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Coincidências e confidências

Este feriado me proporcionou estranhas, mas deliciosas, coincidências.

Primeiro, ainda entorpecida pelo baque de alegria que o álbum de Marcelo Jeneci me causou, acordei, domingo, com a deliciosa surpresa de receber um comentário dele próprio, Jeneci, ao meu post.

A felicidade de saber que minhas palavras chegaram ao autor das palavras que me fizeram escrever o post foi imensa; suficiente para me trazer certo sossego naquele dia.

No dia seguinte, porém, acordei com saracutico, querendo desesperadamente encontrar um livro bom, mas “ensolarado”, para me fazer companhia na praia. Não encontrava de jeito nenhum.

Foi então que, mais uma vez, a tecnologia veio ao encontro dos meus pensamentos e o Santo Kindle me sugeriu um livro que havia ficado na minha lista de “para ler” há tempos: Juliet, Naked, de Nick Hornby.

Confesso que li a resenha na diagonal, mas quando vi as palavras “roqueiro fracassado”, já me dei por satisfeita e pensei cá com meus botões: “adoro Nick Hornby; seus livros (como Fever Pitch, High Fidelity, etc.) são inteligentes, engraçados e compatíveis com o verão…”. Pronto, baixei.

Qual não foi minha surpresa quando me dei conta que a história do livro era a de uma mulher que, ao ouvir um novo CD de um antigo rock star, resolve escrever um post em um blog (do seu então namorado) e, tcharã-rã-rã!, o músico lê o post e escreve de volta para ela!

Tudo bem que a história vai um pouco além disso: Annie, insatisfeita com seu relacionamento com Duncan – um fã incondicional e estudioso do ex-rock star Tucker Crowe – resolve escrever um post para contrariar a veemente opinião daquele de que o recém “vazado” demo de Tucker Crowe, Juliet, Naked, era melhor do que o anterior, Juliet (“clothed”).

Ocorre que, não apenas Duncan se sente pessoalmente atingido pela opinião contrária à dele, como o próprio Tucker lê e concorda com Annie. Sem saber bem por que, manda um email a ela comentando isso.

Esta, em um primeiro momento, desacredita e apenas responde: “é você mesmo?” (também me fiz a mesma pergunta…) mas, superada a desconfiança inicial, envereda em uma divertida troca de mensagens com aquela que era a última pessoa com quem imaginaria conversar, mas que, descobre, é a única que a entende.

 

Adianto que não estou trocando confidências com Jeneci, mas confesso que a perspectiva trazida pela coincidência não me desagradou…

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na fila

Outro dia, estava na fila do Belas Artes, ainda incerta sobre ter, ou não, feito a escolha correta naquela tarde, quando ouvi duas mulheres à minha frente, que dividiam um saco de pipoca, dizerem entre mastigadas:

“você sabe por que a palavra esperança é ruim?”

estiquei as orelhas

“porque é no futuro”.

A outra pegou três pipocas, uma seguida da outra, e, enfim, concordou: “sim…esperança não é no presente…há a espera na própria palavra”.

Uau.

Filas de cinema são imprevisíveis, isso já sabia…mas daí a ser o palco de discussões etimológicas há um grande passo.

Foi minha primeira vez.

Elas continuaram a falar – agora sobre os diferentes elementos do horóscopo chinês – mas ali já havia me perdido. Perdida entre a espera para abrirem as portas da sessão, a espera pela resposta de alguém que naquele momento me faltava e a esperança de que toda a demora se encerraria em algum lugar não muito longe do futuro.

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Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta / E lastimava, ignorante, a falta. / Hoje não a lastimo

(Carlos Drummond de Andrade, “Ausência”)

As palavras de Drummond, acima, reverberam uma angústia que tenho há tempos. Uma contradição lógica tão banal, quanto inexplicável: quando sentimos falta de alguém, é a ausência que dói. Mas, se a ausência é a “não presença”, como é possível sentir o que não há? Como algo que falta – e não algo que existe – faz doer?

A explicação vem em seguida, no mesmo poema: “Não há falta na ausência / Ausência é um estar em mim / E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços / Que (…) ninguém a rouba mais de mim.

E, voilà, tudo se explica. O fato de a ausência ser o oposto da presença, não a torna oca, mas, o contrário: aquele que não está mais ali deixa algo, ao sair. Algo que denota o “não estar” – como uma assombração – mas que também carrega, em si, o que preenche o vazio da “não presença” de alguém. E esse conteúdo, que leva junto as lembranças – estas que têm o peso do mundo – é a saudade, que só quem sente é o que fica.

Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

Ausência é um estar em mim.

E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços

Que rio e danço e invento exclamações alegres.

Porque a ausência, esta ausência assimilada,

Ninguém a rouba mais de mim.

(Carlos Drummond de Andrade, Rio, 24/03/1982)

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Coisas do amor

Durante alguns anos da minha adolescência, minha “bíblia” foi Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes – livro que ganhei de uma queridíssima amiga aos 16 anos. Foi com ele nos braços que dormi várias noites e, até muito pouco tempo, era em meu criado-mudo que morava.

A obra é organizada como um dicionário de verbetes, os quais, refletindo expressões típicas do discurso amoroso, servem de “prólogo” para dissecar diversas situações enfrentadas por quem ama – e os sentimentos correspondentes. Para tanto, a fim de suscitar que o leitor pense profundamente sobre conteúdo e forma do amor, dialoga com outras linguagens como a filosofia, psicanálise e a religião.

Não tenho a menor pretensão – muito menos a capacidade – de discorrer sobre a importância de Fragmentos para a literatura moderna (o livro foi publicado em 1977) nem sobre a influência de Roland Barthes nos estudos da filosofia, lingüística e semiologia; tampouco quero entrar na discussão que ele propôs sobre o fim, ou não, do verso; a morte, ou não, do autor… apenas quero dizer – e isso digo com propriedade – que trechos daquele meu exemplar surrado e rabiscado em muito ajudaram uma garota irremediavelmente romântica a reconhecer em palavras o que parece impossível de se verbalizar. Ainda hoje, vários desses verbetes continuam pipocando em minha mente com freqüência…

Lembrei-me de um quando chorei sem parar durante todo o show de uma das minhas bandas preferidas, ou quando derramei outras tantas lágrimas sobre um texto lindo que uma pessoa muito especial me escreveu. Não era um choro sofrido – eu tentei explicar… – mas, como me ensinou Barthes, um “Elogio das Lágrimas”.

Em outra ocasião, enquanto olhava fixamente para meu Blackberry, torcendo para que isso fizesse a luzinha vermelha piscar – anunciando a mensagem pela qual esperava há dias – lembrei de outro verbete, “A Espera”: “Pois a angústia da espera, na sua pureza, exige que eu permaneça sentado numa poltrona ao pé do telefone, sem fazer nada”.

Nessas ocasiões em que as tais “coisas do amor” batem em mim, lembro-me de Barthes e sinto-me melhor porque percebo que certas experiências são universais e que, naquele exato momento, alguma outra pessoa, em algum outro lugar,  também deve estar se sentindo exatamente assim.

(Fragmentos de um discurso amoroso, Roland Barthes, 1977)

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Ao leitor, com carinho

Lançamentos de livros são eventos peculiares. Lá estão o autor, as pilhas de sua nova obra e pessoas as mais diversas. Familiares, mesmo aqueles que jamais lerão a obra, sempre comparecem. Dependendo do local do evento, curiosos e interessados em canapés chochos – mas grátis – marcam também presença. De acordo com a circunstância (como escritores celebridade, ou personagens vampiras), fãs também podem surgir.

E todos ali se reúnem para prestigiar o autor, sua obra, mas, ouso dizer que, principalmente, para levar para casa uma dedicatória.

É intrigante o fascínio que uma dedicatória causa… Uma explicação simples seria que esta se assemelha ao autógrafo de uma pessoa que se admira – ou que é conhecida por todos – e, assim, seria como um souvenir trazido da última viagem; algo que atesta: “encontrei Fulano” (como um cartão postal diz: “estive aqui”).

Mas, em relação à dedicatória, a mim parece que há algo além… talvez seja a esperança de que aquela dedicatória seja uma prova de intimidade entre leitor e autor – o que raramente existe. De que, abstraindo-se a obra lançada, o papel e a caneta à frente do escritor sejam arma e munição para uma declaração de amor (“amor” em seu sentido mais simples, que é o de se importar com o outro, de lhe querer bem e precisar que a recíproca seja verdadeira. É o oposto do descaso, da indiferença).

 Daí porque, em grande parte dos lançamentos de livros, o que sucede a dedicatória é a frustração, a quebra das expectativas – ou do coração (“a heartbreak”). Quem compra um livro e o entrega ao autor espera que, ao ser devolvido, com sua respectiva dedicatória, o objeto se torne o que une o escritor ao leitor. Deseja que seja um bilhete pessoal, elaborado com dedicação, carregado de significado; uma piada interna; uma palavra de carinho…

 Mas, outra vez, quanta injustiça! Os “dedicatários” esquecem-se que aqueles rabiscos na página de rosto não carregam a função de ter algo a dizer…têm somente um objetivo prático: um endereçamento. “À/Ao X, dedico Y”.

 Assim, sendo alguém que já suplicou por carinho em tantos lançamentos – e sempre se frustrou – sugiro que, diante de uma dedicatória decepcionante, os leitores leiam o livro e procurem o amor ali dentro. Se não encontrarem, tanto melhor; que isso lhes obrigue a olhar aqui fora.

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