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Amor tóxico

É impressionante como o conteúdo de uma só palavra pode compreender tantos significados, por vezes tão distantes entre si. Especialmente em se tratando de uma palavra tão corriqueira, mas essencial, como “amor”, o sentido que cada indivíduo atribui a ela – e, conseqüentemente, a própria concepção individual do que seja amor – pode variar absurdamente, transitando por um espectro infinito.

Para alguns, amor é a simples troca, entre indivíduos, daquilo que têm de melhor; é fazer o bem e recebê-lo de volta. Para outros, amor e paixão são sinônimos e, portanto, inexistiria amor desprovido de loucura; em seu conteúdo, o amor carregaria insanidade, torpor e prazer extremos.

Seja qual conceito melhor lhe aprouver, “Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios”, o filme de Beto Brant e Renato Ciasca, baseado no livro homônimo de Marçal Aquino, fala do último. (Sem prejuízo, ressalta-se que também o livro se apóia na faceta mais tóxica do “amor-paixão” , como já falamos aqui.)

O enredo, em resumo, diz respeito à paixão desenfreada do fotógrafo forasteiro Caiuby (Gustavo Machado) por Lavínia (Camila Pitanga) – casada com o pastor da cidade (Pastor Ernani, interpretado por Zécarlos Machado) – no coração do Pará, em um ambiente corrompido e corroído pela extração ilegal dos recursos naturais locais.

A locação, em si, importa na medida em que a decadência (inclusive moral) da cidade é incorporada por seus moradores e, ali, em uma terra de ninguém, os valores que motivam o agir são, antes de tudo, primitivos, instintivos e instantâneos.

Por tal razão, o amor é quase maniqueísta; mostra-se em facetas: a sensorial – da carne, do sexo (como ocorre entre Lavínia e Caiuby, no início) – ou a de adoração, de devoção religiosa (entre Lavínia e o Pastor Ernani e, ao final, entre Caiuby e ela). O amor ali retratado, porém, nunca é completo – e, assim, torna-se um tanto oco, ralo.

O clima quente, úmido, pegajoso e sombrio parece penetrar também na mente das personagens, tornando a razão dormente – à exceção do jornalista fofoqueiro Viktor Laurence (Gero Camilo), ali ninguém age racionalmente. O pensamento é sempre limitado, abafado pelos impulsos.

Neste sentido, há horas em que o filme apresenta um ritmo errático, fragmentado, como se o formato acompanhasse a mente delirante das personagens. Por tal razão, principalmente para quem não está familiarizado com a história, conforme retratada no livro, é fácil se perder ao longo da sessão.

Trata-se, em última análise, de uma obra forte, que retrata intensamente (seja na atuação de seus protagonistas, como na fotografia) excessos humanos. Ali, não há histórias ou relações assépticas, e nenhum homem é santo – ora, não é assim aqui também?

(“Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”, de Beto Brant e Renato Ciasca, Brasil, 2011)

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Isso é amor?

É um daqueles amores de carne e de alma – ou, se preferir, uma paixão em que a carne fala tão alto, que até a alma crê que é amor.

Quem nunca teve, oxalá um dia terá. Nos que já experimentaram, ficarão, para sempre, cicatrizes – tatuagens.

Não é tema novo, tantos gênios já o tentaram decifrar… em prosa, em verso, ou em som… e já foi retratado – maltratado – mas nunca decifrado até o fim. – Ainda bem, se não não teria tanta graça o reviver, tantas e tantas vezes.

Esses dois livros de que falo hoje, versam justamente sobre o assunto – sem, contudo, chegar a uma conclusão final.

Ambos, entretanto, concluem o mesmo: há amores que avasssalam, destroem a vida, e que fazem o amante viver – a vida toda – em órbita, ao redor do outro. Mas, a despeito de todo o sofrer, inquestionavelmente vale a pena; e, assim, a força que fazem perenes as sensações não é óbvia; é insensata, é inexplicável – infinita e irracional.

Por isso, desta vez, falo sobre obras que não são novas, mas que não deixam de ser atemporais: Travessuras da meninas má (do nobel Mario Vargas Llosa) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (de Marçal Aquino, que terá sua versão cinematográfica lançada no próximo dia 20 de abril).

Em ambas, há a paixão incondicional – carnal e sobrenatural – dos dois protagonistas: de Ricardo pela “menina má”, no primeiro; e do fotógrafo Caiuby pela linda Lavinia, no último.

Seja em Miraflores, Paris, Londres, Tóquio ou Madri – como no romance de Llosa – ou no coração do Pará, como em Aquino, o que fica é a devoção, tantas vezes unilateral, de um homem por uma mulher.  É uma adoração quase religiosa pelo ser desejado – a qual, garanto, é mais comum do que se imagina; seja o amante macho, ou fêmea.

E o que fazer quando um turbilhão assim arrebata qualquer senso de razão? Sucumbir nunca parece a escolha mais sensata, mas, na maioria das vezes é o desfecho inevitável. E, ao se deixar de resistir, como levar adiante a vida que resta – em outras palvras, como suportar a vida sem a pessoa amada? A morte nunca pareceria tão próxima.

Peço desculpas pela falta de objetividade ao falar de ambos os livros, porém, quando alguma obra nos faz de fato sentir, nas personagens, a dor – já sentida em nós leitores – nos resta apenas recomendar a leitura – e torcer para que, pelo menos em alguém, a dor real doa menos ao final da última página da ficcção. Ou, para aqueles insensíveis, fica o alerta.

Travessuras da meninas má (Mario Vargas Llosa, Editora Alfaguara) e Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios (Marçal Aquino, Editora Cia. Das Letras)

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