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O toque de Camelo

É o fim dos Los Hermanos e o início da carreira solo de Marcelo Camelo.

Ok, isso é notícia velha, mas, com o lançamento de “Toque Dela”, segundo disco do artista, volta a ser mais atual do que nunca.

Primeiro, porque, se o disco da estréia solo do cantor, “Sou” (ou “Nós”, dependendo do ponto de vista…), era um grito de afirmação, uma carta de alforria do Los Hermanos – com uma certa vontade exagerada de se mostrar complexo e experimental – o novo é mais fluido e simples; soa mais verdadeiro. Justamente por isso, consolida uma sonoridade própria de Camelo, que é a continuidade de “Sou”, mas soa mais natural.

Alguns temas – e palavras – são recorrentes desde os primórdios de sua carreira musical: a “morena”, a “clareira”, a “solidão”, mas agora, ao se levar menos a sério, Camelo encontra um caminho ainda mais interessante.

Os instrumentos que compõem as belas melodias estão mais definidos, menos embaralhados (desta vez, foram gravados em canais separados – e não ao vivo como no disco anterior), e, tamanha sua riqueza, são o grande trunfo do álbum; sejam os instrumentos de sopro e toda a fauna sonora do Hurtmold (que participa da maioria das faixas), seja a já famosa – e deliciosa – sanfonazinha de Marcelo Jeneci. Os melhores exemplos de como essa mistura instrumental funcionou? As faixas “Tudo que Você Quiser” (a mais bela do disco) e “Vermelho” (muito boa também).

Por outro lado, as letras permanecem sinceras – escancaradamente sentimentais – mas estão menos rebuscadas (é deliciosa esta frase de “Acostumar”: “parece brincadeira, mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que é bom demais”); continuam intrinsecamente líricas, mas estão mais alegres – e completamente apaixonadas.

Não que seja surpresa que Camelo é, acima de tudo, um poeta; um romântico irremediável – em “Vermelho”, diz: “trago nestes pés o vento pra te carregar daqui, mas você sorri desse jeito, e eu que já perdi a hora e o lugar… aceito”.

É de se notar também que as faixas são bem distintas entre si: há algo quase baiano – à la Caymmi – em “Pra te Acalmar”; para não falar que nada evoca Los Hermanos, “Pretinha” e “Ôô” (“tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela, vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval”) são mais pop; “Três dias” (única cuja autoria não é de Camelo) é quase uma canção de ninar cult e por aí vai.

Todas essas cores, contudo, não conferem ao disco o tom de colcha de retalhos, mas o contrário: ele é um todo coeso. O motivo? Ele é a cara de Marcelo Camelo; ou melhor, é todas as suas facetas.

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Menos é mais

Seria possível categorizar as atrações do Planeta Terra de várias formas: clássicos e novatos, música “de macho” e música “de mina” (ou de gay, se preferirem), show “com cara de balada” e show “com cara de show” e etc…mas, para não correr o risco de gerar muita controvérsia, uma classificação óbvia – mas segura – é: bandas brasileiras e bandas estrangeiras.

As primeiras apresentaram-se antes, tendo sido o Holger, às 18h30, o escolhido para fechar o line-up verde e amarelo (no meio da sua apresentação, começou Of Montreal, no palco principal).

Mombojó (já comentamos aqui) e República abriram o festival, às 16h. Logo depois, foi a vez de Novos Paulistas e Hurtmold. Vamos a algumas considerações sobre eles:

 

Novos Paulistas – 17h30, Sonora Main Stage


O coletivo formado por alguns dos nomes mais hypados da atual cena musical independente de São Paulo (Tulipa Ruiz, Tatá Aeroplano, Tiê, Thiago Pethit e Dudu Tsuda) subiu ao palco principal com ares de big band.

Cada um dos integrantes, muito à vontade no palco, fazendo gracinhas e comentários diversos, cantaram composições próprias; individualmente e em conjunto.

Considerando que todos esses artistas têm boas composições de sua autoria, estilos não conflitantes e público em comum (que vem lotando o Studio SP em seus shows), a idéia de juntar todos em um só palco soa uma escolha segura, que dificilmente daria errado… Mas deu.

Os principais problemas foram aspectos já comentados acima: primeiro, o excesso de descontração descambou para uma incômoda sensação de estrelismo, um clima de “já ganhou”. Pareciam estar tão confiantes, que se esqueceram de mostrar a que vieram. Pareciam artistas consagradíssimos, daqueles que já fizeram a fama e, portanto, já podem deitar na cama sem preocupação. Não é bem assim…

Segundo, é sempre bom colocar os pingos nos “is”: sim, todos têm qualidade e um grande potencial. Sim, bastante barulho tem sido feito ao seu redor (aqui mesmo já se falou deles algumas vezes). E, sim, eles podem se tornar – individualmente ou em conjunto – artistas consagrados, de qualidade inquestionável. Mas, não, Novos Paulistas ainda não é Novos Baianos. E ponto final.

 

Hurtmold – 17h Gillette Hands Up Indie Stage


Diferente da turma acima, o que falta ao Hurtmold em termos de nome e divulgação, sobra em qualidade.

Goste-se ou não do rock instrumental da banda, é difícil dizer que seu som não tenha qualidade, mais ainda que seus integrantes não tenham se entregado por completo durante a apresentação.

Com muita percussão misturada com trompete, guitarras e vibrafone, trata-se de um rock experimental, mas não excessivamente difícil. É um som complexo, mas delicioso de se ouvir.

Eles sim fizeram jus ao espaço que ocupavam.

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