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Dividindo iPods

Mostrar seu iPod a alguém quase equivale a abrir o coração. Isso porque ali, normalmente, as idiossincrasias ficam mais claras – AC/DC lado a lado com Fundo de Quintal, no meu caso – e trilhas sonoras de toda uma vida se escancaram.

Por isso, playlists podem ser ainda mais íntimas. Afinal, lá estão seleções feitas especialmente para algum momento, pretexto, ou alguém.

Por outro lado, são as playlists (alheias) os melhores atalhos para se descobrir novas paixões musicais. Assim, uma boa seleção musical, por mais íntima que seja, deve ser compartilhada – pelo bem geral.

Hoje, a playlist a ser dividida aqui não foi feita pelos reverbs, mas por outro blog, o Musicoteca – recomendadissímo, por sinal – e toca um tema difícil, mas comum a todos: “a fossinha”.

Mas, veja bem, não se trata de uma lista de músicas para cortar os pulsos, pelo contrário; é mais provável que se saia dançando com os fones de ouvido do que aos prantos querendo se enforcar neles.

A lista (que pode ser baixada na íntegra, de grátis, aqui) é eclética, mas só tem brasileiros contemporâneos. Alguns são a pura nata do cenário independente atual – como Marcelo Jeneci, Karina Buhr, Nina Becker, Bárbara Eugênia, etc. – e outros (ainda) menos conhecidos.

Os ritmos são os mais variados, de sambinhas a blues, de rock a reggae e pseudo-chanson française.

Algumas são pérolas impagáveis, como “Sem (Des)esperar” de Leo Cavalcanti com Tulipa Ruiz, ou Letuce cantando o clássico brega “Poderosa”. Há ainda cover de Los Hermanos (“O Velho e o Moço”, ao piano, por Sara Bentes), Karina Buhr soltando toda sua energia em “Mira Ira”, BárbaraEugênia com uma de suas melhores faixas (“A Chave”), a música que mais gosto de Marcelo Jeneci (“Dar-te-ei”)

É uma seleção digna de aplausos; e de se reverberar por aí.

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Que não acabe

No dia do casamento Real, Marcelo Jeneci dedicou uma de suas músicas mais doces, “Pra Sonhar” aos noivos: “Muita gente tem me dito que tem tocado esta música em seus casamentos, então esta aqui vai para o príncipe e a princesa – vocês sabiam que eles casaram, né?”.

Falar de Jeneci aqui no blog não é novidade (nos encantamos com o álbum de estréia, “Feito Pra Acabar” e, de quebra até o próprio artista deu uma palhinha nos comentários, lembra?), assim, não é de se espantar que o time re.verb estivesse quase completo (e logo nas duas primeiras fileiras) no Auditório do Ibirapuera, na última sexta-feira dia 29, para assistir ao show desse excelente compositor e multi-instrumentista paulistano, certamente um dos mais diferenciados de sua geração.

Pontualmente às 21h, as luzes do Auditório se apagaram e a banda entrou. Vale dizer que, mais sensivelmente do que no álbum, a formação da banda – clássica: um baixo, duas guitarras e uma bateria – e sua qualidade sustentam o show, na medida em que fornecem uma base sonora sólida – por vezes até descaradamente roqueiras, como nos bons solos de guitarra de João Erbetta – que se contrapõe na medida certa a toda a leveza e lirismo da sanfona de Jeneci e ao langor da bela voz de Laura Lavieri.

A apresentação, iniciada com a seqüência de “Copo d’água”, “Café com Leite de Rosas” e “Felicidade”, começou um tanto tímida; intimista demais e quase desempolgada. Nada que comprometesse a qualidade do som – muito menos das músicas – mas faltava algo.

Esse algo começou a surgir justamente em “Pra Sonhar”, música que, por si, já desperta qualquer ânimo e, tocada da forma como foi – com um excelente solo de sanfona de Jeneci ao final – deu gosto. Os príncipes – duques? – devem ter ficado ainda mais apaixonados.

Qualquer resquício de desânimo, contudo, desapareceu por completo quando a faixa que dá nome ao álbum e ao show foi tocada: a bela letra, cantada a plenos pulmões por Jeneci; a bateria e o piano, intensos; a iluminação quase estroboscópica lançada sobre os integrantes no refrão… e, em meio a tudo isso, as cortinas ao fundo do palco sendo levantadas e o Parque do Ibirapuera entrando no Auditório. Um daqueles momentos memoráveis, arrepiantes, que, não à toa, rendeu quase três minutos de aplausos em pé da platéia.

No setlist, todas as faixas do disco lançado em 2010, além de algumas surpresas, como um novo refrão, criado pelo músico há pouco, e compartilhado em voz e piano com o público – que aprendeu logo e cantou junto – “A chuva é a vontade do céu de tocar o mar, e a gente chove assim também quando perde alguém/ Mas quando começa a chorar, começa a desentristecer, assim se purifica o ar depois de chover” ; e a participação da amiga e mentora Vanessa da Mata – que, dentre outras, cantou seu hit “Amado”, música composta por Jeneci.

Vanessa, em palavras carinhosas ditas ao amigo, foi muito feliz em ressaltar um dos grandes diferenciais deste: a habilidade de transformar a sanfona em instrumento para elaboração de harmonias, o qual, fora do contexto habitual do forró, integra perfeitamente o conjunto de guitarras e bateria.

E a música de Marcelo Jeneci é justamente assim: uma bela mistura de gêneros, ritmos e referências – sempre permeada pela poética de suas letras – e que, finalmente, vem sendo descortinada ao grande público, e por este reconhecida. Nada mais justo: trata-se de música de qualidade, muitíssimo acima da média; é música “feita pra continuar”, por muito tempo.

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O toque de Camelo

É o fim dos Los Hermanos e o início da carreira solo de Marcelo Camelo.

Ok, isso é notícia velha, mas, com o lançamento de “Toque Dela”, segundo disco do artista, volta a ser mais atual do que nunca.

Primeiro, porque, se o disco da estréia solo do cantor, “Sou” (ou “Nós”, dependendo do ponto de vista…), era um grito de afirmação, uma carta de alforria do Los Hermanos – com uma certa vontade exagerada de se mostrar complexo e experimental – o novo é mais fluido e simples; soa mais verdadeiro. Justamente por isso, consolida uma sonoridade própria de Camelo, que é a continuidade de “Sou”, mas soa mais natural.

Alguns temas – e palavras – são recorrentes desde os primórdios de sua carreira musical: a “morena”, a “clareira”, a “solidão”, mas agora, ao se levar menos a sério, Camelo encontra um caminho ainda mais interessante.

Os instrumentos que compõem as belas melodias estão mais definidos, menos embaralhados (desta vez, foram gravados em canais separados – e não ao vivo como no disco anterior), e, tamanha sua riqueza, são o grande trunfo do álbum; sejam os instrumentos de sopro e toda a fauna sonora do Hurtmold (que participa da maioria das faixas), seja a já famosa – e deliciosa – sanfonazinha de Marcelo Jeneci. Os melhores exemplos de como essa mistura instrumental funcionou? As faixas “Tudo que Você Quiser” (a mais bela do disco) e “Vermelho” (muito boa também).

Por outro lado, as letras permanecem sinceras – escancaradamente sentimentais – mas estão menos rebuscadas (é deliciosa esta frase de “Acostumar”: “parece brincadeira, mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que é bom demais”); continuam intrinsecamente líricas, mas estão mais alegres – e completamente apaixonadas.

Não que seja surpresa que Camelo é, acima de tudo, um poeta; um romântico irremediável – em “Vermelho”, diz: “trago nestes pés o vento pra te carregar daqui, mas você sorri desse jeito, e eu que já perdi a hora e o lugar… aceito”.

É de se notar também que as faixas são bem distintas entre si: há algo quase baiano – à la Caymmi – em “Pra te Acalmar”; para não falar que nada evoca Los Hermanos, “Pretinha” e “Ôô” (“tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela, vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval”) são mais pop; “Três dias” (única cuja autoria não é de Camelo) é quase uma canção de ninar cult e por aí vai.

Todas essas cores, contudo, não conferem ao disco o tom de colcha de retalhos, mas o contrário: ele é um todo coeso. O motivo? Ele é a cara de Marcelo Camelo; ou melhor, é todas as suas facetas.

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Uma ode à fofurice

Dois comentários semelhantes sobre o álbum de Marcelo Jeneci, feito pra acabar, me deixaram um tanto intrigada: em resumo, disseram-me que o som era “fofo demais” e “de menininha”.

A princípio, não teria qualquer problema com tais opiniões, afinal, ainda bem que as pessoas gostam de coisas distintas – imagine que chatice seria todo mundo concordando com tudo? – mas o que me deixou encafifada foi o raciocínio lógico por trás dos comentários: “Jeneci é fofo demais/de menininha, LOGO não é bom”.

De novo, acho perfeitamente normal que pessoas não gostem do álbum, mas fiquei pensando por que algumas pessoas julgam que “fofurice” é necessariamente algo ruim.

A primeira coisa que me veio à mente foi justamente o fato de associarem tal característica a infantilidade, a falta de “adultice”. Pode até ser. Mas, assim como acredito piamente que um pouco de cafonice é fundamental, creio também que o fofo, o lúdico e o alegre – que seja até manifestamente infantil – podem ser geniais.

Ao invés de entrar em questionamentos muito (mais) filosóficos, prefiro compartilhar um exemplo – que me veio à cabeça instantaneamente – de uma artista cujo trabalho admiro tremendamente e que também é assim, fofo e de menininha: Nina Pandolfo.

Nina é uma das grafiteiras brasileiras mais renomadas, cujo trabalho, garotinhas à la Hello Kitty, com olhos enormes e boquinhas mínimas, não é nem pretende ser profundo, muito menos sisudo, mas é simplesmente uma lembrança de que brincadeira e criancice podem ser lindamente sofisticados – e fazem bem a qualquer idade.

Bom fim de semana a todos!

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Coincidências e confidências

Este feriado me proporcionou estranhas, mas deliciosas, coincidências.

Primeiro, ainda entorpecida pelo baque de alegria que o álbum de Marcelo Jeneci me causou, acordei, domingo, com a deliciosa surpresa de receber um comentário dele próprio, Jeneci, ao meu post.

A felicidade de saber que minhas palavras chegaram ao autor das palavras que me fizeram escrever o post foi imensa; suficiente para me trazer certo sossego naquele dia.

No dia seguinte, porém, acordei com saracutico, querendo desesperadamente encontrar um livro bom, mas “ensolarado”, para me fazer companhia na praia. Não encontrava de jeito nenhum.

Foi então que, mais uma vez, a tecnologia veio ao encontro dos meus pensamentos e o Santo Kindle me sugeriu um livro que havia ficado na minha lista de “para ler” há tempos: Juliet, Naked, de Nick Hornby.

Confesso que li a resenha na diagonal, mas quando vi as palavras “roqueiro fracassado”, já me dei por satisfeita e pensei cá com meus botões: “adoro Nick Hornby; seus livros (como Fever Pitch, High Fidelity, etc.) são inteligentes, engraçados e compatíveis com o verão…”. Pronto, baixei.

Qual não foi minha surpresa quando me dei conta que a história do livro era a de uma mulher que, ao ouvir um novo CD de um antigo rock star, resolve escrever um post em um blog (do seu então namorado) e, tcharã-rã-rã!, o músico lê o post e escreve de volta para ela!

Tudo bem que a história vai um pouco além disso: Annie, insatisfeita com seu relacionamento com Duncan – um fã incondicional e estudioso do ex-rock star Tucker Crowe – resolve escrever um post para contrariar a veemente opinião daquele de que o recém “vazado” demo de Tucker Crowe, Juliet, Naked, era melhor do que o anterior, Juliet (“clothed”).

Ocorre que, não apenas Duncan se sente pessoalmente atingido pela opinião contrária à dele, como o próprio Tucker lê e concorda com Annie. Sem saber bem por que, manda um email a ela comentando isso.

Esta, em um primeiro momento, desacredita e apenas responde: “é você mesmo?” (também me fiz a mesma pergunta…) mas, superada a desconfiança inicial, envereda em uma divertida troca de mensagens com aquela que era a última pessoa com quem imaginaria conversar, mas que, descobre, é a única que a entende.

 

Adianto que não estou trocando confidências com Jeneci, mas confesso que a perspectiva trazida pela coincidência não me desagradou…

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Apaixonada

Quando o poético se casa com o lúdico, e trivialidades cotidianas são cantadas de um jeito que nos faz sorrir, não é exagero dizer que o que se ouve é algo especial. É isso que faz Marcelo Jeneci – já falamos dele aqui – em seu álbum feito pra acabar (que de tão singelo e delicado se escreve assim, em minúsculo).

Confesso que, desde o momento em que pus as mãos no CD, fiquei encantada. Isso porque, para mim, em se tratando de CDs/vinis, um bom encarte vale tanto quanto uma boa música. E qual não foi minha surpresa quando, ao abrir a capinha, o que me esperava era um bloquinho com 14 quadrados de papel, cada qual correspondente a uma faixa, com uma linda foto capturando o clima da música e, no verso, a letra da canção. Antes mesmo de escutar o álbum todo, ele já havia me ganhado.

E o deleite só fez aumentar conforme as músicas tocavam.

Admito que soo (Sr. Acordo Ortográfico, é assim mesmo?!) como uma garotinha deslumbrada, mas foi este meu estado após escutar frases incrivelmente simples e bem sacadas, como “vou convidar você para tomar café com leite de rosas”, “quando um não quer, os dois não fazem tempestade em copo d’água”; ou somente lindas: “vou acender estrelas só pra te receber e anéis de saturno pra fazer bambolê”.

O arrebatamento final foi quando, após ouvir e “reouvir” minha música favorita até então, “Pra Sonhar” – com sua sanfonazinha deliciosa e o convite para largar tudo e casar no domingo com aquela que faz o pobre moço “tremer até o chão, como um terremoto no Japão, uma batedeira sem botão” –  parei para escutar cada verso de “Dar-Te-Ei”:

“…Não te darei bichinhos não te darei,pois eles querem, eles comem
Não te darei papeis não te darei, esses rasgam, esses borram
Não te darei discos não,eles repetem,eles arranham…Dar-te-ei a mim mesmo agora”

Apaixonei de vez.

Bem que, logo na primeira música, “Felicidade”, Jeneci e Laura Lavieri me avisaram : “você vai rir sem perceber, felicidade é só questão de ser”…pois é. Simples assim.

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Alpargatas rosa

Sempre acreditei que um pouco de cafonice não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário, seja em qual for a área da vida, doses de breguice genuína podem ser geniais.

É difícil definir o brega e o cafona…mas pode-se começar por dizer que algo é cafona quando tudo é demais; colorido demais, emotivo demais, alegre demais… Mas, se isso é brega, se brega é o que é vivo; se é cor, amor, alegria; se é a anti-sisudez, os cleans que me desculpem, mas breguice é então fundamental.

São Alpargatas cor-de-rosa – como o par que ganhei hoje – almofadas de chita jogadas sobre o sofá, rosas vermelhas, declarações de amor escancaradas, chamar alguém de “baby”, sanfona, tango, samba…

Novamente, o brega tem flertado com o cult, seja na moda, com Karl Lagerfeld revivendo os duvidosos tamancos; seja na música, com influências mais fortes da tropicália, da jovem guarda, do iê-iê-iê e das vibrações místico-psicodelicas de Raul Seixas – vide os últimos trabalhos de nomes como Arnaldo Antunes, Garotas Suecas, e Marcelo Jeneci.

Este ultimo é a voz de um som excelente…lançará em dezembro aquele que certamente será um dos melhores álbuns brasileiros de 2010, Feito para acabar (o vídeo acima, de “Pra sonhar”, abre as portas para o mundo de Jeneci).

Jeneci é um alegre romântico, daqueles que sabe como poucos fazer uso das raízes nordestinas e das amizades musicais – como o pessoal do Los Hermanos, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata, etc. (em relação à última, vale dizer que ele foi um dos responsáveis pelo dulcíssimo hit “Amado”). É também deliciosamente brega e, assim como meu par de Alpargatas cor-de-rosa, é capaz de alegrar até mesmo os dias mais cinzas.

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