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Até a gente cresce

Tenho insistentemente tentado me lembrar de uma música, que não sei qual é – nem de quem – que dizia que quando temos vinte e poucos anos, nos sentimos velhos; até quando temos vinte e alguns anos e rimos daqueles tempos.

Seja qual for a letra, o que importa é que a mensagem é doloridamente verdadeira – e inevitável. Quando recém saídos da faculdade, de uma hora para outra, sentimos o peso do tempo passar. Depois, passado o choque, com vinte e poucos anos e alguns mais, percebemos que a vida adulta não é tão ruim; que tem seus prós: não se sentir culpado em ficar em casa numa noite de sexta-feira, gostar de ler jornal, beber vinho…

Em resumo, pode ser bacana crescer. E é esta a sensação que temos ao ouvir o segundo álbum do The Vaccines, Come of Age, lançado em setembro deste ano.

A banda, velha conhecida do re.verb, surgiu como uma sensação do rock alternativo; mais precisamente, como o novo The Strokes. Exageros à parte – e relevando o cano histórico que a banda deu nos fãs brasileiros, em 2011 – o que importa é que esses ingleses voltaram, mais crescidos, e em ótima forma.

Seu novo álbum é mais maduro, menos ansioso. Se, em 2011 (com o aclamado What did you expect from the Vaccines?), a tônica era a marrentice juvenil aliada à agonia do passar do tempo (a clássica “Wetsuit” dizia: “If at some poit we all succumb, for goodness sake let us be young, because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done; with a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories, we all got old at breakneck speed, slow it down, go easy on me…”), agora, o que se sente é que a perspectiva de envelhecer ainda perturba muito (só a eles?), mas há nela a aceitação do inexorável, como em “No Hope”, a faixa – concorrente a hino da juventude – que abre o disco: “(…) ‘cause when you’re young and bored at 24 and you don’t know who you are no more, there is no hope (…) and it’s hard to come of age, I think it’s a problem (….) and I hope it’s just a phase, well, I’ll grow”.

Porém, assimilado o susto (e ainda que com algumas recaídas pueris, como em “Teenage Icon”), o que se vê é a consciência de que a adolescência deu lugar à consciência de problemas ainda maiores – desculpa, não quero parecer excessivamente pessimista, mas assino embaixo…

Em uma das faixas mais bonitas, “I Always Knew”, se fala de paciência, um dos elementos mais importantes da vida adulta: “(…) I’m hanging on to what I don’t know, so let’s go to bed before you say something real, let’s go to bed before you say how you feel ‘cause it’s you, it’s always you, I always knew”.

Na mesma toada, em “Aftershave Ocean”, com plena maturidade, se assume que a pessoa amada é idolatrada, ainda que se saiba que não deveria ser assim: “but you are pulling the world over, wouldn’t you rather know that I am overindulging you, it’s so easy though”.

Algumas das faixas seguintes, porém, como “Weirdo” (“I know I’m fucking moody and I know I’m quite unkind, I know I’m kinda of distant, but you’re always on my mind”) e “Bad Mood” (“but I get angrier with age, better to be ready if you rattle my cage”) retomam o tom ranzinza e marrento que só os jovens (e os Vaccines) sabem dar…

Porém, a faixa que fecha o disco, mata a questão: eles – e alguns de seus ouvintes – cresceram e cansaram de botar banca além do necessário; eles – e a gente – querem uma pessoa bacana ao lado – quem sabe um amor antigo, como na música –; e um alívio para este mundo adulto que pode ser tão duro: “I knew where you were, it was perfectly obvious, I was uncomfortable playing it cool and I feel like I have always known you; I can’t recurse and I thought you had questioned it, young in the night when we stare at the rest of it, don’t forget, Lord I know: I will hold you close, ‘cause it is a lonely world, but would you want me too, cause it is a lonely world”.

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O que você esperava?

Fazer aniversário causa diferentes reações nas pessoas: algumas se deprimem, outras caem de cabeça nas comemorações e só percebem que tem x+1 anos quando a ressaca passa, mas, seja como for, em momentos como estes, é difícil não se pegar pensando – ao menos por alguns instantes – na passagem do tempo.

Não, não tenho a menor pretensão de falar sobre Proust e sua busca do tempo perdido, mas uma música em especial, chamada “Wetsuit”, que faz parte de um álbum bacanérrimo lançado mês passado, ficou martelando na minha cabeça nos últimos dias. Ela começa assim:

If at somepoint we all succumb, for goodness sake let us be young,

Because time gets harder to outrun and I’m nobody, I’m not done

With a cool cool breeze and dirty knees, I rest on childhood memories

We all got old at breakneck speed

Slow it down, go easy on me…

A banda em questão é uma das mais hypadas do indie rock atual, considerada o “novo Strokes” por alguns e nome confirmado para o Planeta Terra deste ano: The Vaccines.

Esses quatro londrinos que compõem a formação atual da banda surgiram ainda no ano passado e, como uma avalanche, rapidamente arrastaram multidões e arrebataram fãs e críticos com seu bom e velho rock (há vocais, guitarra, baixo e bateria; nada de barulhinhos esquisitos ou pirotecnias eletrônicas), letras pouco elaboradas, mas tremendamente verdadeiras e, principalmente, uma urgência para se fazer ouvido pelo mundo como há pouco se via – de fato, nesse ponto lembram o Strokes (principalmente na sonoridade – da bateria especialmente – de faixas como “If you Wanna” e “Wolf Pack”).

É como se, com toda sua pulsão juvenil, a única forma de extravasar angústias e mandar um recado ao mundo fosse com o auxílio de amplificadores. Não que os recados carreguem qualquer mensagem revolucionária, mas a forma como são bradados transmitem uma sinceridade difícil de se questionar. The Vaccines pode ser taxado de muitas coisas (pouco inovador, meio tosco, juvenil, quase pop…) mas, definitivamente, não soa fake.

Tamanha a comoção causada pela banda, seu álbum de estréia, lançado quase concomitantemente com Angles, do Strokes, traz já no título uma piadinha interna, uma provocaçãozinha que, de tão petulante fica engraçada: “What Did You Expect from The Vaccines?” – o subtítulo poderia perfeitamente ser: “e aí, vai encarar?”

Pois bem, o que esperava desses caras e o que o disco trouxe? Se alguém (?) esperava algo épico, a decepção deve ter sido grande… porém, se as expectativas eram no sentido de encontrar a mais nova “melhor banda de todos os tempos da última semana”, aí sim; porque “What Did You Expect…” é legal pra caramba.

Por exemplo: uma das faixas mais conhecidas – talvez por ser a mais atrevidinha – se chama “Post Break-up Sex” e fala justamente disso: os conflitos “existenciais” de quem quer esquecer o ex e, para tanto, se ajuda de outra pessoa (“Post break-up sex that helps you forget your ex/ What did you expect from post break up sex?”). Honesto, simples e sem qualquer presunção de profundidade – ainda bem…

E, claro, como não poderia faltar em uma banda surgida atualmente, olha lá o surf rock dos anos sessenta pintando de novo: em “Norgaard”, a faixa de menos de dois minutos que fala sobre a menina que tem apenas 17 anos – e que, provavelmente, ainda não está pronta – tem uma batida nitidamente influenciada por essa onda.

A mesma influência, ainda que presente essencialmente no título, está também na música de que falei acima, “Wetsuit” (a melhor do disco), e também na ótima “Family Friend” (“You wanna get young but you’re just getting older and you had a fun summer but it’s suddenly colder/ If you want a bit of love put your head on my shoulder, It’s cool”), que são desabafos a um só tempo raivosos e melancólicos – daqueles escritos em uma tacada só – que se prestam como uma tentativa de exorcizar aquela sensação perturbadora de que o tempo está passando rápido demais…

The Vaccines é, enfim, uma banda que emana juventude. Nada melhor para acalmar a aquele incômodo que perturba os aniversariantes – só eles?

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