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Até a gente cresce

Tenho insistentemente tentado me lembrar de uma música, que não sei qual é – nem de quem – que dizia que quando temos vinte e poucos anos, nos sentimos velhos; até quando temos vinte e alguns anos e rimos daqueles tempos.

Seja qual for a letra, o que importa é que a mensagem é doloridamente verdadeira – e inevitável. Quando recém saídos da faculdade, de uma hora para outra, sentimos o peso do tempo passar. Depois, passado o choque, com vinte e poucos anos e alguns mais, percebemos que a vida adulta não é tão ruim; que tem seus prós: não se sentir culpado em ficar em casa numa noite de sexta-feira, gostar de ler jornal, beber vinho…

Em resumo, pode ser bacana crescer. E é esta a sensação que temos ao ouvir o segundo álbum do The Vaccines, Come of Age, lançado em setembro deste ano.

A banda, velha conhecida do re.verb, surgiu como uma sensação do rock alternativo; mais precisamente, como o novo The Strokes. Exageros à parte – e relevando o cano histórico que a banda deu nos fãs brasileiros, em 2011 – o que importa é que esses ingleses voltaram, mais crescidos, e em ótima forma.

Seu novo álbum é mais maduro, menos ansioso. Se, em 2011 (com o aclamado What did you expect from the Vaccines?), a tônica era a marrentice juvenil aliada à agonia do passar do tempo (a clássica “Wetsuit” dizia: “If at some poit we all succumb, for goodness sake let us be young, because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done; with a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories, we all got old at breakneck speed, slow it down, go easy on me…”), agora, o que se sente é que a perspectiva de envelhecer ainda perturba muito (só a eles?), mas há nela a aceitação do inexorável, como em “No Hope”, a faixa – concorrente a hino da juventude – que abre o disco: “(…) ‘cause when you’re young and bored at 24 and you don’t know who you are no more, there is no hope (…) and it’s hard to come of age, I think it’s a problem (….) and I hope it’s just a phase, well, I’ll grow”.

Porém, assimilado o susto (e ainda que com algumas recaídas pueris, como em “Teenage Icon”), o que se vê é a consciência de que a adolescência deu lugar à consciência de problemas ainda maiores – desculpa, não quero parecer excessivamente pessimista, mas assino embaixo…

Em uma das faixas mais bonitas, “I Always Knew”, se fala de paciência, um dos elementos mais importantes da vida adulta: “(…) I’m hanging on to what I don’t know, so let’s go to bed before you say something real, let’s go to bed before you say how you feel ‘cause it’s you, it’s always you, I always knew”.

Na mesma toada, em “Aftershave Ocean”, com plena maturidade, se assume que a pessoa amada é idolatrada, ainda que se saiba que não deveria ser assim: “but you are pulling the world over, wouldn’t you rather know that I am overindulging you, it’s so easy though”.

Algumas das faixas seguintes, porém, como “Weirdo” (“I know I’m fucking moody and I know I’m quite unkind, I know I’m kinda of distant, but you’re always on my mind”) e “Bad Mood” (“but I get angrier with age, better to be ready if you rattle my cage”) retomam o tom ranzinza e marrento que só os jovens (e os Vaccines) sabem dar…

Porém, a faixa que fecha o disco, mata a questão: eles – e alguns de seus ouvintes – cresceram e cansaram de botar banca além do necessário; eles – e a gente – querem uma pessoa bacana ao lado – quem sabe um amor antigo, como na música –; e um alívio para este mundo adulto que pode ser tão duro: “I knew where you were, it was perfectly obvious, I was uncomfortable playing it cool and I feel like I have always known you; I can’t recurse and I thought you had questioned it, young in the night when we stare at the rest of it, don’t forget, Lord I know: I will hold you close, ‘cause it is a lonely world, but would you want me too, cause it is a lonely world”.

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Tulipa flor

Tudo pra ser aquilo tudo que todo mundo espera, todo um perfil, aquele jeito que todo mundo gosta; tudo pra ter tudo; um jeito que agrada a todos”.

Este é o início de “Ok”, uma das faixas do novo álbum de Tulipa Ruiz (Tudo Tanto) e que, em meio a uma batida ensolarada, com quase-ukuleles ao fundo, lança um desafio: vocês, ouvintes, estão preparados para uma nova Tulipa?

Em “É”, a primeira faixa de seu disco, mostra justamente essa tranqüilidade adulta, tão presente em seu novo álbum: “pelo nosso amor em movimento, pode ser e é”. Ali, assim como em todas as outras faixas, não há ansiedade em agradar imediatamente; a continuidade e a constância são o que importa. A relação está consolidada – assim como a admiração de seus fãs – então, sem pressa.

E some também a pressão para continuar sendo – ao lado de Tiê – uma das porta-bandeiras da fofurice musical do cenário brasileiro contemporâneo.

Com o perdão do trocadilho estúpido, Tulipa desabrochou.

Não que o tom simples e fofo tenha se perdido… “Quando Eu Achar”, por exemplo, poderia facilmente constar em Efêmera, o primeiro (e muito bom) disco da moça: “Quando eu achar o que eu quero achar, você vai saber (…) se eu me permitir, sem pestanejar, você vai curtir”.

No entanto, ainda assim, Tulipa está mais rock’n’roll; há um (bem-vindo) tom de rebeldia em seu cantar: “(…) Melhorou o jeito que a gente conversa, que a gente discute coisa e tal; mas posso ter ainda algum motivo pra querer cair no vendaval; eu sou assim, assim” (“Like This”). Mesmo quando diz: “devo lhe dizer que a minha cura é você, meu bem, é você meu bem; é você meu benzinho”, o esclarecimento prévio impõe alguns limites: “Devo lhe dizer que a vida é um curta, que eu filmei você, e foi sem censura” (“Script”).

E, talvez, a manifestação mais óbvia do novo flerte com o rock seja a participação de Lulu Santos, em “Dois Cafés”; ali, o tom de crítica (ainda que não tão mordaz) se mostra, e questiona a vida nas grandes cidades: “Tem que correr, correr, tem que se adaptar (…) daqui pra frente o tempo vai poder dizer se é na cidade que você tem que viver; pra inventar família, inventar um lar”.

Menos óbvia, mas mais significativa ainda, é “Víbora”. Um quase jazz, ácido – e nada fofo –: “até parece máscara, ópera, víbora (…) mas é só você que tem o dom de me enganar, me seduzir, me desdobrar, de me cuspir, só pra me obter”. Uma música sobre machos que não são tão machos assim… para ser tocada depois das 23h – e , dizem rumores, com direito a Criolo murmurando ao fundo.

Tulipa, enfim, deixa de lado seu lado menininha, mantendo intactas, porém, a potência de sua voz e a simplicidade direta de suas letras. Para a satisfação de todos nós.

 

Baixe o novo álbum de Tulipa Ruiz, aqui – ou, nas palavras da moça, “quer me baixar? Me baixa com dignidade”.

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Dear Jack

“Às vezes, acho que sou um cara simples, mas acho que a verdade é que sou um cara realmente complicado, tão simples como gostaria de ser”.

A frase é de Jack White, um dos maiores guitarristas e rock stars da atual geração, quem, depois de se lançar, junto com Meg White, na saudosa White Stripes (com direito a um dos melhores álbuns do rock alternativo recente, Elephant), perambulou por outras bandas e projetos (como Raconteurs e o sombrio Dead Wheather) e lançou, finalmente, seu primeiro álbum solo: Blunderbuss.

O nome do álbum remete, primeiramente, a uma espécie de espingarda, utilizada para caça. Talvez advenha justamente de tais searas a naturalidade com que Jack lança mão da brutalidade, ou visceralidade, em suas letras. Pensando melhor, Jack sempre foi assim; jamais se esquivou da intensidade de suas emoções – o que não necessariamente implica obras autobiográficas, mas, antes, letras sinceras às emoções arrebatadoras que afloram e fluem nos melhores artistas (como ele).

Logo na abertura do disco, na ótima “Missing Pieces”, Jack fala do amor como algo que faz seu nariz sangrar; que arranca seus braços e suas pernas. Depois, explica: às vezes, alguém controla tudo sobre você, e quando diz que simplesmente não pode viver sem você, não está mentindo; ele vai tirar pedaços de você, e vai ficar por cima e ir embora, levando consigo uma parte sua. (Dadas as devidas proporções, é praticamente uma versão rock’n’roll da crua – e cruel – “Pedaço de Mim”, de Chico Buarque.)

Lançando o foco ainda na faceta sombria e fisicamente dolorosa do amor, o primeiro single lançado (e uma das melhores letras do álbum), “Love Interruption”, fala da batalha travada entre a sanidade – física e mental – e a paixão: “I want love to roll me over slowly, stick a knife inside me, and twist it all around. I want love to grab my fingers gently, slam them in the doorway, put my face into the ground (…) I won’t let love disrupt, corrupt or interrupt me”.

Mas, não se engane, o (ótimo) disco, ainda que sempre permeado por uma certa névoa de desilusão, vai muito além. Blunderbuss também nos serve como um túnel do tempo do rock americano; das raízes indeléveis do blues (sempre presentes nos trabalhos do artista, e mais ainda em faixas recheadas de um baixo envolvente, como “Trash Tongue Talker”), passando pelo folk (como em “Hypocritical Kiss”), pelo rock dançante dos anos 50 (como na incrivelmente deliciosa versão cover de “I’m Shakin’”, de Little Willie John).

Há também bastante country, como na faixa que dá título ao álbum: “You took me to a public place to quietly blend into (…) I laid you down and touched you like the two of us both needed”; ou ainda em “Hip (Eponymous) Poor Boy” que poderia bem ter sido escrita para sua antiga companheira de White Stripes, Meg White, de quem herdou o sobrenome famoso: “So I get into the game, but always keep it the same and I’ll be using your name, but they’ll be yelling at me: ‘poor boy, poor boy’, but I’ll be happy for you, ‘cause you got nothing to do and I’ll be singing the blues, walking around and singing”.

Philipp Ebeling, the Guardian

E, claro, há rock moderno e pesado, como o amor adolescente retratado em “Sixteen Saltines”: “She’s got stickers on her locker and the boy’s number’s there with magic marker, I’m hungry and the hunger will linger, I eat sixteen saltine crackers then I lick my fingers”; e ainda, para os nostálgicos, uma abertura que em tudo remete ao clássico “Seven Nation Army”: se fecharmos os olhos, o riff de “Freedom at 21” – música que fala sobre a liberdade (?) de uma garota nos dias atuais – em tudo lembra aquele.

Trata-se, enfim, de um belo disco que, acima de tudo, canta uma ode ao rock; seja em suas influências, ou na potência de suas letras e melodias. É uma baita obra, digna de um dos (únicos) guitar heroes de nossa geração.

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Alívio

Certas coisas trazem alívio imediato: o primeiro gole de cerveja gelada no calor, tirar os sapatos depois de um dia de trabalho, receber uma ligação de quem tanto se espera…

Musicalmente, dos maiores alívios que alguns – como esta que escreve – podem experimentar é ouvir, em uma nova banda, o bom e velho rock’n’roll. É o que ocorre ao se escutar os primeiros acordes de The Soft White Sixties.

 

Formada em São Francisco, em 2008, a banda resgata com maestria as tradições do blues – por vezes esquecidas no rock moderno – e alia letras simples (porém espertas) à intensidade de som – especialmente na bateria de Joey Bustos e nas guitarras de Aaron Eisenberg e Josh Cook.

Para ser mais precisa, a primeira sensação ao se ouvir uma das faixas mais poderosas do EP que leva o nome da banda (a ótima “Queen of the Press Club”) é de susto: a voz de Octavio Genera, as guitarras e as letras (“a cigarette caresses a rose petal lips, got a hand on a phone, a hand on a hip”) lembram assustadoramente o AC/DC de Bon Scott.

Carregar qualquer semelhança com aquela que considero a melhor banda de rock de todos os tempos já seria credencial suficiente para qualquer banda se fazer ouvida; neste caso, no entanto, os meninos vão além e conseguem sustentar as 5 músicas de seu EP com fôlego de craques.

A primeira, “When This All Started”, é um exemplo memorável de como o hard rock de verdade lida com essa coisa estranha chamada amor – que, uma hora ou outra, arrebata qualquer um; seja palmeirense ou corinthiano, sambista ou roqueiro – : “I gotta get over you, like you’re over me (…) and how did you make it look so easy the way you just move right along (…) I Just want your love, come back to me”. Declaração apaixonadamente escancarada, mas disfarçada pelo barulho das guitarras – quem já sofreu desse mal e aprecia rock’n’roll sabe que não poderia ser melhor.

I Am” se permite ser mais moderna, e, com seus vocais abafados e a batera menos agressiva – ainda que marcante – não é exagero dizer que soa como The Strokes em seu melhor (“oh oh no no, I don’t wanna be that way…cause I am…I am...”).

Better Way” é blues-rock em plena forma; sexy, cadenciado e com letras melancólicas – rasgadas por solos de guitarras que falam por si só – : “dont know what it is, but everything in my life is losing its taste (…) I’m restless because I’m careless, but most of all is still you that i still miss (…) but that’s gotta be a better way”.

Para fechar, “Live in the Evening” é um rock acelerado, com teclados perfeitamente harmonizados com as guitarras, que fala sobre aquele que vive na noite, e que espera encontrar certa pessoa sob o luar. Bom pra cacete – desculpe, mas o rock me faz perder o que me resta de papas na língua – e só faz aguçar ainda mais a expectativa sobre o primeiro álbum completo a ser lançado.

Em resumo: considerando se tratar apenas de um EP, é uma prévia incrivelmente promissora do que essa banda pode mostrar; as cinco músicas mostram mais qualidade – e rock’n’roll – do que a maioria dos discos pretensamente roqueiros por aí. Só por isso, já valem (muito) a atenção.

Recomendadíssimo. Escute aqui.

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Silva

No caderno C2+Música, do Estadão do último sábado, dia 04 de fevereiro, ao se discutir sobre o pretenso fim da canção – exclusivamente a partir do ponto de vista das obras de Chico Buarque e Caetano Veloso, ressalte-se –, Romulo Fróes, a fim de falar da geração contemporânea de músicos, afirma que “Os músicos dessa geração discutem sobre pedais, amplificadores, microfonação, válvulas, softwares de gravação, instrumentos antigos, etc., tanto quanto propriamente de música”.

Pois bem, considerando tal argumento, e sem fazer qualquer julgamento de valor sobre ele, é possível dizer que a tecnologia, hoje em dia, faz parte da música. Mais ainda, que é válido afirmar que elementos eletrônicos são introduzidos na música contemporânea tão naturalmente como outrora se inseria um riff de guitarra.

E é justamente desse sincretismo de sons e tecnologias, sejam antigos ou modernos, que surgem algumas boas surpresas do cenário musical atual, como esta de quem falamos neste post.

Quem? Um sujeito que carrega no nome as raízes brasileiras: Silva.

 

Lançado no final de 2011, o EP SILVA EP, de Lúcio da Silva Souza, se diferencia justamente pela capacidade de mesclar elementos tradicionais da canção – i.e. boas letras e melodias, sem falar em violinos e piano clássico – a pirotecnias típicas dos anos 2000 (mais precisamente, toda sorte de barulhinhos capazes de serem criados diante de um computador).

Apenas cinco faixas bastam para que se perceba que esse Silva não é um qualquer – afinal, alguém que pretende ser reconhecido pelo sobrenome mais comum do país deve ter algo diferenciado a mostrar. Pois bem, ele tem.

O início, “12 de Maio” é arrebatador: uma voz meio suave, permeada por um som eletrônico-carnavalesco canta: “mesmo quando ela não está se arrastando pelo som da batucada, fica pronta pra quem se arriscar, vai dançando ate o fim da madrugada…e a hora passa sempre devagar”. (Soa como um Holger adulto; Los Hermanos moderno.)

A segunda, “Imergir”, com um som sutilmente sintetizado, fala sobre o fim daquele – ou de outro – relacionamento; lançando mão de, literalmente, afogar as mágoas para seguir adiante: “navios dizem recomeço, do mar ninguém chegou ao fim, eu vou deixar seu nome imergir”.

“Visita” (minha preferida), é mais delicada (com violino arremedando folk) e letra simplesmente linda. Relata os preparativos para um encontro – seguido de outros:

“vou lhe fazer uma visita, mas não fica assim aflita, que eu não sou de reparar; não precisa de banquete, nem preocupa com enfeite, não me vai empetecar.

Os velhos discos de bolero, to levando pois eu quero ensinar como dançar, e dizer-lhe ao pé do ouvido, com um tom meio atrevido, dois pra lá e dois pra cá”

“Cansei” começa com um piano clássico, que se moderniza, se eletroniza, e desabafa: “cansei dessa rotina, já não ouço o mesmo som, cansei desse negócio de tentar ser bom. Cansei dos meus retratos, da falsa sensação de ter você por perto no seu coração” – e é linda.

Para terminar, a abafada “Acidental”, passa o risco e fecha a conta de um excelente disco; é mais pop e menos melódica, mas deixa a vontade de se querer ouvir mais desse tal de Silva.

Assim, que venha o álbum oficial de estréia, e tantos outros a seguir. A música brasileira contemporânea só tem a ganhar com artistas que não escolhem o moderno em detrimento da beleza tradicional da canção, mas que misturam o ontem e o hoje com excelência.

Ouça aqui.

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Longe do óbvio

Em meio à profusão de (boas) cantoras nacionais que surgiram recentemente, é cômodo jogá-las todas em um balaio só e dizer que a música popular brasileira, cantada em voz feminina, evoluiu nos últimos tempos. Não deixa de ser verdade.

Porém, dentre elas, algumas optaram por trilhar caminhos mais fáceis –i.e. óbvios, ou comerciais – enquanto outras preferiram fincar sua bandeira em espaços nunca dantes navegados.

Um dos melhores exemplos do último grupo é aquela que lançou um dos melhores discos de 2011, e que continua, com sucesso, fugindo do lugar comum. Ela é Karina Buhr.

A moça tem uma das melhores bandas da música brasileira atual, com Fernando Catatau e Edgard Scandurra nas guitarras, para citar dois dos mais renomados. Seu show é deveras um show… intenso e memorável – em um dos tantos a que assisti, um amigo que me acompanhava disse: “esta é a Florence Welch brasileira”. Pois bem, dada a dramaticidade de suas performances e seu estilo, concordo. E digo mais: é nossa Florence do mangue pernambucano; com todo o calor e a vivacidade que se esperaria.

Karina é contemporânea – ou moderninha, se preferir. Seja no visual descolado e  fluorescente, na sonoridade experimental (que, diferente de outros, dá certo), ou nos temas retratados em sua música.

Quanto aos últimos, em seu mais recente álbum, o excelente Longe de Onde (que consegue ser ainda melhor do que o anterior, o ótimo Eu Menti Pra Você), um dos mais notáveis é a dificuldade de se envolver.

Digo que tal tema é contemporâneo, porque ouso a dizer que “nunca antes na história deste país” – e de tantos outros – o compromisso (em geral) se mostrou tão fora de moda. Pessoas descoladas não se comprometem; são naturalmente bem-resolvidas. Não precisam de nada, nem ninguém – se tomarem um pé na bunda, ou forem preteridas ou dispensadas, continua tudo muito bem. (Duvida? Dá uma olhada no “feice”…)

Somos todos tão independentes que praticamente fazemos fotossíntese para sobreviver.

Pode até ser verdade, mas existe também o reverso da moeda, e foi isto que Karina conseguiu captar tão bem: lado a lado com a pretensa autossuficiência, anda o pavor de se envolver emocionalmente.

Três das faixas de seu álbum falam sobre isso: as ótimas “Não me ame tanto” (“não me ame tanto, eu tenho algum problema com amor demais, eu….jogo tudo no lixo, sempre”),“Pra ser romântica” (“hoje eu dei pra ser romântica, perto de você não me sinto só, de você quero distância”) e a belíssima “Amor brando” – “eu já sinto um calor de amor, de amor, quando você chega aqui (…) só te peço que se aproxime de mim um pouco, mas não tanto, a ponto de eu sentir sua falta quando você for embora”.

E é assim, sendo verdadeira e crua, que Karina se destaca das demais cantoras de sua geração. Jamais segue o caminho mais fácil; não canta samba, tampouco faz questão de ser fofa – duvida que isso seja um diferencial? Pois bem, imagine Tiê, ou Tulipa Ruiz cantando algo como “por favor me dê um copo de veneno pra eu morrer (…) com duas pedrinhas de gelo, pelo menos” (“Copo de Veneno”)?

Por essas e outras, Karina Buhr é experimental, ousada, rock’n’roll, introspectiva e às vezes sombria. Mas se mostra também a mais madura dentre as tantas outras menininhas cantantes por aí. E, ao contrário de outras, merece cada centímetro do espaço que tem conquistado.

Ouça e baixe Karina Buhr, aqui.

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Pra praia

Se, no último post, falamos sobre aquela de que todos falam, neste voltamos à tradição re.verb e abrimos espaço para uma dupla ainda desconhecida, mas que vale a pena ser ouvida: Destry.

Formada em Boston por Michelle DaRosa e Tyler Odom, costura em uma atmosfera vintage (que, paradoxalmente, hoje soa tão moderninha) influências do folk, indie pop e surf rock dos anos 50 e 60.

A dupla lançou dois álbuns independentes, It Goes On (2009) e o delicioso Waiting On An Island (2011).

O último caiu acidentalmente em meu colo e, em pleno verão, não poderia ter vindo em melhor hora.

A faixa de abertura, “This Island” repete o que fez Little Joy, em 2008, com sua “The Next Time Around”: a sensação que se tem ao toque no play é a de que uma janela foi escancarada para o sol entrar.

O nome do álbum também não poderia ser mais apropriado; o clima é de sossego praiano, como se a dupla estivesse sentada à beira-mar, em um final de tarde ensolarado, compondo e tocando enquanto esperam algo – ou alguém – chegar.

A fofíssima “Don’t Break My Heart” remete a She & Him e toda sua doçura retrô (“don’t break my heart again … to put it back together was so hard“).

Smile” é a faixa mais surf – qualquer coincidência com o álbum de mesmo nome dos precursores do surf rock, os Beach Boys, talvez seja mais do que mera coincidência – e faz um apelo à felicidade: “smile though your heart ache, smile though your heart break”.

A dupla também sabe sair da areia: “Gone” mantém a descontração, mas está mais para um pop folk alegre e gostoso (“I can tell that it’s gonna be sunny from now, sunny from now on”); ao passo que mais urbanas e introspectivas são “Alabama” (“sometimes I think I’m alright, but I feel like I’m sleeping away (…) if I make it back to Alabama, it wouldn’t be so hard to find out what I am”) e “It All Worse” – a mais melancólica do disco.

Destry é, enfim, aquilo que muitos esperam do verão: colorido, alegria e um quê de displicência; com belas histórias de amor a tiracolo e uma inevitável nostalgia antecipada pelo fim que se sabe próximo.

 

Resumindo:

o quê? Um encontro de Little Joy com She & Him

onde? Diretamente de Boston, para seus ouvidos, aqui

por quê? O verão ainda não acabou.

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Sem bad

Quando você toma uma cacetada da vida, daquelas agressivas mesmo, que te tiram completamente do prumo – e do rumo – há basicamente duas opções (na minha opinião, ambas muito válidas): primeiro, viver plenamente a aflição e tristeza até que, naturalmente, elas já não doam tanto assim – afinal, já dizia uma professora minha: “é preciso encostar o pé no fundo do poço para se ter impulso para subir de volta”, ou, fazer o exato oposto: sacudir a poeira e tentar driblar a bad vibe com o que de mais alegre possa haver – e quando digo “driblar”, é isso mesmo; é dar olé na tristeza, distrair a maldita e sair correndo sempre que achar que ela está voltando.

Seja qual for a escolha, o mergulho (para cima, ou para baixo…) será ainda mais intenso se acompanhado de música.

Se a primeira for sua opção, música de fossa é o que não falta. Aqui mesmo já falamos de álbum que tem “a bad” no nome e até de uma playlist “na fossinha”.

Por outro lado, se for sua opção for sorrir – mesmo que na marra – sugiro o seguinte videoclip, da dupla fofa Matt & Kim:

Never fails.

(* Matt & Kim é uma dupla novaiorquina – ele nos vocais e teclados, ela nos vocais e bateria – que, se em sua origem, com o álbum Grand era punk até dizer chega, hoje, com o disco Sidewalks, lançado neste ano, continua carregado de batidas/percussão, mas está mais melódico – e melhor, como em “Block after Block” e “Câmeras”)

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Nem aí

Sabe aquele ar blasé, bem marrento mesmo, que alguns fazem questão de manter – e que encarnam tão bem que fica até divertido? A pose de “não gostou? Não estou nem aí… Estou aqui para me divertir. E Cansei de Ser Sexy”.

A banda de mesmo nome, CSS para os íntimos, a mais conhecida das bandas brasileiras gringas (i.e., que cantam em inglês e são mais conhecidas lá fora do que aqui), sempre teve tal atitude – e por isso é tão boa.

Oferecendo seu melhor quando não pretende se levar a sério, liderada pela endiabrada Lovefoxxx, a banda toca um indie pop feito para as pistas, que fica ainda mais cintilante e colorido depois de umas e outras na balada. Balada, aliás, é o pretexto, assunto e objetivo do novo disco, o divertidíssimo La Liberación.

O nome do disco remete não somente à faixa cantada em espanhol – a engraçada e cafona “La Libéración” (“Mami mami mami grita: la la la liberación, te te te liberes”) – mas também à total ausência de amarras quanto a qualquer rótulo ou categoria musical. Ali tem de tudo um pouco, de dance eletrônico para pista, a baladinhas mais suaves (como em “Partners in Crime” e “Red Alert”), passando por nuances de rock e ska – como em “Hits Me Like a Rock”, na qual, soando quase como Rihanna (no melhor dos sentidos que esta frase pode ter…) fala de uma música que toda vez que escuta a faz suar; e que a atinge como uma pedra (ou um rock, como preferir).

Vale dizer que todo esse arco-íris de sons não apenas é notado ao se comparar as faixas entre si, mas também ao longo de cada uma delas – como na ótima “City Grrrl”, que começa como ares de faroeste e descamba para algo que, desta vez, mais parece Ke$ha… e ainda assim é sensacional! (Aliás, nesta faixa, o ar “cansei de ser sexy” assume sua melhor forma: “wish I would dye my hair pink, put a black lipstick, no one would give a shit”.)

Para terminar, na música mais porra-louca do álbum, “Fuck Everything”, (“I’m so high, I’m gonna pump it up, I’m gonna dance all night, even if the music sucks … Hanging with your friends…fuck everything! Kickin’ garbage cans… fuck everything!”) depois de achar que a música e o álbum terminaram (permanece um silêncio de mais de 3 minutos), vem uma voz infantil e sinistra que resume tudo que foi cantado até então: “Hi, my name is Lovefoxxx and I’m 12 years old. I like going to the pub with the gays, I like buying pencils and pens, I like cooking… and I like cookies!

Sisudez zero. E diversão garantida.

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Na garagem

O registro começa em Nova Iorque, com um bombeiro aposentado – e presente no onze de setembro de 2011 – que mal se controla ao dizer que aquilo é a “loteria do rock’n’roll”; e que ele ganhou.

Outro vencedor diz que, se tivesse ganhado na loteria de verdade, teria gastado todo o dinheiro justamente para conseguir o que o prêmio do sorteio real lhe proporcionou: trazer o Foo Fighters para tocar na garagem de casa.

Estes são algumas dos relatos presentes no Foo Fighters Garage Tour, um “documentário” que, ao longo de quarenta minutos, retrata uma das maiores bandas de rock dos últimos anos tocando em garagens espalhadas pelos quatro cantos dos EUA – mais precisamente, Nova Iorque, Washington, Toronto (onde tocam com o próprio dono da casa), Chicago, Denver e Dallas, terminando, claro, em Seattle.

Em cada uma dessas localidades, os sortudos anfitriões – selecionados em uma promoção – recebem a banda em sua casa e assistem a um show restrito e exclusivíssimo, composto principalmente por faixas do álbum mais recente, Wasting Light – disco este gravado, literalmente, na garagem de David Grohl.

O filme, apesar de curto e recheado em sua maior parte pelas performances ao vivo das músicas do Foo Fighters, retrata diversos clichês do rock’n’roll: desde a garagem em si – que está para os roqueiros como o útero para os bebês – até o magnetismo que emana dos rockstars e seu efeito avassalador sobre os fãs – e.g. marmanjos cabeludos chorando, menininhas tremendo…

Mas, sem dúvida, o que mais chama atenção é a simpatia e a ausência de afetação por parte de todos os integrantes da banda – nas palavras do bombeiro novaiorquino que abre o filme: “these are regular guys, they just happen to be rockstars”.

Neste sentido, em alguns momentos, a “gente bonice” dos músicos parece um tanto enfatizada demais – por exemplo, quando o rockstar com menos cara de rockstar no mundo, Pat Smear, dá, sem pestanejar, sua guitarra para um garotinho que faz uma brincadeira com ele; ou quando Grohl tira sua jaqueta de couro e a coloca sobre a cabeça de uma das anfitriãs, para protegê-la da chuva – mas não há como terminar de assistir ao filme sem querer chamar a banda para tomar uma cerveja com você.

Especialmente em relação a Grohl – sobre quem já falamos aqui (modéstia à parte, em um dos posts mais bacanas já publicados pelo re.verb) – a sensação que temos é de que absolutamente tudo que ele fala é legal e espirituoso, a ponto de se pensar que sua simpatia, ao mesmo tempo que o aproxima dos fãs, o torna ainda mais mitificado; você pensa: “caramba, esse cara é um sujeito normal, como eu… mas é sem dúvida o sujeito normal mais foda que existe no mundo”.

Duvida? Assista então, na íntegra, ao vídeo disponibilizado pela banda:

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