re.verb

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SP Fashion Music

Se Marc Jacobs é não apenas um dos melhores estilistas da atualidade, como também um artista nato – daqueles que imprime, a cada coleção, como num bom álbum, atmosfera e temática coesas e consistentes (apesar das diferenças entre as peças/faixas), ao mesmo tempo em que mantém intocada sua identidade criativa – no Brasil, o equivalente é Alexandre Herchcovitch.

Se, na temporada primavera-verão passada, a coleção de Herchcovitch foi simplesmente uma das coisas mais bonitas que já vi

com uma profusão de cetins que mais pareciam uma daquelas caixas de Caran d’Ache que ganhamos quando criança – o desfile deste ano, incrivelmente delicado – menos colorido e gráfico, mas ainda abusando de toda a fluidez desses tecidos – também me encantou, como de praxe.

No entanto, ao lhe assistir, e ao ver estas peças em especial, a primeira coisa que me veio à cabeça foi Tulipa Ruiz: “Hoje não vou mais partir/ Você voltou de vez, de mala, cuia e um presente: a promessa de continuar a fazer da minha vida um bordado de renda, de chita filó/ Brocal dourado…”

Curti a brincadeira e resolvi tentar casar outras peças de desfiles que rolaram no São Paulo Fashion Week até agora a referências musicais bacaninhas…

Animale, “Purple haze all around/Don’t know if I’m coming up or down/ Am i happy or in misery? What ever it is that girl putt a spell on me” (“Purple Haze”, Jimi Hendrix)

Iódice, “Show we ‘low quotations/Have you earned your stripes? Fabricate salvation/Lord, I know your type/ I’ve known you all my life/ I was always wrong, you all in white” (“All in White”, The Vaccines)

 

Tufi Duek – Angles, The Strokes

e

 

Glória Coelho Dark Side of the Moon, Pink Floyd

E aí, vamos combinar?

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Pensando moda

Ontem começou a 15a edição da semana de moda de São Paulo – hoje chamada de São Paulo Fashion Week – e, para além da profusão de desfiles, tecidos e beldades, este que é o evento mais importante do gênero no País, poderia evocar também discussões mais profundas e produtivas sobre a importância da moda em si.

Nesse sentido, para entrar no clima, sugiro aqui a leitura de um livro muito interessante: MODA – Uma Filosofia (Editora Zahar, 2010), do filósofo norueguês Lars Svendsen.

Admito que, ao me deparar com o título, imediatamente torci o nariz; tenho inúmeras ressalvas a qualquer coisa que se proponha como “uma filosofia” (poucas frases me tiram mais do sério do que: “isso é uma filosofia de vida”….), mas garanto que ali é filosofia de verdade. Justamente por isso, não é uma leitura muito fácil, mas é extremamente instigante.

Logo na introdução, Svendsen se propõe a defender a “dignidade acadêmica” da moda como objeto de estudo filosófico, e, para tanto, fazendo referência a inúmeros pensadores (de Roland Barthes e Georg Simmel a Kant, Hegel e Adam Smith) que já ressaltavam, seja de maneira tangencial ou mais aprofundada, a importância da moda como um fenômeno social, busca definir o conceito de moda a ser empregado na obra.

Nesse sentido, o termo “moda” tem um referencial mais estreito que o termo “roupas”, já que há também uma série de fenômenos não relacionados a estas, mas que podem ser descritos como “moda” (nos mais variados campos, como artes, decoração, política, ciência, etc.).

Mais especificamente, o conceito de moda seria sustentado por dois pilares básicos: mudanças sucessivas (a substituição de uma norma estética duradoura por outra) e a individualidade humana (há um vínculo entre moda e identidade; todos nós temos de expressar de alguma maneira quem somos através de nossa aparência visual).

Mais ainda, a moda passa a “indicar a direção” da própria Modernidade, na medida em que há na primeira um traço fundamental da última, qual seja, a “abolição de tradições”, a emancipação pelas mudanças sucessivas – “ser moderno” torna-se sinônimo de “ser novo”; e é “a novidade que torna a moda sedutora”.

Como se vê, eu poderia passar horas – ou melhor, páginas – comentando e compartilhando os insights do livro; pensando moda junto com Svendsen, mas, quero parar por aqui, deixando duas sugestões: 1) leiam o livro. 2) não subestimem o valor, tampouco a profundidade da moda.

 

(Lars Svendsen , MODA – Uma Filosofia, Editora Zahar, 2010)

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Papai Noel 2

Continuando a série de dicas re.verb para o Natal, aqui vão algumas dicas para presentes de mulherzinha.

Uma loja

Simultanea, Rua Aspicuelta, 207

Nos últimos anos, Vila Madalena tem virado referência não apenas de bares, botecos e afins, mas também de lojinhas descoladas. Os principais redutos de compras são as ruas Harmonia e Aspicuelta. Na primeira, a começar pela flagship ecossustentável da Farm, notam-se inúmeras lojas de roupas (como a fofinha Dona Pink, a rock’n’roll King 55 e a recém aberta Te Quiero), acessórios (como bolsas e sapatilhas da Lê Sacs e bijouterias – de vidro! – da Rebeca Guerberoff) e decoração (como a Oficina de Agosto, repleta de móveis artesanais brasileiros).

Na Rua Aspicuelta não é diferente: há ótimas opções, como Ronaldo Fraga, Fernanda Yamamoto e, a minha preferida, a Simultanea – assim mesmo, sem acento.

A última está na Vila há um certo tempo, mas também tem raízes em Trancoso e, talvez justamente por isso, mantém vivo o espírito alternativo – sem deixar de lado a qualidade impecável de suas peças. Tudo ali é deliciosamente fresco: sejam os lindos vestidinhos, saias e camisetas de linho e algodão, tingidos ali mesmo, no ateliê nos fundos – cujas estampas sempre são, a um só tempo, lindas, coloridas e sofisticadas –  ou o ambiente arejado e luminoso da loja – sem contar a trilha sonora, sempre repleta de bons nomes da música brasileira.

Vale dizer também que o corte das peças possui algum segredo misterioso, pois veste perfeitamente todos os tamanhos, sejam as menininhas pequeninas, ou os mulherões de plantão. O melhor exemplo desse feito são os vestidos em A, sem mangas e com alças largas; com ou sem bolsos, mais ou menos curtos. A cada estação, inúmeras variações, com as mais diversas estampas são feitas e, inexplicavelmente, tais peças são ao mesmo tempo perfeitas para a praia e para o trabalho.

Por isso, fica aqui a dica para quem não quer se aventurar em shoppings e afins, mas quer roupas estilosas e de extrema qualidade. Depois de passar por lá, uma cervejinha nos bares das redondezas cai ainda melhor.

 

Um batom


Gabrielle, Rouge Coco CHANEL

No famoso post sobre batons vermelhos, comentei sobre este tesouro. É um batom realmente vermelho, daqueles de arrasar quarteirão. Uma vez, estava com ele no Studio SP e, no banheiro, duas mulheres imploraram para que eu lhes emprestasse…outra vez, me pararam na rua para perguntar qual era o nome daquele “vermelho tão lindo”.

Em se tratando de Chanel, a qualidade é sempre excepcional. Quando se fala de batons Chanel, não é diferente; poucos conseguem aliar tão bem altíssima pigmentação a cremosidade, é realmente delicioso de se usar.

Aliás, tamanha é a importância que aquela casa dá aos batons, que, quando da criação de uma das bolsas mais famosas e tradicionais do mundo – a Chanel 2.5. – já havia no interior de cada exemplar um espaço reservado exclusivamente a eles.

Trata-se, portanto, de um presentão…uma declaração de amor à feminilidade. Sortuda de quem receber do Papai Noel algo assim!

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Smack!

Muito divertida a matéria publicada na Veja desta semana sobre o suposto efeito avassalador dos batons vermelhos sobre a atenção masculina (“O poder da boca vermelha”, por Daniela Macedo, Revista Veja, 8 de dezembro, p. 114).

Ali, faz-se referência a um estudo da Universidade de Manchester que concluiu que, enquanto um homem olha para o rosto de uma mulher, passa, em média, 73% do tempo com o olhar fixo nos lábios daquelas que estão de batons vermelhos.  Quando se trata de tons rosa, a taxa é 67% e, quando as bocas estão menos coloridas, tons nude ou cor de boca, o valor despenca para 2,2%.

Como adepta ferrenha desses tons perigosos, resolvi entrar no jogo e compartilhar os meus batons vermelhos (ou quase vermelhos) preferidos.

1)   So Chaud, MAC – um quase laranja meio mutante, varia do tomate para o coral dependendo da luz. Exige uma certa coragem, mas é lindo.

2)   Russian Red, MAC – o famigerado batom de Dita Von Teese. É mate, mas tem uma textura ótima que fixa muito bem e não deixa a boca seca. O vermelho definitivo.

3)   Red Lizard, NARS – meu favorito. Um vermelho bem fechado, super opaco e seco. Ultra pigmentado, dura horas. O melhor jeito de passar é fazer o contorno com um lápis (uso o Brick, da MAC) e colocar bem pouquinho de lipbalm por cima, para não ficar ressecado. Quando morrer, quero ser enterrada com ele.

4)   Gabrielle, Rouge Coco CHANEL – delicioso de se usar, é bem cremoso (mas nada brilhante) e não tem a mesma fixação dos dois anteriores – o que não deixa de ser bom, porque aqueles não saem por nada. É um vermelho um pouco mais aberto e divino.

5)   Cherry Lush, Tom Ford – ganhei no domingo e ainda não usei, mas estou perdidamente apaixonada. Só de testar na mão fiquei arrepiada com a textura: o batom mais macio que já testei. É também ultra pigmentado. Amor à primeira vista.

6)   Rouge Parfait RD 516, Shiseido– ainda que na foto não pareça, é muito mais um rosa bem escuro e fechado do que um vermelho. É mais cremoso e pigmentado do que o Chanel aqui embaixo. Fica maravilhoso em peles mais branquinhas.

7)   Porto Rotondo, Aqualumière CHANEL – é bem cremoso, tem um tico de brilho e muda bastante conforme a quantidade de camadas passadas; pode ser quase um  Chapstick de cereja, ou um pink-querendo ser vermelho. Ótimo para quem está começando no mundo dos vermelhos.

 

Às meninas não acostumadas a esses tons, peço encarecidamente para que revejam seus conceitos, respirem fundo e experimentem. É, no mínimo, um bom divertimento.

Aos meninos (se é que algum deles leu o post até aqui…), apreciem à vontade… Só não deixem de prestar atenção no resto…

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Alpargatas rosa

Sempre acreditei que um pouco de cafonice não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário, seja em qual for a área da vida, doses de breguice genuína podem ser geniais.

É difícil definir o brega e o cafona…mas pode-se começar por dizer que algo é cafona quando tudo é demais; colorido demais, emotivo demais, alegre demais… Mas, se isso é brega, se brega é o que é vivo; se é cor, amor, alegria; se é a anti-sisudez, os cleans que me desculpem, mas breguice é então fundamental.

São Alpargatas cor-de-rosa – como o par que ganhei hoje – almofadas de chita jogadas sobre o sofá, rosas vermelhas, declarações de amor escancaradas, chamar alguém de “baby”, sanfona, tango, samba…

Novamente, o brega tem flertado com o cult, seja na moda, com Karl Lagerfeld revivendo os duvidosos tamancos; seja na música, com influências mais fortes da tropicália, da jovem guarda, do iê-iê-iê e das vibrações místico-psicodelicas de Raul Seixas – vide os últimos trabalhos de nomes como Arnaldo Antunes, Garotas Suecas, e Marcelo Jeneci.

Este ultimo é a voz de um som excelente…lançará em dezembro aquele que certamente será um dos melhores álbuns brasileiros de 2010, Feito para acabar (o vídeo acima, de “Pra sonhar”, abre as portas para o mundo de Jeneci).

Jeneci é um alegre romântico, daqueles que sabe como poucos fazer uso das raízes nordestinas e das amizades musicais – como o pessoal do Los Hermanos, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata, etc. (em relação à última, vale dizer que ele foi um dos responsáveis pelo dulcíssimo hit “Amado”). É também deliciosamente brega e, assim como meu par de Alpargatas cor-de-rosa, é capaz de alegrar até mesmo os dias mais cinzas.

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Musas

“O que é bonito é pra se mostrar”. Quem nunca ouviu essa frase? Já me foi dita por pessoas as mais diversas; da minha avó – que me achava recatada demais – aos pedreiros da obra na rua de baixo da minha casa…seja qual fosse a intenção àquelas ocasiões, para fins deste post o objetivo é um só: compartilhar minhas duas musas inspiradoras: Daria Werbowy e Freja Beha.

Comum a ambas: beleza angelical, sem o menor pingo de fragilidade; ar desencanado, mas sofisticado; tatuagens e rock’n’roll.

Daria Werbowy: descolada e divina; figura impecavelmente em campanhas de beleza das clássicas maisons e, ao mesmo tempo, jamais perde a atitude que melhor interpretou o estilo marrento e hardcore da febre Balmain dos últimos anos.

Freja Beha: Karl Lagerfeld e o mundo se apaixonaram por essa mistura andrógena, sexy e perigosa – o revólver tatuado no braço e os dizeres “the world tonight is mine” e “this too shall pass” (são 16 tatuagens, por ora) só aumentam o mistério e despertam ainda mais o fascínio por ela.

 

sexo, moda e rock’n’roll

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Carro-chefe

Originalmente, o termo “flagship” surgiu para indicar, em uma capitania, o navio líder, o mais importante da frota. Ao longo do tempo, o termo deixou de ser empregado necessariamente no contexto marítimo e passou também a evocar os principais produtos, lojas, construções, etc. de determinada marca, ou empresa. Se em inglês era a “nau líder”, em bom português, é o “carro-chefe”.

Assim, quando se fala em “flagship store”, faz-se referência a grandes lojas – que normalmente se localizam em pólos comerciais fortes, voltados a consumidores de renda alta – cuja função é, essencialmente, servir de vitrine e chamariz de determinada marca. Dessa forma, além de oferecerem ambientes bacanérrimos e produtos exclusivos, carregam conceitos e propostas inovadoras que as diferenciam das demais lojas do segmento e contribuem para a identidade da marca em questão – seja reforçando determinada identidade (ou imagem), ou sendo o primeiro passo de uma mudança de rota.

Um bom exemplo brasileiro de como utilizar as flagships para consolidar determinada identidade é a Farm. A fim de reforçar a imagem de “marca da menina carioca”, a Farm abriu, em 2007, sua primeira flagship, em Ipanema e, em 2009, na Vila Madalena, em São Paulo. Comum a ambas foi a preocupação de imprimir nas lojas determinados “valores” como a exaltação do way of life carioca – aos finais de semana há rodas de samba, biscoito Globo e cerveja Devassa… – e conceitos como a sustentabilidade – a loja paulista, projetada pelo premiado escritório Tryptique, foi construída conforme uma “arquitetura verde”, a qual, dentre outros aspectos, conta com sistema próprio de tratamento e reutilização da água e paredes recobertas por camadas vegetais.

Por outro lado, um exemplo recente de tentativa de se transformar a identidade de determinada marca por meio de flagships é o da C&A.. A marca inaugurou hoje, no Shopping Iguatemi, espaço que ocupa há 12 anos, sua primeira flagship. O re.verb, claro, esteve lá.

Para a inauguração (com direito a desfiles, espumante e modelos circulando pelo espaço), a C&A contou com parcerias como Maria Bonita Extra, Valisére e Renato Kherlakian (ex-Zoomp) – que criou uma nova marca, Soul, exclusivamente de jeans  – além de microespaços dedicados a cosméticos, bijouterias e marcas itinerantes. Ainda, já estão programadas coleções exclusivas assinadas por Isabela Capeto, Glória Coelho e Espaço Fashion.

Diante de tamanho investimento, a questão que ficou foi: até que ponto uma loja, por mais moderna e bem projetada que seja, é capaz de recriar uma imagem e determinar novos rumos? Se por um lado, como no caso da Farm, constatou-se ser possível uma flagship reforçar determinados aspectos subjacentes à marca (como a “carioquice” e o “amor pela natureza”); por outro lado é sabido que a C&A, a despeito de grandes esforços em marketing para se aproximar do estilo fast fashion (à la Topshop e Zara), é uma marca tradicionalmente voltada às classes B e C. Como conseguir transformar sua identidade por meio de uma loja (em um dos redutos mais elitizados de São Paulo)? Pode um carro-chefe andar na contra-mão? Fica a pergunta.

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