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Pensando moda

Ontem começou a 15a edição da semana de moda de São Paulo – hoje chamada de São Paulo Fashion Week – e, para além da profusão de desfiles, tecidos e beldades, este que é o evento mais importante do gênero no País, poderia evocar também discussões mais profundas e produtivas sobre a importância da moda em si.

Nesse sentido, para entrar no clima, sugiro aqui a leitura de um livro muito interessante: MODA – Uma Filosofia (Editora Zahar, 2010), do filósofo norueguês Lars Svendsen.

Admito que, ao me deparar com o título, imediatamente torci o nariz; tenho inúmeras ressalvas a qualquer coisa que se proponha como “uma filosofia” (poucas frases me tiram mais do sério do que: “isso é uma filosofia de vida”….), mas garanto que ali é filosofia de verdade. Justamente por isso, não é uma leitura muito fácil, mas é extremamente instigante.

Logo na introdução, Svendsen se propõe a defender a “dignidade acadêmica” da moda como objeto de estudo filosófico, e, para tanto, fazendo referência a inúmeros pensadores (de Roland Barthes e Georg Simmel a Kant, Hegel e Adam Smith) que já ressaltavam, seja de maneira tangencial ou mais aprofundada, a importância da moda como um fenômeno social, busca definir o conceito de moda a ser empregado na obra.

Nesse sentido, o termo “moda” tem um referencial mais estreito que o termo “roupas”, já que há também uma série de fenômenos não relacionados a estas, mas que podem ser descritos como “moda” (nos mais variados campos, como artes, decoração, política, ciência, etc.).

Mais especificamente, o conceito de moda seria sustentado por dois pilares básicos: mudanças sucessivas (a substituição de uma norma estética duradoura por outra) e a individualidade humana (há um vínculo entre moda e identidade; todos nós temos de expressar de alguma maneira quem somos através de nossa aparência visual).

Mais ainda, a moda passa a “indicar a direção” da própria Modernidade, na medida em que há na primeira um traço fundamental da última, qual seja, a “abolição de tradições”, a emancipação pelas mudanças sucessivas – “ser moderno” torna-se sinônimo de “ser novo”; e é “a novidade que torna a moda sedutora”.

Como se vê, eu poderia passar horas – ou melhor, páginas – comentando e compartilhando os insights do livro; pensando moda junto com Svendsen, mas, quero parar por aqui, deixando duas sugestões: 1) leiam o livro. 2) não subestimem o valor, tampouco a profundidade da moda.

 

(Lars Svendsen , MODA – Uma Filosofia, Editora Zahar, 2010)

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Alpargatas rosa

Sempre acreditei que um pouco de cafonice não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário, seja em qual for a área da vida, doses de breguice genuína podem ser geniais.

É difícil definir o brega e o cafona…mas pode-se começar por dizer que algo é cafona quando tudo é demais; colorido demais, emotivo demais, alegre demais… Mas, se isso é brega, se brega é o que é vivo; se é cor, amor, alegria; se é a anti-sisudez, os cleans que me desculpem, mas breguice é então fundamental.

São Alpargatas cor-de-rosa – como o par que ganhei hoje – almofadas de chita jogadas sobre o sofá, rosas vermelhas, declarações de amor escancaradas, chamar alguém de “baby”, sanfona, tango, samba…

Novamente, o brega tem flertado com o cult, seja na moda, com Karl Lagerfeld revivendo os duvidosos tamancos; seja na música, com influências mais fortes da tropicália, da jovem guarda, do iê-iê-iê e das vibrações místico-psicodelicas de Raul Seixas – vide os últimos trabalhos de nomes como Arnaldo Antunes, Garotas Suecas, e Marcelo Jeneci.

Este ultimo é a voz de um som excelente…lançará em dezembro aquele que certamente será um dos melhores álbuns brasileiros de 2010, Feito para acabar (o vídeo acima, de “Pra sonhar”, abre as portas para o mundo de Jeneci).

Jeneci é um alegre romântico, daqueles que sabe como poucos fazer uso das raízes nordestinas e das amizades musicais – como o pessoal do Los Hermanos, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata, etc. (em relação à última, vale dizer que ele foi um dos responsáveis pelo dulcíssimo hit “Amado”). É também deliciosamente brega e, assim como meu par de Alpargatas cor-de-rosa, é capaz de alegrar até mesmo os dias mais cinzas.

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Musas

“O que é bonito é pra se mostrar”. Quem nunca ouviu essa frase? Já me foi dita por pessoas as mais diversas; da minha avó – que me achava recatada demais – aos pedreiros da obra na rua de baixo da minha casa…seja qual fosse a intenção àquelas ocasiões, para fins deste post o objetivo é um só: compartilhar minhas duas musas inspiradoras: Daria Werbowy e Freja Beha.

Comum a ambas: beleza angelical, sem o menor pingo de fragilidade; ar desencanado, mas sofisticado; tatuagens e rock’n’roll.

Daria Werbowy: descolada e divina; figura impecavelmente em campanhas de beleza das clássicas maisons e, ao mesmo tempo, jamais perde a atitude que melhor interpretou o estilo marrento e hardcore da febre Balmain dos últimos anos.

Freja Beha: Karl Lagerfeld e o mundo se apaixonaram por essa mistura andrógena, sexy e perigosa – o revólver tatuado no braço e os dizeres “the world tonight is mine” e “this too shall pass” (são 16 tatuagens, por ora) só aumentam o mistério e despertam ainda mais o fascínio por ela.

 

sexo, moda e rock’n’roll

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Carro-chefe

Originalmente, o termo “flagship” surgiu para indicar, em uma capitania, o navio líder, o mais importante da frota. Ao longo do tempo, o termo deixou de ser empregado necessariamente no contexto marítimo e passou também a evocar os principais produtos, lojas, construções, etc. de determinada marca, ou empresa. Se em inglês era a “nau líder”, em bom português, é o “carro-chefe”.

Assim, quando se fala em “flagship store”, faz-se referência a grandes lojas – que normalmente se localizam em pólos comerciais fortes, voltados a consumidores de renda alta – cuja função é, essencialmente, servir de vitrine e chamariz de determinada marca. Dessa forma, além de oferecerem ambientes bacanérrimos e produtos exclusivos, carregam conceitos e propostas inovadoras que as diferenciam das demais lojas do segmento e contribuem para a identidade da marca em questão – seja reforçando determinada identidade (ou imagem), ou sendo o primeiro passo de uma mudança de rota.

Um bom exemplo brasileiro de como utilizar as flagships para consolidar determinada identidade é a Farm. A fim de reforçar a imagem de “marca da menina carioca”, a Farm abriu, em 2007, sua primeira flagship, em Ipanema e, em 2009, na Vila Madalena, em São Paulo. Comum a ambas foi a preocupação de imprimir nas lojas determinados “valores” como a exaltação do way of life carioca – aos finais de semana há rodas de samba, biscoito Globo e cerveja Devassa… – e conceitos como a sustentabilidade – a loja paulista, projetada pelo premiado escritório Tryptique, foi construída conforme uma “arquitetura verde”, a qual, dentre outros aspectos, conta com sistema próprio de tratamento e reutilização da água e paredes recobertas por camadas vegetais.

Por outro lado, um exemplo recente de tentativa de se transformar a identidade de determinada marca por meio de flagships é o da C&A.. A marca inaugurou hoje, no Shopping Iguatemi, espaço que ocupa há 12 anos, sua primeira flagship. O re.verb, claro, esteve lá.

Para a inauguração (com direito a desfiles, espumante e modelos circulando pelo espaço), a C&A contou com parcerias como Maria Bonita Extra, Valisére e Renato Kherlakian (ex-Zoomp) – que criou uma nova marca, Soul, exclusivamente de jeans  – além de microespaços dedicados a cosméticos, bijouterias e marcas itinerantes. Ainda, já estão programadas coleções exclusivas assinadas por Isabela Capeto, Glória Coelho e Espaço Fashion.

Diante de tamanho investimento, a questão que ficou foi: até que ponto uma loja, por mais moderna e bem projetada que seja, é capaz de recriar uma imagem e determinar novos rumos? Se por um lado, como no caso da Farm, constatou-se ser possível uma flagship reforçar determinados aspectos subjacentes à marca (como a “carioquice” e o “amor pela natureza”); por outro lado é sabido que a C&A, a despeito de grandes esforços em marketing para se aproximar do estilo fast fashion (à la Topshop e Zara), é uma marca tradicionalmente voltada às classes B e C. Como conseguir transformar sua identidade por meio de uma loja (em um dos redutos mais elitizados de São Paulo)? Pode um carro-chefe andar na contra-mão? Fica a pergunta.

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