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A diva

Você se lembra de seu primeiro amor? A excitação infindável da novidade, a descoberta de sua faceta adulta, todos os prazeres e dores…

Agora, imagine se o objeto desse amor inaugural fosse a pessoa mais famosa – e desejada – do mundo. Imagine se, ao menos por alguns dias, em seus braços estivesse Marilyn Monroe.

Pois bem, é esse o pano de fundo de “Sete Dias com Marilyn” (“My Week With Marilyn”, de Simon Curtis).

Ali, o enredo se desenvolve ao redor de Colin Clark (o gracinha Eddie Redmayne), quem, no alto de seus 23 anos, se vê como o terceiro assistente de diretor de um filme, “O Príncipe Encantado”, estrelado por ninguém menos que Marilyn Monroe (belíssima atuação, indicada ao Oscar, de Michelle Williams) e Lawrence Olivier (Kenneth Branagh) e, de quebra, acaba se tornando amante e confidente da estrela principal.

Colin, com toda sua inocência, não apenas se apaixona pela irresistível platinada curvilinea, como também atua como instrumento para que nós, espectadores, enxerguemos parte da faceta humana da personagem femme fatale.

Mais do que isso, ao lado do garoto – e a partir de seu ponto de vista – somos capazes de enxergar as facetas mais humanas (e frágeis) de Marilyn.

H.L. Mencken já alertara que:

O que os homens tomam como beleza em si próprios normalmente não passa de uma pompa oca, uma revoltante ostentação, o espendor superficial de um saracoteio animal (…) Ele sucumbe a um par de olhos bem pintados, a um torneio gracioso de um corpo, a uma compleição sintética ou a uma bela amostra de pernas, sem dar a minima atenção ao fato de que ali pode haver uma mulher inteira, e que as idiossincrasias desse cérebro são muito mais importantes do que todos os estigmas físicos combinados. (…) O ideal de seu sexo é sempre uma mulher bonita, e a vaidade e a frivolidade que costumam acompanhar a beleza tornam-se os totens do encanto” (MENCKEN, H.L., O Livro dos Insultos, Ed. Companhia das Letras).

E é essa fragilidade da realidade, aliada à potência do desejo, que fazem desse filme tão forte: uma paixão, em si, já é capaz de transpor quaisquer defeitos da pessoa amada; uma paixão por uma diva, porém, ultrapassa os últimos limites da razão (humilhação e subserviência se confundem; idolatria se mistura com ilusão), e faz o pobre amante querer – incondicionalmente – em vão.

(“Sete Dias com Marilyn”, “My Week With Marilyn”, de Simon Curtis, 2011).

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Samba, a gente não perde o prazer de cantar

Sobre “a nova poesia”, H.L. Menken (velho conhecido do re.verb) diz o seguinte:

“O problema da maioria dos novos poetas é que eles são muito cerebrais – ou seja, atacam os problemas da arte com métodos da ciência (…) O poeta dos velhos tempos não ligava para teorias. Quando lhe vinha aquela vontade de escrever, simplesmente entrava numa banheira com espuma, amarrava uma toalha na cabeça e tentava reduzir seus sentimentos ao papel. (…) mesmo o seu pior fracasso ainda tinha algo natural e desculpável – era o fracasso de um homem com febre de expressar-se” (H.L. Mencken, “A Nova Poesia”, em O Livro dos Insultos, Cia. das Letras).

Assim sendo, o samba claramente pertence à velha guarda; não padece desse mal moderno.

Sim, as rimas e os temas são fáceis: amor sempre rima com dor, sorriso com paraíso e por aí vai… mas qual o problema? É incrível como diz tanta coisa um mesmo “laiá laiá”. E é justamente dessa informalidade, simples como uma cerveja gelada, que soa um canto dos mais expressivos, que fala a todo mundo.

Confesso que quase choro toda vez que ouço versos como: “…mas iremos achar o tom, um acorde com lindo som e fazer com que fique bom outra vez o nosso cantar…”, ou ainda: “…chego a ter calafrio no corpo e a tristeza invade o meu rosto, quando eu lembro teu cheiro, teu gosto, e a farra que a gente fazia…”.

No samba, mesmo a mais profunda dor faz dançar; traz um lamento quase alegre. E, para falar da dor – e de amor – não há rodeios: é tudo escancarado, deslavado, visceral; sincero como uma conversa de bar.

Sexta passada, uma suposta roqueira e suas amigas caíram no samba. Dos melhores, diga-se de passagem, Arlindo Cruz e Diogo Nogueira.

Quanto ao último, basta repetir, novamente, H.L. Mencken: “o que os homens vêem bêbados em outras mulheres, vêem sóbrios em Greta Garbo”. Pois bem, o que as mulheres vêem em Diogo é… bom, deixa pra lá.

Arlindo é o samba encarnado: a malandragem, a carioquice, a fala mansa e a boa vida – sem falar em alguns dos melhores sambas de raiz feitos nos últimos tempos.

O resultado? A alma lavada como que por um banho de sal grosso. E dias seguintes de muitos assobios baixinhos ritmando “laiá laiás”.

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Sem empolação

É de dar dó quem se leva muito a sério. Mais ainda, quem confunde empolação com credibilidade e profundidade. Isso porque, quem se preocupa em levar tudo a ferro e fogo não apenas se diverte menos, como gasta tanta atenção em manter a postura que deixa passar sutilezas e ironias mais profundas do que aquilo que se extrai dos meros formalismos.

Quem disse que da graça não podem surgir questões essenciais? Por que o humor seria algo menor?

Se sustentar um argumento tem a função última de convencer o leitor – nada mais é que um processo de sedução – por que não ser leve, agradável? (Você chamaria alguém para sair sem se preocupar minimamente em ser simpático; sendo um chato?)

Se, por um lado, alguns tendem a achar que o grau de dificuldade de compreensão de um argumento é diretamente proporcional à sua relevância; outros são hábeis o bastante para serem sucintos, inteligentes, simpáticos e acessíveis, mesmo quando transmitem os mais complexos conceitos e idéias.

Exemplos do primeiro grupo há vários: acadêmicos com seu eterno tom doutrinário, políticos, burocratas… advogados, então, nem se fale! Representantes do outro grupo são mais raros… vamos a um? H.L. Mencken.

Este foi um dos maiores jornalistas dos Estados Unidos. Foi também crítico, filólogo (sua obra mais conhecida é The American Language, um estudo sobre a diferença entre a língua inglesa e a “americana”), ensaísta e, acima de tudo, provocador.

Seu tom informal, mas sofisticado; emocional, sem deixar um raciocínio pela metade, imprimia em seus textos uma vitalidade difícil de se comparar. Concorde ou não com suas opiniões – muitas vezes radicais e quase sempre politicamente incorretas (“A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – em “O Crédulo” –; fidelidade é apenas a falta de coragem para trair – em “A Mulher Libertina” –) – é difícil não se sentir incitado por seu texto; impossível se entediar.

Alguns de seus melhores ensaios e críticas – extraídos de A Mencken chrestomathy e A gang of Pecksniffs – estão compilados no Livro dos Insultos (Cia das Letras, tradução, seleção e posfácio de Ruy Castro – que, como poucos, consegue reproduzir a riqueza do texto original).

Ali, Mencken fala sobre quase tudo: o homem, as mulheres, religião (ou a falta de), moral, cultura (Joseph Conrad, Edgard Allan Poe, Mark Twain, Beethoven, Strauss são alguns de seus objetos de reflexão)…

Algumas das mais valiosas pérolas falam sobre a própria escrita, sobre o processo de criação literária. “Sobre estilo” é genial:

“A essência do grande estilo é que ele não pode ser reduzido a regras – é uma coisa que vive e respira, com algo de demoníaco – que se ajusta a quem o usa como a pele ao resto do corpo (…) No dia seguinte ao encontro com uma nova garota, o estilo brilha e dá pulinhos. Se seu autor comeu demais, ele tende a relaxar (…).”

Preciosa também é “O Escritor Trabalhando”, em que afirma que aquele escreve “emitindo gritos de desafio”, com “anseio de fazer barulho”.

O Livro dos Insultos é, em suma, o antídoto perfeito para a crença de que a falta de conteúdo se cura com empolação. Não. A falta de conteúdo se cura com inteligência e cultura. E estas, ditas com graças, curam qualquer coisa.

 

(Livro dos Insultos, H.L. Mencken, Cia das Letras)

* Update zás-trás: Achei uma coincidência divertidíssima o fato de amanhã começar o Lollapalooza e, hoje, junto com este post, ter sido publicada uma matéria no Estadão em que se diz o seguinte sobre a expressão que dá nome ao festival: “O polemista, intelectual e jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880-1956) escreveu que a expressão teria sido usada pela primeira vez nas lutas de boxe, na sua época, para descrever o nocaute – mas não existem provas disso.” (“Lolla nos Andes”, de Jotabê Medeiros)

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