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Pôr-do-sol praiano

Pôr-do-sol, na praia, no verão, é quase um clichê. Remete àquela molezinha típica do final de um dia ensolarado, à contemplação da natureza bucólica, ao barulho das ondas…

Pôr-do-sol, na praia, no inverno, não é tão simples assim. É menos óbvio, é quase um cult.

Isso porque, mesmo em dias claros, o colorido já não é tão vivo, as roupas de banho estão cobertas por agasalhos e, não raro, a euforia é substituída por uma certa tristeza (lembro-me de Maria Bethânia, que disse uma vez que não gosta do crepúsculo, que o anoitecer é uma hora “perigosa”; é a hora de a natureza “trocar de guarda”).

Tudo isso para dizer que dias de praia não necessariamente são permeados de uma espécie incondicional de alegria, mas, ainda assim, evocam elementos tipicamente praianos.

Confundiu? Acho que com este exemplo vai ficar mais claro: The English Riviera, o novo álbum da banda inglesa Metronomy.

Ali, o clima britânico – nublado e sombrio – é aliado à leveza e ao colorido da praia, em um eletropop – ora mais eletro, ora mais pop – bem gostoso.

O som é minimalista: os instrumentos foram quase sempre gravados em canais separados, conferindo às faixas uma sonoridade limpa, mas variada – em “The Look”, uma das melhores, há teclado, violão e até reco-reco. Mas tudo (letras e som) é muito contido; e no lugar.

Aquela música, em particular, fala de indivíduos que se sentem estranhos em sua cidade: “‘Cause you’re going round in circles and everyone knows you’re trouble/‘Cause you read it in a big book and now you’re giving me the look, look”. É talvez o tema mais pesado do álbum, mas mesmo uma aflição tamanha é dita em poucas palavras.

Em “She Wants”, outra boa faixa, o som permanece minimalista, mas adquire um quê de sombrio – com a ajuda do teclado que ecoa como um órgão. A sonoridade reproduz o clima da música: aquele que, deitado ao lado de sua bela adormecida, vê o tempo passar e não consegue dormir. “Trouble”, a próxima faixa, é uma balada que parece falar do dia seguinte desse mesmo casal, o qual, como se antecipava, não está tão entrosado assim… (É, basicamente, uma “faixa- DR”.)

Bem mais alegrinha é “Everything goes my way”: “When I took you back, I thought you’d only up and run/But you are still here, I know (…) And now everything goes my way, it feels so good to have you back my love, I’m in love again…”. Mas, ainda assim, não se trata daquela alegria escancarada; é como um dia de sol no inverno: claro, bonito, mas que não esquenta.

As coisas já não dão tão certo no popzinho “Corinne” (“Oh Corinne, I’ve got a pain in my heart, I think it’s because of you/‘Cause they kicked me out of the forces when I laid a hand on you”) e também em outras faixas, como “Love Underlined”, que falam essencialmente da famosa “Quadrilha” de Drummond: João, que amava Teresa, que amava Raimundo…

Voltando à praia, em uma das mais conhecidas, “The Bay”, o casal tenta escolher para onde ir e, sem saber que parodia Caymmi e sua saudade da Bahia, só quer de volta “the bay”. Aliás, falando um brasilidade, “Some Written” é praticamente uma bossa nova indie, que canta o desencontro daqueles que querem falar com alguém, mas não sabem muito bem como: esqueceram o número de telefone, não sabem para onde escrever…

Deu para visualizar agora o que quis dizer sobre os sentimentos surgidos após um pôr-do-sol invernal? Não, né… mas tudo bem, esqueça tudo que falei e escute o disco – é bem bacana.

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Que não acabe

No dia do casamento Real, Marcelo Jeneci dedicou uma de suas músicas mais doces, “Pra Sonhar” aos noivos: “Muita gente tem me dito que tem tocado esta música em seus casamentos, então esta aqui vai para o príncipe e a princesa – vocês sabiam que eles casaram, né?”.

Falar de Jeneci aqui no blog não é novidade (nos encantamos com o álbum de estréia, “Feito Pra Acabar” e, de quebra até o próprio artista deu uma palhinha nos comentários, lembra?), assim, não é de se espantar que o time re.verb estivesse quase completo (e logo nas duas primeiras fileiras) no Auditório do Ibirapuera, na última sexta-feira dia 29, para assistir ao show desse excelente compositor e multi-instrumentista paulistano, certamente um dos mais diferenciados de sua geração.

Pontualmente às 21h, as luzes do Auditório se apagaram e a banda entrou. Vale dizer que, mais sensivelmente do que no álbum, a formação da banda – clássica: um baixo, duas guitarras e uma bateria – e sua qualidade sustentam o show, na medida em que fornecem uma base sonora sólida – por vezes até descaradamente roqueiras, como nos bons solos de guitarra de João Erbetta – que se contrapõe na medida certa a toda a leveza e lirismo da sanfona de Jeneci e ao langor da bela voz de Laura Lavieri.

A apresentação, iniciada com a seqüência de “Copo d’água”, “Café com Leite de Rosas” e “Felicidade”, começou um tanto tímida; intimista demais e quase desempolgada. Nada que comprometesse a qualidade do som – muito menos das músicas – mas faltava algo.

Esse algo começou a surgir justamente em “Pra Sonhar”, música que, por si, já desperta qualquer ânimo e, tocada da forma como foi – com um excelente solo de sanfona de Jeneci ao final – deu gosto. Os príncipes – duques? – devem ter ficado ainda mais apaixonados.

Qualquer resquício de desânimo, contudo, desapareceu por completo quando a faixa que dá nome ao álbum e ao show foi tocada: a bela letra, cantada a plenos pulmões por Jeneci; a bateria e o piano, intensos; a iluminação quase estroboscópica lançada sobre os integrantes no refrão… e, em meio a tudo isso, as cortinas ao fundo do palco sendo levantadas e o Parque do Ibirapuera entrando no Auditório. Um daqueles momentos memoráveis, arrepiantes, que, não à toa, rendeu quase três minutos de aplausos em pé da platéia.

No setlist, todas as faixas do disco lançado em 2010, além de algumas surpresas, como um novo refrão, criado pelo músico há pouco, e compartilhado em voz e piano com o público – que aprendeu logo e cantou junto – “A chuva é a vontade do céu de tocar o mar, e a gente chove assim também quando perde alguém/ Mas quando começa a chorar, começa a desentristecer, assim se purifica o ar depois de chover” ; e a participação da amiga e mentora Vanessa da Mata – que, dentre outras, cantou seu hit “Amado”, música composta por Jeneci.

Vanessa, em palavras carinhosas ditas ao amigo, foi muito feliz em ressaltar um dos grandes diferenciais deste: a habilidade de transformar a sanfona em instrumento para elaboração de harmonias, o qual, fora do contexto habitual do forró, integra perfeitamente o conjunto de guitarras e bateria.

E a música de Marcelo Jeneci é justamente assim: uma bela mistura de gêneros, ritmos e referências – sempre permeada pela poética de suas letras – e que, finalmente, vem sendo descortinada ao grande público, e por este reconhecida. Nada mais justo: trata-se de música de qualidade, muitíssimo acima da média; é música “feita pra continuar”, por muito tempo.

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O que você esperava?

Fazer aniversário causa diferentes reações nas pessoas: algumas se deprimem, outras caem de cabeça nas comemorações e só percebem que tem x+1 anos quando a ressaca passa, mas, seja como for, em momentos como estes, é difícil não se pegar pensando – ao menos por alguns instantes – na passagem do tempo.

Não, não tenho a menor pretensão de falar sobre Proust e sua busca do tempo perdido, mas uma música em especial, chamada “Wetsuit”, que faz parte de um álbum bacanérrimo lançado mês passado, ficou martelando na minha cabeça nos últimos dias. Ela começa assim:

If at somepoint we all succumb, for goodness sake let us be young,

Because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done

With a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories

We all got old at breakneck speed

Slow it down, go easy on me…

A banda em questão é uma das mais hypadas do indie rock atual, considerada o “novo Strokes” por alguns e nome confirmado para o Planeta Terra deste ano: The Vaccines.

Esses quatro londrinos que compõem a formação atual da banda surgiram ainda no ano passado e, como uma avalanche, rapidamente arrastaram multidões e arrebataram fãs e críticos com seu bom e velho rock (há vocais, guitarra, baixo e bateria; nada de barulhinhos esquisitos ou pirotecnias eletrônicas), letras pouco elaboradas, mas tremendamente verdadeiras e, principalmente, uma urgência para se fazer ouvido pelo mundo como há pouco se via – de fato, nesse ponto lembram o Strokes (principalmente na sonoridade – da bateria especialmente – de faixas como “If you Wanna” e “Wolf Pack”).

É como se, com toda sua pulsão juvenil, a única forma de extravasar angústias e mandar um recado ao mundo fosse com o auxílio de amplificadores. Não que os recados carreguem qualquer mensagem revolucionária, mas a forma como são bradados transmitem uma sinceridade difícil de se questionar. The Vaccines pode ser taxado de muitas coisas (pouco inovador, meio tosco, juvenil, quase pop…) mas, definitivamente, não soa fake.

Tamanha a comoção causada pela banda, seu álbum de estréia, lançado quase concomitantemente com Angles, do Strokes, traz já no título uma piadinha interna, uma provocaçãozinha que, de tão petulante fica engraçada: “What Did You Expect from The Vaccines?” – o subtítulo poderia perfeitamente ser: “e aí, vai encarar?”

Pois bem, o que esperava desses caras e o que o disco trouxe? Se alguém (?) esperava algo épico, a decepção deve ter sido grande… porém, se as expectativas eram no sentido de encontrar a mais nova “melhor banda de todos os tempos da última semana”, aí sim; porque “What Did You Expect…” é legal pra caramba.

Por exemplo: uma das faixas mais conhecidas – talvez por ser a mais atrevidinha – se chama “Post Break-up Sex” e fala justamente disso: os conflitos “existenciais” de quem quer esquecer o ex e, para tanto, se ajuda de outra pessoa (“Post break-up sex that helps you forget your ex/ What did you expect from post break up sex?”). Honesto, simples e sem qualquer presunção de profundidade – ainda bem…

E, claro, como não poderia faltar em uma banda surgida atualmente, olha lá o surf rock dos anos sessenta pintando de novo: em “Norgaard”, a faixa de menos de dois minutos que fala sobre a menina que tem apenas 17 anos – e que, provavelmente, ainda não está pronta – tem uma batida nitidamente influenciada por essa onda.

A mesma influência, ainda que presente essencialmente no título, está também na música de que falei acima, “Wetsuit” (a melhor do disco), e também na ótima “Family Friend” (“You wanna get young but you’re just getting older and you had a fun summer but it’s suddenly colder/ If you want a bit of love put your head on my shoulder, It’s cool”), que são desabafos a um só tempo raivosos e melancólicos – daqueles escritos em uma tacada só – que se prestam como uma tentativa de exorcizar aquela sensação perturbadora de que o tempo está passando rápido demais…

The Vaccines é, enfim, uma banda que emana juventude. Nada melhor para acalmar a aquele incômodo que perturba os aniversariantes – só eles?

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O toque de Camelo

É o fim dos Los Hermanos e o início da carreira solo de Marcelo Camelo.

Ok, isso é notícia velha, mas, com o lançamento de “Toque Dela”, segundo disco do artista, volta a ser mais atual do que nunca.

Primeiro, porque, se o disco da estréia solo do cantor, “Sou” (ou “Nós”, dependendo do ponto de vista…), era um grito de afirmação, uma carta de alforria do Los Hermanos – com uma certa vontade exagerada de se mostrar complexo e experimental – o novo é mais fluido e simples; soa mais verdadeiro. Justamente por isso, consolida uma sonoridade própria de Camelo, que é a continuidade de “Sou”, mas soa mais natural.

Alguns temas – e palavras – são recorrentes desde os primórdios de sua carreira musical: a “morena”, a “clareira”, a “solidão”, mas agora, ao se levar menos a sério, Camelo encontra um caminho ainda mais interessante.

Os instrumentos que compõem as belas melodias estão mais definidos, menos embaralhados (desta vez, foram gravados em canais separados – e não ao vivo como no disco anterior), e, tamanha sua riqueza, são o grande trunfo do álbum; sejam os instrumentos de sopro e toda a fauna sonora do Hurtmold (que participa da maioria das faixas), seja a já famosa – e deliciosa – sanfonazinha de Marcelo Jeneci. Os melhores exemplos de como essa mistura instrumental funcionou? As faixas “Tudo que Você Quiser” (a mais bela do disco) e “Vermelho” (muito boa também).

Por outro lado, as letras permanecem sinceras – escancaradamente sentimentais – mas estão menos rebuscadas (é deliciosa esta frase de “Acostumar”: “parece brincadeira, mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que é bom demais”); continuam intrinsecamente líricas, mas estão mais alegres – e completamente apaixonadas.

Não que seja surpresa que Camelo é, acima de tudo, um poeta; um romântico irremediável – em “Vermelho”, diz: “trago nestes pés o vento pra te carregar daqui, mas você sorri desse jeito, e eu que já perdi a hora e o lugar… aceito”.

É de se notar também que as faixas são bem distintas entre si: há algo quase baiano – à la Caymmi – em “Pra te Acalmar”; para não falar que nada evoca Los Hermanos, “Pretinha” e “Ôô” (“tudo que eu fizer vai ser pra ver aos olhos dela, vai sobrar carinho se faltar estrada ou carnaval”) são mais pop; “Três dias” (única cuja autoria não é de Camelo) é quase uma canção de ninar cult e por aí vai.

Todas essas cores, contudo, não conferem ao disco o tom de colcha de retalhos, mas o contrário: ele é um todo coeso. O motivo? Ele é a cara de Marcelo Camelo; ou melhor, é todas as suas facetas.

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The Show

Sabe quando o céu está bem nublado, mas, por alguns instantes, raios de sol escapam das nuvens mais nítidos do que nunca, como feixes de luz de holofotes? Sempre achei isso uma coisa meio divina.

E foram luzes como estas que, em meio à escuridão, iluminaram Matt Berninger na primeira música do show de ontem, “Runaway“. Um bom presságio? Talvez.

Falar que o show do The National foi um dos melhores shows a que já fui na vida diz pouco a quem não estava lá. Porém, tenho certeza, aos que estiveram, diz tudo.

Certa vez, ouvi que um crítico descobriu o sentido da palavra “sofisticado” ao ver a apresentação de certo jazzista. Pois bem, ele não viu The National.

Matt Berninger, tímido de tudo, é capaz de cativar a platéia sem fazer nenhuma gracinha; sem gestos mirabolantes, ou atitude rock’n’roll. Ele, impecavelmente bem vestido, inteiro de alfaiataria preta, simplesmente empunha o microfone e canta maravilhosamente bem letras maravilhosamente bem escritas – que beiram a poesia. E isso é o bastante.

É incrível, aliás, como a banda consegue transformar uma apresentação de rock em algo tão intimista. Mal se ouviam conversas na platéia. É como se cada um ali sentisse que Matt, os guitarristas e irmãos Aaron e Bryce Dessner, e o resto da entrosadíssima banda estivessem na sala de sua própria casa, cantando só para ele.

No repertório, faixas dos três últimos álbuns, com destaque para mais recente – e excelente – High Violet (2010). Teve também sucessos dos discos anteriores, como “Mistaken for Strangers“, “Apartment Story” e “Fake Empire“, do também ótimo Boxer (de 2007); “Secret Meeting” e “Abel”, de Alligator (de 2005)

Quando, após quase duas horas, o show parecia ter terminado e todos já se davam por satisfeitos, veio o bis de um jeito que ninguém esperava.

Primeiro, Matt resolveu se soltar. Fez piadinhas (“vocês são muito mais barulhentos que os americanos. Estamos nos sentindo o Kings of Leon”), desceu junto à galera, foi carinhosamente abraçado – sem parar de cantar nenhum verso de “Mr. November”, diga-se de passagem – voltou ao palco, cantou baladas e porradas e, depois de uma versão apoteótica de “Terrible Love“, seguida de “About Today”, deu sua cartada final: pediu, por favor, silêncio da platéia. Se encaminhou, junto à sua excelente banda, à beira do palco. Deixou o microfone de lado, enquanto os outros músicos desplugavam seus instrumentos. De repente, acompanhado pela banda a seco, com tudo desligado, começou a cantar à capela “Vanderlyle Crybaby Geeks“. Na platéia, duvido que tenha sobrado um só fio de cabelo sem se arrepiar.

Se o início do show já anunciava um quê de magia, o final foi o milagre.

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The National

O prazer, nesta terça-feira, vem em dobro. Primeiro, porque a melhor banda de rock alternativo contemporânea (sim, a melhor) se apresentará em São Paulo. Segundo, porque, para falar sobre ela, temos a honra de publicar um belo post de um querido e talentoso convidado, Gabriel Garcia (do ótimo Piper Cub Club), feito especialmente para o re.verb.

Muitíssimo obrigada, Garcia… mesmo. E volte sempre!

“Você chegou numa hora da vida que não dá mais pra fugir de certas coisas. Existem pessoas que dependem de você. Erros foram cometidos, os arrependimentos se acumulam como a pilha dos pratos pra lavar na cozinha. Não há mais como voltar atrás. Mas você tem que seguir em frente. Porque, no fim das contas, as coisas sempre voltam ao seu lugar.

Matt Berninger poderia ser eu, você ou seu vizinho. Aliás, qualquer integrante da banda dele, o The National, poderia ganhar uma eleição do “sujeito mais comum do mundo”. Nenhum deles é famoso, se envolveu com drogas, namora a Kate Moss ou xingou o ultimo disco do Radiohead.

A banda tem uma história muito comum também. Banda batalhadora, de bons discos e turnês com centenas de datas, faz sucesso depois de anos de carreira. O som é o rock alternativo americano básico, cheio de reverência à Bruce Springsteen e ao R.E.M. As letras são sobre pessoas comuns convivendo com problemas comuns, com uma honestidade e (por que não) crueldade difícil de encontrar na sua bandinha preferida. Não é fácil de ouvir.

Por isso mesmo, quem gosta do The National gosta de verdade. Matt Berninger canta, com sua voz de barítono, aquilo que você iria cantar se tivesse uma banda (a não ser que semana passada você tenha tido duas overdoses de cocaína ou esteja cansado da vida de estrela da música). Letras sobre dívidas, filhos, bebida, problemas no relacionamento. É chato, eu sei. Mas é sua vida.

Os discos da banda são aquilo que chamam em inglês de “a grower”. Não consigo imaginar nenhuma expressão em português equivalente, pois é isso que a música do The National faz: eles crescem com o tempo. É impossível gostar deles na primeira ouvida. Não existe nenhum apelo pop, ou alguma música que te ganha logo de cara. Eles te vencem pelos detalhes.

E há cinco discos eles vêm vencendo. Desde “The National”, de 2002, até “High Violet”, de 2010, a qualidade dos discos só melhora. E os shows são ainda melhores. A banda, absolutamente entrosada, é a moldura perfeita para o fantástico vocalista que é Matt Berninger, que entra em estado de graça durante as apresentações, sempre com seu copo de vinho branco como companhia (segundo Berninger, é o único jeito de ele encarar a platéia).

Felizmente, nesta semana o Brasil poderá acompanhar a banda nessa volta olímpica de duzentas datas que vem sendo a turnê de High Violet. Nada mais merecido para uma banda que finalmente venceu depois de anos perdendo.

Em “Runaway“, do último disco da banda, Berninger canta  “We don’t bleed when we don’t fight / Go ahead, go ahead / Throw your arms in the air tonight”. Nessa vida é preciso sangrar muito pra seguir em frente. O importante é você se jogar, ir pra cima. Você pode até cair, mas pelo menos você lutou. Só assim a vida vale a pena.

É isso que o The National vem nos ensinar aqui em São Paulo.”

(por Gabriel Garcia)

Sem mais.

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Os Tambores

The next one is a sad song, but you can still dance to it”. Esta foi a frase com que Jonathan Pierce, vocalista do The Drums, introduziu a faixa “Book of Stories” – aquela que lamenta: “I thought my life would get easier, instead is getting harder…”. É também a que melhor retrata o espírito da banda, e principalmente, de seu show ocorrido na última quinta-feira (dia 31/03), em São Paulo.

Isso porque o que a banda faz de melhor é justamente unir letras deprês (e muito simples) a melodias e ritmos dançantes e alegres.

Esse paradoxo fica ainda mais evidente quando se vê Pierce no palco. Ele, com seu loiríssimo cabelinho de tigela, balançava os braços para lá e para cá como se fossem de borracha; parecia possuído no palco. Foi, sem dúvida nenhuma, quem mais se divertiu naquela noite – ao final de cada uma das músicas dizia: “obrigado”, “you guys are amazing”, “this is so much fun” e por aí vai. É como se ele sequer prestasse atenção no conteúdo melancólico do que estava cantando e só quisesse fazer bagunça junto com o público.

Aliás, ao que tudo indica, é por este caminho que a banda continuará seguindo: uma das faixas inéditas – supostamente tocada pela primeira vez fora de Nova Iorque – também foi feita para se ouvir chacoalhando o corpinho, ao mesmo tempo em que se choraminga repetidamente o refrão: “I want to buy you something, but I don’t have any money, I don’t have any money...”:

A bela voz de Pierce se manteve segura e poderosa até o final, em todos os graves e agudos; por todos os uh-uh-uhs e iôos. Só teve um descanso quando chegou a hora do hit “Let’s Go Surfing” e o Estudio Emme, lotado de todos os tipos de hipster, pulou, bateu palmas e cantou junto tão alto que a voz daquele sumiu. Foi bonito. Arrepiou.

Arrepiou também – no pior dos sentidos – a qualidade do som do local. No início do show, quando duas das melhores faixas eram executadas – “Me and the Moon” e “Best Friend” – os pipocos das caixas de som incomodaram (e assustaram) bastante. Tudo alto demais, estourado demais… ainda bem que as coisas foram se encaixando – aos poucos.

De todo modo, apesar de problemas técnicos, foi um show pop e bacana – como a banda –; mas não foi espetacular, nem revolucionário – como a banda…

 

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Drums, Drums, Drums

Já no final de agosto de 2009, uma das garotas mais descoladas do mundo indie, Rebecca Willa Davis – que, não por acaso, trabalha em uma das revistas mais descoladas do mundo indie, a NYLON – anunciou essa banda como sua “band crush” do momento. No final daquele ano, os leitores de uma das bíblias desse gênero musical, o Pitchfork, elegeram a banda como “Best Hope for 2010”.

Em 2010, o equivalente brasileiro em termos de influência, Lucio Ribeiro, declarou que aquela seria uma das bandas que mais gostaria de ver tocar no País.

Na próxima semana, em 31 de março de 2011, depois de manter vivo o bafafá ao seu redor e tocar nos mais importantes festivais de música do mundo, essa tal banda fará um único show único no Estúdio Emme, em São Paulo.

Quem são eles? Que rufem os tambores (com o perdão do trocadilho infame)…

Ladies and gentleman, please welcome The Drums.

Já falamos por aqui de uma das ondas que vem inundando o cenário musical indie dos últimos tempos – chamei de “fenômeno Endless Summer – na qual se tem feito das pranchas guitarras – ou vice-versa – e a estética obtida é algo que remete a Beach Boys, sem deixar de lado influências claras de outros gêneros, como o punk e o pop (Best Coast foi nosso principal exemplo).

No caso do The Drums, especificamente quanto a seu álbum de estréia (The Drums), a vibe surfística também dá o ar da graça, ainda que bem mais tímida, e, à exceção de uma ou duas músicas, é abafada por elementos do pós-punk, como The Cure e The Smiths. É curioso, no entanto, que uma de suas faixas mais estouradas seja justamente a mais ensolarada, “Let’s Go Surfing” (“oh mamma, I wanna go surfing, oh mamma, I don’t care about nothing…”).

Considerando que os integrantes são do Brooklin, o tom ligeiramente bronzeado de sol talvez decorra menos de suas raízes geográficas do que do encontro que deu origem à banda, quando – reza a lenda – Jonathan Pierce (vocais) e Jacob Graham (guitarra) se conheceram ainda garotos em um summer camp nos EUA.

Tais férias, no entanto, não foram suficientes para contaminar todo o repertório surgido dali adiante e o tom do álbum é de puro revival do pós-punk. Faixas como “Forever and Ever, Amen” e “Me and the Moon” parecem ter saído direto do túnel do tempo; pense naquela batidinha ritmada de sintetizadores que nos faz balançar a cabeça – os pézinhos – bem à la New Order. Pois então. (O mesmo vale para a animadinha “Skippin’ Town”, a qual, com todos seus “uh-uh-uhs” e “iôos” esteja bem mais para The Cure do que Beach Boys…).

Muito também se fala que o som do The Drums remete a The Smiths. É difícil dizer, contudo, até que ponto a última é uma influência, ou se simplesmente os pupilos tentam copiar os mestres. Nesse sentido, as letras deprês “You were my Best friend, but then you died when I was 23 and you was 25” (da melhor faixa do álbum, “Best Friend”) ou ainda “I thought my life would get easier, instead it’s getting harder… ” (“The Book of Stories”) aliadas à típica sonoridade do final dos anos 70 e início dos 80 podem até causar certo incômodo, soando como covers moderninhos…

Por outro lado, quando a banda tenta seguir mais com as próprias pernas, como na baladinha romântica do disco, “Down By The Water” (“If you fall asleep down by the water, baby I’ll carry you all the way home”) o resultado é mais autêntico e interessante.

Levando em conta todos esses aspectos, The Drums traz pouco de novo, mas escolhe bem suas referências do passado. Não é a melhor banda dos últimos tempos, mas é um resgate bastante divertido de bons tempos que se passaram – e, pessoalmente, não consigo pensar em melhor programa para a próxima quinta-feira.

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Enfim, Strokes – Parte I

(AVISO: acabei me empolgando com o post e ele ficou gigante. Por isso, hoje tem a primeira parte, depois publico o resto!)

 

Escutei a primeira música nova do Strokes sem saber que era a primeira música nova do Strokes.

Embora ciente de que uma das faixas do “já histórico mesmo antes de nascer” Angles havia sido disponibilizada (oficialmente…) pela banda, era tamanho o oba-oba a respeito que fiquei com preguiça de correr para escutar.

Foi, portanto, sem querer – em uma balada com Lucio Ribeiro de DJ (só podia ser) – que “Under Cover of Darkness” caiu em meus ouvidos. Ah, e como caiu bem…

No primeiro momento, fiquei um pouco confusa: “ué, isso definitivamente é Strokes… mas que raio de música é essa que não conheço?!”. Culpei o álcool pela falta de memória.

Foi apenas alguns dias depois, quando o CD inteiro “foi vazado”, que ouvi pela primeira vez aquilo que, mesmo sóbria, não poderia ter reconhecido. Melhor dizendo, reconheci novamente aquilo que já tinha ouvido e reconhecido como The Strokes – mesmo não muito sóbria.

Eu havia dito aqui no blog que preferia esperar o conteúdo assentar, antes de dizer algo a seu respeito. Pois bem, já se passaram alguns dias e, escutando incessantemente este álbum, acho que já posso compartilhar minhas primeiras impressões – the first impressions of Angles.

Antes, porém, uma última (juro!) digressão: quem não é muito familiarizado com o mundo do rock alternativo (ou indie) pode se perguntar: “o que esse Strokes tem que os outros não têm?”

Para mim, Strokes é diferente dos demais porque: 1) foi a segunda banda de rock (de verdade) pela qual realmente me apaixonei – a primeira foi AC/DC – e 2) foi a banda de rock mais influente que minha geração (por “minha geração” entenda-se aquela que ainda era pequena demais para entender Kurt Cobain) viu surgir – antes que me questionem novamente: Radiohead pode ser genial, mas é menos “banda de rock” que Strokes.

Por que digo isso: fazendo coro ao que se diz por aí, sou partidária da opinião de que Julian Casablancas, Nick Valensi, Albert Hammond Jr., Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti (a.k.a. o baterista brasileiro amigo de Rodrigo Amarante e namorado de Binki Shapiro) “salvaram o rock”.

O primeiro álbum da banda, Is this it, lançado em 2001 – bem definido pela Rolling Stone como “tight, lean, smart and almost subliminally catchy” – ao misturar rock do final dos anos 70 (i.e. ares hippie-punk-descolados), com jaquetas de couro, vocais sujos e uma sonoridade de garagem – não quis reinventar a roda, mas, o contrário, lançou mão de uma formação roqueira “clássica” – guitarras, baixo, bateria e voz – anunciou o fim da hegemonia dos sintetizadores e tecladinhos e foi um dos responsáveis pela “volta do rock” – amém!.

O Pitchfork, menos deslumbrado que a maioria dos representantes da mídia, foi ainda mais preciso em sua definição:

“The Strokes are not deities. Nor are they “brilliant,” “awe-inspiring,” or “genius.” They’re a rock band, plain and simple. And if you go into this record expecting nothing more than that, you’ll probably be pretty pleased. See, while I can’t agree with the Strokes’ messianic treatment, I’d be lying if I said I thought Is This It was anything other than a great rock record.”

E, mesmo após o lançamento de outros álbuns – principalmente Room on Fire (2002), mas também First Impressions of Earth (2005) e os momentos mais “old school” de Angles – Strokes continua sendo simplesmente isso aí: uma ótima banda de rock.

Falando nisso, e indo ao que interessa, vamos falar de Angles?

 

(continua…)

 

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Saint Patrick’s Day

Hoje, dia 17 de março, é comemorado o Saint Patrick’s Day, dia do santo padroeiro da Irlanda nascido em meados dos anos 400 depois de Cristo. Reza a lenda que, naquele local, as festividades ocorrem desde o século XVII – e que sua origem é estritamente religiosa.

Surpreendentemente, passado tanto tempo – e como se não bastassem todos os padroeiros homenageados no Brasil – aqui também se resolveu prestar reverência ao tal santo estrangeiro; o dia de hoje certamente será comemorado também em português.

O motivo? Sincretismo religioso; miscigenação de culturas; receptividade a tradições alheias…? Pode até ser… mas, se tivesse que apostar minhas fichas em uma palavra, seria: cerveja.

Ninguém precisa de pretexto para tomar uma cervejinha, mas quando se acha um bom motivo, tanto melhor. Por isso, em pleno Saint Patrick’s Day, o re.verb presta uma homenagem aos irlandeses e aos bebuns do Brasil: um brinde ao som da nossa playlist etílica.

Eu Bebo Sim”, versão de Elza Soares com Monobloco – Para aquecer, o clássico dos clássicos; o hino da boemia: “Eu bebo, sim e estou vivendo; tem gente que não bebe e está morrendo, eu bebo sim”.

A Praieira”, Nação Zumbi – Se Chico Science era um gênio, seus ensinamentos não deveriam ser desprezados… (“No caminho é que se vê a praia melhor pra ficar, Tenho a hora certa pra beber: Uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar pensando melhor”).

Drinking Wine in the Afternoon”, Franz Ferdinand – O almoço passou e você continua bebendo? “Drinking wine, drinking wine in the afternoon, do-do do-dooo”…

Drunk Girls”, LCD Soundsystem – O Ministério da Saúde adverte: “Drunk girls know that love is an astronaut (Drunk girls) It comes back, but it’s never the same (…) Drunk girls can be just as insane”. 

On the Other Side”, The Strokes – ah, as miragens e embaralhamentos que o álcool provoca: “I hate them all, I hate them all, I hate myself for hating them. So I’ll drink some more, I’ll love them all, I’ll drink even more, I’ll hate them even more than I did before”.

Toothless turtle”, Holger – E ao longo de toda a noite, até o dia seguinte, tudo permanece embaçado… “drinking coke and coffee makes me feel better after a long night of tequila and strong pepper”.

Rehab”, Amy Winehouse – Por mais previsível que seja, citar músicas alcoolicas sem falar daquela que tem bebida até no sobrenome é impossível. Dentre tantas faixas exemplares da musa trash, fica aqui aquela que contém a frase oficial de toda ressaca: “I don’t ever wanna drink again…”.

Para finalizar e permanecer neste clima meio ébrio, fica aqui uma das frases mais geniais e elogiosas que um homem já disse sobre uma mulher  – quem sabe sirva de inspiração para a na noite de hoje:

O que um homem vê bêbado nas outras mulheres, vê sóbrio em Greta Garbo

(Kenneth Tynan, em A Vida Como Performance – Perfis, Companhia das Letras.)

Cheers!

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