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Na garagem

O registro começa em Nova Iorque, com um bombeiro aposentado – e presente no onze de setembro de 2011 – que mal se controla ao dizer que aquilo é a “loteria do rock’n’roll”; e que ele ganhou.

Outro vencedor diz que, se tivesse ganhado na loteria de verdade, teria gastado todo o dinheiro justamente para conseguir o que o prêmio do sorteio real lhe proporcionou: trazer o Foo Fighters para tocar na garagem de casa.

Estes são algumas dos relatos presentes no Foo Fighters Garage Tour, um “documentário” que, ao longo de quarenta minutos, retrata uma das maiores bandas de rock dos últimos anos tocando em garagens espalhadas pelos quatro cantos dos EUA – mais precisamente, Nova Iorque, Washington, Toronto (onde tocam com o próprio dono da casa), Chicago, Denver e Dallas, terminando, claro, em Seattle.

Em cada uma dessas localidades, os sortudos anfitriões – selecionados em uma promoção – recebem a banda em sua casa e assistem a um show restrito e exclusivíssimo, composto principalmente por faixas do álbum mais recente, Wasting Light – disco este gravado, literalmente, na garagem de David Grohl.

O filme, apesar de curto e recheado em sua maior parte pelas performances ao vivo das músicas do Foo Fighters, retrata diversos clichês do rock’n’roll: desde a garagem em si – que está para os roqueiros como o útero para os bebês – até o magnetismo que emana dos rockstars e seu efeito avassalador sobre os fãs – e.g. marmanjos cabeludos chorando, menininhas tremendo…

Mas, sem dúvida, o que mais chama atenção é a simpatia e a ausência de afetação por parte de todos os integrantes da banda – nas palavras do bombeiro novaiorquino que abre o filme: “these are regular guys, they just happen to be rockstars”.

Neste sentido, em alguns momentos, a “gente bonice” dos músicos parece um tanto enfatizada demais – por exemplo, quando o rockstar com menos cara de rockstar no mundo, Pat Smear, dá, sem pestanejar, sua guitarra para um garotinho que faz uma brincadeira com ele; ou quando Grohl tira sua jaqueta de couro e a coloca sobre a cabeça de uma das anfitriãs, para protegê-la da chuva – mas não há como terminar de assistir ao filme sem querer chamar a banda para tomar uma cerveja com você.

Especialmente em relação a Grohl – sobre quem já falamos aqui (modéstia à parte, em um dos posts mais bacanas já publicados pelo re.verb) – a sensação que temos é de que absolutamente tudo que ele fala é legal e espirituoso, a ponto de se pensar que sua simpatia, ao mesmo tempo que o aproxima dos fãs, o torna ainda mais mitificado; você pensa: “caramba, esse cara é um sujeito normal, como eu… mas é sem dúvida o sujeito normal mais foda que existe no mundo”.

Duvida? Assista então, na íntegra, ao vídeo disponibilizado pela banda:

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Prazer em conhecer

Suponha que você tenha se desligado do mundo nos últimos vinte anos. Para você, camisa de flanela não é grunge, nem hipster, é roupa de lenhador. Você nunca ouviu falar em Kurt Cobain, ou em sua melancolia que, transformada em rock, se tornou hino de uma geração. Ao ver a imagem de um bebezinho gorducho, nadando numa piscina em direção a uma nota de dinheiro, nenhum disco vem à mente.

Você, portanto, não conhece David Grohl.

Eis que, em 2011, você volta e fica sabendo que uma tal Foo Fighters é uma das maiores bandas de rock da atualidade e que seu vocalista e guitarrista, David Grohl, há vinte anos participava (como baterista do Nirvana) daquela que possivelmente foi a mais significativa (r)evolução do rock alternativo de todos os tempos.

Você, então, se depara com o seguinte álbum:

A primeira faixa, “Bridge Burning”, começa com um riff seco, metálico, que se multiplica em uma sucessão de ataques à guitarra e um grito: “these are my famous last words”. A batida continua pesada e, na letra, a pergunta: “Tell me now, what’s in it for me? No one’s getting this for free/So tell me now what’s in it for me”.

A resposta é: para Grohl, que, aos trancos e barrancos foi consolidando sua posição como lead man de uma grande banda, há, hoje, um séquito de fãs; alguns que o acompanham desde os meados de 1991, e outros, como você, que o conhecem agora – e rapidamente gostam daquilo que ouvem.

E você gosta porque você escuta a ótima “Matter of Time” (“my past is getting us nowhere fast/I was never one for taking things slow/Nowhere seems like somewhere to go/Come over and over”) e entende que esse tal David Grohl é um cara bacana (como bem disse Lucio Ribeiro), que tomou algumas porradas da vida, mas que, neste momento, está em sua melhor forma.

Percebe também que essa banda tem, como poucas, a habilidade de modular a intensidade das batidas e vocais ao longo das faixas; em outras palavras, intercala melodias simples – harmônicas e que funcionam – a estrofes e refrões gritados com intensidade impressionante (como em “Arlandria”: em meio a uma quase balada, de repente surge o berro que implora “Oh God, you gotta make it stop!”; ou na excelente “Walk”, em que praticamente arrebenta suas cordas vocais ao cantar “I never wanna die, I never wanna die” ).

Gosta também porque o som é rock’n’roll de verdade, mas as letras falam sem pudores de amores e suas desventuras. Aliás, a raiva típica do rock pode ser a melhor forma de se expiar a dor causada por alguém: “one of these days, I bet your heart will be broken/ I bet your pride will be stollen” (“These Days”).

Assumindo o risco de levar uma sapatada na cabeça, você ousa a pensar que algumas faixas, como “I Should have Known” quase cruzam a fronteira em direção ao emo: “I shoulda known, that it would end this way/I shoulda known, there was no other way/Didn’t hear your warning/Damn, my heart gone there”. Mas, antes mesmo de você dizer o que pensou, vêm novamente os vocais gritados – e inequivocamente viris – de Grohl (como na pedrada “White Lime”) e tudo volta ao normal. (Vale dizer, contudo, que você, como eu, acredita piamente na máxima de que de emo e louco todo mundo tem um pouco – não havendo mal algum nisso.)

O disco, enfim, acaba e você, satisfeito, decide que, mesmo tendo conhecido esse cara só agora, ouvirá muito David Grohl pela frente.

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