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O Homem e o Mar

 

Por que gosto tanto de surfar?

É que, no surf, sou apenas eu; humildemente entregue ao mar. Insignificante diante da natureza e do mundo – e ao mesmo tempo parte de ambos.

Poucas vezes vi melhor tradução para essa sensação do que as fotos de Hengki Koentjoro. Estão ali algumas das mais expressivas e emocionantes que já vi. É algo sublime, mágico, inexplicável.

É o homem na imensidão do mundo. É o que de mais próximo do surf posso ter neste momento, diante deste computador.

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Pink Punk Surf

Uma certa nostalgia paira sobre a cena indie nos últimos tempos. É curioso como a mesma estética que se vê na profusão de fotos com efeitos retrô (que com programinhas mágicos como Hipstamatic, Instagram e afins se tornam ainda mais acessíveis) parece estar contaminando – no melhor dos sentidos – também o som.

Saudades do tempo que não se viveu, especialmente os anos 60 e 70, parece ser a palavra de ordem de certas bandas. Desta vez, contudo, se trata menos de um revival psicodélico de Woodstock, do que do resgate do clima praiano das antigas – com Beach Boys como uma das mais fortes influências – como se diretamente extraído do clássico surfístico Endless Summer (como amo este filme…).

Mas falemos aqui de uma representante em especial desse time (composto também por nomes como Wavves e Beach House): a americana Best Coast.

Gostar de Best Coast é fácil. Explicar o porquê, não.

O último disco da banda, Crazy for You, tem letras quase simplórias – que poderiam facilmente ter sido retiradas do diário de uma garota de 16 anos (“I wish he was my boyfriend, I’d love him to the very end but instead he’s just a friend”) –, as músicas raramente têm mais que três acordes e, ouvindo o álbum em uma tacada só, parece que a mesma faixa está no repeat.

Ainda assim, inexplicavelmente, é apaixonante.

Talvez seja o fato de a voz de Bethany Cosentino ser estranhamente hipnótica, como um mantra (como disse Pitchfork) que desvia nossa atenção para outra dimensão – dimensão esta onde letras ruins não são uma preocupação. Pode ser que justamente a falta de complexidade e a repetição de versos bobos façam as faixas chegarem a nós como ondas que nos levam a um certo transe – como em “Summer Mood”, ou a linda “I Want You”.

Talvez seja a franqueza de quem confessa odiar dormir sem seu mocinho (“When I’m With You”) que, aliada a uma voz abafada e sofrida, traga ares de intimidade; temos compaixão por essa pobre garota.

Mas não temos pena: esta mesma voz pode ser também forte e bradada com intensidade e “marrentice” semelhante à que se vê em Cherie Currie, do Runawayscomo em “Goodbye”. As duas bandas, aliás, podem ser aproximadas à medida que, em ambas – cada qual a seu tom, mais (ou menos) pop – há garotas descontando sua raiva nos microfones, acompanhadas por batidas realmente simples. Além disso, como bons punks, têm em comum a crença de que dois minutos são mais que suficientes para se passar uma mensagem.

Seja qual for a razão, o fato é que, se nos deixarmos levar pelo som da banda – como nos deixamos levar pelo balanço do mar – o álbum soará tão familiar como a confissão de uma grande amiga; amiga que admiramos incondicionalmente, apesar de todos seus defeitos.

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