suficiente para o papel, faz com que a estabilidade emocional da menina – já debilitada – rua de vez. Como interpretar uma mulher de verdade, se a mãe a coloca na cama todas as noites e, a seu lado, dormem apenas coelhos e ursos de pelúcia? Como viver a personagem, se jamais lhe foi permitido viver sua própria vida?

Nina passa, então, a desesperadamente tentar sentir – ainda que não saiba bem o quê – e, nessa busca insana, encontra, enfim, uma única solução: ser, antes dela própria, o cisne negro.

Em suma, um filme lindo, mas pesado, daqueles que nos fazem sair da sessão meio fora do prumo; não se sabe bem o que se passou ali, mas, o que quer que seja, é decerto avassalador.

(Cisne Negro, Black Swan, de Darren Aronofsky, 2010)

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Google cult

Morro de medo do Google.

Se Deus seria, desde sempre, onipotente, onipresente e onisciente, o Google, nos anos 2000, tem dado mostras de que não pretende ficar muito atrás – pense na loucura que é o “oráculo Google”, aquele para quem tudo se pode perguntar e nada fica sem resposta…

A constante busca por inovações, aplicativos e penduricalhos é, a um só tempo, assustadora e fascinante; foram criados em pouquíssimo tempo Google Earth, Google Desktop, Google Maps e por aí vai.

Mas, ontem, confesso que tirei meu chapéu para o Google como nunca antes na história: foi criado o Google Art Project.

A idéia não é das mais complexas e deriva de outro programa do Google, o Street View: como se não bastasse poder navegar por imagens de satélite de todas as quebradas e bibocas do mundo todo, agora, com o Art Project, será possível visitar virtualmente os maiores museus do mundo, “passear” pelas salas onde se encontram dispostas as obras – e dar belos zooms em qualquer obra de arte dali – e ainda montar sua própria “galeria” a partir das obras favoritas.

A lista das instituições parceiras já é grande – e excelente – incluindo, dentre outros, o Metropolitan Museum of Art, o MoMA (ambos de Nova Iorque), o Museo Reina Sofia (Madri), a National Gallery e o Tate Britain (ambos em Londres), o Palácio de Versailles, a Galeria Ufizzi (Florença) e o Museu Van Gogh (Amsterdã).

Dessa forma, para alem de gadgets e cacarecos, alguns de utilidade questionável, o Google desta vez une forças para garantir maior acessibilidade à cultura em si. Seja servindo como teaser para aqueles que pretendam visitar fisicamente os museus, ou como uma forma de permitir que aqueles que dificilmente poderão visitar tais museus se sintam ali seja aonde estiverem, o Google Art Project é um avanço na direção da valorização e, por que não, democratização das artes visuais.

Tudo bem que do Google nunca se espera pouco, mas até para ele, este não é um pequeno feito.

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