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Balanço do Oscar

 

E o Oscar foi para O Discurso do Rei. O filme, sobre o Rei George VI e sua luta contra a falta de confiança para ser rei e para falar, conta com as atuações da trinca de atores (Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter) como os pontos mais altos.

O filme não inova – seja na forma, ou nos “dilemas existenciais” retratados – mas conquista o espectador pela simpatia e humanidade com que as personagens expõem seus problemas e lidam com eles. No entanto, sobra pouco para além de um filme tocante – quase fofo – e de atuações memoráveis; o enredo é bom, mas limitado e previsível; a direção (que também ganhou o Oscar) é correta – especialmente quanto à condução dos atores – mas absolutamente tradicional – diferente , por exemplo, de Cisne Negro e A Rede Social .

Dessa forma, a despeito de o filme que “mais toca o coração” ter ganhado o principal prêmio da noite, a impressão que ficou da safra 2010, no entanto, foi de que, em todos os indicados ao prêmio de melhor filme, sobrou esforço, mas faltou substância.

Em Cisne Negro, o excesso prejudica a essência. Assim, como em Réquiem Para um Sonho, do mesmo diretor, Daren Aronofsky, a estratégia de arrebatar o espectador por meio de cenas fortes e raramente sutis causa, decerto, uma sensação de estupefação – é difícil não assistir a esses filmes sem sair da sessão com a impressão, quase física, de que um caminhão passou por cima de nossos corpos –; mas isso faz de um filme um grande filme? Há quem acredite que sim. Para outros, passado o torpor imediato, sobra apenas certa ressaca e a decepção de não se saber ao certo o que aconteceu enquanto a overdose pictórica os enebriava.

A Rede Social é inovador na medida em que integra a linguagem e o formato do filme ao próprio conteúdo tratado: a rapidez com que as coisas se multiplicam e se complicam no meio digital.

Mais uma vez, contudo, para além do atordoamento causado pelo frenesi de diálogos complicados, o conteúdo – que potencialmente seria capaz de trazer uma crítica feroz à sociedade contemporânea – é ralo, se resumindo tão somente à intriga dos bastidores da criação do Facebook.

127 Horas, por sua vez, é original por ser um filme “de aventura” protagonizado por um herói preso entre uma pedra e um cânion. O que poderia ser monótono se torna imprevisível pela variedade de intervenções: sejam “mini videoclips” de momentos reais de imaginários, ou o desenrolar da própria situação em si.

No entanto, apesar de uma atuação assustadoramente crível de James Franco, também fica aquém do que poderia ser, na medida em que a personagem em si não é explorada em todo seu potencial – não há crises existenciais, não há dúvidas, não há momentos de fraqueza…

O Vencedor é um típico filme americano acima da média. Americano não apenas por retratar a mentalidade típica do homem médio dali: uma certa passividade na forma de se lidar com a vida, ao mesmo tempo em que se crê no American dream de se tornar alguém “famoso” – mais especificamente, o sonho de toda uma família projetado no único filho promissor –; mas também por não dissociar drama de entretenimento (a grandiosidade das lutas; todo sangue, suor e lágrimas).

É acima da média porque trata de algo trivial como sexo, drogas e esporte de maneira mais complexa e profunda do que a princípio se esperaria, transferindo para a família americana o peso do fracasso de certos filhos promissores.

Bravura Indômita é um típico filme dos Irmãos Coen, o que, por si, já garante certa originalidade. No enredo, em que uma garota de 14 anos contrata um matador de aluguel para vingar a morte do pai, dilemas morais inexistem, e talvez justamente por isso, sentimentos humanos – os mais contraditórios – aflorem sem nenhum pudor. Dentre todos, talvez seja o mais contido; apesar das personagens caricatas, não há ali nada mais do que deveria haver. Por isso, em linha com aquilo a que se propõe, não é revolucionário nem grandioso, mas é um bom filme.

Enfim, todos os filmes são bons, têm grandes momentos e valem, sim, a pena. Nenhum, contudo, é excepcional.

Assim, que venha 2011.

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Aridez no peito

A versão dos irmãos Coen de Bravura Indômita (True Grit) não se baseou em uma história em quadrinhos. Se, contudo, eu nada soubesse e alguém me dissesse que foi, acreditaria.

Com personagens caricatas e situações as mais pitorescas (como uma sessão de tiro ao alvo com broas de fubá, e cobras cascavéis saindo de um cadáver ao fundo de uma caverna…), a adaptação dos Coen ao livro homônimo de Charles Portis, escrito em 1968 (já adaptado às telas em 1969, e publicado recentemente em português pela editora Alfaguara Brasil) é tão viva e repleta de imagens marcantes, que é antes uma graphic novel que um western.

Como no livro, o filme é narrado em primeira pessoa por Mattie Ross (Hailee Steinfeld), uma garota resoluta de 14 anos que, após a morte do pai, resolve contratar Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um caçador de recompensas (vulgo matador de aluguel), para encontrar e prender o assassino.

Na visão dos Coen, a garota é assustadoramente adulta e séria –uma advogadazinha em miniatura – e em tudo contrasta com o rabugento e beberrão Cogburn. Contrasta também com La Boeuf (Matt Damon), um Texas Ranger engomadinho que cruza e descruza o caminho dos dois, na perseguição pelo mesmo alvo: Tom Chaney.

A tese de que o filme poderia facilmente ter saído dos quadrinhos, no entanto, esbarra na falta de mocinhos e vilões; na fronteira nebulosa entre heróis e bandidos.

Não há ali qualquer impedimento ético ou moral na busca pelo objetivo – seja dinheiro, ou vingança – e corpos pelo caminho são meros efeitos colaterais.

Por outro lado, em jogo há também honra, lealdade; há preocupação com o próximo – desde que lute pela mesma causa – e até, de vez em quando, algo que poderia ser o gérmen do que normalmente se chama de carinho.

Não há, assim, homens bons e homens maus; há seres humanos com instintos e necessidades. Estes, diante da aridez do deserto e da falta de um tostão no bolso, perdem o refinamento e o verniz dos bons modos, mas mantêm no peito corações inflamados – ainda que ligeiramente secos.

 

(Bravura Indômita, True Grit, de Joel David Coen e Ethan Jesse Coen)

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Superbowl hollywoodiano

Há um quê de superlativo nos filmes indicados ao Oscar deste ano – como a plasticidade e dramaticidade, por vezes excessiva, de Cisne Negro; aceleração de A Rede Social; ou a aflição de 127 Horas.

É como se a regra (só desses filmes?) fosse expor tudo com um certo didatismo exagerado, sem sutilezas. Se algo há de ser mostrado, que seja em um tom a mais, para que ninguém saia da sessão sem a certeza de ter captado “a mensagem” – que dificilmente foge de clichês.

A mensagem de O Vencedor (The Fighter) é clara: um rapaz, para conseguir “vencer na vida”, deve se livrar das amarras daqueles que o amam e, ao mesmo tempo, o sufocam.

Mais especificamente, o filme conta a história (real) do asfaltador de ruas e aspirante a lutador de boxe Micky Ward (Mark Wahlberg), cujas maiores crenças são, primeiro, que toda sua técnica e estratégia da luta decorrem do aprendizado passado por seu irmão, Dicky Ecklund (Christian Bale, ótimo); segundo, que não ele próprio, mas sua família, em especial sua mãe e o irmão, por o amarem tanto, devem tomar as decisões por sua conta.

Opinar em sua própria vida e discordar do que entendem ser melhor seria, portanto, uma traição àqueles que “tudo fizeram por ele”.

Ocorre que o irmão já não é mais o ágil e promissor lutador de outrora – cuja fama se resumiu a uma grande luta – mas um viciado em crack completamente fora da realidade.

A mãe, por sua vez – a quem Micky chama pelo nome, Alice – parece se preocupar com ele tão somente porque é irmão de Dicky, o filho preferido que, a seus olhos, permanece glorioso e não possui qualquer defeito (há uma ótima cena em que ela vai buscar Dicky na espelunca em que ele se droga diariamente e, no carro, aos prantos, ao invés de enxergar a situação em que aquele se encontra, sucumbe às desculpas esfarrapadas do filho, liga o motor do carro e começa a cantar junto com ele: “the joke was me…”).

É apenas com a chegada de Charlene (Amy Adams), que logo se torna namorada de Micky, que este parece enxergar que, para aquém do objeto de preocupação da família, é tão somente um executor dos planos alheios – outra boa cena: Micky, com o rosto todo cheio de curativos depois de uma luta, arranjada pela mãe, com um lutador 9kg mais forte que ele, ouve Charlene dizer, enquanto toca sua face “this is taking care of you?”.

No entanto, além do drama familiar manjado, O Lutador envereda também por um caminho mais “esportivo”, dando espaço a longas cenas de luta e grandiloqüência digna de um Superbowl. Assim, por instantes, sentimo-nos torcedores e, da mesma forma que um atleta fraco ganha a simpatia – ou comiseração – do espectador, Micky Ward – e também Dicky – nos prendem a atenção.

A luta é, de fato, boa. Quanto ao filme, há controvérsias.

(O Vencedor, The Fighter, de David O. Russel)

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Uma pedra no caminho

There must be some fucking chemical (chemical in your brain) that makes us different from animals (makes us all the same)”.

Este é o “prólogo musical” de 127 Horas (127 Hours) e a tônica do filme até o final.

Como na música, o que está em jogo é o equilíbrio entre dar vazão a viscerais instintos de sobrevivência e, ao mesmo tempo, lançar mão da racionalidade mais fria e calculista que o ser humano pode ter.

127 Horas se inicia com um frenesi pictórico semelhante àquela profusão de takes de tons quentes de Quem Quer Ser Um Milionário? – do mesmo diretor, Danny Boyle. As cores terrosas e avermelhadas permanecem; o turbilhão de imagens e pessoas retratadas, contudo, cessa no instante em que Aron Rolston (James Franco, espetacular) se vê sozinho, preso em um cânion de Utah, com sua mão “between a rock and a hard place”, como o título do livro que deu origem ao filme.

Curiosamente, ainda que três quartos deste se dê em uma situação praticamente estática, de clausura agonizante, 127 Horas poderia ser rotulado como filme de ação; há, ao longo dos 90 minutos de projeção, a luta incessante – e física – pela sobrevivência. (Há ação justamente na batalha contra a iminência da desistência e da insanidade causada pela impotência para o movimento.)

Neste mesmo período, há também uma carga dramática e sentimental bastante intensa, na medida em que Aron, incerto de que sobreviveria, passa a relembrar – em flashes que servem como respiros à claustrofobia – momentos e pessoas marcantes em sua vida.

A fim de manter a sensatez – “don’t lose it, Aron. DO NOT LOSE IT, ARON” diz a si mesmo – grava declarações, relatos e piadinhas em sua câmera e esta acaba sendo – como a bola Wilson, em O Náufrago – seu ponto de conexão com a realidade e a lucidez. Em determinado momento, diz: “esta pedra esteve me esperando por toda a minha vida” e, assim, encara a pavorosa situação como uma provação a mais; um chamado a repensar e questionar o que viveu até então, para que consiga viver melhor dali pra frente (seja pelo tempo que for).

Se comparado aos outros filmes concorrentes ao Oscar deste ano, 127 Horas não é o mais grandioso e é possível que não seja o melhor; mas, sem dúvida, em um tempo de mesmice, previsibilidade e fórmulas prontas, é o mais inusitado e original. É um filme que foge às regras, que vai além, e, só por isso, – e pela atuação de Franco – já vale (muito) a pena.

(127 Horas, 127 Hours, de Danny Boyle)

 

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Encontrando a própria voz

 

E se o rei, ainda que não esteja nu, tiver vergonha de si? Como falar a uma nação, conclamando o povo a ser forte diante da guerra declarada, se quem lhes dirige a palavra teme a própria voz?

“Eu não sou um rei”, chora George VI (Colin Firth, excelente) nos braços de sua mulher (Helena Bonham Carter, cujos olhos grandes expressam mais que qualquer palavra); afinal, como alguém gago poderia ser ouvido, respeitado?

Mal sabe ele que, ainda que trôpega, a voz está lá. Que aquilo que pensa – receosamente, mas com tanta lucidez – só precisa de um empurrão para ser expresso ao mundo.

Tal empurrão, longe de vir de técnicas mirabolantes, vem de Lionel Logue (Geoffrey Rush, em uma atuação esplêndida; contida, sem deixar de transbordar um rio de emoção), um sujeito comum, “peculiar”, que coloca a mão sobre seu ombro e lhe assegura que ele pode sim; vem de um amigo.

Assim, O Discurso do Rei (The King’s Speech) não é apenas sobre um homem que, diante de circunstâncias alheias a sua vontade, torna-se rei e, ainda que gago, é obrigado discursar em um dos momentos mais cruciais da história recente do Reino Unido – a deflagração da Segunda Guerra Mundial –; mas, acima de tudo, é a procura de um indivíduo por sua própria voz. É a luta para se transpor a barreira entre tudo que bravamente pensa, e a coragem de falar.

É comovente por ser profundamente humano; e é lindo.

 

(O Discurso do Rei, The King’s Speech, de Tom Hooper.)

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