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Fantástico

No primeiro ano da faculdade de direito, em meio a dezenas de jovens ávidos por se passarem por sérios e adultos, lembro-me de um sábio professor dizer: “todo mundo precisa de um pouco de ficção na vida”.

Hoje, não apenas enxergo o real valor dessa frase, como acrescento: todo mundo precisa também de um pouco de fantasia.

Fantasia é aquele quê de mágica, de inexplicável e irracional, que, felizmente, tinge alguns (dos melhores) momentos que alguém pode ter. É aquela coincidência feliz e estranha; uma linda surpresa, impossível de se imaginar; é o que justifica os momentos em que tudo parece bom demais para ser verdade – quando tudo parece um sonho.

E foi justamente esta a sensação captada por Woody Allen em seu novo – e ótimo – filme, “Meia-Noite em Paris” (“Midnight in Paris”).

Ali, Gil (Owen Wilson), um adorável e atordoado escritor – que lembra muito as personagens vividas pelo próprio Allen, em outras obras – se vê inquieto e confuso às vésperas de seu casamento com a linda e insuportável Ignez (Rachel McAdams), em uma das mais fascinantes cidades do mundo, Paris.

Se, para Ignez e sua família, aquela é uma cidade boa para se fazer compras e passar alguns poucos dias de férias, para Gil é o local ideal para se viver; onde se guardam, incrustados em suas vielas e pontes, o auge da riqueza artística e boa parte da efervescência cultural do último século.

E é justamente nesta cidade, onde a diferença de valores entre ambos se torna ainda mais evidente, que, num passe de mágica, à meia-noite, Gil é transportado para o período que mais gostaria de ter vivido – as noites parisienses dos anos 20 – para se defrontar com seus ídolos (o casal Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Miró, Bruñel, etc.) e perceber que, se vivesse na época que considera a mais genial, poderia pertencer àquele círculo – o que, conseqüentemente, o faz enxergar seu valor e sua essência, também no “presente”.

Ainda, o filme retrata a insatisfação (nostalgia?), tão notável nos dias de hoje, de que os momentos contemporâneos são sempre piores do que os anteriores. A boa e velha saudade do que não se viveu é pintada por Allen como algo natural às mentes inquietas – e comum a todas as épocas.

Mais do que isso, o filme propõe que esse sentimento seja encarado de frente (ainda que em devaneios surreais) e assimilado plenamente para que, a partir da compreensão do que de fato se admira na vida de outrora, seja possível lidar com os tempos atuais.

É, enfim, uma das melhores obras de Woody Allen dos últimos tempos; diversão inteligente, que entretém e satisfaz. Vale muito a pena.

(“Meia-Noite em Paris” ,”Midnight in Paris”, de Woody Allen, 2011).

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Potencialmente

Tenho medo quando se diz que algo tem potencial. Isso porque, ao mesmo tempo que “potencialmente” significa uma promessa, pode também dar ensejo a uma grande frustração: a decepção advinda daquilo que se esperou, mas que não se concretizou. Que encruou.

Quando o potencial não se concretiza, resta o sonho, a superstição, a crença.

É esta a tônica de “Você vai conhecer o homem dos seus sonhos“, o mais novo filme de Woody Allen.

Ali, há muitos potenciais sucessos: o escritor que emplacou um primeiro grande livro, a moça de vermelho que tem o noivo dos sonhos, o setentão que resolve enfim aproveitar a vida.

Mas, pouco a pouco, vê-se que ter potencial nada garante; que quanto mais alta a expectativa, maior pode ser a queda.

E quando tudo começa a desandar, resta se apegar à esperança, seja de onde ela venha: uma cartomante, um novo – e inverossímil – amor, uma circunstância aparentemente favorável – mas também circunstancialmente passageira.

Você vai conhecer…” é uma ode às segundas chances, mas também um retrato fiel de como não vale a pena colocar todos os ovos em uma só cesta.

Se estes se espatifam todos, sobra o quê? Decerto, apenas a fé…

(You Will Meet a Tall Dark Stranger, de Woody Allen, 2010)

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