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Ajuda

Trata-se de um tema duro e dolorido: a segregação e profunda discriminação dos negros no início dos anos 60, no sul dos Estados Unidos; assunto este que, tamanha sua importância – e respectiva relevância em termos de produção cultural a respeito – já se tornou um clássico da história daquele país.

Especialmente no filme de que falamos neste post, “Histórias Cruzadas” (“The Help”, direção de Tate Taylor) – adaptação do best-seller de Kathryn Stockett, e que estréia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira – a abordagem não é sutil, tampouco exagerada; é direta e óbvia. Além disso, a perspectiva adotada é muito familiar a todo espectador: o ambiente doméstico, maternal; a criação.

Mais precisamente, a narrativa é estruturada a partir do ponto de vista de empregadas negras que, mesmo sendo discriminadas e mal tratadas por suas ricas patroas brancas, silenciosa e carinhosamente cuidam das crianças daquelas

O ciclo então se repete e as crianças, depois de crescidas, também requerem a “ajuda” negra na criação de seus próprios filhos; mas passam a igualmente destratar e desprezar aquelas que, apesar de as terem criado, nasceram com uma cor de pele diferente.

Tal círculo vicioso, no entanto, se quebra no momento em que alguém se arrisca a falar.

 

Como se vê, nesta narrativa se optou por retratar a temática do racismo direcionando a claramente o foco nas mulheres – brancas e negras. Conseqüentemente, questões tipicamente femininas, notadamente o instinto maternal (i.e. espécie do gênero amor incondicional), são trazidas à tona. Mais ainda, surge também o avesso delas, qual seja, a decepção e amargura que é a rejeição vinda de sua própria cria.

Por tais razões, é um filme dramático e que se pretende moral e politicamente engajado. No entanto, trata questões essenciais e atemporais de maneira superficial e pouco sofisticada – nota-se principalmente um maniqueísmo exacerbado, e certo excesso na caricaturização de algumas personagens, principalmente da megera Hilly (Bryce Dallas Howard).

Por outro lado, o tema é tocante por si só e o filme conta com belas atuações de atrizes como Viola Davis (ótima, indicada ao Oscar deste ano), Octavia Spencer (também indicada e vencedora do Sag Awards por este papel) e Emma Stone. Assim, emociona.

Em resumo, não é um clássico do cinema; mas um clássico filme americano.

(“Histórias Cruzadas”,“The Help”, direção de Tate Taylor, EUA 2011; baseado na obra “The Help”, de Kathryn Stockett – em português, traduzido para “A Resposta”, Ed. Bertrand Brasil)

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Fora do trilho

Quando as coisas saem do trilho, e o trem ruma para a direção oposta da anunciada, reações igualmente inesperadas ocorrem. Diante do imprevisível, como saber qual a melhor forma de agir?

Esta é uma das questões postas em Confiar (Trust, de David Schwimmer). A história ali contada é a de um ambiente em que tudo estava muito bem, até não estar mais.

Annie (Liana Liberato) é uma adolescente de 16 anos que, assim como tantas, presta mais atenção na tela de seu celular e em seu computador do que no mundo à sua volta; para ela, interagir socialmente é trocar mensagens de texto. Ocorre que, se quando se olha no olho de uma pessoa já não é fácil saber o que de verdade há ali, quando a relação se consolida atrás de um teclado, então, confiar é ainda mais difícil.

E a garota descobre tal desassossego da maneira mais dura.

Encanta-se por Charlie, quem, no princípio, acredita ter também 16 anos. Conforme as conversas se intensificam, ele diz que é um pouco mais velho, que tem 20 anos. Papo vai, papo vem, ele confessa ter 25. Quando finalmente se encontram, ela percebe que não é bem assim; que ele deixou de ter 25 anos há muito tempo.

Ainda assim, ela confia; e crente no amor que o homem lhe promete, segue adiante. E o trem descarrila de vez.

Descarrila não apenas porque o espectador se vê diante de uma história permeada pelo incômodo e perturbador tema da pedofilia, como também porque as reações desencadeadas a partir de então parecem sempre seguir na direção inversa do esperado.

Na medida em que a família descobre o que ocorreu, uma crise explosiva se instala no ambiente familiar outrora tão tranqüilo; seu pai, William (o excelente Clive Owen), vê o chão sumir de sua frente, e sentimentos os mais diversos e insuportáveis o acometem: a filha, que antes só lhe trazia alegrias, agora faz nele aflorarem rompantes de impotência, raiva, culpa e repulsa.

Dessa forma, com as peças desarrumadas sobre o tabuleiro, ninguém consegue lidar com a situação: nem Annie, quem demora a se perceber vítima; nem William, que só pensa em botar as mãos naquele que tocou sua filha, mas se esquece de a amparar. (Em um determinado momento, a terapeuta de Annie – interpretada por Viola Davis – diz àquele: não podemos evitar que coisas ruins aconteçam a nós ou àqueles que amamos; e tudo que podemos fazer é estar sempre por perto para ajudar o outro a se levantar da queda.)

Além de belas atuações, o filme também se destaca por sair do lugar comum, na medida em que corajosamente tangencia questões delicadas: até que ponto um ato consentido é violento; ou em que medida uma adolescente é capaz de consentir (neste sentido, há uma ótima cena em que o colega de trabalho de William, ao descobrir o ocorrido, diz algo como: “nossa, que susto, quando você falou que ela havia sido violentada, eu pensei que tivesse sido um estupro de verdade”).

Ainda assim, apesar de incômodo, o filme é longe de ser chocante ou moralmente revolucionário; pelo contrário, é sensível e foge de toda forma de maniqueísmo. É, enfim, um dos melhores filmes em circuito neste ano.

(Confiar, Trust, de David Schwimmer)

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De mentirinha

Mamãe já disse que mentira tem perna curta. Mentira contada por filho, então, não tem jeito: é só uma questão de tempo até que ela descubra.

Mas e se a mentira for só “uma mentirinha”, daquelas bem intencionadas? Por exemplo: se você visse sua mãe triste, acabada, em frangalhos por conta do fim do casamento com seu pai e resolvesse lançar mão de algo “de veracidade duvidosa” para deixá-la mais feliz?

Este é justamente o enredo de “Uma Doce Mentira” (“De vrais mensonges”, de Pierre Salvadori), comédia romântica (mais comédia do que romântica) em que Audrey Tautou (a.k.a Amelie Poulin) é Emilie, uma filha pragmática e um tanto insensível que, ao não se sentir nem um pouco tocada por uma linda carta de amor anônima que recebe, resolve endereçá-la a sua mãe, Maddi (a ótima Nathalie Baye), a fim de tentar fazer esta sorrir novamente.

O espectador, no entanto, sabe desde o início que o admirador secreto é Jean (Sami Bouajila), quem, apesar de ultraqualificado para o emprego (é poliglota, cultíssimo, etc.), trabalha no salão de cabeleireiro de Emilie como responsável pela manutenção e eletricidade do local.

Tamanho é o efeito da carta sobre Maddi, que a filha não se vê capaz de fazer outra coisa a não ser perpetuar a mentira – e, assim, vai se enrolando cada vez mais em uma teia de mal entendidos e confusões.

Com o estopim para um incontrolável encadeamento de eventos aceso do início ao final do filme, nós, espectadores, nos vemos diante de uma bola de neve composta por situações as mais cômicas – que, não raras vezes, nos deixam ruborizados e com vergonha alheia. Ficamos também aflitos, tensos com a próxima trapalhada por vir.

Trata-se assim, de um filme que entretém, leve e divertido, sem deixar de ser esperto e incomum. Apesar do imbróglio todo – ou justamente por conta dele – é interessante ver a evolução de Emilie, que quanto mais se enrola, mais vê seu coração amolecer; o coração que, outrora, parecia tocado apenas pela dor da mãe – ainda que se possa questionar se ela estava efetivamente compadecida, ou simplesmente envergonhada das atitudes malucas daquela – passa a também sentir por conta própria. A partir de então, sente dor e prazer de verdade.

(“Uma Doce Mentira”, “De vrais mensonges”, de Pierre Salvadori)

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Na garagem

O registro começa em Nova Iorque, com um bombeiro aposentado – e presente no onze de setembro de 2011 – que mal se controla ao dizer que aquilo é a “loteria do rock’n’roll”; e que ele ganhou.

Outro vencedor diz que, se tivesse ganhado na loteria de verdade, teria gastado todo o dinheiro justamente para conseguir o que o prêmio do sorteio real lhe proporcionou: trazer o Foo Fighters para tocar na garagem de casa.

Estes são algumas dos relatos presentes no Foo Fighters Garage Tour, um “documentário” que, ao longo de quarenta minutos, retrata uma das maiores bandas de rock dos últimos anos tocando em garagens espalhadas pelos quatro cantos dos EUA – mais precisamente, Nova Iorque, Washington, Toronto (onde tocam com o próprio dono da casa), Chicago, Denver e Dallas, terminando, claro, em Seattle.

Em cada uma dessas localidades, os sortudos anfitriões – selecionados em uma promoção – recebem a banda em sua casa e assistem a um show restrito e exclusivíssimo, composto principalmente por faixas do álbum mais recente, Wasting Light – disco este gravado, literalmente, na garagem de David Grohl.

O filme, apesar de curto e recheado em sua maior parte pelas performances ao vivo das músicas do Foo Fighters, retrata diversos clichês do rock’n’roll: desde a garagem em si – que está para os roqueiros como o útero para os bebês – até o magnetismo que emana dos rockstars e seu efeito avassalador sobre os fãs – e.g. marmanjos cabeludos chorando, menininhas tremendo…

Mas, sem dúvida, o que mais chama atenção é a simpatia e a ausência de afetação por parte de todos os integrantes da banda – nas palavras do bombeiro novaiorquino que abre o filme: “these are regular guys, they just happen to be rockstars”.

Neste sentido, em alguns momentos, a “gente bonice” dos músicos parece um tanto enfatizada demais – por exemplo, quando o rockstar com menos cara de rockstar no mundo, Pat Smear, dá, sem pestanejar, sua guitarra para um garotinho que faz uma brincadeira com ele; ou quando Grohl tira sua jaqueta de couro e a coloca sobre a cabeça de uma das anfitriãs, para protegê-la da chuva – mas não há como terminar de assistir ao filme sem querer chamar a banda para tomar uma cerveja com você.

Especialmente em relação a Grohl – sobre quem já falamos aqui (modéstia à parte, em um dos posts mais bacanas já publicados pelo re.verb) – a sensação que temos é de que absolutamente tudo que ele fala é legal e espirituoso, a ponto de se pensar que sua simpatia, ao mesmo tempo que o aproxima dos fãs, o torna ainda mais mitificado; você pensa: “caramba, esse cara é um sujeito normal, como eu… mas é sem dúvida o sujeito normal mais foda que existe no mundo”.

Duvida? Assista então, na íntegra, ao vídeo disponibilizado pela banda:

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Circunstâncias

Circunstâncias, por definição, são situações externas, impostas de fora. Circunstâncias podem unir e separar pessoas; ajudar ou atrapalhar; mas, sejam quais forem, elas mudam.

E justamente quando novos e melhores ares chegam, é possível fazer com o que a essência de cada um – outrora abafada por determinada situação – aflore.

É essa a tônica de “Potiche: Esposa Troféu” (“Potiche“, de François Ozon). Ali, a eternamente bela Catherine Deneuve é Suzanne Pujol, uma beldade que se casou com o mau-humor encarnado, Robert (Fabrice Luchini), e se deixou transformar em uma “potiche”, uma mera peça de decoração (ou, como se preferiu traduzir, uma “esposa troféu”), feita para ficar em casa – sempre com a aparência impecável – cuidando da família, sem emitir quaisquer opiniões.

Suzanne herdou do pai uma fábrica de guarda-chuvas, mas, seguindo a lógica, o bastão foi automaticamente passado para seu marido. Este, um patrão autoritário e gestor intransigente, conduz o negócio aos trancos e barrancos até que, com o deflagrar de uma greve, circunstancialmente é obrigado a se afastar.

Diante da falta de interesse e compostura dos filhos, quem assume o posto é Madame Pujol.

Surpreendentemente (?), esta não apenas acalma os ânimos dos trabalhadores, como oferece novas perspectivas à empresa. Mais importante, Suzanne reconhece e deixa surgir uma faceta, a de mulher com liderança e inteligência, a que até então não havia podido dar vazão.

Nesse sentido, deixa também reaparecer suas paixões, incluindo um amor do passado, o comunista Babou (Gerard Depardieu) e, pela primeira vez em muito tempo, permite-se a tomar as rédeas de seus sentimentos – e de sua vida.

Tal enredo, contudo, não é de forma alguma retratado de maneira melodramática, ou excessivamente crítica; muito pelo contrário. É uma comédia de costumes light – que por vezes chega a ser demasiadamente caricata – e que, principalmente pelas atuações de Deneuve e Depardieu, entretém.

(“Potiche: Esposa Troféu“,Potiche”, de François Ozon, 2010)

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Fantástico

No primeiro ano da faculdade de direito, em meio a dezenas de jovens ávidos por se passarem por sérios e adultos, lembro-me de um sábio professor dizer: “todo mundo precisa de um pouco de ficção na vida”.

Hoje, não apenas enxergo o real valor dessa frase, como acrescento: todo mundo precisa também de um pouco de fantasia.

Fantasia é aquele quê de mágica, de inexplicável e irracional, que, felizmente, tinge alguns (dos melhores) momentos que alguém pode ter. É aquela coincidência feliz e estranha; uma linda surpresa, impossível de se imaginar; é o que justifica os momentos em que tudo parece bom demais para ser verdade – quando tudo parece um sonho.

E foi justamente esta a sensação captada por Woody Allen em seu novo – e ótimo – filme, “Meia-Noite em Paris” (“Midnight in Paris”).

Ali, Gil (Owen Wilson), um adorável e atordoado escritor – que lembra muito as personagens vividas pelo próprio Allen, em outras obras – se vê inquieto e confuso às vésperas de seu casamento com a linda e insuportável Ignez (Rachel McAdams), em uma das mais fascinantes cidades do mundo, Paris.

Se, para Ignez e sua família, aquela é uma cidade boa para se fazer compras e passar alguns poucos dias de férias, para Gil é o local ideal para se viver; onde se guardam, incrustados em suas vielas e pontes, o auge da riqueza artística e boa parte da efervescência cultural do último século.

E é justamente nesta cidade, onde a diferença de valores entre ambos se torna ainda mais evidente, que, num passe de mágica, à meia-noite, Gil é transportado para o período que mais gostaria de ter vivido – as noites parisienses dos anos 20 – para se defrontar com seus ídolos (o casal Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Miró, Bruñel, etc.) e perceber que, se vivesse na época que considera a mais genial, poderia pertencer àquele círculo – o que, conseqüentemente, o faz enxergar seu valor e sua essência, também no “presente”.

Ainda, o filme retrata a insatisfação (nostalgia?), tão notável nos dias de hoje, de que os momentos contemporâneos são sempre piores do que os anteriores. A boa e velha saudade do que não se viveu é pintada por Allen como algo natural às mentes inquietas – e comum a todas as épocas.

Mais do que isso, o filme propõe que esse sentimento seja encarado de frente (ainda que em devaneios surreais) e assimilado plenamente para que, a partir da compreensão do que de fato se admira na vida de outrora, seja possível lidar com os tempos atuais.

É, enfim, uma das melhores obras de Woody Allen dos últimos tempos; diversão inteligente, que entretém e satisfaz. Vale muito a pena.

(“Meia-Noite em Paris” ,”Midnight in Paris”, de Woody Allen, 2011).

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Blue Valentine

Sabe quando você ouve uma música que, de tão perfeita, te tira do prumo? Quando, à primeira escutada, você tem certeza de que aquela é a música da sua vida; que faz todo o sentido, que foi feita só para você?

Você a escuta por dias a fio, coloca no repeat sem parar e não se cansa; rabisca o refrão no bloquinho de anotações ao lado do telefone; acorda e dorme com ela na cabeça.

Pois bem, o tempo passa e eis que, de repente, um certo dia, sem ter porquê, a mesma música já não emociona. Você a ouve e nada sente; mal percebe que é ela que está tocando.

Com histórias de amor, pode acontecer o mesmo.

E é justamente este o enredo de Blue Valentine (de Derek Cianfrance, pessimamente traduzido para Namorados para sempre). Ali, duas histórias de amor, compostas pelos mesmos personagens, Cindy (Michelle Williams, ótima como sempre) e Dean (Ryan Gosling, também excelente) correm em paralelo; uma contando o começo, e a outra o fim de um relacionamento.

Novamente, como acontece em Barney´s Version (já contamos aqui), o amor retratado é cru, desnudo de qualquer véu de sofisticação ou artificialidade. Da insaciedade e urgência do começo, ao triste e agonizante processo que culmina no fim, tudo é escancarado – até a câmera filma sem pudores, abusando de closes que captam em cada expressão aquilo que há de mais íntimo; do prazer, à dor.

Ali, a mesma música que embala o começo – a excelente “You and Me”, de Penny and the Quarters – também é a trilha do fim. Os personagens também são os mesmos, mas aquilo (o amor?) que parecia invencível e inabalável, de repente se esvai – sem qualquer motivo especial.

Como tantas outras, essa é a história de um amor que nasce lindo, promissor, mas que, com a mesma espontaneidade, encrua; morre sem mais nem menos.

Não é o filme mais propício para encantar casais nesta véspera de Dia dos Namorados, mas é um belíssimo – e triste – alerta para qualquer um que se aventure em amores por aí.

Vale a pena.

(Blue Valentine, de Derek Cianfrance, 2010)

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Coração doce

Doces franceses, normalmente, não são dos mais açucarados; têm doçura na medida certa. No caso do filme “Como Arrasar um Coração” (“L’arnacoeur”), de Pascal Chaumeil, contudo, o confeiteiro parece ter perdido a mão: é doce de doer os dentes.

O enredo em nada se difere das baciadas de comédias românticas – hollywoodianas – que se vêem por aí: Alex Lippi (Romain Duris) é um malandro que, junto com sua irmã e cunhado, prestam um serviço um tanto questionável: desfazer relacionamentos. Mais especificamente, parentes e amigos de mulheres supostamente envolvidas com “maus elementos”, contratam Alex para que ele – com seu charme francês aliado, a todos os clichês amorosos – “abra os olhos” da moça. Veja bem, em tese, seu papel não é fazer com que e se apaixonem por ele – o limite permitido é apenas um beijo – mas mostrá-las, em um breve momento de paixonite e encantamento, que seus relacionamentos são insuficientes; que mereceriam homens melhores.

A trupe, contudo, trabalha de acordo com alguns “princípios”, sendo o principal a recusa de interferir em relacionamentos felizes – existiriam três tipos de mulheres: as felizes, as infelizes assumidas e as infelizes que desconhecem sua condição. Apenas o último grupo seria o alvo.

Tal regra fundamental, no entanto, é botada em xeque quando Alex, endividado, decide aceitar a tarefa de romper o aparentemente perfeito e apaixonado relacionamento de Juliette Van Der Beck (a Coco Rouge Chanel – e mulher de Johnny Depp – Vanessa Paradis).

Não é nada surpreendente dizer que, diante de tamanha dificuldade, Alex acaba se interessando pela moça e, a partir de então, as nuances de ironia que permeiam o filme no início, descambam para a pura água com açúcar.

O mote, por exemplo, daria ensejo a se explorar questões mais profundas e interessantes de relacionamentos insatisfatórios: o porquê da preferência ao conformismo em contraponto à perspectiva de se ver sozinho; o que, de fato, preenche os relacionamentos; e até, em última análise, o questionamento da medida em que é possível se classificar estaticamente determinada relação como “feliz” ou “infeliz”, “satisfatória” ou “insatisfatória”.

Nada disso, contudo, surge ali. Para quem busca uma comédia romântica divertidinha – e, só para variar, em francês – é uma boa pedida; o filme adoça bem a boca, mas não mata a fome.

(“Como Arrasar um Coração”, “L’arnacoeur”, de Pascal Chaumeil)

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Cada um com seu filme

A experiência de se assistir a um filme é sempre algo muito particular. A mesma obra causa, em cada espectador, reações distintas e, inevitavelmente, as cenas e situações retratadas causam maior ou menor impacto na medida em que remetem a vivências daquela pessoa em especial.

Cada filme, portanto, gera uma lembrança única naquele a que o assiste. O designer e fotógrafo sueco Viktor Hertz levou adiante a idéia de retratar sua percepção de certas obras cinematográficas e criou, em preto e branco, pôsteres minimalistas e espertíssimos com alguns símbolos marcantes dessas obras.

Sintetizando o que importa de cada filme melhor do que muita resenha por aí…

(Gostou? Relembre os pôsteres geniais de Vahram Muratyan, sobre símbolos de Paris e Nova Iorque que mostramos outro dia aqui no re.verb).

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A graça de se ser comum

Quantas histórias de amor perfeitas você, de fato, já viu? Daquelas em que um mocinho (sempre lindíssimo) encontra uma mocinha (também uma beldade, claro) e, apesar de alguns pequenos percalços, acaba a conquistando para o resto de suas vidas?

Hollywood – e novelas – nos fazem crer que encontros como esses acontecem a cada esquina. Mas, no dia a dia, quando se fala em pessoas normais, que têm rotinas, chefes chatos, contas a pagar e quilinhos a mais, isso existe? Nunca vi.

A Minha Versão do Amor (Barney’s Version) não te faz suspirar, muito menos se sentir como se a perfeição de um mundo cor de rosa fosse feita para qualquer um, menos você.

É a história de um grande amor – porque, sim, eles acontecem – na vida de alguém banal, medíocre; um ser humano cheio de vícios, defeitos e idiossincrasias.

Barney Panofsky (Paul Giamatti) é um sujeito feioso, nada brilhante, que, longe de ter uma carreira expoente ou uma família convencional (basta dizer que seu pai é Dustin Hoffman – impagável), enche a cara pelo prazer de ficar bêbado e fuma charuto pelo prazer de fumar. Barney faz besteira, tem amigos bagunceiros e vai empurrando a vida com a barriga.

Ele até se aventura algumas vezes naquilo que acredita ser amor – i.e. casamento – mas, em um jogo de tentativa e erro, enquanto vê o tempo passar, sente que lhe falta algo; algo que ainda não encontrou.

Encontra, enfim, quando menos espera: em um de seus casamento – e não é a noiva…

Irreal? Não sei. Histórias mirabolantes existem aos montes por aí: na vida de pessoas normais, mulheres estonteantes podem, sim, se apaixonar por sujeitos desengonçados – por que não? –; há, também, espaço para loucuras românticas e histórias improváveis; mas, ainda bem, tudo isso é permeado por horas mundanas, dias em que nada de especial acontece, arrependimentos e criancices.

É justamente aí que está a graça – na vida e no filme. Porque gente real não é de plástico; amores reais não são assépticos.

Cada um tem sua versão do amor. Estas são, a um só tempo, feias e lindas; sujas e sublimes; deliciosamente medíocres e humanas.

(A Minha Versão do AmorBarney’s Version, de Richard J. Lewis)

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