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Fez a festa

Venho aqui fazer um atrasado relato de uma festa de aniversário cheia de soul. No dia 02 de fevereiro Mayer Hawthorne subiu ao palco no Cine Joia completando 33 anos e mostrando como se faz uma festa.

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1° – Escolha um lugar que tem sua cara

Da arquitetura à decoração, o Cine Joia é o endereço ideal para os herdeiros da Motown (a turma do “neo soul” como gostam de dizer os críticos, sob protestos dos artistas). Na atmosfera  art-deco do antigo cinema tem o tempero moderno da projeção mapeada, que especificamente antes desse show transformou as paredes em timelines do twitter na qual apareciam posts com #MayerHawthorne e @cine_joia. O resultado é o fino do hipster de charme e beleza pra receber o nerdinho de óculos de aro grosso, terno branco e calças curtas. O único porém da casa continua sendo a reverberação.  Se no show do Kings of Convenience faltou volume, no Mayer sobrou e o resultado dessa equação foi microfonia. A voa também esteve meio baixa principalmente na primeira metade do show, enconberta pela caixa da bateria, altíssima.

2° Acerte na lista de convidados

Ouvi dizer que os ingressos estavam esgotados, apesar de ter visto que no dia do show ainda era possível comprá-los. Certamente a casa estava cheia de “gente bonita e descolada” que estava lá pra se divertir. Respondendo ao carisma do americano, a plateia se jogou nas coreografias ditadas pelo aniversariante e cantou junto do começo ao fim. Em Strange Arrengement  rolou até um justificável “shhhh” (que me lembrou, imediatamente, o show do KoC), pois a reverberação também se aplicava aos ruídos da plateia e do bar … prejudicando espacialmente a introdução a capella, e tirando o brilho dessa que é uma das músicas preferidas do próprio Hawthorne, segundo ele. (E eu concordo. Ô baladinha deliciosa e bem vinda em tempo de amores líquidos).

3° Acerte na playlist

Esse foi, certamente, o item MAIS fácil. Em 1h40 não ficou quase nada de fora do repertório dos dois CDs: A Strange Arregement (2009) e How Do You Do (2011), divulgado na turnê atual. Mesmo as músicas do álbum mais recentes já estavam na ponta da língua e não teve ponto baixo: das baladinhas românticas até as faixas mais funkeadas que fizeram todo mundo pular, como “The Walk” e o cover de Hall and Oates, “Private Eyes” (com direito a palminhas).

4° Esteja bem acompanhado

A banda The County podia até fazer o show sozinha, de tão boa. Quincy McCrary (teclados), Joe Abrams (baixo), Quentin Joseph (bateria) e Christian Wunderlich (guitarra) mandaram ver, com destaque para McCrary, com solos incríveis e Abrams, segurando o soul nas linhas de baixo e com um estilo que vale nota: Black Power invejável e correia e toalha combinando, “todo trabalhado na estampa de zebra”.

5° DIVIRTA-SE

Ou pelo menos passe essa real impressão. Hawthorne interagiu do começo a fim e foi simpático até para “dar bronca”: para lidar com o mal do século XXI dos shows (câmeras e celulares apontados para o palco o tempo todo), o “soul man” criou um PICTURE TIME, com trilha sonora a cargo da banda e muitas poses em todos os pontos do palco. Depois disso, o cantor sugeriu “Agora vamos tentar uma coisa muito louca que é guardar as câmeras e os celulares e fingir que estamos 100% aqui, curtindo o show”. Deu quase certo. Já para o final do show, rolou um “lançamento” de LP para a plateia (e não era qualquer LP,mas essa GRACINHA EM FORMATO DE CORAÇÃO que é o How Do You Do), e embebedamento de fãs com whisky ao som de “Henry & Gingerale”. Brindes, apertos de mão e gritinhos o público deixou o Joia satisfeito, com vontade de levar o nerdinho pra casa (ou pelo menos a simpática miniatura cabeçuda que decorava uma pequena mesa ao seu lado no show).

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Por que valeu a pena

Para quem foi até o Anhembi apenas para assistir a Amy Winehouse, a noite de sábado provavelmente deixou a desejar. Quem, no entanto, fez questão de chegar mais cedo para ver, ao menos, as outras duas atrações internacionais do Summer Soul Festival, teve bons motivos para dormir satisfeito.

Como esperado, e conforme já havíamos adiantado aqui, Janelle Monáe é, em si, um show: talentosa, performática e eclética, Janelle botou seu topete para balançar e carregou o público junto. O ritmo do show não foi frenético, intercalou momentos quase introspectivos – como quando pintava um “quadro” ao som de “Mushrooms and Roses”, ou ainda quando cantou “Smile” (yes, aquela do Charlis Chaplin…) – com suas faixas mais animadas, como as ótimas “Faster”, “Locked Inside” e “Tighrope” (A-M-O!).

Isso sem falar nos oxfords bicolores e suas dancinhas à la moonwalk, os trechos de Fritz Lang no telão e tudo o mais ali presente; tudo projetado para não se ter dúvidas de que Janelle definitivamente não é daquelas que mede esforços para conquistar o público.

Agora, na minha opinião, o melhor show ficou por conta de um adorável nerd, de óculos e gravata borboleta, que pisou no palco na hora do pôr-do-sol: Mayer Hawthorne.

Ao fazer um som retrô, classudo, mas ainda assim muito cool, Hawthorne embalou o público que começava a chegar e, diferente dos comentários maldosos ao longo do show de Amy, o que mais se ouvia desta vez era: “meu, nem sei o nome dele, mas esse cara é muito bom!”.

E, assim, ao misturar a sofisticação do verdadeiro r&b (ainda que cantado por um branquelo) presente em suas músicas – muitas ainda desconhecidas do grande público, como “Maybe So Maybe No” – com um cover de “Beautiful“, do Snoop Dog, e gracinhas ditas em um inglês cristalino, o americano fez um show realmente sexy (não consigo achar termo melhor)…e ganhou corações.

Para terminar, deixo com vocês minha faixa preferida de Hawthorne, o pé na bunda mais fofo do mundo, em “Just ain’t gonna work out“.

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