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Dave Brubeck no Mundo da Lua

Dave Brubeck: o hipster que eu ouvia quando começava O Mundo da Lua.

Antes eu ía escrever só um post bem tristonho, afinal hoje morreu um músico e tanto. Um cara importante pro mundo e pra mim. Aí eu lembrei que ele era importante pra mim de um jeito engraçado,  que não deixa de ter a ver com a coisa mais importante que ele fez em sua trajetória musical. Eu tô falando do Dave Brubeck e do Time Out.

Time Out

Eu lembro da primeira vez em que vi e ouvi esse álbum, e não tinha outra definição que não fosse “obra de arte”. Da capa de Neil Fujita às composições em 5/4 e 9/8 (para ficar só em Take Five e Blue Rondo à la Turk) não tem nada no disco que não transborde harmonia estética. Isso muita gente percebeu, já que esse foi o primeiro álbum de jazz que vendeu mais de 1 milhão de cópias. Mas teve uma coisa muito engraçada que eu senti quando ouvi o Time Out pela primeira vez e não teve nada a ver com a grandiosidade da obra, mas com a pequeninice da minha infância. A segunda faixa do lado A do disco, Strange Meadow Lark, me soava incrivelmente familiar: abertura do seriado da TV Cultura, Mundo da Lua. Aquele mesmo do Lucas Silva e Silva que falava diretamente do mundo da lua, onde tudo pode acontecer.

Não lembra? Esse aqui ó:

E a música do Brubeck Quartet é essa aqui (dá pra perceber bem lá pelos 6:50):

Eu não tenho formação musical, minha audição é bem relativa, mas no instante que eu ouvi essa música pela primeira vez eu lembrei daquele menino que guardava suas memórias num gravador. Não achei nenhum registro sobre o tema da série, nem sobre seu autor, pra checar essa loucurinha minha, mas não importa…

Hoje eu estou triste porque morreu o primeiro grande jazzista que eu ouvi na vida, na abertura de Mundo da Lua.

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Nem uma revelação, nem um Treding Topic

Esperanza Spalding é a musicista em raiz e excelência, acima de tudo.

Há mais de uma semana, ao ler que o Chamber Music Society já estava nas prateleiras, eu decidi que precisava dividir esse amor com os queridíssimos reverb. Enrolei mais do que devia, até aí nada demais. Estranho mesmo foi como eu lembrei de fazer esse post: #Esperanza Spalding. Trending Topic mundial graças ao ódio da legião de fãs de Justin Bieber.

Superando o franja boy queridinho das “teens” de todo o mundo, Esperanza levou o prêmio de Revelação do Grammy. Poderia fazer um post pra justificar os muitos motivos de que, pra mim, essa “festa da música” não é mais do que um pretexto para que os cri-críticos falem mal do “gosto médio americano” dando aquela cuspidinha no chão.

Arcade Fire, Florence Welch e boas surpresas a parte, voltemos ao que interessa: Who the hell is Esperanza Spalding?

Nascida em 1984, a menina estranhona nunca se deu bem com estudo tradicional nem com a vida na escola, e só encontrou-se de verdade – e muito cedo – na música. Aos 4 anos, o primeiro concerto  fez com que a pequena menina despertasse para as melodias e aprendesse, sozinha, a tocar violino. Depois de tocar alguns anos na Orquestra de Câmara de Oregon, sua jornada criativa ganhou horizontes maiores que a música clássica.

O talento de Esperanza não podia encontrar melhor terreno. Depois de tocar na Universidade de Portland muito jovem, a baixista foi para Berklee, a mais prestigiada universidade de música dos Estados Unidos. Atualmente é uma das professoras mais jovens de lá….

Mas é de se imaginar que não foi dando aula que Esperanza ganhou o Grammy. Por trás da “revelação” existem 3 grandes álbuns, além de inúmeras participações em obras de outros artistas.

Junjo (2005) – Em seu primeiro CD a moça já mostra a que veio. Um trio de baixo, bateria e piano mistura ao jazz influências latino americanas, especialmente as argentinas e do nosso Brasil, país pelo qual Spalding tem especial admiração. A baixista mostra que craque que é craque não precisa que o time jogue em função dele. Não existem solos intermináveis, mas as elegantes linhas de baixo têm o peso certo para obras primorosas. O vocal ainda é tímido, em canções como Cantora de Yala. Intimista é o clichê a palavra.

Esperanza (2008) – A obra homônima dessa mulher incrível está no meu olimpo dos álbuns. O som ganha novas referências, com arranjos mais ricos e a cantora desabrocha. A alma “intimista” dá espaço a faixas muito mais ousadas, com letras incríveis e naipes de metal apaixonantes. Difícil destacar uma faixa… tenho obsessão por Precious (uma Love me or leave me do século XXI), Ponta de Areia, na qual Esperanza mostra um português quase impecável (e homenageia seu ídolo Milton Nascimento) e I know you know que transborda aquela brasilidade jazzística de novela do Manoel Carlos, assim.

Chamber Music Society (2010) – No álbum mais recente, Esperanza Spalding volta a seus tempos de menina e grava acompanhada de um quarteto de cordas . A sonoridade retoma as referências de Junjo com um pouco mais de erudição. Além das músicas próprias, somos brindados com Inútil Paisagem do maestro soberano, Antônio Carlos Jobim, e com a participação de Milton Nascimento em Apple Blossom. Adjetivos para essa última? Ainda não encontrei, mas me encanta como poucas. Quem quiser, poderá conferir essa parceria ao vivo dia 24/o9 no palco sunset do Rock in Rio. Uma pequena amostra:

E para esse ano ainda teremos mais um álbum, o Radio Music Society. Quem duvida da força desse balck power?

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