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The Show

Sabe quando o céu está bem nublado, mas, por alguns instantes, raios de sol escapam das nuvens mais nítidos do que nunca, como feixes de luz de holofotes? Sempre achei isso uma coisa meio divina.

E foram luzes como estas que, em meio à escuridão, iluminaram Matt Berninger na primeira música do show de ontem, “Runaway“. Um bom presságio? Talvez.

Falar que o show do The National foi um dos melhores shows a que já fui na vida diz pouco a quem não estava lá. Porém, tenho certeza, aos que estiveram, diz tudo.

Certa vez, ouvi que um crítico descobriu o sentido da palavra “sofisticado” ao ver a apresentação de certo jazzista. Pois bem, ele não viu The National.

Matt Berninger, tímido de tudo, é capaz de cativar a platéia sem fazer nenhuma gracinha; sem gestos mirabolantes, ou atitude rock’n’roll. Ele, impecavelmente bem vestido, inteiro de alfaiataria preta, simplesmente empunha o microfone e canta maravilhosamente bem letras maravilhosamente bem escritas – que beiram a poesia. E isso é o bastante.

É incrível, aliás, como a banda consegue transformar uma apresentação de rock em algo tão intimista. Mal se ouviam conversas na platéia. É como se cada um ali sentisse que Matt, os guitarristas e irmãos Aaron e Bryce Dessner, e o resto da entrosadíssima banda estivessem na sala de sua própria casa, cantando só para ele.

No repertório, faixas dos três últimos álbuns, com destaque para mais recente – e excelente – High Violet (2010). Teve também sucessos dos discos anteriores, como “Mistaken for Strangers“, “Apartment Story” e “Fake Empire“, do também ótimo Boxer (de 2007); “Secret Meeting” e “Abel”, de Alligator (de 2005)

Quando, após quase duas horas, o show parecia ter terminado e todos já se davam por satisfeitos, veio o bis de um jeito que ninguém esperava.

Primeiro, Matt resolveu se soltar. Fez piadinhas (“vocês são muito mais barulhentos que os americanos. Estamos nos sentindo o Kings of Leon”), desceu junto à galera, foi carinhosamente abraçado – sem parar de cantar nenhum verso de “Mr. November”, diga-se de passagem – voltou ao palco, cantou baladas e porradas e, depois de uma versão apoteótica de “Terrible Love“, seguida de “About Today”, deu sua cartada final: pediu, por favor, silêncio da platéia. Se encaminhou, junto à sua excelente banda, à beira do palco. Deixou o microfone de lado, enquanto os outros músicos desplugavam seus instrumentos. De repente, acompanhado pela banda a seco, com tudo desligado, começou a cantar à capela “Vanderlyle Crybaby Geeks“. Na platéia, duvido que tenha sobrado um só fio de cabelo sem se arrepiar.

Se o início do show já anunciava um quê de magia, o final foi o milagre.

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The National

O prazer, nesta terça-feira, vem em dobro. Primeiro, porque a melhor banda de rock alternativo contemporânea (sim, a melhor) se apresentará em São Paulo. Segundo, porque, para falar sobre ela, temos a honra de publicar um belo post de um querido e talentoso convidado, Gabriel Garcia (do ótimo Piper Cub Club), feito especialmente para o re.verb.

Muitíssimo obrigada, Garcia… mesmo. E volte sempre!

“Você chegou numa hora da vida que não dá mais pra fugir de certas coisas. Existem pessoas que dependem de você. Erros foram cometidos, os arrependimentos se acumulam como a pilha dos pratos pra lavar na cozinha. Não há mais como voltar atrás. Mas você tem que seguir em frente. Porque, no fim das contas, as coisas sempre voltam ao seu lugar.

Matt Berninger poderia ser eu, você ou seu vizinho. Aliás, qualquer integrante da banda dele, o The National, poderia ganhar uma eleição do “sujeito mais comum do mundo”. Nenhum deles é famoso, se envolveu com drogas, namora a Kate Moss ou xingou o ultimo disco do Radiohead.

A banda tem uma história muito comum também. Banda batalhadora, de bons discos e turnês com centenas de datas, faz sucesso depois de anos de carreira. O som é o rock alternativo americano básico, cheio de reverência à Bruce Springsteen e ao R.E.M. As letras são sobre pessoas comuns convivendo com problemas comuns, com uma honestidade e (por que não) crueldade difícil de encontrar na sua bandinha preferida. Não é fácil de ouvir.

Por isso mesmo, quem gosta do The National gosta de verdade. Matt Berninger canta, com sua voz de barítono, aquilo que você iria cantar se tivesse uma banda (a não ser que semana passada você tenha tido duas overdoses de cocaína ou esteja cansado da vida de estrela da música). Letras sobre dívidas, filhos, bebida, problemas no relacionamento. É chato, eu sei. Mas é sua vida.

Os discos da banda são aquilo que chamam em inglês de “a grower”. Não consigo imaginar nenhuma expressão em português equivalente, pois é isso que a música do The National faz: eles crescem com o tempo. É impossível gostar deles na primeira ouvida. Não existe nenhum apelo pop, ou alguma música que te ganha logo de cara. Eles te vencem pelos detalhes.

E há cinco discos eles vêm vencendo. Desde “The National”, de 2002, até “High Violet”, de 2010, a qualidade dos discos só melhora. E os shows são ainda melhores. A banda, absolutamente entrosada, é a moldura perfeita para o fantástico vocalista que é Matt Berninger, que entra em estado de graça durante as apresentações, sempre com seu copo de vinho branco como companhia (segundo Berninger, é o único jeito de ele encarar a platéia).

Felizmente, nesta semana o Brasil poderá acompanhar a banda nessa volta olímpica de duzentas datas que vem sendo a turnê de High Violet. Nada mais merecido para uma banda que finalmente venceu depois de anos perdendo.

Em “Runaway“, do último disco da banda, Berninger canta  “We don’t bleed when we don’t fight / Go ahead, go ahead / Throw your arms in the air tonight”. Nessa vida é preciso sangrar muito pra seguir em frente. O importante é você se jogar, ir pra cima. Você pode até cair, mas pelo menos você lutou. Só assim a vida vale a pena.

É isso que o The National vem nos ensinar aqui em São Paulo.”

(por Gabriel Garcia)

Sem mais.

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