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cultura, crítica e tudo o mais

Hadley e Ernest

Você também já deve ter imaginado como seria viver em outros tempos; em um período especial.

Quem sabe no Rio de Janeiro do final dos anos 50; no gramado mágico e enlameado da fazenda mais famosa de Bethel, entre 15 e 18 de agosto de 1969; na Seattle dos anos 80, e por aí vai.

Woody Allen, em seu último filme, escolheu a Paris dos anos 20. Não sei o que teria escolhido Ernest Hemingway, mas era justamente ali que estava; naquela hora, naquele lugar.

Parece ter sido esta também a escolha de Paula McLain, autora do belíssimo livro The Paris Wife: a Novel, que, misturando ficção e realidade, decidiu encarnar Hadley Richardson (a narrativa é em primeira pessoa), a primeira esposa de Hemingway, e contar uma das mais belas histórias deste (e de qualquer um): o primeiro amor.

A idéia de conceber a obra veio da leitura da excelente e emocionante “autobiografia” que aquele fez de seus tempos em Paris: A Moveable Feast. Nesta, a perspectiva daqueles dias é de Hemingway, quem, mesmo ao lado de Gertrud Stein, Scott Fitzgerald, Ezra Pound e tantos outros, tem em Hadley seu porto seguro.

Ali também, Ernest – ou Tatie, para Hadley – quando se vê prestes a deixar Hadley – que também é Tatie, para Ernest – diz: “I wished I had died before I ever loved anyone but her”.

É justamente um amor carregado de tamanha intensidade, que tendo crescido e sofrido junto com seus protagonistas, cai no mundo e perde sua inocência, o que retrata Paula McLain neste livro.

Hadley estava passando férias quando o conheceu – a amiga Kate, que, por suas razões, desaprovava o romance, alertou desde o princípio: “He likes women. All women”. Sem conseguir conter o que sentia, contudo, com ele se casou – em setembro de 1921. Mudaram-se para Paris pouco depois.

Na nova cidade, desfrutaram, juntos, das dores e delícias que tamanha efervescência criativa e social oferecia – em dado momento, quando as coisas já parecem desandar, Hadley pergunta a um amigo: “‘What’s wrong with all of us, Bill? Can you tell me that?’ (…) ‘We drink too much for starters. And we want to much, don’t we?”.

Por essas razões, como a protagonista diz, tudo estava bem, até que não estava mais. O casal parecia indestrutível, até que se desfaz. Simples assim; complicado assim – como em “Blue Valentine”, de que já falamos aqui.

A narrativa criada pela autora nos faz sentir junto com Hadley; nos faz amar Hemingway – a despeito da personagem machona e destemperada que conhecemos – e temer o fim que se sabe próximo – do romance e do livro. (Confesso que, diferentemente da maioria das outras obras, nesta, não queria chegar ao final; mesmo sabendo qual seria, me vi achando milhões de desculpas para largar o livro e postergar a virada da última página.)

É, enfim, uma lindíssima perspectiva de uma das épocas mais comentadas do século XX – e de um dos maiores autores desse período – na qual a ficção nos incentiva a conhecer ainda mais o que realmente se passou.

Vale muitíssimo. Pena que acabou – aquele período e este livro.

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Sem empolação

É de dar dó quem se leva muito a sério. Mais ainda, quem confunde empolação com credibilidade e profundidade. Isso porque, quem se preocupa em levar tudo a ferro e fogo não apenas se diverte menos, como gasta tanta atenção em manter a postura que deixa passar sutilezas e ironias mais profundas do que aquilo que se extrai dos meros formalismos.

Quem disse que da graça não podem surgir questões essenciais? Por que o humor seria algo menor?

Se sustentar um argumento tem a função última de convencer o leitor – nada mais é que um processo de sedução – por que não ser leve, agradável? (Você chamaria alguém para sair sem se preocupar minimamente em ser simpático; sendo um chato?)

Se, por um lado, alguns tendem a achar que o grau de dificuldade de compreensão de um argumento é diretamente proporcional à sua relevância; outros são hábeis o bastante para serem sucintos, inteligentes, simpáticos e acessíveis, mesmo quando transmitem os mais complexos conceitos e idéias.

Exemplos do primeiro grupo há vários: acadêmicos com seu eterno tom doutrinário, políticos, burocratas… advogados, então, nem se fale! Representantes do outro grupo são mais raros… vamos a um? H.L. Mencken.

Este foi um dos maiores jornalistas dos Estados Unidos. Foi também crítico, filólogo (sua obra mais conhecida é The American Language, um estudo sobre a diferença entre a língua inglesa e a “americana”), ensaísta e, acima de tudo, provocador.

Seu tom informal, mas sofisticado; emocional, sem deixar um raciocínio pela metade, imprimia em seus textos uma vitalidade difícil de se comparar. Concorde ou não com suas opiniões – muitas vezes radicais e quase sempre politicamente incorretas (“A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – em “O Crédulo” –; fidelidade é apenas a falta de coragem para trair – em “A Mulher Libertina” –) – é difícil não se sentir incitado por seu texto; impossível se entediar.

Alguns de seus melhores ensaios e críticas – extraídos de A Mencken chrestomathy e A gang of Pecksniffs – estão compilados no Livro dos Insultos (Cia das Letras, tradução, seleção e posfácio de Ruy Castro – que, como poucos, consegue reproduzir a riqueza do texto original).

Ali, Mencken fala sobre quase tudo: o homem, as mulheres, religião (ou a falta de), moral, cultura (Joseph Conrad, Edgard Allan Poe, Mark Twain, Beethoven, Strauss são alguns de seus objetos de reflexão)…

Algumas das mais valiosas pérolas falam sobre a própria escrita, sobre o processo de criação literária. “Sobre estilo” é genial:

“A essência do grande estilo é que ele não pode ser reduzido a regras – é uma coisa que vive e respira, com algo de demoníaco – que se ajusta a quem o usa como a pele ao resto do corpo (…) No dia seguinte ao encontro com uma nova garota, o estilo brilha e dá pulinhos. Se seu autor comeu demais, ele tende a relaxar (…).”

Preciosa também é “O Escritor Trabalhando”, em que afirma que aquele escreve “emitindo gritos de desafio”, com “anseio de fazer barulho”.

O Livro dos Insultos é, em suma, o antídoto perfeito para a crença de que a falta de conteúdo se cura com empolação. Não. A falta de conteúdo se cura com inteligência e cultura. E estas, ditas com graças, curam qualquer coisa.

 

(Livro dos Insultos, H.L. Mencken, Cia das Letras)

* Update zás-trás: Achei uma coincidência divertidíssima o fato de amanhã começar o Lollapalooza e, hoje, junto com este post, ter sido publicada uma matéria no Estadão em que se diz o seguinte sobre a expressão que dá nome ao festival: “O polemista, intelectual e jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880-1956) escreveu que a expressão teria sido usada pela primeira vez nas lutas de boxe, na sua época, para descrever o nocaute – mas não existem provas disso.” (“Lolla nos Andes”, de Jotabê Medeiros)

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A arte da escrita

“Algumas pessoas dizem que não conseguem entender o que o senhor escreve, nem mesmo depois de o ler duas ou três vezes. O que o senhor poderia lhes sugerir?”

“Que leiam quatro vezes”. (William Faulkner, em 1956)

 

“Quais são as suas idiossincrasias?”

“Suponho que minhas superstições podem ser consideradas idiossincrasias. Tenho que somar todos os números: há pessoas para as quais nunca telefono porque o somatório de seus números dá um total funesto. Ou eu não aceitaria um quarto de hotel pela mesma razão. Não tolero a presença de rosas amarelas – o que é triste, porque é minha flor preferida. Não posso admitir três pontas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajo num avião com duas freiras. Não começo nada às sextas-feiras. São infinitas as coisas que não posso fazer ou jamais faria. Mas obedecer a esses conceitos primitivos me dá um curioso conforto.” (Truman Capote, em 1957).

 

A relação de grandes autores com suas obras, as mais distintas posturas diante de um entrevistador – o ressabio de Hemingway, o divertido papo de Capote, a simpatia de Doris Lessing, o mau humor delicioso de Faulkner, o desabafo repleto de um pessimismo assustador de Céline – o comum desdém pela crítica, uma curiosa adoração a James Joyce e um convite a que o leitor conheça um pouco mais das mãos e mentes por trás de grandes obras literárias.

Essa é parte da tônica de As Entrevistas da Paris Review, ótimo livro publicado recentemente pela Companhia das Letras que, a despeito de ter chegado há tão pouco tempo nas prateleiras, já tem repercutido e conquistado admiradores (dois bons textos sobre o assunto: um de Antonio Gonçalves Filho e outro do nosso parceiro Gabriel Garcia).

 

Esta é uma dentre as 3 mil (!) capas produzidas pela Companhia das Letras

Em pouco mais de 400 páginas (deste que é o volume um) estão reproduzidas algumas das melhores entrevistas publicadas pela revista literária americana Paris Review entre 1956 e 2006; entrevistas tais que, em si, carregam parte da riqueza literária de seus entrevistados.

Na contramão do que atualmente se constata, as entrevistas em questão extraem conteúdo de fato interessante de seus “objetos de estudo”; não apenas devido ao profundo conhecimento de seus entrevistadores, como também pela preocupação em se deixar a prosa fluir – como o bate-bola de Borges com seu entrevistador – até caírem em belas digressões, as mais diversas.

Nesse sentido, não se trata apenas de interessantes comentários sobre a forma como cada um dos 14 autores enxerga e analisa o processo de criação literária – as inspirações, influências, a estruturação das obras (daí o título de cada uma das peças ser “a arte da ficção”, “a arte da poesia” no caso de W.H.Auden, ou “a arte do roteiro” para Billy Wider) – mas também curiosidades divertidas – o relato da experiência de Doris Lessing com a mescalina, a posição física em que alguns escrevem (Capote deitado em sua cama; Hemingway de pé) – e confissões surpreendentes – a desilusão com que Céline enxerga a vida é de cortar o coração.

É, enfim, um livro interessante e gostoso de se ler – aos poucos, ou numa tacada só. Seja para aqueles que se interessam em fazer boas entrevistas, ou aos que simplesmente se deliciam em conhecer – por meio de perguntas e respostas inteligentes – autores que tanto admiram.

 

(As Entrevistas da Paris Review – Vol.1, vários autores, Companhia das Letras, 2011)

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Um amor só deles

 

Ela, uma garota magrela e estranha, saiu de casa para o mundo e se descobriu uma artista completa: poeta, cantora – uma das rainhas do rock – desenhista, escritora, engajada… Ele, também jovem e esquisito, se sabia artista desde o princípio; também pintou, desenhou e acabou se tornando um dos mais corajosos e polêmicos fotógrafos de todos os tempos.

Ambos se encontraram, se salvaram mutuamente e se amaram incondicionalmente até o fim, quando, mesmo separados, estiveram juntos.

Essa é a história de Patti Smith e Robert Mapplethorpe, em Just Kids (lançado em português como Só Garotos, Companhia das Letras).

Tudo se inicia com Patti, antes mesmo de completar seus vinte e poucos anos, sem lenço nem documento – muito menos um tostão no bolso – se lançando em Nova Iorque. Algo lhe dizia que ela era diferente dos demais – a paixão pelos livros, a adoração por Rimbaud… – mas a garota ainda não conseguia formatar seus anseios.

De repente, como por um capricho do destino, encontra e reencontra um garoto de cabelos cacheados que lhe salva de algumas encrencas e lhe descortina uma vida até então desconhecida, a vida de artista.

Ambos, inseparáveis desde aquele momento, prometem jamais sair de perto um do outro até que ambos estivessem prontos pra seguirem sozinhos.

"we used to laugh at our small selves, saying that I was a bad girl trying to be good and that he was a good boy trying to be bad. Through the years, these roles would reverse, then reverse again, until we came to accept our dual natures. We contained opposing principles, light and dark"

 

Tal história não seria muito diferente de tantas outras paixões juvenis se não tivesse começado em pleno summer of love, se a locação não tivesse sido o histórico Chelsea Hotel, se a mocinha não fosse tão amorosamente devota da arte e se o mocinho não resolvesse chocar a sociedade com seu trabalho ou não tivesse sérias dúvidas acerca de sua sexualidade.

Justamente por tais razões, a relação desses jovens, descrita errática e honestamente por Patti, é inclassificável. É, sim, uma bela história de amor, mas retrata aquela espécie de amor único, excêntrico, que transcende convenções e se amolda exclusivamente aos dois.

É curioso como a narrativa de Patti dispensa qualquer detalhe que não importe para a composição da história do “casal”. Outros amantes, fofocas de bastidores (com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Andy Warhol, etc) e outros detalhes sórdidos não têm a menor relevância quando comparados às tentativas de se explicar os sentimentos inexplicáveis que Robert gera em Patti – e vice-versa.

Portanto, longe de ser convencional, a história retrata uma simbiose visceral, um amor transcendental, por vezes chamado de namoro, por outras de amizade, mas que, até o fim, foi a pilastra que segurou cada um em seu prumo e fez o futuro – e a arte – ter sentido.

Assim como uma obra de arte revolucionária, no entanto, esse sentimento original, sem precedentes ou exemplos a serem seguidos, precisou ser descoberto e decifrado por cada um dos dois.

Dessa forma, entre poemas, polaróides, rabiscos e acordes; entre beijos e carícias trocados entre eles e com outros, amaram-se e foram do mundo até o último flash.

 

(Patti Smith, Just Kids, 2010 – em português, Só Garotos, Companhia das Letras).

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Pensando moda

Ontem começou a 15a edição da semana de moda de São Paulo – hoje chamada de São Paulo Fashion Week – e, para além da profusão de desfiles, tecidos e beldades, este que é o evento mais importante do gênero no País, poderia evocar também discussões mais profundas e produtivas sobre a importância da moda em si.

Nesse sentido, para entrar no clima, sugiro aqui a leitura de um livro muito interessante: MODA – Uma Filosofia (Editora Zahar, 2010), do filósofo norueguês Lars Svendsen.

Admito que, ao me deparar com o título, imediatamente torci o nariz; tenho inúmeras ressalvas a qualquer coisa que se proponha como “uma filosofia” (poucas frases me tiram mais do sério do que: “isso é uma filosofia de vida”….), mas garanto que ali é filosofia de verdade. Justamente por isso, não é uma leitura muito fácil, mas é extremamente instigante.

Logo na introdução, Svendsen se propõe a defender a “dignidade acadêmica” da moda como objeto de estudo filosófico, e, para tanto, fazendo referência a inúmeros pensadores (de Roland Barthes e Georg Simmel a Kant, Hegel e Adam Smith) que já ressaltavam, seja de maneira tangencial ou mais aprofundada, a importância da moda como um fenômeno social, busca definir o conceito de moda a ser empregado na obra.

Nesse sentido, o termo “moda” tem um referencial mais estreito que o termo “roupas”, já que há também uma série de fenômenos não relacionados a estas, mas que podem ser descritos como “moda” (nos mais variados campos, como artes, decoração, política, ciência, etc.).

Mais especificamente, o conceito de moda seria sustentado por dois pilares básicos: mudanças sucessivas (a substituição de uma norma estética duradoura por outra) e a individualidade humana (há um vínculo entre moda e identidade; todos nós temos de expressar de alguma maneira quem somos através de nossa aparência visual).

Mais ainda, a moda passa a “indicar a direção” da própria Modernidade, na medida em que há na primeira um traço fundamental da última, qual seja, a “abolição de tradições”, a emancipação pelas mudanças sucessivas – “ser moderno” torna-se sinônimo de “ser novo”; e é “a novidade que torna a moda sedutora”.

Como se vê, eu poderia passar horas – ou melhor, páginas – comentando e compartilhando os insights do livro; pensando moda junto com Svendsen, mas, quero parar por aqui, deixando duas sugestões: 1) leiam o livro. 2) não subestimem o valor, tampouco a profundidade da moda.

 

(Lars Svendsen , MODA – Uma Filosofia, Editora Zahar, 2010)

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Felicidade?

“Se algum dia alguém escrevesse um livro de autoajuda que realmente funcionasse, nós todos estaríamos em apuros”.

Essa foi a frase, dita por uma assessora de imprensa, que ecoou na mente de Will Ferguson durante os dois anos que precederam a elaboração de Ser Feliz® (Companhia das Letras).

Ali, Edwin de Valu é um editor ranzinza que se depara dia após dia com livros imprestáveis – “a pilha de baboseiras” que cresce sobre sua mesa – até que, certa vez, vê cair em suas mãos um manuscrito esquisito, com nome suspeito e formato mais ainda – um calhamaço cheio de adesivos de margaridas – mas que, sem o menor alarde, se torna o maior best seller de todos os tempos da editora.

Pior ainda, e para desespero de Edwin, “O Que Aprendi Na Montanha”, do autor Tupak Soiree, trata-se do livro de autoajuda definitivo; aquele que “instaura o fim do mundo como se conhece” e dissemina uma epidemia sem precedentes da mais contagiosa – e irritante – felicidade.

Para além de uma narrativa leve e inteligente (que mistura policial, fantástico e comédia), Ser Feliz® é uma divertida crítica à sociedade contemporânea (especialmente à americana) onde, em nome de uma suposta “busca pela felicidade” – que muitas vezes nada mais é que algo oco e desprovido de significado – confunde-se satisfação com apatia e falta de questionamento.

Assim, na medida em que o livro de Tupak proporciona a seus leitores a suposta conquista da “verdadeira felicidade” – que de tão artificial se torna até uma marca registrada da editora, a qual licencia seu uso e ganha royalties a cada vez que usam os termos “felicidade”, “feliz” e afins – dissemina também a desistência daquilo que é essencial ao ser humano: a evolução, o querer mais.

Como diz Edwin a certa altura, a busca pela felicidade – e não esta em si mesma – é o que move o ser humano; é como se os “felizes” não tivessem mais pelo que viver.

Trocando em miúdos, Ser Feliz® – e não “O Que Aprendi Na Montanha”… – é um livro ótimo livro para estas férias, daqueles que nos fazem pensar, mas sem deixar de nos fazer sorrir.

(Ser Feliz ®, de Will Ferguson , Companhia das Letras)

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Brutalmente lindo

Na época da Mostra Internacional de Cinema, disse em um post que um dos grandes prazeres proporcionados por aquele evento é o de se descobrir pérolas desconhecidas e deliciosas. Indo além dos filmes, há também preciosidades escondidas em vários outros lugares – pensem na delícia que é conhecer praias desertas, bares sem nome, baladas obscuras… – e, como não poderia deixar de ser, há ainda aqueles livros pouco falados, mas geniais, que por alguma razão cruzam nosso caminho.

Minha maior surpresa dos últimos tempos foi Alone With You, livro de contos de Marisa Silver que, confesso, não sei bem por que caiu em minhas mãos.

A autora não é exatamente desconhecida pela crítica e seu livro mais célebre, The God of War, foi um dos finalistas do Los Angeles Times Book Prize. Ela também já publicou contos – short stories – na The New Yorker e, agora, em 2010, compilou vários deles em uma coletânea que leva o nome da última história da obra, “Alone with you”.

A começar pela capa, um retrato da solidão por Edward Hopper, cada pedaço do todo merece ao menos um post. Por ora, falo sobre o mais brutal e marcante, “The Visitor”. Ali, acompanhamos Candy, uma jovem que trabalha em um hospital para veteranos de guerra aonde, diariamente, se depara com os mais escabrosos ferimentos; corpos destroçados e feridas que deixam cicatrizes indeléveis.

Nem o mais dilacerado dos corpos, porém, é capaz de abalar Candy, que é vista por seus colegas como uma estranha sem coração, mas que, no fundo, apenas se identifica com naturalidade com aquilo a que se acostumou desde cedo a lidar: feridas profundas de quem, quando criança, presenciou o declínio da vida da mãe, viciada em drogas, que jamais se conscientizou que a menina à sua frente era sua filha.

Tal naturalidade talvez tenha sido herdada da avó, a mulher que a criou e que, mesmo quando dava banhos na filha inconsciente, sussurrava canções de ninar sob o chuveiro; ou que, ao ouvir a filha esmurrar a porta, sem conseguir entrar para roubar mais algum objeto de valor, permaneceu sentada à mesa da cozinha, e disse à neta assustada: “só não queremos nenhuma visita neste momento”.

Através dessas personagens se vê, contudo, que a força para lidar com a tragédia é capaz de levar a vida adiante, mas não é suficiente para mitigar a dor. Esta, mesmo quando reprimida, volta como assombração – seja um fantasma que não deixa a velha dormir, ou um paciente que perturba a jovem.

Descrito assim, “The Visitor” pode até parecer um dramalhão novelesco, mas não é. Com a mesma sofisticação – e brutalidade – com que Chico Buarque cantou, em  “Pedaço de Mim”, sobre a dor da perda que se equipara a uma fisgada no membro que se perdeu, o conto (o livro todo, na verdade) também fala com incrível delicadeza sobre as feridas que a vida inevitavelmente traz, mas se diferencia ao dissecar com frieza e poesia as agonias e belezas dos processos de cicatrização.

 

(Alone With You, de Marisa Silver, Ed. Simon & Schuster, Abril de 2010)

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Crescendo

Crescer dói, é difícil e ninguém nos avisa isso. Crescer é um processo infinito; acaba só quando a vida termina.

Crescer é também enxergar as velhas coisas de outra forma, é saber atribuir nomes àquilo que sentimos desde sempre. É duvidar mais, porém saber aquiescer.

E é justamente o primeiro estirão da adolescência, aquele que começa a mudar tudo, o que acompanhamos em Se Eu Fechar os Olhos Agora, de Edney Silvestre (Editora Record, 2010), vencedor do Prêmio Jabuti 2010.

Ali, acompanhamos dois garotos, Eduardo e Paulo, que, após encontrarem, aos doze anos, o corpo brutalmente assassinado de uma prostituta, são catapultados, sem preliminares, para a vida adulta que os espera.

A partir da descoberta do corpo mutilado da bela Anita – no dia em que o homem pisou na lua – a trama converte-se em um thriller instigante, que se desenrola no interior do Rio de Janeiro. Os garotos, auxiliados por um velho torturado político, fazem de tudo para desvendar os motivos e culpados do crime. Para tanto, são obrigados a se deparar com temas e situações até então desconhecidas. Dia após dia, passam a fechar os olhos e se lembrar de mais e mais experiências vividas.

Edney Silvestre, jornalista, mostra em seu primeiro romance notável facilidade em imprimir na narrativa em prosa seu estilo pessoal: é direto, mas sofisticado; preciso, mas bem humorado. Ao misturar elementos históricos daquele Brasil conturbado e imprevisível – às portas do arrefecimento da ditadura militar – nos faz enxergar através dos olhos das personagens; assistimos com ignorância e estupefação aos fatos – e motivações – tão incompreensíveis.

Consegue também, de maneira delicada e sensível, incorporar as aflições e inquietações típicas dos quase adolescentes, fazendo também com que nos sintamos de volta àquela idade – quando tudo é novo, e por isso assustador e incerto.

Mas logo se vê que tais questionamentos são atemporais e universais, daqueles que pipocam em nossas mentes em dias nublados, quando fechamos os olhos e não conseguimos dormir; são momentos em que, seja qual for a idade, voltamos a ser crianças, indefesas e sonhadoras; são agonias furtivas, como as de Eduardo, o garoto comprido e sentimental, que desde cedo sente o que não sabe dizer:

“O muro em frente, as estrelas acima, os paralelepípedos a seus pés, tudo em torno dele perdeu a nitidez. Achou que já tinha passado por aquela situação, a mesma, igual, igualzinha, alguma vez no passado ou agorinha mesmo, e não entendeu o que era nem por que seus olhos tinham se enchido de lágrimas. Outra vez isso, pensou, outra vez essa…essa…o quê?, tomava conta dele como um aperto no corpo inteiro, como se algo estivesse machucado, ralado, ardendo. Mas lá. Dentro. Uma pontada. Não uma dor: pontada. Fina, fina, fininha. Doía fino. E levava tempo para passar. Ou, ao menos, amainar. Quando finalmente parecia sumir, deixava uma vontade de ficar quieto, de não rir, de não conversar, de não brincar, de não sair” (pp. 63-4).

 

(Se Eu Fechar os Olhos Agora, Edney Silvestre, Editora Record, 2010)

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Incompletude generalizada

Daniel Piza, jornalista, escritor, tradutor, professor, crítico e corinthiano, lançou, em agosto deste ano, seu primeiro livro de ficção, Noites Urbanas (Ed. Bertrand Brasil). A obra é composta por pedacinhos – contos e mini contos sobre vidas paulistanas – que carregam formas, vozes e tons distintos, mas juntos formam um todo poderoso.

Chama a atenção certo fio condutor que liga essas pedrinhas tão coloridas e diferentes: uma vida insatisfatória, pela metade, que, se não for característica intrínseca desta cidade, permeia a vida de quem aqui vive com uma habitualidade incômoda…

Tal incompletude generalizada poderia ser resumida no trecho: “Pensou em descrever para ele sua vida de ‘quases’ e ‘parecias’, seu cansaço diante do que é apenas útil ou correto, sua sensação de que há sempre um feixe de frustrações atrás de expressões cotidianas de cada pessoa, mesmo as de semblantes razoavelmente felizes” (“Circuito interno”).

É como se não houvesse perspectiva – não há futuro. Este, sabidamente inalcançável, mal se anuncia e já fica na lembrança – como em “Memórias Futuras”.

Há um círculo vicioso que começa com a conformação com a não plenitude, passa por alguma tentativa frustrada de se preencher o vazio com algo ainda mais oco (seja com a ilusão de uma cultura distante, projetada em um par de olhos puxados; seja com a televisão que transmite a vida alheia; com uma casa em Campos do Jordão, ou ainda com a obediência à última moda) e culmina com a insatisfação e a falta de algo que sequer aconteceu. Daí começa tudo de novo.

No coração de cada personagem (só delas?) cai uma garoa, como em “Calor da Chuva”; ou, se a garoa ainda não cai, já há o presságio de que, independente do que se faça, as coisas não andarão bem, não haverá saída – há, sim, aquele bafo quente, incômodo e pegajoso, que precede a tempestade.

Não se sabe mais de quem é o reflexo no espelho – a cara enevoada do velho ator, turvada por suas personagens; a moça com dois namorados, que tenta se conhecer através de ambos, sem se achar em nenhum – nem quem é o outro – a menina, ou a cultura de seus ascendentes? Tampouco se sabe se a vida ainda começa, ou já se esfarela, como bambu morto – se o pouco que se viveu é apenas o início, ou já é o “cimo da montanha” de Brás Cubas e Virgília, em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Mas, mesmo que tudo pareça um caminho torto e sem volta, há ali também uma necessidade de ainda se acreditar; pode ser que, mesmo nos casos perdidos, haja esperança. Haja coragem para pintar o cabelo de roxo, assumir um romance com o melhor amigo do marido morto; haja um amanhecer mais colorido para estas noites urbanas.

(Noites Urbanas, Daniel Piza, Bertrand Brasil, 2010)

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Rock in hole

O livro No Buraco, de Tony Bellotto, desconstrói logo de cara dois mitos nos quais alguns insistem em acreditar: (i) as obras de arte invariavelmente refletem a personalidade e as frustrações dos autores – e, seguindo esse raciocínio, algo triste e sombrio só poderia ter sido criado por um autor deprimido – e (ii) escrever de maneira sofisticada é sinônimo de empolação.

Em relação ao primeiro ponto, basta dizer que o protagonista e narrador da obra, Teo Zanquis, é um roqueiro frustrado que, nos anos 80, emplacou apenas um sucesso ao longo de sua – curta – carreira de aspirante a rockstar. Por outro lado, Tony Bellotto, o autor, é guitarrista de uma das maiores bandas do rock brasileiro, os Titãs, a qual, desde os anos 80, emplaca um hit atrás do outro. Aos cinqüenta e tantos anos, Teo jamais teve relacionamentos amorosos sérios; Tony Bellotto continua, ao que tudo indica, muito bem casado com Malu Mader…e por aí vai.

Por outro lado, dizer que Teo não é Tony não significa dizer que as experiências do autor não contribuem para a obra. Muito pelo contrário: é justamente por sua familiaridade com a vida de rockstar que ele nos transporta para dentro de uma narrativa tão fluida e natural – ainda que às avessas, quando comparada à sua trajetória real.  Mas, de novo, trazer referências da vida do autor para a narrativa retratada em sua obra é muito diferente de equiparar a voz e a psique das personagens às do autor. Em No Buraco, Bellotto é capaz de retratar com tamanha verossimilhança o fracasso de sua personagem justamente porque conhece tão bem o sucesso.

Quanto à forma, vale dizer que tudo é escrito em tom informal, mas sempre de modo engraçado e inteligente (lembra outro “vitorioso” da música brasileira, Nelson Motta, com seus thrillers O Canto da Sereia e Bandidos e Mocinhos). Algumas pessoas também se esquecem que usar uma “linguagem coloquial” não significa falar errado. É fascinante ver como Bellotto consegue ser tão elegante e escrachado ao mesmo tempo (há, por exemplo, relatos hilários da empáfia de um “dissertador semântico-ginecológico” que testa a paciência de Teo ao divagar sobre a importância do “u” em palavras de cunho sexual…). O que poderia facilmente descambar para a grosseria e o mau gosto, acaba aliando bom humor, boa escrita e sofisticação – ainda que o livro renda alguns momentos de rubor nas faces de leitores mais desavisados…

Não seria absurdo dizer que a história só funciona porque a forma como é escrita é um atrativo em si. Isso porque o “enredo” do livro é o seguinte: Teo, o roqueiro frustrado, passa um dia todo na praia de Ipanema, com a cara enfiada num buraco na areia, ouvindo o movimento da praia e lembrando de suas desventuras – dentre elas, um mistério a ser resolvido envolvendo sua namorada Lien, uma coreana de 19 anos (“o segredo do Cannoli”…). Portanto, convenhamos, um roteiro assim poderia estar fadado ao fracasso imediato. Entretanto, é justamente a forma como o autor intercala momentos memoráveis de sua vida, digressões roqueiras e conversas da praia – que a um só tempo faz referência precisas a figuras musicais e literárias renomadíssimas e usa as expressões mais chulas que se pode imaginar – o que encanta.

Por essas e outras que No Buraco é, para os devotos do rock’n’roll, um raro exemplo de boa música em prosa. Aos não tão roqueiros assim, é um livro moderno, bem escrito e engraçado; com a garantia de gargalhadas e sorrisinhos marotos do início ao fim.

Yeah!

(NO BURACO, Tony Bellotto, Companhia das Letras, 2010.)

 

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