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Sinto que é como sonhar

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As pessoas precisam entender que quando Amarante, Camelo, Medina, Barba, Bubu, Bubuzinho e companhia sobem em um palco o que acontece não é um show, é outra coisa….

Quem olha pr’aquele palco e vê um show realmente encontra uma série de defeitos: sim, o áudio estava péssimo, os instrumentos se sobrepõem sem definição nenhuma, e somando isso à péssima dicção de ambos vocalistas muitas músicas chegavam perto de um código cifrado. Os músicos não são geniais, o Barba atrasou umas boas viradas e estranho era quando o Camelo não atravessava.

Isso pode parecer inadmissível para os fãs que desembolsaram algo entre 70 e 200 reais e perderam noites de sono atrás desse ingresso. Mas não é. Não é, volto a dizer, porque não era um show, não era isso que as oito mil pessoas que se espremeram no Espaço das Américas enxergavam. Elas estavam felizes, satisfeitas, elas tinham o que elas queriam: Los Hermanos.

Los Hermanos é qualquer coisa entre religião e torcida de futebol. É paixão cega que perdoa semitonada e entrada fora do tempo. É sincronia com os músicos que dispensa “boa noite”, “obrigado, São Paulo” e piadinhas dos grandes showmen. Los Hermanos ao vivo são duas horas cantadas de cabo a rabo, com músicas decoradas (no melhor sentido da palavra, gravadas no coração), cantadas, gritadas, choradas, mais suadas que bem soadas. Los Hermanos é catarase, é escárnio. São histórias de vida, (des)amores, cicatrizes, sorrisos. E claro que é uma injeção cavalar de nostalgia, saudade que volta assim que damos as costas para o palco escuro.

Los Hermanos, meus caros, não é “bom”…é diferente, é intenso.

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O toque de Camelo

É o fim dos Los Hermanos e o início da carreira solo de Marcelo Camelo.

Ok, isso é notícia velha, mas, com o lançamento de “Toque Dela”, segundo disco do artista, volta a ser mais atual do que nunca.

Primeiro, porque, se o disco da estréia solo do cantor, “Sou” (ou “Nós”, dependendo do ponto de vista…), era um grito de afirmação, uma carta de alforria do Los Hermanos – com uma certa vontade exagerada de se mostrar complexo e experimental – o novo é mais fluido e simples; soa mais verdadeiro. Justamente por isso, consolida uma sonoridade própria de Camelo, que é a continuidade de “Sou”, mas soa mais natural.

Alguns temas – e palavras – são recorrentes desde os primórdios de sua carreira musical: a “morena”, a “clareira”, a “solidão”, mas agora, ao se levar menos a sério, Camelo encontra um caminho ainda mais interessante.

Os instrumentos que compõem as belas melodias estão mais definidos, menos embaralhados (desta vez, foram gravados em canais separados – e não ao vivo como no disco anterior), e, tamanha sua riqueza, são o grande trunfo do álbum; sejam os instrumentos de sopro e toda a fauna sonora do Hurtmold (que participa da maioria das faixas), seja a já famosa – e deliciosa – sanfonazinha de Marcelo Jeneci. Os melhores exemplos de como essa mistura instrumental funcionou? As faixas “Tudo que Você Quiser” (a mais bela do disco) e “Vermelho” (muito boa também).

Por outro lado, as letras permanecem sinceras – escancaradamente sentimentais – mas estão menos rebuscadas (é deliciosa esta frase de “Acostumar”: “parece brincadeira, mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que é bom demais”); continuam intrinsecamente líricas, mas estão mais alegres – e completamente apaixonadas.

Não que seja surpresa que Camelo é, acima de tudo, um poeta; um romântico irremediável – em “Vermelho”, diz: “trago nestes pés o vento pra te carregar daqui, mas você sorri desse jeito, e eu que já perdi a hora e o lugar… aceito”.

É de se notar também que as faixas são bem distintas entre si: há algo quase baiano – à la Caymmi – em “Pra te Acalmar”; para não falar que nada evoca Los Hermanos, “Pretinha” e “Ôô” (“tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela, vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval”) são mais pop; “Três dias” (única cuja autoria não é de Camelo) é quase uma canção de ninar cult e por aí vai.

Todas essas cores, contudo, não conferem ao disco o tom de colcha de retalhos, mas o contrário: ele é um todo coeso. O motivo? Ele é a cara de Marcelo Camelo; ou melhor, é todas as suas facetas.

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Ritmo da chuva

Chove na capital. Podia falar várias coisas aqui: tem gente se ferrando no trânsito, tem gente tranformando o num elevador virtual e comentando o tempo sem parar, tem gente perdendo a casa, tem um monte de coisa…. mas a chuva em si é linda e, além do barulho dela, eu só quero boa música pra me acompanhar. Seca ou num banho de chuva, deprimida ou enlouquecidamente animada, eu encontro a minha chuva e minha música

Paranoid Android – Radiohead

“Rain down on me/ From a great height”

Singular – Mombojó

“Quando parar de chover/ Corre de mim”

Raindrops – Regina Spektor

“People searching glance to glance / Moving bout real fast /Like insects and fish when they’re scared”

O Mundo Anda Tão Complicado – Legião Urbana

“Aperta o passo por causa da garoa/ Empresta um par de meia/ A gente chega na sessão das seis”

O Vento – Los Hermanos

“E se chover demais”

Preta – Cordel do Fogo Encantado

“A chuva nunca pára de cantar”

O Ritmo da Chuva – Fernanda Takai e Rodrigo Amarante

“Olho para a chuva que não quer cessar”

Que Maravilha – Jorge Ben (Jor?) e Toquinho

“e a gente no meio da rua, no mundo, no meio da chuva/ A girar”

Os pingo da chuva – Novos Baianos

“Só o que pode acontecer/ é os pingo da chuva MI MOLHÁ”

Vai desabar água -Gero Camilo

“Vai desabar água e é pro nosso bem”

E, de bônus track, um clássico da minha infância

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