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cultura, crítica e tudo o mais

O passar do tempo – como música

É uma narrativa frenética. Um sucessão de acontecimentos, aparentemente desconexos; mais parece um colar de contas, no qual cada pedrinha é solitariamente bonita por si só. Mas, não, é mais.

Aos poucos, as narrativas (e personagens) vão se encaixando – cada novo capítulo apresenta uma relação, ainda que tangencial, com o anterior.

É, portanto, um conjunto precioso de capítulos que se encadeiam como miçangas coloridas em um cordão; é um retrato da contemporaneidade que tem como fios condutores o passar do tempo e a música – precisa mais?

Falo do grande livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan (Editora Intrínseca) – vencedor do Pulitzer de 2011.

Ali, o que se tem é uma concatenação desenfreada de histórias de personagens que, mesmo tendo alguma relação entre si – por vezes tão irrelevantes como aquelas que, dizem, temos todos nós usuários do facebook – remetem a algo maior, na medida em que se dispõem sobre um pano de fundo comum: o inexorável passar do tempo.

É como se a música, com sua intrínseca sucessão de notas e intervalos, representasse a vida: em ambas, o passar do tempo é a um só tempo inevitável e essencial para a evolução da história – ou do som.

Ao longo dos 13 capítulos, sempre permeia uma certa nostalgia, deliciosamente aliada aos bons tempos em que rock’n’roll e displicência pareciam indispensáveis à vida de qualquer um.

Mais do que isso, A Visita Cruel do Tempo é ousado a ponto de nos oferecer cada capítulo como uma obra nova: seja na forma – que, por vezes, adquire uma lírica poética, com digressões e descrições demoradas; e em outras é puramente gráfica, esquemática, como no emblemático “capítulo power point” que é o 12, “Grandes pausas do rock and roll” – ou na perspectiva a partir da qual se constrói o argumento central: as narrativas passam da primeira pessoa (do singular e do plural), para a terceira, tão naturalmente como uma garota troca de roupa.

Em meio a todas essas pedrinhas coloridas concatenadas entre si, há cruéis reflexões sobre as sensações e consequências (perdas, inclusive) do passar do tempo, como em “Adeus, meu amor”, Capítulo 11:

Mas cada decepção que Ted sentia com relação à mulher, cada ínfima murchada, era acompanhada por um espasmo de culpa. Muitos anos antes, ele pegara a paixão que sentia por Susan e dobrara ao meio, para não ter mais aquela sensação impotente de quem se afogava sempre que a via deitada ao seu lado na cama (…) Depois a havia dobrado ao meio de novo para que, quando sentisse desejo por Susan, este não viesse mais acompanhado por um medo aflito de jamais conseguir se saciar. Depois ao meio outra vez, para que o fato de sentir desejo não viesse acompanhado de uma necessidade imediata de ação. E ficou tão pequeno que Ted podia guardá-lo dentro da escrivaninha ou de um bolso e esquecê-lo, e isso lhe dava uma sensação de segurança e realização, de ter desmantelado um aparato perigoso que poderia ter destruído a ambos.

Incansavelmente mais cruel é “De A a B” Capítulo 7, sintetiza a angústia de toda uma geração – a nossa:

Eles eram jovens, tinham sorte, tinham força – por que se preocupar? Se não gostassem do resultado, podiam voltar e recomeçar tudo de novo. E agora Bosco estava doente, mal conseguia andar, e planejava de maneira febril a própria morte. (…)

– Se você tivesse me perguntado hoje de manhã, eu teria dito que estávamos acabados – disse ele. – Todos nós, o país inteiro… porra, o mundo inteiro. Mas agora estou sentindo o contrário.

Stephanie sabia. Praticamente podia ouvir a esperança corer pelas veias do irmão.

Então, qual é a resposta? – indagou.

É claro que está tudo terminado – disse Jules. – Mas ainda não.”

(A Visita Cruel do Tempo, “A Visit From the Goon Squad”, de Jennifer Egan, Editora Intrínseca, 2011)

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Máquina do tempo

Dos maiores prazeres que há é pegar um livro daqueles que não se quer largar. Um livro que te mantém atento durante horas, que faz você mergulhar na história; como num bom jogo de videogame, você se sente parte daquilo, vivendo todas as passagens. Diante de um livro desses, você, leitor, se transforma no protagonista.

Nada mais natural, portanto, que em uma história que começa quando as personagens têm seus vinte e poucos anos – mais precisamente de noite na cama, no final da faculdade – e se desenrola ano após ano até que ambos tenham quarenta anos, você, leitor, sinta estar crescendo junto, envelhecendo a cada página.

Assim é Um Dia (One Day), de Davis Nicholls – publicado originalmente pela Vintage Contemporaries e, no Brasil, pela Editora Intrínseca.

O enredo não é dos mais inovadores: Renato Russo já o cantou em “Eduardo e Mônica” e o filme “Harry e Sally – Feitos Um para o Outro” o eternizou como um clássico da comédia romântica. Ainda assim, difícil não se encantar com a história de Emma e Dexter (“Em and Dex, Dex and Em”) dois opostos que, mesmo querendo crer que são apenas bons amigos, não conseguem viver um sem o outro.

Ela, no início uma garota de 22 anos, cult, revoltadinha e politizada, depois de várias tentativas e erros se torna uma mulher independente e escritora bem sucedida; ele, um moleque bonitão e playboyzinho que demora a crescer e insiste, por mais tempo do que deveria, em manter seu status de pseudo-celebridade na vida louca (“wanted to live life in such a way that if a photograph were taken at random, it would be a cool photograph”).

A fim de dar conta de vinte anos da vida dos dois, a história se desenrola por meio do relato de só um dia, sempre 15 de julho – a data em que ficaram juntos pela primeira vez – todos os anos entre 1988 e 2007.

Apesar de parecer – e ser – um romance fluido e leve que, a despeito de passagens mais sombrias, entretém e diverte (a propósito, um filme baseado neste livro, com direito a Anne Hathaway e tudo o mais já está sendo aguardado), o diferencial da obra está justamente no efeito que causa no leitor – arrisco-me a dizer, principalmente o leitor mais jovem.

Isso porque, se no começo os protagonistas refletem o momento em que aquele que lê vive (as festas, as paixonites que parecem consumir toda a – inesgotável – energia, a preocupação não tão séria assim em se saber o que fazer da vida…), na medida em que crescem, escancaram o mundo “adulto” de maneira quase perturbadora: as ambições diminuem, alguns desejos – antes tão intensos – passam, o gosto pelo rock é naturalmente substituído pelo jazz e a música clássica e assim vai. Neste sentido, até o ritmo do livro desacelera; percebe-se que, a cada novo 15 de julho, menos coisas acontecem.

Assim, o jovem leitor, que no início se identifica e se empolga com a vida de Emma e Dexter, parece ser rapidamente transportado para seu próprio futuro (como em uma máquina do tempo), sendo, portanto, convidado a se ver daqui a alguns anos. E a imagem não necessariamente é das mais animadoras.

Seja como for, o livro é uma delícia de se ler e a viagem ao futuro que ele proporciona pode, quem sabe, levar o leitor a questionamentos dos mais importantes.

(Um Dia (One Day), de Davis Nicholls, Vintage Contemporaries e, no Brasil, Editora Intrínseca)

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Hadley e Ernest

Você também já deve ter imaginado como seria viver em outros tempos; em um período especial.

Quem sabe no Rio de Janeiro do final dos anos 50; no gramado mágico e enlameado da fazenda mais famosa de Bethel, entre 15 e 18 de agosto de 1969; na Seattle dos anos 80, e por aí vai.

Woody Allen, em seu último filme, escolheu a Paris dos anos 20. Não sei o que teria escolhido Ernest Hemingway, mas era justamente ali que estava; naquela hora, naquele lugar.

Parece ter sido esta também a escolha de Paula McLain, autora do belíssimo livro The Paris Wife: a Novel, que, misturando ficção e realidade, decidiu encarnar Hadley Richardson (a narrativa é em primeira pessoa), a primeira esposa de Hemingway, e contar uma das mais belas histórias deste (e de qualquer um): o primeiro amor.

A idéia de conceber a obra veio da leitura da excelente e emocionante “autobiografia” que aquele fez de seus tempos em Paris: A Moveable Feast. Nesta, a perspectiva daqueles dias é de Hemingway, quem, mesmo ao lado de Gertrud Stein, Scott Fitzgerald, Ezra Pound e tantos outros, tem em Hadley seu porto seguro.

Ali também, Ernest – ou Tatie, para Hadley – quando se vê prestes a deixar Hadley – que também é Tatie, para Ernest – diz: “I wished I had died before I ever loved anyone but her”.

É justamente um amor carregado de tamanha intensidade, que tendo crescido e sofrido junto com seus protagonistas, cai no mundo e perde sua inocência, o que retrata Paula McLain neste livro.

Hadley estava passando férias quando o conheceu – a amiga Kate, que, por suas razões, desaprovava o romance, alertou desde o princípio: “He likes women. All women”. Sem conseguir conter o que sentia, contudo, com ele se casou – em setembro de 1921. Mudaram-se para Paris pouco depois.

Na nova cidade, desfrutaram, juntos, das dores e delícias que tamanha efervescência criativa e social oferecia – em dado momento, quando as coisas já parecem desandar, Hadley pergunta a um amigo: “‘What’s wrong with all of us, Bill? Can you tell me that?’ (…) ‘We drink too much for starters. And we want to much, don’t we?”.

Por essas razões, como a protagonista diz, tudo estava bem, até que não estava mais. O casal parecia indestrutível, até que se desfaz. Simples assim; complicado assim – como em “Blue Valentine”, de que já falamos aqui.

A narrativa criada pela autora nos faz sentir junto com Hadley; nos faz amar Hemingway – a despeito da personagem machona e destemperada que conhecemos – e temer o fim que se sabe próximo – do romance e do livro. (Confesso que, diferentemente da maioria das outras obras, nesta, não queria chegar ao final; mesmo sabendo qual seria, me vi achando milhões de desculpas para largar o livro e postergar a virada da última página.)

É, enfim, uma lindíssima perspectiva de uma das épocas mais comentadas do século XX – e de um dos maiores autores desse período – na qual a ficção nos incentiva a conhecer ainda mais o que realmente se passou.

Vale muitíssimo. Pena que acabou – aquele período e este livro.

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Suspense vazio

“Preciso muito te contar uma coisa… não é algo trivial, é uma bomba… mas te conto depois”.

Frases como estas são, a um só tempo, um convite irrecusável à curiosidade e uma das coisas mais irritantes que uma pessoa pode fazer com outra.

Justamente por isso, Amor Sem Fim, de Iwan McEwan (Companhia das Letras, 2011), tem no persistente suspense seu melhor atributo e também seu grande defeito. Isso porque toda a narrativa se sustenta na expectativa do que está por vir e, conforme os acontecimentos se tornam conhecidos, a única forma de manter o leitor atento é lançar um novo mistério; uma nova isca.

A história até teria potencial para ser interessante em si mesma – tanto é que virou filme (Enduring Love, de Roger Michell)–: um casal se reencontra depois de um período de separação e, precisamente na ocasião da celebração da volta – um piquenique no parque – presencia um acidente de balão em que uma tragédia se deflagra. Junto com ela, novos personagens são inseridos na trama e outros indivíduos se imiscuem num amor que parecia inabalável.

Mais precisamente, o amor do cientista/jornalista Joe Rose e da crítica literária apaixonada por Keats, Clarissa, é invadido por Jed Perry, um fanático religioso que, assim como Joe, auxilia o resgate do balão desvairado. Não se trata, porém, de um triângulo amoroso comum; ali, Perry encarna a obsessão doentia e persegue até as últimas conseqüências aquele que acredita ser seu amor divino.

O livro é, de fato, instigante; misturando trechos de relatos científicos com digressões íntimas, carrega o leitor ao interior da perturbada mente de Joe – que, de repente, se vê às voltas com um admirador improvável e com a desesperada tentativa de manter são o relacionamento com sua linda mulher.

Porém, o que poderia ser um interessante thriller psicológico – na medida em que adentrasse, de fato, nos questionamentos e dúvidas profundas do narrador (estou louco? Estou apaixonado – e por quem? Como os respingos do acidente estão sendo interpretados por minha mente?) – não vai muito além de rasas perturbações que povoam o cérebro excessivamente racional de Joe.

Ian McEwan é um dos mais aclamados escritores britânicos da atualidade (é o autor de Persuasion, Saturday, dentre outros), mas, nas idas e vindas deste livro – e a despeito de todo o suspense criado – oferece algo um tanto vazio. É como se fizesse força para que o leitor lesse as páginas na diagonal, apenas para descobrir o desvendar de um novo mistério; desperdiçando, assim, a chance de trazer mais uma memorável obra.

Trata-se, sim, de um bom livro – daqueles difíceis de se largar – mas deixa, ao final, um sabor de: “era só isso que você tinha para me contar?”

(Amor Sem Fim, Iwan McEwan, Ed. Companhia das Letras, 2011)

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Nas profundezas do bosque de Oz

“Escrevo artigos não porque me pedem, mas porque me sinto tomado de ira. (…) Escrevo a partir de um senso de injustiça e da minha revolta com isso. Mas só posso escrever um artigo desses quando estou cem por cento de acordo comigo,  o que não é minha condição normal – em geral concordo parcialmente comigo mesmo e sou capaz de me identificar com três ou cinco diferentes pontos de vista sobre o mesmo assunto. Nesse caso escrevo uma história, na qual diversos personagens podem expressar visões distintas sobre um mesmo tema”.

Quem disse isso foi Amós Oz, em entrevista feita em 1994 e publicada no ótimo As Entrevistas da Paris Review (sobre o qual já falamos aqui).

Entender sua obra De repente, nas profundezas do bosque (uma “narrativa em prosa” – como prefere nomear o gênero “ficção” – publicada pela Companhia das Letras) fica mais fácil a partir da declaração acima.

Nesse livro precioso, tem-se a fábula de um vilarejo que, embrenhado na escuridão e no silêncio, não abriga animal algum. Os mais velhos, tomados pelo receio de falar sobre o assunto, raramente comentam sobre a noite em que todos os bichos sumiram. Os mais jovens, criados em um mundo habitado exclusivamente por humanos, são ensinados a acreditar que cães, gatos, pássaros e moscas são lendas.

Mais, há rumores de que os animais foram, há muito tempo, levados pelo “demônio da montanha”, Nehi. Por essa razão, “Nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma de verdade, diziam os pais aos filhos, que nunca e de maneira alguma se atrevessem a sair de casa depois do escurecer”. Adentrar ao bosque, então, nem se fale. Proibido. Perigoso.

Não se toca no assunto e, os poucos que se atrevem a questionar a inexistência dos animais, são considerados loucos, são alvos de gozação. Pode ainda ser pior: o pequeno Nimi, por exemplo, o menino de nariz escorrendo, sempre alvo de chacota, que sonhava com bichos e um dia sumiu no bosque, voltou avariado; voltou contaminado com a “doença do relincho” – não falava mais, só ria e relinchava. Tornou-se uma aberração, ninguém se atrevia a chegar perto dele – poderia contaminar quem se aproximasse.

Por essa razão, o perigo que o bosque e a escuridão traziam, o medo pairava pelo vilarejo: “E apesar disso todos se lembravam muito bem, em silêncio, do que era melhor não lembrar. E havia certa necessidade de negar tudo, negar até o próprio silêncio, e zombar de quem, apesar de tudo, lembrava: que se calasse. Que não falasse”.

Mas, Mia e Mati, duas crianças curiosas, lembravam de algo que viram num certo dia – um peixe? Como assim, um peixe? – e, contrariando a ordem local, resolveram não esquecer. Decidiram, então, descobrir o mistério daquele lugar e do sumiço dos bichos.

É dessa forma lúdica, repleta de lírica e fantasia, que Amós Oz – um dos mais renomados escritores israelenses contemporâneos – tangencia, nesse adorável livro, questões humanas fundamentais, como a discriminação e a tolerância; a relação entre homem e natureza; a angústia de se ter que pertencer a um grupo; o questionamento de regras e a relação com o dogmatismo, ou obscurantismo.

Assim, justamente por lidar com todos esses temas de maneira hábil e não impositiva – não há sermão, nem bonzinhos e mocinhos – a declaração que iniciou este texto faz sentido: diversos pontos de vista sobre um mesmo assunto são postos em xeque. A moral da história quem tira é o leitor.

 

(De repente, nas profundezas do bosque, de Amós Oz, Editora Companhia das Letras)

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Sem empolação

É de dar dó quem se leva muito a sério. Mais ainda, quem confunde empolação com credibilidade e profundidade. Isso porque, quem se preocupa em levar tudo a ferro e fogo não apenas se diverte menos, como gasta tanta atenção em manter a postura que deixa passar sutilezas e ironias mais profundas do que aquilo que se extrai dos meros formalismos.

Quem disse que da graça não podem surgir questões essenciais? Por que o humor seria algo menor?

Se sustentar um argumento tem a função última de convencer o leitor – nada mais é que um processo de sedução – por que não ser leve, agradável? (Você chamaria alguém para sair sem se preocupar minimamente em ser simpático; sendo um chato?)

Se, por um lado, alguns tendem a achar que o grau de dificuldade de compreensão de um argumento é diretamente proporcional à sua relevância; outros são hábeis o bastante para serem sucintos, inteligentes, simpáticos e acessíveis, mesmo quando transmitem os mais complexos conceitos e idéias.

Exemplos do primeiro grupo há vários: acadêmicos com seu eterno tom doutrinário, políticos, burocratas… advogados, então, nem se fale! Representantes do outro grupo são mais raros… vamos a um? H.L. Mencken.

Este foi um dos maiores jornalistas dos Estados Unidos. Foi também crítico, filólogo (sua obra mais conhecida é The American Language, um estudo sobre a diferença entre a língua inglesa e a “americana”), ensaísta e, acima de tudo, provocador.

Seu tom informal, mas sofisticado; emocional, sem deixar um raciocínio pela metade, imprimia em seus textos uma vitalidade difícil de se comparar. Concorde ou não com suas opiniões – muitas vezes radicais e quase sempre politicamente incorretas (“A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável” – em “O Crédulo” –; fidelidade é apenas a falta de coragem para trair – em “A Mulher Libertina” –) – é difícil não se sentir incitado por seu texto; impossível se entediar.

Alguns de seus melhores ensaios e críticas – extraídos de A Mencken chrestomathy e A gang of Pecksniffs – estão compilados no Livro dos Insultos (Cia das Letras, tradução, seleção e posfácio de Ruy Castro – que, como poucos, consegue reproduzir a riqueza do texto original).

Ali, Mencken fala sobre quase tudo: o homem, as mulheres, religião (ou a falta de), moral, cultura (Joseph Conrad, Edgard Allan Poe, Mark Twain, Beethoven, Strauss são alguns de seus objetos de reflexão)…

Algumas das mais valiosas pérolas falam sobre a própria escrita, sobre o processo de criação literária. “Sobre estilo” é genial:

“A essência do grande estilo é que ele não pode ser reduzido a regras – é uma coisa que vive e respira, com algo de demoníaco – que se ajusta a quem o usa como a pele ao resto do corpo (…) No dia seguinte ao encontro com uma nova garota, o estilo brilha e dá pulinhos. Se seu autor comeu demais, ele tende a relaxar (…).”

Preciosa também é “O Escritor Trabalhando”, em que afirma que aquele escreve “emitindo gritos de desafio”, com “anseio de fazer barulho”.

O Livro dos Insultos é, em suma, o antídoto perfeito para a crença de que a falta de conteúdo se cura com empolação. Não. A falta de conteúdo se cura com inteligência e cultura. E estas, ditas com graças, curam qualquer coisa.

 

(Livro dos Insultos, H.L. Mencken, Cia das Letras)

* Update zás-trás: Achei uma coincidência divertidíssima o fato de amanhã começar o Lollapalooza e, hoje, junto com este post, ter sido publicada uma matéria no Estadão em que se diz o seguinte sobre a expressão que dá nome ao festival: “O polemista, intelectual e jornalista norte-americano H. L. Mencken (1880-1956) escreveu que a expressão teria sido usada pela primeira vez nas lutas de boxe, na sua época, para descrever o nocaute – mas não existem provas disso.” (“Lolla nos Andes”, de Jotabê Medeiros)

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A arte da escrita

“Algumas pessoas dizem que não conseguem entender o que o senhor escreve, nem mesmo depois de o ler duas ou três vezes. O que o senhor poderia lhes sugerir?”

“Que leiam quatro vezes”. (William Faulkner, em 1956)

 

“Quais são as suas idiossincrasias?”

“Suponho que minhas superstições podem ser consideradas idiossincrasias. Tenho que somar todos os números: há pessoas para as quais nunca telefono porque o somatório de seus números dá um total funesto. Ou eu não aceitaria um quarto de hotel pela mesma razão. Não tolero a presença de rosas amarelas – o que é triste, porque é minha flor preferida. Não posso admitir três pontas de cigarro no mesmo cinzeiro. Não viajo num avião com duas freiras. Não começo nada às sextas-feiras. São infinitas as coisas que não posso fazer ou jamais faria. Mas obedecer a esses conceitos primitivos me dá um curioso conforto.” (Truman Capote, em 1957).

 

A relação de grandes autores com suas obras, as mais distintas posturas diante de um entrevistador – o ressabio de Hemingway, o divertido papo de Capote, a simpatia de Doris Lessing, o mau humor delicioso de Faulkner, o desabafo repleto de um pessimismo assustador de Céline – o comum desdém pela crítica, uma curiosa adoração a James Joyce e um convite a que o leitor conheça um pouco mais das mãos e mentes por trás de grandes obras literárias.

Essa é parte da tônica de As Entrevistas da Paris Review, ótimo livro publicado recentemente pela Companhia das Letras que, a despeito de ter chegado há tão pouco tempo nas prateleiras, já tem repercutido e conquistado admiradores (dois bons textos sobre o assunto: um de Antonio Gonçalves Filho e outro do nosso parceiro Gabriel Garcia).

 

Esta é uma dentre as 3 mil (!) capas produzidas pela Companhia das Letras

Em pouco mais de 400 páginas (deste que é o volume um) estão reproduzidas algumas das melhores entrevistas publicadas pela revista literária americana Paris Review entre 1956 e 2006; entrevistas tais que, em si, carregam parte da riqueza literária de seus entrevistados.

Na contramão do que atualmente se constata, as entrevistas em questão extraem conteúdo de fato interessante de seus “objetos de estudo”; não apenas devido ao profundo conhecimento de seus entrevistadores, como também pela preocupação em se deixar a prosa fluir – como o bate-bola de Borges com seu entrevistador – até caírem em belas digressões, as mais diversas.

Nesse sentido, não se trata apenas de interessantes comentários sobre a forma como cada um dos 14 autores enxerga e analisa o processo de criação literária – as inspirações, influências, a estruturação das obras (daí o título de cada uma das peças ser “a arte da ficção”, “a arte da poesia” no caso de W.H.Auden, ou “a arte do roteiro” para Billy Wider) – mas também curiosidades divertidas – o relato da experiência de Doris Lessing com a mescalina, a posição física em que alguns escrevem (Capote deitado em sua cama; Hemingway de pé) – e confissões surpreendentes – a desilusão com que Céline enxerga a vida é de cortar o coração.

É, enfim, um livro interessante e gostoso de se ler – aos poucos, ou numa tacada só. Seja para aqueles que se interessam em fazer boas entrevistas, ou aos que simplesmente se deliciam em conhecer – por meio de perguntas e respostas inteligentes – autores que tanto admiram.

 

(As Entrevistas da Paris Review – Vol.1, vários autores, Companhia das Letras, 2011)

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Ilha Desconhecida

 

José Saramago é daqueles autores que parecem domesticar as palavras; é como se ele ordenasse e elas dessem piruetas, correndo de um canto a outro, até se organizarem do modo exato para dizerem sintética e plenamente aquilo que ele queria.

Saramago também é capaz de encapsular, em um número mínimo de palavras, idéias e conceitos tão difíceis de se explicar – como os melhores poetas (nem de pontuação ele precisa!). Ele molda os versos – ainda que em prosa – como os palhaços torcem e retorcem aquelas bexigas compridas em festas infantis: quando menos se espera, faz-se um poodle, uma espada; a mensagem aparece.

Faz mais ou menos cinco anos que, diante da minha angústia em relação a qual caminho profissional seguir, uma pessoa querida me disse apenas: “você não precisa decidir agora; mas no meio tempo, leia este livro”. Era O Conto da Ilha Desconhecida.

Neste conto pequeno e precioso, o que temos é um sujeito que, resoluto, bate à porta do rei (mais precisamente, à “porta dos obséquios”) e não arreda o pé dali, por três dias, enquanto não recebe um barco.

“E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou (…) Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, (…), A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já na há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas”.

Mais tarde, ao capitão, quando perguntado se sabia navegar, ele responde “Aprenderei no mar” e, para tanto, pede um barco que “que eu respeite e que possa respeitar-me a mim”.

Além do barco, para ir à procura de uma ilha onde nunca ninguém tenha desembarcado, o rapaz ganha a companhia da mulher da limpeza do palácio do rei, que, ao presenciar a história toda, resolve embarcar na jornada – e olha que ela sai decidida, sai pela “porta das decisões” do palácio.

Sem me prolongar muito na história – que, recomendo veementemente, seja lida, e relida inúmeras vezes – hoje vejo que o que aquela pessoa querida gostaria que eu enxergasse com o livro – para além dos quase lugares comuns de que cada um deve trilhar seu próprio caminho e de que a descrença alheia, no final das contas, pouco importa –: é que essa busca de fato leva tempo.

E não poderia ser diferente, já que a procura pela ilha desconhecida é a procura por si mesmo:

“(…) quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes [?], Se não sais de ti, não chegas a saber quem és (…) Que é necessário sair da ilha pra ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós”.

 

Bora tacar nossos barquinhos no mar?

(O Conto da Ilha Desconhecida, José Saramago, Companhia das Letras)

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Tensão sexual

Confesso que foi por linhas tortas que recentemente me lembrei de um dos meus contos preferidos de Machado de Assis. Estava descaradamente fugindo da folia do carnaval quando o Telecine me proporcionou deliciosos momentos de meninice pura, ao transmitir o fofo e bobíssimo filme “Casa Comigo?” (“Leap Year”, de Anand Tucker) o feriado todo…

Nele, uma americana certinha e eficiente – “Anna, from Boston”, interpretada por Amy Adams – resolve tomar as rédeas de seu relacionamento, viajar para a Irlanda com o objetivo de encontrar seu namorado coxinha, usar a tradição local a seu favor e pedir o moço em casamento – reza a lenda que, em anos bissextos, as mulheres podem se ajoelhar e pedir seus namorados em casamento no dia 29 de fevereiro.

Ocorre que, como em toda boa comédia romântica hollywoodiana, ela acaba encontrando alguém pelo caminho – o lindíssimo e charmoso Declan (Matthew Goode, meu novo amor) – que a faz rever seus conceitos.

O que pobre Machado tem a ver com isso, você deve estar se perguntando…pois bem, apesar de toda a doçura do filme, os momentos em que Anna passa ao lado de Declan são exemplares da boa e velha tensão sexual – daquelas que nos fazem pegar o jornal velho na mesa de cabeceira e nos abanar, saca? – e poucos souberam transcrever com tanta sutileza tal sensação como o velho Bruxo de Cosme Velho em “Missa do Galo”.

Nesse conto, na noite de Natal, Nogueira, um garoto de dezessete anos e Conceição, uma “senhora de trinta anos” passam os minutos que antecedem a Missa do Galo entre conversas, olhares e potencialidades:

“A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:

—   Mais baixo! mamãe pode acordar.

A tal tensão sexual – essa danada – nunca aparece em linhas tortas, mas nas entrelinhas, e o calor que provoca dura mais que ressaca de quarta-feira de Cinzas:

“Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima”.

E dá-lhe banho frio!

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Um amor só deles

 

Ela, uma garota magrela e estranha, saiu de casa para o mundo e se descobriu uma artista completa: poeta, cantora – uma das rainhas do rock – desenhista, escritora, engajada… Ele, também jovem e esquisito, se sabia artista desde o princípio; também pintou, desenhou e acabou se tornando um dos mais corajosos e polêmicos fotógrafos de todos os tempos.

Ambos se encontraram, se salvaram mutuamente e se amaram incondicionalmente até o fim, quando, mesmo separados, estiveram juntos.

Essa é a história de Patti Smith e Robert Mapplethorpe, em Just Kids (lançado em português como Só Garotos, Companhia das Letras).

Tudo se inicia com Patti, antes mesmo de completar seus vinte e poucos anos, sem lenço nem documento – muito menos um tostão no bolso – se lançando em Nova Iorque. Algo lhe dizia que ela era diferente dos demais – a paixão pelos livros, a adoração por Rimbaud… – mas a garota ainda não conseguia formatar seus anseios.

De repente, como por um capricho do destino, encontra e reencontra um garoto de cabelos cacheados que lhe salva de algumas encrencas e lhe descortina uma vida até então desconhecida, a vida de artista.

Ambos, inseparáveis desde aquele momento, prometem jamais sair de perto um do outro até que ambos estivessem prontos pra seguirem sozinhos.

"we used to laugh at our small selves, saying that I was a bad girl trying to be good and that he was a good boy trying to be bad. Through the years, these roles would reverse, then reverse again, until we came to accept our dual natures. We contained opposing principles, light and dark"

 

Tal história não seria muito diferente de tantas outras paixões juvenis se não tivesse começado em pleno summer of love, se a locação não tivesse sido o histórico Chelsea Hotel, se a mocinha não fosse tão amorosamente devota da arte e se o mocinho não resolvesse chocar a sociedade com seu trabalho ou não tivesse sérias dúvidas acerca de sua sexualidade.

Justamente por tais razões, a relação desses jovens, descrita errática e honestamente por Patti, é inclassificável. É, sim, uma bela história de amor, mas retrata aquela espécie de amor único, excêntrico, que transcende convenções e se amolda exclusivamente aos dois.

É curioso como a narrativa de Patti dispensa qualquer detalhe que não importe para a composição da história do “casal”. Outros amantes, fofocas de bastidores (com Janis Joplin, Jimi Hendrix, Andy Warhol, etc) e outros detalhes sórdidos não têm a menor relevância quando comparados às tentativas de se explicar os sentimentos inexplicáveis que Robert gera em Patti – e vice-versa.

Portanto, longe de ser convencional, a história retrata uma simbiose visceral, um amor transcendental, por vezes chamado de namoro, por outras de amizade, mas que, até o fim, foi a pilastra que segurou cada um em seu prumo e fez o futuro – e a arte – ter sentido.

Assim como uma obra de arte revolucionária, no entanto, esse sentimento original, sem precedentes ou exemplos a serem seguidos, precisou ser descoberto e decifrado por cada um dos dois.

Dessa forma, entre poemas, polaróides, rabiscos e acordes; entre beijos e carícias trocados entre eles e com outros, amaram-se e foram do mundo até o último flash.

 

(Patti Smith, Just Kids, 2010 – em português, Só Garotos, Companhia das Letras).

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